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1.11.21

Escolhas

 Todo dia eu me saboto um pouquinho.


Todo dia eu tento, digo para mim mesmo que estou tentando, mas há uma parte de mim que se recusa a tentar e, ultimamente, esta parte tem falado mais alto do que todas as outras.


Todo dia eu me odeio um pouquinho mais por me sabotar. E nem isso me convence a parar de me sabotar.


Todo dia, me olho no espelho e se vou gostar ou não do que vejo é praticamente decidido na moeda. Há dias em que vejo a pessoa mais linda do mundo, em todas as suas facetas, e consigo enxergar todo o seu potencial de performar milagres, de criar tudo à partir do nada, de transformar poeira em diamantes. Mas há dias em que só o fracasso e a frustração me devolvem o olhar inquisitivo, e sinto o peso do julgamento por trás dos olhos, cor de mar sujo e revolto depois da tempestade, as pálpebras inchadas por falta de sono ou excesso de substâncias ou ambos. Nesses dias eu morro mais um pouquinho por dentro.


Todo dia faço uma escolha. E estas escolhas, ultimamente, até que não têm sido tão ruins. Mas a escalada do fundo do poço é longa, e difícil, e minhas unhas se quebram e meus dedos têm calos e há momentos em que escorrego. A cada dois metros que subo, uma queda -- às vezes alguns centímetros, às vezes mais do que consegui subir, por distração ou desânimo -- e assim vamos levando, a menor distância entre o ponto A e B se multiplicando infinitamente, a promessa de luz ao final da escalada me incentivando a não desistir, mas... Meus braços já não têm a força que um dia tiveram, e uma hora canso de me escorar nas paredes cheias de limo nessa subida que às vezes parece tão sem propósito.


O fundo do poço é escuro, frio e úmido, mas oferece uma superfície plana em que deitar e repousar meus músculos cansados.


Hoje fiz uma escolha da qual não me orgulho. Mas ela me abriu caminho para fazer outras escolhas, desatar outros nós, trabalhar em outros aspectos. Talvez hoje eu não tenha conseguido ganhar alguns metros nesta subida, mas pelo menos estou me esforçando para limpar o lodo entre as pedras desta parede, escavar buracos nos rejuntes onde meus pés possam se apoiar melhor. Assim, da próxima vez em que chegar aqui, talvez me seja mais confortável parar para repousar e apreciar o trabalho feito. Talvez, da próxima vez em que eu chegar a este ponto, eu seja capaz de perceber que a subida - ou a queda - está, aos poucos ficando mais fácil.


Todo dia uma escolha. E hoje, e nos últimos dias, venho escolhendo a mim mesmo, e entendendo o peso destas escolhas.


Talvez algum dia o vento volte a tocar meu rosto e eu possa ficar corado sob a luz do sol.


Talvez algum dia eu possa escolher deitar na relva, do lado de fora, onde é quente, luminoso e confortável. E talvez quando esse dia chegar eu possa deixar o conforto da fria escuridão da sabotagem definitivamente pra trás. 

5.4.21

Lobos à minha porta

Hoje eu acordei e decidi que ia me convencer de que não preciso mais de você, custe o que custar. 

Abri os olhos e abracei um gato. Não preciso da sua respiração umedecendo e aquecendo meus cabelos, e há de chegar em breve o dia em que minha cintura não se sentirá nua pela falta dos seus braços ao redor dela.

Dormir está cada dia menos difícil. Talvez chegue o dia em que eu não precise do amparo medicamentoso pra conseguir enfim deslizar para o mundo dos sonhos sem antes desaguar no travesseiro todas as lágrimas que ainda tenho dentro de mim, congeladas.

Fiz café. Coloquei eu mesma uma quantidade muito maior de canela do que deveria -- algum dia vou acertar aquele ponto exato que você coloca instintivamente, mas esse dia não será hoje. Aos poucos, eu aprendo a fazer as coisas do jeito que eu gosto, que você descobriu tão espontaneamente. Hoje consegui não olhar pra sua caneca no armário e, com isso, não senti as rachaduras se espalhando ainda mais veemente e inexoravelmente pelo meu peito.

Pé ante pé, pouco a pouco, as rachaduras vão cicatrizar.

Ontem, senti vontade de me machucar. Ontem, senti muita vontade de chorar, mas não consegui, e não houve filme, jogo, música, droga, que tirasse de mim essa vontade terrível de arranhar minhas faces até abrir um canal pelo qual as lágrimas pudessem fluir livremente.

Mas consegui resistir.

Um dia, pouco a pouco, eu vou conseguir me libertar de você.

E, quando esse dia chegar, vou rir de mim mesma e apreciar o quão ridícula fui por me apegar tanto a alguém que era pra ser só uma distração.

Mas por enquanto, e só por enquanto, vou escrever pra você palavras que você nunca vai ler. Até que eu esgote minhas palavras pra você. Até que eu consiga não mais sentir.

18.7.19

Órion

O céu de chumbo volta a oprimir minha esperança tão adolescente de que a primavera um dia voltará. A natureza, ao que parece, insiste em espelhar o que vai dentro deste receptáculo oco que me habituei a chamar de coração. O vento que sopra pela desolação deste não-lugar é frio e cortante, mas os beijos que este deposita em meu rosto enquanto vago sem rumo certo pelas ruas que aprendi a amar e odiar na mesma proporção chegam a ser tórridos, quando há uma nevasca furiosa e inescapável dentro de mim. Sinto falta do seu toque, panaceia destinada a derreter o inverno que se instalou nas minhas entranhas, e me é doloroso contemplar esse não-futuro da sua ausência que se afigura cada vez mais próximo.

Processo meu raciocínio com uma lentidão excruciante, e talvez por isso eu me pegue, horas, sonhos e mundos depois, repetindo em subvoz tudo o que foi dito e, sobretudo, todo o percebido nas entrelinhas, completando as lacunas das nossas transparências com o que supus ouvir no espaços dos teus raros silêncios. Reviro e repenso ad nauseam cada ideia e as analiso sob todos os ângulos possíveis, numa agonia quase tão acre quanto desesperada e desesperadora de dar sentido ao que não faz sentido algum e criar algum arremedo de ordem no meio do caos. Em parte, aconchego; de resto, solidão.

Ferida e lacerada que estou por traumas dos quais me recuso a desapegar, insisto em gritar em versos surdos para as paredes manchadas a familiaridade desagradável da situação. Nada é original - tudo é reprise, e detesto me repetir. Sei que transfiro. Os personagens mudam, o contexto muda, e há diferenças cruciais que me permitem uma nesga de não sei bem se esperança ou expectativa. Me questiono o tempo todo se é sensato. Sei que não é. Nada faz sentido, mas certa vez me disseram que essas coisas não fazem sentido mesmo, que sentimento não obedece lógica e que esse meu hábito de burocratizar minhas relações é meu jeito de me convencer de que não sou digna de afeto.

Talvez não seja.

Sigo convencida de que o mais lógico seria dar por encerrado este conto de fadas tão bonito que comecei a escrever na minha cabeça, antes que as cicatrizes que começam a emergir na epiderme se tornem indeléveis, mas já cometi o grave erro de julgamento de pular da plataforma mais alta sem parar para avaliar se a adrenalina da queda livre compensaria o impacto ao fim da jornada. Agora, o que me resta é aprender a voar, e minhas asas estão por demais atrofiadas por desuso. O céu é chumbo. O fundo da baía, duro e pedregoso. A espuma na superfície das águas em movimento, deste ângulo, parece reluzir em carmesim, augúrio do que me espera quando o felizes-para-sempre falhar em chegar. Por muito tempo lutei para me manter à tona, mas parece que enfim é chegada a hora de, como nos velhos tempos, soçobrar e naufragar.

14.6.19

Conexão Interrompida

Tragédia anunciada:
Convertida em revelação
Alívio que suaviza os dias difíceis
Preciso de você (longe)

O inesperado:
Flor ceifada em botão
Morte do que renascia das cinzas
Preciso de você (aqui)

Que este ciclo se encerre,
Se enterre,
Se incendeie e incinere.

Aprender,
sem condicionar a outros
o valor que me dou.

Algum dia, encontrarei
o amor
do outro lado do espelho.

(de outro blog, outros tempos, outras dores,
pra me servir de lembrete - sempre válido -
de que tudo tem prazo de validade,
inclusive o luto por um sonho desfeito.)

13.6.19

Pecadilhos

Perversão das promessas pueris:
palavras proferidas na pulsão do presente.
Peço-lhe, impeça-me.

Impeça-me de pular uma parte portentosa
Do passado pujante que nos prende ao compasso do pretexto
Pedidos perdidos na pressa dos apesares
Sem sopesar o poço profundo dos pesares
Tão próprios de nós.

Piedade, peço-lhe. Impeça-me.
Se porventura pusermos um ponto,
punção perigosa, perene, impiedosa,
perderei-me, pesarosa
nas passagens primorosas
de projetos paralelos,
princípios permissivos presentes no apelo.

Preciso permitir-me parar e apreciar
o pêsame da ruptura primordial
para que possa pesar
a pusilanimidade da peça, um punhal.

Pretensões que pedem-me permissão:
Pinçando do pedestal a prova,
plúmbeas as preces,
a presunção pavorosa
do espaço perigoso entre meus pés
e seus passos pesados.

Da ponta porosa
escapa a prosa.
Da plenitude do peito,
por apressado que pareça o pleito,
permito-me padecer.

31.5.19

anamnese

os detalhes da tua voz.
o timbre e o sotaque e a cadência,
até os trejeitos do teu rosto,
teu sorriso tão tímido,
pontilhado de tristeza e sarcasmo
e estrelas.

voltávamos,
como sempre voltamos,
aos mesmos assuntos.

cíclicos.

te pedi um beijo
quase tarde demais
e era cedo demais para partir.

teu sorriso
chegou aos teus olhos, enfim
e o silêncio em mim
explodiu em cores

o gosto da tua boca,
tabaco e saliva e expectativa,
teus dentes. minhas marcas.

familiaridade.

cinderela sem sapatos,
depois da meia-noite
não há luxos,
apenas luxúria.

no banco da praça,
as pernas por cima das tuas,

memórias de tempos
que não vivemos juntos
mas tão vívidos
e tão antigos,
e tão jovens que somos,
e jovem era a noite.

teu sorriso secreto
destrancou algo em mim.
confiei.

o peso do teu abraço
e os passos embriagados
de pouco álcool e muita vontade
de parar o tempo,
tão sagaz e inclemente.

errando pela noite
nas ruas tão conhecidas
e tão estranhas,
tanto tempo.

a textura da tua mão,
do tamanho exato da minha.

tua linha do coração
me disse que um dia
tu ia ser feliz.

meu coração, desalinhado
não encontrou voz para dizer
que te acompanharia.

e agora, finalmente,
é tarde demais.

1.4.19

Auto-biografia II

Durmo pouco,
bebo café demais
e talvez devesse parar de fumar.

Falo palavrão demais,
mas insisto em calar as verdades
que me corroem o esôfago,
ácidas que são
em seu estado bruto.

Não sei sentar de pernas cruzadas que nem mocinha,
e, na verdade, sempre detestei
as coisas de que
(dizem)
eu devia gostar.

Não sei ser moderada nas opiniões,
nos vícios ou nas paixões.

Choro fácil por tudo
(menos pelo que importa)
e demonstro afeto
com garras e safanões.

Por vezes, acho
que vivo minha vida do avesso,
e que do outro lado do espelho
talvez seja tudo mais simples.

Às vezes, sou nada além
da síntese de todas as expectativas
empilhadas e mal-ajambradas
sobre meus ombros tão jovens
e tão exaustos.

Às vezes me convenço de que tenho jeito;
outras,
do fundo do poço de desesperança,
escavado com as setas que me perfuram,
sustentado pelas pedras que me atordoam,
me resigno a ser apenas eu:

errante na vida, errada sempre.

16.4.13

Cinco anos


Lembro que em meados de abril ou maio de 2008 eu estava contando as horas para o dia da matrícula na UFBA. Foram 3 anos tentando entrar, e finalmente havia chegado minha vez. Foi por essa época que recebi uma ligação de um tal de João, dizendo ser do colegiado de meu curso, dizendo que eu não tinha um e-mail cadastrado no sistema e que, sem isso, eu não poderia fazer minha matrícula online. Não entendi nada, porque achava que a matrícula do primeiro semestre tinha necessariamente que ser presencial, mas não era por isso que eu ia querer ficar de fora...

No dia seguinte, peguei quaisquer documentos que julguei serem necessários e pulei no Praça da Sé, pra encarar - pela primeira vez de muitas - a jornada Piatã-Ondina, para resolver o problema. Eu não conhecia absolutamente nada do campus. Caía um chuvisquinho fino, daqueles que mais refresca do que molha, e mesmo assim era um trabalho meio porco, porque ainda assim fazia um calor desgraçado. Desci na portaria principal, perguntei onde ficava o prédio de Letras e foi aí que descobri que desci um ponto antes... Não tinha problema. Era minha primeira vez na UFBA como universitária, eu tinha bastante tempo livre e me prestei a explorar.

Fui andando da portaria principal até o ILUFBA debaixo daquela chuvinha. Lembro de ter ficado encantada - sempre gostei de mato, contanto que não fosse obrigada a viver dentro dele, e aquilo parecia uma trilha de floresta. O cheiro de terra molhada era gostoso, tinha poucas pessoas, fui ouvindo música e olhando os arredores, querendo absorver tudo aquilo.

Chegando no colegiado, me disseram que foi um engano. Não me abalei. Sentei num dos banquinhos na frente do ILUFBA, daqueles que não existem mais, e fiquei olhando pro céu, olhando pros prédios, respirando tudo aquilo, pensando que, pelos próximos anos, aquele seria meu segundo lar.

Hoje lembrei disso tudo, porque fiz o mesmo caminho, só que ao contrário. Em vez de ir resolver supostas pendências da matrícula, fui resolver pendências da colação de grau; ia do Instituto de Letras para a portaria principal, para pegar o BUZUFBA pra ir até a secretaria dar entrada na requisição do diploma; também chovia de leve, e eu era grata pela chuva que aliviava o calor. Pensei em como os ciclos se completam de maneira engraçada, e como, cinco anos atrás, eu nem imaginava como minha vida estaria ao chegar no final da jornada.

Pensei em tantos amigos que fiz, entre canções do Depeche Mode rabiscadas na mochila e livros do Neil Gaiman lidos no intervalo de aulas, entre varandas da Facom e festas na biblioteca, entre avaliações médicas e cicatrizes na perna. Amigos que gostam de David Bowie, Garbage, Jethro Tull ou K-Pop; amigos que estão sempre de boa, seja ensinando joguinhos lúdicos pra galera, seja incentivando os outros a lerem Bauman ou até mesmo me chamando de Travis Touchdown; amigos desses que a gente encontra em show em outro estado e viram inseparáveis. Amigos de Palco do Rock ou de luau no Porto da Barra ou de trabalho, amigos de livros ou música, amigos de copo e de corpo e de alma, amigos que se tornaram meus professores e professores que se tornaram meus amigos, enfim, muita gente. Sem os quais eu não teria sobrevivido a esses cinco anos, provavelmente os mais divertidos e produtivos de toda a minha vida.

Pensei em tudo isso enquanto as bolhas nos meus pés me incomodavam dentro de minhas sandálias - olha aí outra coisa que mudou: eu não usava sandálias cinco anos atrás. Nem tinha bolhas nos pés nesse dia específico - e eu me via traçando o caminho exato de volta do primeiro dia dessa jornada. E agradeci, por todas essas pessoas, por tudo o que aprendi nesse tempo e, principalmente, por estar chovendo e ninguém poder reparar que meus óculos estavam mais molhados por dentro do que por fora.

16.3.12

Selvagem na caixa de vidro

Não foi sempre que fui assim. Nem sempre fui este meio-ser de cores emprestadas e olhos baços de quem já viu o mundo de todos os ângulos e a quem nada mais choca ou surpreende. Nem sempre encarei quedas e fraturas expostas e feridas sangue podridão com a naturalidade de quem mergulha numa piscina num dia de sol escaldante. Nem sempre, eu. Esse eu é coisa nova, fruto da modernidade, vítima da sociedade, produto do meio, sei lá, chamem como quiserem, mas essa porra dessa criatura que saltita e grita e brinca e ostenta uma felicidade quase real não sou eu, nunca fui, e nem me perguntem porque passei a ser. É um daqueles mistérios que nem Freud, nem a bíblia e muito menos Walter Mercado explicam.

Eu sei lá, na real. Eu olho pra trás e parece que não é comigo. Não era eu. É uma coisa engraçada, essa dualidade toda. Eu sei que essa eu que escreve não é a mesma que escrevia há um ano. Há dois anos, sei lá. Bota mais tempo nisso aí. Faz tempo que eu não sou eu. Tenho sérios problemas identitários. Eu olho pras partes mais tensas do meu passado e... com quem foi mesmo que isso aconteceu? Parece que tem uma parede entre eu e a antiga eu. Uma parede de vidro, daqueles vidros blindados e foscos de um lado, tipo de interrogatório, e eu sou da lei e tô vendo tudinho acontecendo mas não posso me meter e posso inclusive fingir que nem é comigo.

Só que eu cansei de fingir que nem é comigo, porque eu cansei de viver como se estivesse constantemente sob efeito de anestesia. Cansei de observar tudo com a fria indiferença de quem se sabe distanciado. Quero o ardor da experiência, quero a dor da solidão, quero a pontada amarga da flecha dilacerando novamente minha carne e vertendo em sangue as memórias da minha alma.

Sem o pecado, sem a paixão, sem o oculto: sem infelicidade. E assim sigo clamando para mim meu direito inalienável de ser infeliz. Só assim vale a pena viver.

2.1.12

Rebirth

Uma vida inteira de solidão pelas costas e, à frente, não parece que vai mudar muito. Parece que você se sabota de propósito. Você conhece alguém legal e age tão de impulso que é como se fizesse questão de fazer papel de louca e afugentar as pessoas. Ou o contrário: conhece uma pessoa maravilhosa, mas ela é tão distante do seu ideal que você é fria, inconsistente e acaba por você mesma fugir do tal como se tivesse visto assombração.

A verdade é que você não tolera que as pessoas gostem de você mais do que você delas, e ninguém que você goste a ponto de cogitar se amarrar conseguiu, até hoje, encontrar o equilíbrio. E você se odeia por isso, por ser tão exigente ao querer mensurar o sentimento alheio.

Por medo de se machucar, você toma a decisão de, mais uma vez, se fechar em sua própria ostra. Não dar mais corda pra ninguém. Se convencer de que não precisa de ninguém, que se basta sozinha, que a única utilidade de outras pessoas no seu mundinho pessoal é pra satisfazer necessidades sexuais e adeus. E segue vivendo assim, intensamente, por quase um mês inteiro, ainda lamentando a última ferida pelos cantos, mas, na fachada, feliz.

Até o dia em que você encontra uma pessoa que parece promissora. Alguém que não te entedia, alguém que parece querer o mesmo que você - ou seja, nada demais. E, à partir desse momento, tudo muda. De novo. E as músicas não descem da mesma forma que antes. E tudo parece querer ter um sentido oculto. E aí bate aquele medo de se jogar demais de novo, de cagar tudo de novo, e aí? Aí, é claro, você se retrai. Melhor que ele não te ache uma louca. Mesmo que acabe dando em nada no final.

E aí fica nessa putaria pra sempre, até o dia em que você percebe que perdeu todas as chances que poderia ter porque ficou com medo de arriscar. E a vida continua.

31.12.11

Thanks for all the fish

E mais um ano veio e mais um ano foi e eu aqui, continuo sentada na frente deste mesmo computador (ok, mentira, o computador variou algumas vezes no decorrer do ano), escrevendo textos com os mesmos teores, tendo sempre os mesmos problemas com amores e desamores, solitária, acompanhada, o que for: se chorei ou se sofri, o importante é que no blog escrevi.

E vocês aí do outro lado, lendo, (raramente) comentando, apoiando, dando risada e vindo me perguntar depois o quanto do que escrevo aqui é ipsis litteris e o quanto é ficção descarada. Sempre. Desde o começo. Se esse blog existe, é pra vocês e por vocês, porque, afinal, simplesmente por escrever, eu poderia guardar essas porcarias todas no meu HD e ser feliz pra sempre.

Já que eu adiantei a retrospectiva em alguns dias (não fez a menor diferença, já que nada mudou de lá pra cá), resolvi que o último post do último dia do ano seria meu agradecimento a todas as pessoas lindas que fizeram parte da minha vida esse ano.

Teve aqueles que chegaram logo no comecinho do ano pra bagunçar minha vida, e nem todos duraram no grude até o final - Alan, Andrézinho, Binho e Peu são alguns exemplos, mas, entre os que duraram, inclua aí Alinezinha, Glen, Dan...

Teve aqueles que chegaram na metade do ano e fizeram toda a diferença - nesse bolo, sintam-se incluídos todos os lindos da faculdade, incluindo aqueles que eu conhecia antes mas só fui pegar intimidade de seis meses pra cá: Mario, Reden, Rugal, Fernando, Pacheco, Vanessa, Rafão, Beco, Larissa... - e também os que caíram de paraquedas, tipo Hell.

Teve aqueles que apareceram no finalzinho e geraram noites e mais noites de resenha (e às vezes de stress) - Dani, Spike, Cau, Lucas (EU AINDA PREFIRO THE CLASH)...

Teve aqueles que já estavam na minha vida, mas se aproximaram mais esse ano e eu não vejo mais minha vida sem de jeito nenhum - Oi Greg! Oi Gabz! Oi Loo! Oi Minmins! Oi Paulinha!

E teve aqueles que sempre estiveram na minha vida, prosseguiram nela e que, espero, continuem pra sempre: Dude, Pri, Anine, Cris, Blao, Ed...

Esse post é mais uma forma de agradecer a todos por todas as risadas, todas as alegrias, todas as tristezas-que-geraram-produtividade, todas as resenhas, todas as agonias compartilhadas e, claro, a preferência!

E a todos aqueles por quem me apaixonei (e que me magoaram) ou que se apaixonaram por mim (e quebraram a cara): Sem vocês, esse blog estaria vazio, vazio. Obrigada por tudo, até pelo mal.

E que venha 2012!






(PS: não citei todos os nomes que fizeram parte da minha vida esse ano porque senão não seria um texto, seria uma lista telefônica. Mas se você já me aturou bêbada, já recebeu sms aleatória minha, se eu já disse que te amava ou que você era família pra mim, se você já me viu chorar... Acredite. Esse post também é pra você. Obrigada. Por tudo.)

25.12.11

Retrospectiva 2011

Em 2011, aprendi que:

- Morar sozinha é um desafio com o qual sei lidar muito bem na maior parte das vezes;
- Trocar de chefes assusta, mas pode ser extremamente recompensador;
- Eu não sei lidar com dois empregos e uma faculdade ao mesmo tempo;
- Amores vêm e vão, [s]são ases de verão[/s] mas amigos ficam para sempre;
- Uma grande paixonite pode virar uma grande amizade;
- Grandes amizades podem ir ralo abaixo se um dos dois desenvolver uma paixonite;
- Pular sem olhar direito onde vai cair invariavelmente dá merda;
- Dignidade não aumenta score;
- Felicidade não dá follower;
- Tristeza não tem fim, felicidade sim.
- A sorte sempre, sempre, sempre favorece os vagabundos;
- Na dúvida, sempre teremos Berlim.

Em 2011, ganhei:

- Amigos
- Inimigos
- Gatos
- Reputação
- Uma irmã que também é filha
- Uma família que é mais que família
- Mais dinheiro que achei que ia ganhar em toda a minha vida
- Muita dor de cabeça
- Free drinks
- Um nome en la noche


Em 2011, perdi:

- Amigos
- Inimigos
- Tempo
- Tempo
- Tempo
- Tempo

Em 2012, eu quero:

- Tudo o que tive em 2011. Só que mais, muito mais, bem mais, exorbitantemente mais. Mais risadas, mais alegria, mais dinheiro, mais amigos, mais sucesso, mais VIDA.

Até porque, nunca se sabe quando vai acabar ou quando você vai gastar seu último continue...

22.12.11

Ciclos

Passei a vida inteira pendurada na borda desse penhasco, me perguntando o que aconteceria comigo quando um dia eu acabasse caindo lá embaixo. Ia dia, vinha dia, e eu todo dia ali, contemplando as pedras lá embaixo. Será que cair dói? Será que, na metade do caminho, eu consigo aprender a voar? Será que um dia eu aprendo a descer por onde houver apoio? Aquele abismo representava todas as minhas dúvidas e esperanças, meus sonhos de criança e meus medos irracionais. Eu sempre tive pavor do penhasco e suas pedrinhas que se soltavam e iam se estatelar lá embaixo, no fundo do sem fundo que era a queda. Eu sempre me senti atraída pelo penhasco, como se fosse o vortex que encerraria todos os meus ciclos.

Enfim, um dia eu cresci - como todo mundo acaba por crescer algum dia - e acabei por me distanciar do abismo. Por muitos anos não vi aquela beirada que tanto me enchia de temor e assombro quando eu era menor. De vez em quando, voltava às origens e me perdia por horas a admirar o que eu achava que seria meu fim, mas sem tanta curiosidade. Sem pressa. Sabia que o dia ia chegar. Quanto mais o tempo passava, com mais tranquilidade eu observava a altura e calculava a queda. Achei que o dia nunca chegaria, tão pacata se tornou minha relação com aquele lugar.

Só que a vida gosta de nos surpreender. Quando eu menos esperava, o chão começou a, lentamente, receder sob meus pés. Quando eu menos esperava, a beira do abismo estava ali, olhando pra mim com aquela boca enorme, escancarada, parecendo querer me engolir por inteiro. Quando eu menos esperava... ah, mas é óbvio. As piores quedas sempre são quando a gente menos espera. E lá estava eu, pairando nos ares, e nada de aprender a voar, nada de dor, nada de apoio pras mãos. Só eu e o ar, cada vez mais rápido, e o chão, cada vez mais perto, e essa dormência, esse não sentir, cada vez me enfraquecendo mais. Nada mais formiga, nada mais bate, nada mais circula: eu, o ar, o chão, o vento, o chão, o chão, o chão...

Perdi o que tinha pra perder. Agora já foi. Do fundo do buraco onde me encontro, reencontro os velhos patamares da subida. Hora de reerguer, reestruturar, reconquistar. Mesmo que um dia perca tudo de novo.

Da borda do penhasco, vejo o mundo lá embaixo... E tudo começa outra vez.

28.11.11

À primeira vista

Você estava do outro lado de uma porra de um salão lotado e eu estava sem óculos, mas o vi mesmo assim. No justo no dia em que eu não podia me meter a aprontar nada com absolutamente ninguém. Minha atenção foi capturada não sei nem como nem porquê - só sei que olhei pra você e pronto. Target locked.

Alguém me explica porque seus pedacinhos diminutos - dados de bom grado, na conversa que se seguiu à identificação - não saíram até hoje da minha cabeça. Alguém me explica porque, pela primeira vez em muito tempo, minhas memórias não são meramente físicas, mas principalmente psicológicas e emocionais. Alguém me explica o que está acontecendo comigo, porque estou tentando escrever uma história pra nós dentro de mim e está tudo tão confuso e cheio de buracos que não consigo encontrar um único ponto de lógica.

Alguém me explica, enfim, porque tenho tanta certeza de que, por mais que eu tente, nunca mais vou ver você.

E porque infernos isso dói tanto.

20.11.11

Banzo do Milênio

Tentei de tudo, absolutamente tudo, mas foi em vão. O álcool não me libertou de minhas amarras; antes, fincou meus pés no chão e tornou minhas costas e pálpebras pesadas. Nublou minha mente, aniquilou meu espírito e me transformou numa poça destroçada de arrependimentos. As drogas também não me libertaram - me fizeram olhar para dentro de mim e me mostraram tudo aquilo que tenho de podre. As drogas me ensinaram o significado da palavra "vergonha" e me jogaram num lugar escuro, úmido e desagradável. Desisti delas. Tentei também o vegetarianismo - a onda da privação de carne me pareceu algo leve e tranquilo o suficiente para talvez fornecer o bálsamo que meu espírito precisava -, mas o que acabou acontecendo foi uma terrível impaciência e falta de piedade com tudo o que não conseguia se colocar no mesmo patamar de pseudo-evolução-espiritual que eu. Fritei umas fatias de bacon, aquela loucura precisava parar. Tentei música, filmes, seriados, café, pornografia, masturbação, consumismo, autoflagelo, sexo com desconhecidos, dança, poesia, literatura barata, violência, vandalismo, qualquer merda que me anestesiasse e me distanciasse de tudo o que está acontecendo comigo. Nada deu certo. Continuo insuportavelmente vazia, me conformei em ser vazia, vou me permitir ficar vazia até que o vazio não signifique mais nada.

15.10.11

Perdas sem danos (ou a arte de perder)

Se desfazer das coisas é umm hábito viciante.

Começa quando, por inocência ou convicção ou simplesmente pressão da sociedade, você decide abandonar a carne. Todo mundo te chama de louco, mas você tenta mesmo assim e vê que nem é tão difícil, nem é tão desafiador. Claro que tem seus percalços, mas não são tão difíceis de contornar. Então você parte para algo mais complicado, e resolve abandonar o refrigerante também. Percebe que, no processo, acabou abandonando uns bons 10kg e metade das roupas do armário, que já não te servem. Mas não é o bastante, nunca é, e ai é que fica perigoso, porque a gente sempre quer mais do que já conseguiu. Mesmo quando o negocio é perder.

Elizabeth Bishop disse que a arte de perder não é tão difícil de dominar. É verdade. Começo a desejar perder a bebida, o cigarro, as noites perdidas - me pergunto se é possível perder algo que se perde leviana e deliberadamente - as drogas, os amigos, o café, as cores, os amores, o sexo, até por fim perder a identidade e não ter mais o que perder. Não sei o quanto mais sou capaz de perder antes de me perder de mim mesma, mas acho que não seria uma perda tao grandiosa assim. Afinal, eu mesma já estou perdida. 

Quem sabe me perdendo pelo caminho eu não seja capaz de me encontrar?

12.10.11

Dias

Um daqueles dias em que a tristeza te pega de jeito pelo cangote e te joga na cama sem mais nem porque e não te dá nem meia chance de espernear, de contestar a injustiça de tudo aquilo. Um daqueles dias que começa já de noite, as horas se arrastando numa espiral rumo à madrugada, tudo sem sentido, sem objetivo, sem nada. 

Sei lá. Essa falta de perspectiva é o que me mata. Esse não saber pra onde se vai e de onde se está indo. Essa... insegurança na vida. Parece que esqueci de crescer, sei lá. É de festa em festa, de bar em bar, e o dinheiro que vai se acabando, e a diversão que se torna rotina e começa a azedar, e a sensação de que se está se permitindo o lazer por pura obrigação pra desafogar de todo o trabalho, estudo e sei mais lá o quê. 

E é aí que eu percebo que trabalho feito uma condenada seis dias por semana noventa horas por mês e estudo feito uma louca quatro dias na semana sessenta horas por mês e tudo isso pra que? Pra ser alguém na vida e ter dinheiro pra realizar meus sonhos? O dia em que eu conseguir juntar dinheiro pra realizar meus sonhos estarei velha demais pra sonhar, quiçá pra aproveitar tudo o que juntei. Esse dinheiro vai virar remédio, internação hospitalar, asilo pra me confortar na velhice que se aproxima com passos lépidos e a boca escancarada de fera voraz. E aí eu vou deixando de viver pouquinho em pouquinho, só pra poder um dia morrer em paz. 

É isso: a gente vai vivendo um dia de cada vez só pra poder morrer com dignidade. Pois eu me recuso a morrer com essa dignidade plastificada, forjada, planejada. Eu quero viver. Eu quero a vida correndo nas minhas veias com a velocidade do tiro que destroça as entranhas do traficante morto na sarjeta. Eu quero a vertigem, a emoção, quero a porra do pathos todo. Quero curtir a trocentos milhões por hora a onda de viver.

E quando baixa a onda, minha bad trip consiste em me perguntar, bêbada, numa mesa de bar: pra que é que serviu essa merda toda mesmo, se no final continuo no mesmo ponto onde comecei?

2.10.11

Dia 02: A Sacerdotisa

Do cantinho do mundo em que eu me encontrava, sabia que nada poderia me atingir. Me reservo o direito de não fazer nada. Do meu canto, do meu refúgio, vejo o mundo. Vejo tudo, observo tudo, sem pressa nem vontade. Vi minha vida se desenrolando diante dos meus olhos, com a paciência que só quem se sabe por ora impotente conhece a fundo. Vi os caminhos que se abrem à minha frente e calculei o próximo passo com cuidado. Eu vi o futuro. E só depois de decidir o que quero me dei ao trabalho de levantar do meu trono, depor as religiões e tocar a vida.

1.10.11

Dia 01: O Mago

Olhei pra cima e vi um universo inteiro de possibilidades. Olhei pra baixo e encontrei meus pés descalços contra o chão de terra batida, os grãozinhos entrelaçando-se com meus dedos e dando aquela sensação gostosa de fazer parte de alguma coisa maior. Suspendi de leve a túnica clara, tão leve, que usava. Organizei meus materiais e me pus a trabalhar. Não sei bem o que pretendia fazer, mas sabia que tinha que fazer alguma coisa. Algo precisava ser mudado, transformado, transmutado. A mudança tem que vir de dentro pra fora, algo me dizia. Mudei. Mudei meu jeito de encarar a vida, de pensar, até mesmo meus ideais que eu julgava me definirem. Mudei tudo, para poder mudar o mundo. E só então consegui fazer alguma coisa. Mergulhei de corpo e alma no trabalho, e, quando por fim pude dá-lo como encerrado, me satisfiz. Despi minhas roupas de transição e voltei pra casa, os dedos tintos de mercúrio e destino. O mundo voltou a seu eixo, como sempre há de voltar.

30.9.11

Dia 00: O Louco

Todo dia eu acordo e os raios de sol entram pelo mesmo ângulo pela janelinha do quarto, diluídos pelos prédios e paredes e janelas. Todo santo dia é dia de acordar escovar os dentes tomar banho comer juntar as coisas na mochila sair correndo, assim mesmo, sem vírgulas nem pausas pra respirar. Todo dia chego atrasada. Todo dia corro contra o tempo, como se apostasse com o dia qual de nós terminaria sua jornada primeiro, e sempre perco. Todo dia estresse, cansaço, desilusão. Todo dia sonho acordada com o dia em que vou acabar com essa merda de rotina que um dia vai acabar me matando ou enlouquecendo, um ou outro, quem sabe os dois. Escrevo na minha cabeça mil e uma histórias pra justificar esse existir sem prazer, essa submissão desgraçada, essa falta de coragem pra mudar o que me incomoda, e nenhuma é boa o bastante pra me convencer de que tem alguma coisa certa na história canônica da minha vida. Eu quero é voar por aí, cansei de ficar que nem água empoçada presa sempre na mesma vidinha medíocre. Eu quero liberdade. A liberdade de sonhar quando e o quanto eu quiser, a liberdade de ir aonde meu coração mandar. Um dia, junto todas as minhas tralhas e destroços numa trouxa e parto sem rumo. Um dia, vou encontrar algum canto onde o sol me acorde sem intermediários. Um dia, vou acordar e fazer as coisas no meu ritmo, sem culpa nem desespero, e uma vez que seja vou me permitir enlouquecer só pra saber como é fazer isso de propósito. Um dia eu vou ser feliz do jeito que quero e acho que mereço, seja no fundo do poço ou no alto de um penhasco. Até lá, vou cultivando minhas rosas brancas e tentando fazer as pazes comigo mesma.