26.6.23

Fender bender

My wake up call

Woke up the shadows inside

The angel drowning in the white noise

A highway to self-destruction

Projections and bright lights

So high we lost the connection


Things shared, best kept under the cover of night

Should have kept our underpants and the lights on

Never looking for understanding

But an excuse to undermine the control

Let the darkness out from under the skin

Before we realize the mess we're in


Freedom was dancing with the walls of our cages

And nothing held us back with the eyes closed

I'm in outer space and you hold me close

I hang onto my shackles to keep ashore

Trying to lose my mind in the moment,

The moment of madness that mesmerized us

A moment of mindfulness could have blinded us


No fear in my eyes until too late

No reason to fear until I realized 

There was no me, there was only you

There was no you, there was only lust

Past the point of no return until we turned to dust

We fell in lust with the mirror

But the mirror showed us only rust


It wasn't about us

(or me) (or even you)


I don't think I can judge at all

Broadcasting the siren call 

Beckoning to the depths of the abyss

Maybe it is just miscommunication

I wasn't given enough information

To give informed consent to the situation

My imagination never hinted I was in


Such deep conversations inside my head

And yet unaware of how deep the consequences 

Would crawl through the nooks and crannies

Craving beautiful poison in open wounds

A lifetime is still too short to heal

Can't say I don't see the appeal

But inside my head it is noisy

And all songs end with us both being dead


An excuse to feel something

Feel alive again flirting with death

And I'm not ready to feel like 

A poor excuse for assisted suicide

Call shotgun on a crash and burn ride

While I'm barely afloat enough to save myself

You made me up as an excuse to hurt yourself

You made me your excuse to be yourself


A goddess and a tamed beast fell in love

But the goddess only wanted to be human

And what the beast missed was being wild.

16.6.23

Garfos

Faz barulho demais aqui dentro

E minha mente já se foi,

Com medo do eterno.


Hoje, ansiei pelo fim;

Mas o inverno nunca chega,

Nem se cala o ruído que ecoa

Nesta casca vazia,

Salitre e zinabre.


Em algum lugar,

Não sei bem onde,

Esqueci como mover os músculos do sorriso.


Esqueci como cheguei aqui

Mas, por todos os lados, há paredes

E nada remove esta farpa

Fingindo, o inseto, ser leão.


Faz barulho demais aqui dentro,

E as luzes da cidade

(e daqueles olhos)

(e das chamas que hão de um dia me consumir)

São tão lindas refletidas

No asfalto úmido de chuva e sangue.


Hoje, senti medo do vazio,

Mas a vida insiste em alcançar meus ouvidos exaustos

E me distrair da morte que habita em mim.

1.11.21

Escolhas

 Todo dia eu me saboto um pouquinho.


Todo dia eu tento, digo para mim mesmo que estou tentando, mas há uma parte de mim que se recusa a tentar e, ultimamente, esta parte tem falado mais alto do que todas as outras.


Todo dia eu me odeio um pouquinho mais por me sabotar. E nem isso me convence a parar de me sabotar.


Todo dia, me olho no espelho e se vou gostar ou não do que vejo é praticamente decidido na moeda. Há dias em que vejo a pessoa mais linda do mundo, em todas as suas facetas, e consigo enxergar todo o seu potencial de performar milagres, de criar tudo à partir do nada, de transformar poeira em diamantes. Mas há dias em que só o fracasso e a frustração me devolvem o olhar inquisitivo, e sinto o peso do julgamento por trás dos olhos, cor de mar sujo e revolto depois da tempestade, as pálpebras inchadas por falta de sono ou excesso de substâncias ou ambos. Nesses dias eu morro mais um pouquinho por dentro.


Todo dia faço uma escolha. E estas escolhas, ultimamente, até que não têm sido tão ruins. Mas a escalada do fundo do poço é longa, e difícil, e minhas unhas se quebram e meus dedos têm calos e há momentos em que escorrego. A cada dois metros que subo, uma queda -- às vezes alguns centímetros, às vezes mais do que consegui subir, por distração ou desânimo -- e assim vamos levando, a menor distância entre o ponto A e B se multiplicando infinitamente, a promessa de luz ao final da escalada me incentivando a não desistir, mas... Meus braços já não têm a força que um dia tiveram, e uma hora canso de me escorar nas paredes cheias de limo nessa subida que às vezes parece tão sem propósito.


O fundo do poço é escuro, frio e úmido, mas oferece uma superfície plana em que deitar e repousar meus músculos cansados.


Hoje fiz uma escolha da qual não me orgulho. Mas ela me abriu caminho para fazer outras escolhas, desatar outros nós, trabalhar em outros aspectos. Talvez hoje eu não tenha conseguido ganhar alguns metros nesta subida, mas pelo menos estou me esforçando para limpar o lodo entre as pedras desta parede, escavar buracos nos rejuntes onde meus pés possam se apoiar melhor. Assim, da próxima vez em que chegar aqui, talvez me seja mais confortável parar para repousar e apreciar o trabalho feito. Talvez, da próxima vez em que eu chegar a este ponto, eu seja capaz de perceber que a subida - ou a queda - está, aos poucos ficando mais fácil.


Todo dia uma escolha. E hoje, e nos últimos dias, venho escolhendo a mim mesmo, e entendendo o peso destas escolhas.


Talvez algum dia o vento volte a tocar meu rosto e eu possa ficar corado sob a luz do sol.


Talvez algum dia eu possa escolher deitar na relva, do lado de fora, onde é quente, luminoso e confortável. E talvez quando esse dia chegar eu possa deixar o conforto da fria escuridão da sabotagem definitivamente pra trás. 

5.4.21

Lobos à minha porta

Hoje eu acordei e decidi que ia me convencer de que não preciso mais de você, custe o que custar. 

Abri os olhos e abracei um gato. Não preciso da sua respiração umedecendo e aquecendo meus cabelos, e há de chegar em breve o dia em que minha cintura não se sentirá nua pela falta dos seus braços ao redor dela.

Dormir está cada dia menos difícil. Talvez chegue o dia em que eu não precise do amparo medicamentoso pra conseguir enfim deslizar para o mundo dos sonhos sem antes desaguar no travesseiro todas as lágrimas que ainda tenho dentro de mim, congeladas.

Fiz café. Coloquei eu mesma uma quantidade muito maior de canela do que deveria -- algum dia vou acertar aquele ponto exato que você coloca instintivamente, mas esse dia não será hoje. Aos poucos, eu aprendo a fazer as coisas do jeito que eu gosto, que você descobriu tão espontaneamente. Hoje consegui não olhar pra sua caneca no armário e, com isso, não senti as rachaduras se espalhando ainda mais veemente e inexoravelmente pelo meu peito.

Pé ante pé, pouco a pouco, as rachaduras vão cicatrizar.

Ontem, senti vontade de me machucar. Ontem, senti muita vontade de chorar, mas não consegui, e não houve filme, jogo, música, droga, que tirasse de mim essa vontade terrível de arranhar minhas faces até abrir um canal pelo qual as lágrimas pudessem fluir livremente.

Mas consegui resistir.

Um dia, pouco a pouco, eu vou conseguir me libertar de você.

E, quando esse dia chegar, vou rir de mim mesma e apreciar o quão ridícula fui por me apegar tanto a alguém que era pra ser só uma distração.

Mas por enquanto, e só por enquanto, vou escrever pra você palavras que você nunca vai ler. Até que eu esgote minhas palavras pra você. Até que eu consiga não mais sentir.

5.11.20

Return to Nowhere

It was not supposed to happen this fast
No second comings and never looking back
I'm not ready and neither are you
Just talk about constellations and gods old and new
Get lost in a sweaty maze, minds a single haze
When dawn breaks, I'll be gone for good

But we couldn't just let go, could we?
We fell in love with the reflections in the mirror
Through the looking glass we wasted our newfound youth
Knowing full well the way back home led to nothing but hard truth
Now Narcissus is drowned, the king is dethroned
And only the past awaits in the desolation that is home

We willfully chose to ignore the ten of swords
But the tower always hung in the background
And now it's time to pick up the shards
and build myself up from the razed ground

This is not the first --
nor will it be the last --
time I have to reinvent myself

This is not the first --
but it will be the last --
time I let you pierce my mortal flesh

Mahogany eyes keep haunting my slumber
But the light of day hits my bed just wrong
The spell is broken, the sigil unspoken
Filled your travel pouch with blessings and longing
Now I'm claiming them back
You're not worthy of the promises heavy around your neck

It's not easy to get back on my feet
And turn my back to this burning pile left behind
Soon the embers will die and the ashes will fly
Like the memory of a dream that was not quite so bright
When this plague dies down, I'll have survived
I refuse to let your hand cast the last strike

And like the gods of old I might succumb for now
But return to die again a thousand times over
Winter always ends and I can't wait to see
The colors of the spring that will bloom inside of me

This is not the first --
nor will it be the last --
time I have to relearn myself

This is not the first --
but it will be the last --
time I burn myself at stake for you

9.1.20

É noite no Rio de Janeiro.

Me dei conta, andando pelas vielas do condomínio, de que escrevi inúmeras cartas de amor, algumas de rancor, para Salvador, cidade que me acolheu e aturou por uma parcela tão grande da minha vida. Contemplei, ainda que nunca tenha tirado a ideia do papel, escrever algumas linhas para a noite lagartense, conforme observada da varanda à qual jamais retornarei. Talvez não tenha sido uma carta de amor, mas sei que escrevi alguns textos ácidos e severamente críticos sobre o panorama geopolítico igarassuense.

Mas nunca escrevi para o Rio.

Talvez o Rio de Janeiro não me motivasse a escrever, em outros tempos, porque não era um local que me gerasse qualquer tipo de incômodo ou sensação nova - pelo contrário, era, talvez, meu estado-base, não no sentido estado-unidade-federativa, mas estado de espírito, mesmo. Eu não sabia escrever sobre o estar carioca porque, intrinsecamente, eu ainda me via como sendo carioca.

Com o tempo, isso mudou.

Mudou porque, com o passar dos anos, acho que me esqueci. Não do Rio, em si, mas de quem eu sou quando estou no Rio. As memórias tão vívidas, lembranças límpidas que eu considerava gravadas no meu corpo e no meu espírito de maneira tão nítida quanto as cicatrizes que a vida se encarregou de me proporcionar, foram se esmaecendo com o tempo. O Rio de Janeiro se tornou meu lugar de memórias afetivas, lembranças nostálgicas, romantização.

A primeira vez que pisei no Rio, depois de 13 anos longe, eu chorei ao ver o primeiro táxi amarelo, antes mesmo de descer do ônibus.

E agora estou aqui, sem vontade nem pressa de ir embora, disposta a meter as caras e correr atrás e ficar. A encarar a crise e a recessão e a falta de emprego e o desalento e tanta, tanta coisa que pode dar errado, simplesmente para voltar para perto das minhas raízes, da família, dos laços indeléveis construídos há tantos anos e enfim fortalecidos, dos novos laços tão estreitos e tão sólidos construídos ao longo destes dois últimos anos.

É noite no Rio de Janeiro, e em pouco menos de um mês já sinto meu instinto voltando a me guiar por estas ruas da zona norte que conheço tão bem, por mais estranho que seja caminhar com meus próprios pés por estas calçadas às quais minha mente retornava quando fechava meus olhos e deixava o pensamento voar. Meus ouvidos, desacostumados, não estranharam tanto o ruído dos tiros - que referencial terrível! - e meu coração, tão plácido, não quis pular da boca ao ver a arma na mão do assaltante.

Aos poucos, o Rio deixa de ser esse lugar imaginário das minhas memórias afetivas e passa a tomar forma, concreta e dolorosa, e torna-se cada vez mais fácil para mim aceitar que, da mesma maneira que eu não sou a mesma Dianna que deixou esta cidade há 16 anos, talvez esta cidade já não seja a mesma que eu deixei para trás em busca de novas paragens.

E talvez finalmente estejamos prontas para o reencontro, por demorado que tenha sido, e para voltarmos a caminhar juntas.

18.7.19

Órion

O céu de chumbo volta a oprimir minha esperança tão adolescente de que a primavera um dia voltará. A natureza, ao que parece, insiste em espelhar o que vai dentro deste receptáculo oco que me habituei a chamar de coração. O vento que sopra pela desolação deste não-lugar é frio e cortante, mas os beijos que este deposita em meu rosto enquanto vago sem rumo certo pelas ruas que aprendi a amar e odiar na mesma proporção chegam a ser tórridos, quando há uma nevasca furiosa e inescapável dentro de mim. Sinto falta do seu toque, panaceia destinada a derreter o inverno que se instalou nas minhas entranhas, e me é doloroso contemplar esse não-futuro da sua ausência que se afigura cada vez mais próximo.

Processo meu raciocínio com uma lentidão excruciante, e talvez por isso eu me pegue, horas, sonhos e mundos depois, repetindo em subvoz tudo o que foi dito e, sobretudo, todo o percebido nas entrelinhas, completando as lacunas das nossas transparências com o que supus ouvir no espaços dos teus raros silêncios. Reviro e repenso ad nauseam cada ideia e as analiso sob todos os ângulos possíveis, numa agonia quase tão acre quanto desesperada e desesperadora de dar sentido ao que não faz sentido algum e criar algum arremedo de ordem no meio do caos. Em parte, aconchego; de resto, solidão.

Ferida e lacerada que estou por traumas dos quais me recuso a desapegar, insisto em gritar em versos surdos para as paredes manchadas a familiaridade desagradável da situação. Nada é original - tudo é reprise, e detesto me repetir. Sei que transfiro. Os personagens mudam, o contexto muda, e há diferenças cruciais que me permitem uma nesga de não sei bem se esperança ou expectativa. Me questiono o tempo todo se é sensato. Sei que não é. Nada faz sentido, mas certa vez me disseram que essas coisas não fazem sentido mesmo, que sentimento não obedece lógica e que esse meu hábito de burocratizar minhas relações é meu jeito de me convencer de que não sou digna de afeto.

Talvez não seja.

Sigo convencida de que o mais lógico seria dar por encerrado este conto de fadas tão bonito que comecei a escrever na minha cabeça, antes que as cicatrizes que começam a emergir na epiderme se tornem indeléveis, mas já cometi o grave erro de julgamento de pular da plataforma mais alta sem parar para avaliar se a adrenalina da queda livre compensaria o impacto ao fim da jornada. Agora, o que me resta é aprender a voar, e minhas asas estão por demais atrofiadas por desuso. O céu é chumbo. O fundo da baía, duro e pedregoso. A espuma na superfície das águas em movimento, deste ângulo, parece reluzir em carmesim, augúrio do que me espera quando o felizes-para-sempre falhar em chegar. Por muito tempo lutei para me manter à tona, mas parece que enfim é chegada a hora de, como nos velhos tempos, soçobrar e naufragar.

5.7.19

Ariadna

O eremita ergueu sua lanterna
mas a chama fugídia de pouco serviu
senão para lançar sombras bruxuleantes,
platônicas,
nas paredes deste labirinto.

Presa fácil, cíclica,
do eterno e inescapável retorno:
à vida, aos amores,
aos humores e dissabores.

Quis crer que encontrei a cura
para esta trajetória execrável,
mas Mercúrio está sempre retrógrado
e minha natureza esquiva
é a própria moléstia a me consumir.

Ao final da meada,
nada é passageiro;
tudo é reprise,
tudo é transferência.

4.7.19

serafina

quero voar
e tenho asas
mas há algo invisível
que me ata
e insiste
em embaraçar
os fios do destino.

o céu castanho
também envelheceu.
já se ilumina
animado pelo burburinho
(da vida,
e, por vezes,
da morte)
e sinto que
quebrei algo
sagrado
(em mim)
e o que era orgulho
despedaçou-se.

agora, nada mais ouço
senão a música das florestas
(cinzentas),
o canto das dríades
insistindo em oferecer
unicidade e
clareza.

do alto
o caos parece
tão pequeno,
tão nítido.

daqui de cima,
as estrelas
nunca foram
tão distantes.

14.6.19

Conexão Interrompida

Tragédia anunciada:
Convertida em revelação
Alívio que suaviza os dias difíceis
Preciso de você (longe)

O inesperado:
Flor ceifada em botão
Morte do que renascia das cinzas
Preciso de você (aqui)

Que este ciclo se encerre,
Se enterre,
Se incendeie e incinere.

Aprender,
sem condicionar a outros
o valor que me dou.

Algum dia, encontrarei
o amor
do outro lado do espelho.

(de outro blog, outros tempos, outras dores,
pra me servir de lembrete - sempre válido -
de que tudo tem prazo de validade,
inclusive o luto por um sonho desfeito.)

13.6.19

Pecadilhos

Perversão das promessas pueris:
palavras proferidas na pulsão do presente.
Peço-lhe, impeça-me.

Impeça-me de pular uma parte portentosa
Do passado pujante que nos prende ao compasso do pretexto
Pedidos perdidos na pressa dos apesares
Sem sopesar o poço profundo dos pesares
Tão próprios de nós.

Piedade, peço-lhe. Impeça-me.
Se porventura pusermos um ponto,
punção perigosa, perene, impiedosa,
perderei-me, pesarosa
nas passagens primorosas
de projetos paralelos,
princípios permissivos presentes no apelo.

Preciso permitir-me parar e apreciar
o pêsame da ruptura primordial
para que possa pesar
a pusilanimidade da peça, um punhal.

Pretensões que pedem-me permissão:
Pinçando do pedestal a prova,
plúmbeas as preces,
a presunção pavorosa
do espaço perigoso entre meus pés
e seus passos pesados.

Da ponta porosa
escapa a prosa.
Da plenitude do peito,
por apressado que pareça o pleito,
permito-me padecer.

31.5.19

anamnese

os detalhes da tua voz.
o timbre e o sotaque e a cadência,
até os trejeitos do teu rosto,
teu sorriso tão tímido,
pontilhado de tristeza e sarcasmo
e estrelas.

voltávamos,
como sempre voltamos,
aos mesmos assuntos.

cíclicos.

te pedi um beijo
quase tarde demais
e era cedo demais para partir.

teu sorriso
chegou aos teus olhos, enfim
e o silêncio em mim
explodiu em cores

o gosto da tua boca,
tabaco e saliva e expectativa,
teus dentes. minhas marcas.

familiaridade.

cinderela sem sapatos,
depois da meia-noite
não há luxos,
apenas luxúria.

no banco da praça,
as pernas por cima das tuas,

memórias de tempos
que não vivemos juntos
mas tão vívidos
e tão antigos,
e tão jovens que somos,
e jovem era a noite.

teu sorriso secreto
destrancou algo em mim.
confiei.

o peso do teu abraço
e os passos embriagados
de pouco álcool e muita vontade
de parar o tempo,
tão sagaz e inclemente.

errando pela noite
nas ruas tão conhecidas
e tão estranhas,
tanto tempo.

a textura da tua mão,
do tamanho exato da minha.

tua linha do coração
me disse que um dia
tu ia ser feliz.

meu coração, desalinhado
não encontrou voz para dizer
que te acompanharia.

e agora, finalmente,
é tarde demais.

1.4.19

Auto-biografia II

Durmo pouco,
bebo café demais
e talvez devesse parar de fumar.

Falo palavrão demais,
mas insisto em calar as verdades
que me corroem o esôfago,
ácidas que são
em seu estado bruto.

Não sei sentar de pernas cruzadas que nem mocinha,
e, na verdade, sempre detestei
as coisas de que
(dizem)
eu devia gostar.

Não sei ser moderada nas opiniões,
nos vícios ou nas paixões.

Choro fácil por tudo
(menos pelo que importa)
e demonstro afeto
com garras e safanões.

Por vezes, acho
que vivo minha vida do avesso,
e que do outro lado do espelho
talvez seja tudo mais simples.

Às vezes, sou nada além
da síntese de todas as expectativas
empilhadas e mal-ajambradas
sobre meus ombros tão jovens
e tão exaustos.

Às vezes me convenço de que tenho jeito;
outras,
do fundo do poço de desesperança,
escavado com as setas que me perfuram,
sustentado pelas pedras que me atordoam,
me resigno a ser apenas eu:

errante na vida, errada sempre.

19.2.19

Profissional

O pastel de queijo com suco de acerola já não passava de uma vaga lembrança e eu ainda tinha quarenta minutos pra matar antes de ir para o trabalho, então sentei no murinho baixo do lado de fora do Sumaré e acendi um cigarro. Quando chego mais cedo, gosto de sentar naquele murinho e observar as pessoas - a essa hora da tarde, ninguém passa por ali sem uma missão específica, e tudo é tão agitado e ao mesmo tempo tão firmemente plantado na rotina que chega ser tranquilizador. É quase como se eu fosse invisível...

...exceto que, desta vez, eu não estava invisível. Nem percebi direito quando ele chegou, absorta que estava em observar o ir e vir alheio. De uniforme de trabalho com logotipo de alguma empresa que não reconheci, a camisa verde aberta até o penúltimo botão, um chapeuzinho preto na cabeça, a pele bem escura manchada aqui e ali pelo sol e a roupa coberta de uma mistura de poeira, cimento e manchas velhas de tinta. Só percebi que estava ali quando ouvi o barulho de seus pertences sendo arremessados no canteiro à minha esquerda. Não precisei olhar duas vezes para perceber que o rapaz tinha bebido mais até aquele momento do que eu nas férias inteiras.

Quando ele percebeu que tinha sido percebido, murmurou algo. Achei que fosse "cigarro", e, sem saber se era uma reclamação, uma tentativa de me dar conselhos ou um pedido, desviei os olhos. De canto de olho, no entanto, ainda consegui reparar quando ele começou a mexer na pilha de pertences, parecendo procurar algo.

- Ei, moça!

Olhei para ele por cima dos óculos.

- !#$#$$¨%¨@$#!#$@!@#você quer?

- Perdão, não entendi.

- Eu achei um pacote de hális aqui, você quer?

- Hein? Não, desculpa, estou de boa, mas obrigada.

- Pega aí, ninha.

- Não, valeu mesmo.

- Pegaí que é pra eu não ficar nervoso.

- ... tá certo. Já que é assim, obrigada. Quer um cigarro em troca?

Mais ou menos nessa hora que um segurança do shopping parou mais perto de nós e ficou ali, olhando discretamente na nossa direção.

- Em troca, não. Mas se você quiser me dar um cigarro só porque é legal, eu aceito.

Peguei o maço na mochila e estendi um cigarro para ele, que ele prontamente encaixou atrás da orelha. Guardei a bala no bolso.

- Você é muito simpática.

- Muito obrigada.

- Não, sério mesmo. Você é gente boa. Um ser humano decente. Coisa rara hoje em dia. Eu tô bem bêbado...

- ...é, eu percebi.

- ...mas olha, eu sou profissional. Digo, não bêbado profissional. Eu tenho uma profissão.

- É bêbado só por esporte, então?

- Aí sim, você sabe das coisas! Mas eu trabalho com construção.

- Por isso o uniforme sujo de cimento?

- É, eu tô todo sujo, que merda, desculpa moça, é chato eu estar todo sujo, mas aí o serviço acabou cedo e eu fui beber. Minha mãe... - e escondeu o rosto nas mãos e virou para o outro lado.

- Desculpa, você está bem? Aconteceu algo com sua mãe?

- Não, ela tá bem, é só que só de pensar no que ela ia dizer se me visse assim eu fico com vontade de chorar. Qual seu nome?

- Dianna.

- O meu é... é... olha, pode me chamar de Lino, tá? Tipo: Liiiiiinoooooo. Parece lindo, mas é Lino. Lindo é seu nome. Dianna. Você tem mãe?

- Ela é falecida há alguns anos.

- Ai, que triste. Meu pai também. Mas é recente. 

- Bom, sinto muito.

- Você é casada?

- Sou. - Nessa hora, caiu a ficha de que eu estava virtualmente sozinha, conversando com um desconhecido muito bêbado no meio da rua. Não passava pensamento com azeite.

- Você é legal. Não queria perder o contato. Você mora onde?

- ... - cuspi o primeiro nome de bairro que não fosse o meu que me veio à cabeça.

- Ah... legal, legal. Você é legal. A gente pode se ver num dia em que eu esteja mais sóbrio?

- Não sei se meu marido ia gostar.

- Ahhhhh. Hahaha. É verdade. Você é direita mesmo, gosto de você. Até queria dizer que... Ai, mas eu fico com vergonha.

- É, bom, eu preciso ir trabalhar.

- Negona... desculpa, negona é forma de dizer, tá? É carinhoso.

- Eu sei, relaxe.

- Eu preciso te confessar um negócio. É sério.

- ... diga aí.

- Eu nunca peguei uma mulher... assim, uma mulher bonita.

Não consegui conter uma gargalhada.

- É sério! Eu juro! Só peguei mulher feia a vida toda!

- Olha... Lino, né? Foi um prazer te conhecer, mas deu minha hora de verdade. - Estendi a mão para o rapaz. Achei que era o mínimo que eu devia pela gargalhada. 

Ele não fez nem sinal de retribuir o aperto de mão. Me olhou desconfiado, como se algo não estivesse certo.

- Não vai apertar minha mão não, rapaz?

- Mas você já vai?

- Já, tenho horário, eu falei. Vai pra casa, bicho. Cê tem mãe, ela deve estar preocupada.

Ele continuou me olhando como se um terceiro braço tivesse saído do meu pescoço. Joguei a mochila nas costas e fui pro trabalho, agora realmente na minha hora. Lino ficou lá. A bala ainda está no meu bolso. Espero que tenha chegado vivo em casa.

Silêncio

Eu não queria que você parasse de falar nunca.
É estranho, né?
Eu nunca soube bem como definir isso,
mas acho que gosto mais de ideias do que de pessoas.

E você falava bem sobre suas ideias,
e eu não queria que você parasse de falar,
porque quanto mais você falava,
mais eu me apaixonava pela ideia de você.

(Acho que acabei me apaixonando
pela imagem de você que eu criei
com base no que você escolheu me mostrar
e o resto eu fui preenchendo
com minhas próprias expectativas.)

Mas tudo que é incrível
um dia tem que acabar,
e você parou de falar,
e eu fiquei sem saber o que fazer
com tanto pathos
querendo escapar desarrazoadamente pela minha boca,
e eu não queria te assustar
com a tormenta que se formava dentro de mim,
então eu te beijei
pra tentar amenizar a intensidade
do que eu estava sentindo.

Eu não queria que você parasse de me beijar nunca.
É estranho, né?
Parece que seus lábios falam a minha língua
de todas as formas possíveis.

E o que era intenso transbordou,
e eu não podia suportar mais a ideia
de terminar a noite
sem sentir o calor da sua pele.

(Doía pensar que depois daquela noite
eu iria embora
e talvez eu nunca mais te visse
e talvez morresse sem saber
se seu corpo era mesmo o mesmo número do meu.)

Eu sabia que nunca ia conseguir te esquecer
se não desse uma noite de folga ao meu superego
e me permitisse perder o controle uma vez na vida.

Chego a esquecer
que tentei criar uma máscara
para não te mostrar
os monstros que se escondem aqui dentro,
pois é como se nos conhecêssemos
desde a infância
e fôssemos jovens novamente.

Inconsequentes.

Você corava
como uma donzela
todas as vezes
que nossos olhos se encontravam,
seu rosto contorcido
na tentativa
de conter seu transbordo.

Acendi um cigarro - você,
sem saber o que fazer com os olhos ou com as mãos,
voltou a falar
sobre qualquer coisa que lhe viesse à cabeça.

(Quando não sei o que dizer,
 deixo meu corpo falar.
Quando você não sabe o que fazer,
 deixa sua boca falar.)

Eu queria que você não tivesse começado a falar nunca,
porque eu sabia, no fundo,
o quanto a inevitável ausência da sua voz
doeria mais que não ter te conhecido.

19.11.17

Carta aberta ao homem que me destruiu

Salvador, 04 de novembro de 2017

Quando meu telefone tocou, às 00:48 de um sábado, pulei da cama, coração imediatamente disparado.

Teria disparado de qualquer forma, independente do horário. Quase ninguém me liga, porque sabem a ansiedade que isso me causa, e quando ligam, num geral, é questão de emergência. O avançado do horário só fez intensificar a sensação de desespero.

Vou deixar a encargo de quem lê este texto imaginar o tamanho da minha surpresa ao identificar, do outro lado da linha, a voz daquele que roubou a minha fé e desconsiderou minha humanidade.

Demonstrando mais uma vez sua imbatível falta de respeito ao "não" de uma mulher e ao seu direito de decidir pelo próprio bem-estar, ele teve a pachorra de descrever o que me fez em termos de mal entendido, de desconforto acidental. "Sou eu, o cara que pisou na bola feio com você".

Deve ser legal ser homem. Dizem que eles já tem, de fábrica, a licença poética para tratar os crimes que cometem contra mulheres como um simples "vacilo".

O outro homem, outrora adormecido ao meu lado mas recém-desperto pelo toque estridente do telefone, gritava ao meu ouvido para que eu desligasse, me atordoando e acuando ainda mais. Desliguei sem ouvir o que meu estuprador tinha a me dizer, sem ter a oportunidade de desengasgar da minha garganta todos os gritos e frustrações que lá se foram alojando a cada momento em que minha vida ruía mais um pouco, ruindo para sempre em decorrência dos efeitos que o "vacilo" dele provocou.

Esta carta é minha chance de finalmente enterrar esse assunto.

Daniel disse ter pisado feio na bola comigo. Daniel entrou em contato, provavelmente pelo avançado estado etílico em que se encontrava - ninguém liga para uma pessoa com quem não fala há três anos à 1h da manhã para pedir desculpas por erros do passado se estiver sóbrio - para admitir que me arrastou para uma série de problemas que estavam acontecendo com ele e pedir desculpas por me colocar em, palavras dele, "um momento ruim". Daniel me explicou tudo isso por mensagem de texto, depois que eu desliguei o telefone na cara dele já que ele se recusou a aceitar que "não posso e nem quero falar com você agora pois acordo em 5h para ir trabalhar".

Daniel não me pediu desculpas por arruinar inexoravelmente minha tênue habilidade de manter uma ilusão de equilíbrio psicológico, nem por aleijar irreversivelmente a parte de mim capaz de confiar naqueles que se dizem meus amigos. Daniel não tentou se desculpar pela associação indelével que, graças a seus atos, meu subconsciente passou a fazer entre intimidade sexual e agressão. Daniel não pediu desculpas por reacender em mim, no meio da madrugada, essa brasa incandescente e invisível chamada "trauma". Daniel sequer teve a coragem de admitir que o nome do que ele fez comigo não é vacilo nem mancada, e sim ESTUPRO, que é criminalmente tipificado.

Daniel não me pediu desculpas pelo que ele, de fato, fez comigo. Ele pediu desculpas pelo que ele acha que fez de errado - e nada do que ele disse demonstra qualquer preocupação de fato comigo, apenas com o que ele entende ter feito. Incapaz de admitir o crime que cometeu - pois, necessário mais uma vez destacar, estupro é crime -, Daniel me expôs a mais uma iteração de seu já conhecido modus operandi de "estou ouvindo seus protestos, mas a satisfação de meu desejo imediato é mais importante" e não hesitou em me fazer reviver todo o inferno do qual passei os 3 últimos anos tentando escapar apenas para satisfazer a sua necessidade de ter uma consciência mais leve, afinal, se ele "pediu desculpas", ele não pode ser mais culpado de nada, não é?

À mim, sobrevivente do seu crime, resta apenas uma chance de resistência: negar o perdão, não apenas a ele como a todos os outros homens, que por associação direta ou similitude de ações, a mim convém chamar de seus companheiros.

Não o faço por rancor.

O faço por saber que, se arrependimento real houvesse, essa ligação no meio da madrugada teria sido diretamente para a polícia, e não para mim, pois haveria o reconhecimento do crime cometido e do sofrimento causado.

7.2.16

Uma carta de amor

Não é muito comum eu estar na rua 6h da manhã durante o verão. Na verdade, na medida do possível, prefiro acordar o mais tarde possível ou ir dormir o máximo possível antes do nascer do sol - ou o mínimo possível após. Não gosto de sol, não gosto do calor que ele traz e não gosto de ficar acordada além do necessário.

Mas, às vezes, acontece de eu voltar pra casa mais ou menos quando o sol ganha força no firmamento. E, mais às vezes ainda, coincide com eu voltar pra casa junto com o sol no meio do feriadão de carnaval.

Não sei quantos de vocês sabem, mas a primeira vez que pisei em Salvador foi numa quarta-feira de cinzas, há 11 anos. Voltei pra casa duas semanas depois, e fiquei indo e voltando até enfim decidir que talvez fosse um bom lugar pra tentar fincar raízes, três meses depois. O motivo para fincar raízes já nem mora mais por estas paragens e há muito deixou de ser motivação para ficar, mas ainda estou por aqui.

E hoje, pela primeira vez nesses quase onze anos exatos, passei pelos mesmos lugares (ainda que em sentido contrário) pelos quais passei nesse primeiro momento, mais ou menos no mesmo horário. E me lembrei.

Acho que me apaixonei por Salvador desde a primeira vez que pisei aqui.

Quase que exatamente onze anos atrás, vim de ônibus de Recife para Salvador. Eu não morava exatamente em Recife, e sim em Igarassu - um lugarzinho no meio do nada, com sabor - pelo menos para mim - de pitanga e acerola e cheiro de terra molhada. Eu esperava chegar às 22 horas, mas acabei chegando cinco da manhã. 

Eu ia ficar hospedada em Piatã, e, por algum motivo, meu anfitrião, que não me conhecia pessoalmente e tinha todos os motivos possíveis pra desistir de me esperar (afinal, convenhamos - foram 9 horas de espera e eu não tinha sinal na estrada pra ligar e avisar que ia demorar) aguentou o tempo todo.

Lembro com carinho da voz sonolenta que atendeu o telefone quando desembarquei nessa cidade que eu nem conhecia, ainda sonolento de dormir torto nas cadeiras da rodoviárias, da alegria de ver aquela pessoa ainda esperando por mim, a despeito de qualquer tentativa do bom senso gritar que "ela não veio, vai pra casa que é melhor". Isso foi um ato de fé. Meu então pretendente, posteriormente namorado, namorido e atualmente irmão e um dos melhores amigos que já tive e tenho na vida, ter me esperado por tanto tempo na rodoviária sem sinal de que eu fosse chegar talvez tenha sido um sinal divino de que talvez aqui fosse meu lugar...

Eu nem sabia que lembrava, mas naquela viagem junto ao sol que se erguia, memorizei o jeito que o sol bate em cada edifício da região do Iguatemi e das árvores da orla até Itapuã. Sei disso porque hoje, como naquele dia longínquo em que a menina de 18 anos saía pra explorar um pouco mais do mundo, ouvi os prédios e as poucas palmeiras que ainda restam cantarem.

É uma canção linda - que rima com a história da cidade e é enfeitada com a voz de Yemanjá, que se recusa a calar a despeito de toda a civilização que se constrói em volta de sua casa - mas também triste. Só quem vê Salvador à luz dos primeiros raios da manhã consegue sentir a intensidade da beleza da cidade e, ao mesmo tempo, o quão deixada ao léu esta metrópole, eternamente em (des)construção e reconstrução, se encontra. 

Salvador é a cidade mais linda do mundo. Sinto ciúmes da cidade que me abraçou e acolheu. Não gosto de ouvir ninguém falando mal dela, pois, para mim, é uma amiga, uma parente próxima, talvez até uma mãe-de-leite que acolheu uma pobre órfã quando eu mais precisava de aconchego e equilíbrio. Reclamo de seus defeitos, como se queixa qualquer pessoa que veja alguém querido indo por caminhos que talvez não sejam os melhores, mas não admito que ninguém a culpe. Digo todos os dias que quero abandoná-la, mas - e acho que ela me entende - não passa de caprichos de adolescente, de querer fugir de casa quando as coisas parecem ruins mesmo sabendo que não estão tão ruins assim. Salvador, afinal, se tornou minha casa. 
Explico para as pessoas que não sou daqui, e muitas vezes é difícil acreditar nisso. Eu mesma demoro, por vezes, a acreditar nisso. Me orgulhava de ter coração nômade, de não me fixar em lugar algum, mas, mesmo sem perceber, aqui lancei âncora e defini meu porto seguro. Essa cidade, abandonada como está pelos humanos que se crêem deuses e muitas vezes desprezada pelos seus filhos, conseguiu fisgar meu coração de tal forma que me dói, quase que fisicamente, pensar em abandoná-la.

Eu odeio Salvador. Por tudo que há de errado nesta cidade. Por todas as pessoas que lhe guiam na direção em que ela não mereceria de ir. Por todo o abandono e descaso. Por todas as árvores cortadas, por todas as ruas e instituições sucateadas, por tudo o que poderia ser e não é. Sobretudo, odeio Salvador por não me deixar partir, por sua persistência em me lembrar o quanto e o porquê de me apaixonar por Ela a cada vez que fraquejo e cogito ir embora.

Salvador é minha amante abusiva. E a essas horas da manhã, quando a chuva entra pela janela e me mostra que o sol só deu as caras para me lembrar o quanto preciso dessa cidade, concluo que não será tão logo o momento em que conseguirei me livrar dela.

21.12.15

Todo homem é um estuprador em potencial

Essa frase aí do título parece que é o espinho na pata dos homens quando sai da boca de uma feminista. Já ouvi feminista liberal hoje dizendo que isso era discurso de ódio, que era agressão, enfim, uma total falta de empatia com as irmãs, falta de querer entender o que existe nessa frase.

Amigo machinho, entenda: essa frase não é a mesma coisa que apontar o dedo na sua cara e dizer VOCÊ É UM ESTUPRADOR. Ninguém está acusando você em especial de absolutamente nada.

Mas, já que é difícil abstrair e se colocar no lugar de uma mulher, vamos tentar a explicação que dei uma vez para um machinho e que aparentemente funcionou:

Você é uma mulher. Você tem que voltar pra casa à noite. Suas opções são pegar um táxi, possivelmente com um homem motorista de táxi desconhecido, ou voltar de ônibus e depois andar parte do caminho. A primeira opção parece a mais segura, mas o dinheiro nem sempre dá e você NÃO SABE QUEM É AQUELE CARA. Não estou dizendo que todos os taxistas são maníacos, veja bem; mas você não tem como saber o que está se passando na cabeça do cara, certo? E também não dá exatamente pra chegar pro cara e perguntar "oi tio, eu vou pra lugar X, o senhor me leva lá pelo valor da corrida ou vai parar pra me estuprar matar e desovar meu corpo no meio do caminho?", né? Pega mal, é indelicado, e, verdade seja dita, se o plano do cara for a segunda opção não é como se ele fosse responder honestamente.

Então, por falta de dinheiro ou por medo, a gente volta de ônibus pra casa. Desce do ônibus. Tá andando, os poucos metros que faltam pra chegar à segurança do lar, e de repente repara que tem um homem andando atrás de você. Claro, ele pode estar simplesmente andando na mesma direção que você, também tentando chegar em sua própria casa, mas pode não ser. Um homem nessa circunstância pode ter medo de ser assaltado. A gente tem medo é de ser estuprada mesmo, sabe? E, novamente, não é como se desse pra perguntar pro cara na rua "ei, moço, o senhor só tá indo pra casa, tá pensando em me assaltar ou vai me estuprar mesmo? É só pra saber se é pra tirar o chip do celular, começar a correr e gritar ou ficar de boa."

Isso, é claro, daria a entender um adendo na frase que dá título ao texto: "Todo homem desconhecido é um estuprador em potencial." O problema todo reside no fato que estuprador não é só o cara desconhecido que te agarra no beco e rasga suas roupas. Uma pessoa pode ser estuprada* por alguém conhecido, sim. Todos os dias, uma breve pesquisa no google pode fornecer a quem se der ao trabalho dados e notícias sobre estupros cometidos por pessoas próximas da vítima - geralmente familiares ou amigos da família. Um namorado pode estuprar a namorada. Um marido, pasmem, pode estuprar uma esposa - porque não é porque se é casado que o consentimento é implícito. Um amigo pode estuprar uma amiga. E vocês sabem como a gente descobre que essas pessoas que nos são próximas são realmente capazes de cometer um crime como esses? Exatamente: quando eles os cometem. E quando isso acontece, a culpa é sempre nossa - porque estávamos usando "roupas provocantes", porque "demos ousadia pro cara" (e essa ideia de dar ousadia pode inclusive ser "ter a ousadia de se considerar amiga de uma pessoa de gênero diferente do seu"), porque "passamos sinais equivocados" (possivelmente, até mesmo dizer claramente e com todas as letras "não vou transar com você" é um sinal equivocado)... Você não sabe o que está se passando na cabeça da pessoa do outro lado. E nós, mulheres, somos ensinadas desde sempre a ter a crença de que, se deu ruim pro nosso lado em qualquer tipo de relação interpessoal com um homem, é porque a culpa é nossa.

Somos desde sempre ensinadas a não sermos estupradas, enquanto os homens são educados a ser o garanhão da história e a sempre entender um "não" como um "sim" a ser trabalhado. Então, a partir daí, muitas de nós, inclusive e principalmente as que já sofreram algum tipo de abuso na mão de um homem, passamos a vê-los como ameaça. Se você é mordido por todos os cachorros que tentou afagar na vida, você certamente não vai confiar tranquilamente em fazer um afago em qualquer cachorro. Partir do pressuposto de que todo homem é um estuprador em potencial não é uma tentativa das feministas de ofender os homens. É um mecanismo de auto-defesa. E, não por acaso, um dos mais eficazes.

"Ah, mas eu nunca estuprei ninguém, você está me ofendendo de graça!" você pode dizer. Em primeiro lugar: parabéns por fazer o mínimo. Em segundo lugar: todos os estupradores que existem começaram de algum ponto. Em terceiro lugar: em vez de tentar levar pro lado pessoal, tente entender de onde está vindo essa pessoa que está afirmando isso sobre os homens enquanto classe, e não enquanto indivíduos.

E, queridas irmãs, feministas ou não, independente de vertente, que se incomodam com essa frase: vamos tentar praticar um pouco mais de sororidade e se colocar no lugar da outra, em vez de se armar para defender a honra dos homens. Não é pra isso que estamos aqui, e a grande maioria dos homens não se coçaria pra defender a sua ou a minha honra se fosse ela que estivesse em jogo ao sermos taxadas de putas, inclusive em uma situação de estupro.



* e entendamos aqui estupro não apenas como penetração vaginal/anal forçada, e sim como qualquer ato libidinoso praticado sem o consentimento da vítima, mediante violência ou grave ameaça - que pode inclusive ser violência ou ameaça verbal/emocional/psicológica - ou com a vítima vulnerável - seja por ser menor de idade, portadora de alguma doença debilitante ou em estado de consciência alterado

10.12.15

Padrões de Beleza

Então que hoje eu resolvi raspar os pelos das pernas depois de, sei lá, uns 4 meses longe de uma gilete ou algo próximo disso, entre outras coisas porque deu saudades da sensação das pernas lisinhas roçando uma na outra e no lençol (único motivo realmente válido pra se raspar as pernas, aliás. Se você me viu na rua hoje e eu estava roçando as pernas uma contra a outra, não era vontade de ir ao banheiro - eu simplesmente estava curtindo a sensação, mesmo).

Enquanto eu acidentalmente me cortava em partes que eu nem tinha muita certeza se ainda crescia pelo pra ser sincera, fiquei dando uma viajada nos padrões de beleza e no que eles representam.

(Sei que existe toda uma exclusão e/ou fetichização de quem não tem traços brancos/europeus, mas não vou focar nesse ponto porque não é meu local de fala, ok?)

Então, enquanto me mutilava em nome de uma sensação gostosa, fiquei pensando no que é considerado como "uma mulher bem arrumada". Sempre tem a ver com estar bem depilada, cheirosinha, a pele impecável, a maquiagem impecável, barriguinha pra dentro (até mesmo pra quem abre exceções pra ~plus size~, tem um padrão certo pra se ser bonita e arrumada e plus size) e, se possível, para aumentar o padrão de "elegância", de salto alto.

Peraí! Depilada? Sem odores corporais? Pele sem traços de cicatrizes ou acne? Pois é. O padrão de beleza, arrumação e higiene é, basicamente, o de uma mulher que não desenvolveu caracteres sexuais secundários (exceto seios; os seios pode ter sim, quanto mais, melhor, contanto que não sejam caídos, e quanto mais expostos, melhor, a não ser que seja pra amamentar, que aí é uma afronta à moral e bons costumes e uma pouca vergonha). Ou seja: uma mulher que ainda não atingiu a puberdade. Como as mulheres atingem a puberdade quando têm algo entre 8 e 13 anos, o padrão exige que nos esforcemos pra manter o corpo, os odores e o rosto o mais próximo possível de uma menina de 7, talvez 8 anos.

Maquiagem bem feita e "elegante" envolve olhos pintados de forma a parecerem maiores, bochechas coradas de blush e um bom batom para destacar os lábios. Todas essas mudanças sutis de cores e destaques podem ocorrer naturalmente - e todas são associadas à atração e excitação sexual. Olhos mais destacados, bem como lábios mais cheios, chamam mais a atenção de parceiros do sexo masculino, e lábios e face ruborizados podem indicar estado de excitação.

A barriga não-saliente pode ser uma questão de estar "em forma", mas, na ausência do preparo físico, pode-se usar de artifícios tais como cintas compressoras - que mal nos deixam respirar, mas seguram a protuberância abdominal no devido lugar.

O salto alto, considerado elegante e extremamente feminino, prejudica os joelhos e a coluna vertebral, além de dificultar o caminhar.

Depois de muito mastigar isso tudo, no tempo que levou entre me cortar com a gilete e parar de sair sangue, concluí que a tal mulher elegante e arrumada ideal é uma menina de 8 anos, sempre pronta para o sexo e incapaz de fugir.

Ou seja, somos uma sociedade de pedófilos e estupradores sem nem nos darmos conta disso.

10.2.15

Gente que corre

As pessoas que correm não são pessoas normais. Não me refiro àqueles como eu, você ou o vizinho, que correm normalmente no dia-a-dia por razões perfeitamente justificáveis, como pra não perder o ônibus ou pra chegar no banco antes que ele feche, ou até mesmo pra atacar a mesa de salgadinhos da festa do sobrinho antes que comam todas as bolinhas de queijo. Pessoas que correm, neste contexto, são as pessoas que correm por hobby, por lazer, mesmo. Quanto mais penso na ocorrência cada vez maior de pessoas que correm na minha vida - em especial, na virtual - mais concluo que eles não são pessoas como eu e você.

Gente que corre nào corre só para si. Esse papo de superação, satisfação pessoal, não cola comigo. Gente que corre o faz pelos outros. Gente que corre posta foto no instagram com o outfit do treino, geralmente algo de lycra em cores berrantes, antes de ir pra academia, porque gente que corre só gosta de correr e ficar suada em competições. Gente que corre gosta de correr no ar condicionado. Quando eu ia à academia, era fácil identificar quem era a gente que corria - eram aqueles que ocupavam as esteiras de viseira (nossa, que solzaço que faz dentro dessa academia, não é mesmo?), e que precisavam ser tirados do aparelho pelos instrutores, pois se esqueciam da regra de convivência de no máximo 15 minutos de aparelho pra deixar os gordinhos se torturarem também.

Gente que corre gosta de registrar seus momentos e conquistas para depois compartilhá-los em todas as redes sociais possíveis. Nada mais gente que corre que ter, na capa do perfil, uma foto sua rompendo a linha de chegada de alguma corrida. E aliás, que corrida cara, viu? Gente que corre paga caro pelo privilégio de correr. Pelo que vejo, gente que corre é gente da elite. Para reles mortais como nós, correr é consequência de querer economizar uns trocados. Gente que corre gasta até 150 reais para correr por duas horas numa via pública.

Gente que corre é branca, magra, bem cuidada. Vai um negro pobre correr junto no calçadão da praia! Certamente essa elite que corre vai ficar com medo de ser assaltada. Vai uma gorda correr junto! Certamente será motivo de chacotas ou, caso seja próxima, de conselhos não requisitados para otimizar sua perda de peso. Gente que corre sabe tudo de saúde, especialmente da saúde dos outros, mesmo sendo de áreas extremamente distantes da área de saúde.

Gente que corre não gosta de correr sozinho. Gente que corre tenta convencer os amigos próximos, a família, os amigos, os colegas de trabalho, os pais dos amiguinhos dos filhos e até mesmo os colegas de academia a correr também. Acompanhado é mais divertido, dizem. Gente que corre deve realmente ter um fôlego de invejar, porque mal consigo ser sociável e manter uma conversa amena enquanto subo uma escada, imagine conversar enquanto corro. Não tem condições. Gente que corre diz que isso é falta de preparo, e pode até ser mesmo, mas dou uma caixa de big big pra quem conseguir passar cinquenta minutos correndo sem parar de conversar. Ou um pacote de granola. Sei lá o que gente que corre come.

Gente que corre pode até dizer que não, mas a gente sabe bem que gente que corre gosta de ostentar suas vitórias. Fiz questão de ocultar todas as postagens de gente que corre no meu facebook, porque não sou obrigada a lidar com o estilo de vida saudável dos outros. Gente que corre está em todos os lugares, mas a gente nunca as vê porque, enquanto estamos nós correndo por obrigações da vida, eles estão bem confortáveis a bordo de seus carros, o vidro do carro fechado e o ar condicionado ligado, porque obviamente pra gostar de correr por hobby você não pode ter o costume de correr por obrigação.

Alguém devia, algum dia, organizar uma corrida especial para gente que corre. Daqui até o polo sul. Só de ida, e sem wifi no final para que ninguém poste atualizações de chegada no facebook. Só assim pra essa gente que corre deixar os sedentários por opção (grupo no qual me incluo) serem sedentários em paz, sem sentimento de culpa por estar num sábado de manhã dormindo de ressaca em casa, em vez de correndo em algum parque sob o sol com outras 50 pessoas.

Porque gente que corre causa esse efeito. Queríamos ter essa energia toda, mas o conforto de nossa cama e de um bom filminho na TV nos impede de cedermos ao lado que corre da força. Gente que corre faz a gente se sentir culpado por ser feliz do nosso jeito.