E lá se ia o ônibus sacolejante, meio vazio já no final da hora do rush. Eu ia bem pimpona na janelinha, torcendo para que a brisa quase fresca da noite soteropolitana fizesse algum milagre na minha dor de cabeça. Não fez. Continuei sentindo como se meu cérebro estivesse tentando se expandir para além dos débeis limites da minha caixa craniana. Tentei remédio, cochilo, cachaça, enfim; de tudo e mais um pouco, mas nada de nada adiantou. Eu começava a cogitar trepanação como medida paliativa quando o demônio adentrou o coletivo.
Demônio, de acordo com a mitologia cristã, é um anjo que se rebelou contra deus e passou a lutar junto às forças do inferno na eterna batalha entre o bem e o mal. De acordo comigo mesma, é uma criança. Uma criança de colo. Uma criança de colo bem específica, que entrou no ônibus com o pai e, tão logo se aboletaram no banco vazio imediatamente atrás do meu, começou a chorar como se toda a felicidade do mundo tivesse sido sugada para dentro da cabeça do pai, onde insistia em ficar batendo, talvez tentando libertá-la. Olhei pra trás com o olhar mais carregado de ódio que minha cabeça explodindo me permitiu, e a criança sorriu para mim.
Não era um sorriso do tipo bandeira branca.
A criança sorriu para mim o sorriso mais malévolo que já vi uma criança sorrir, e olha que dou aula pra crianças. Sem parar de chorar por um segundo. Inclusive, pareceu chorar com ainda mais intensidade após cruzar o olhar comigo. O pai, desesperado, fazia que jogava a criança pra cima e para os lados e fazia ruídos que a qualquer um pareceriam apenas ruídos aleatórios, mas para quem prestasse atenção soavam estranhamente como se ele rezasse o pai nosso ao contrário. Tive a impressão de ver a cabeça da criança girando em 360 graus, mas a essa altura eu já alucinava de dor e pode ter sido apenas impressão mesmo.
Eu, que não sou cristã, comecei a cogitar pedir ajuda a tudo que é santo e anjo e até mesmo ao diabo pra me livrar daquele destino. O enviado de Cthulhu parecia saber que aquele era o momento mais propício pra levar alguém - no caso, eu - à insanidade apenas com seus berros guturais.
A criança não calou a boca por todo o trajeto da viagem. Ainda estavam no ônibus quando desci.
Ainda estou orando pela alma dos demais passageiros.
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19.3.14
5.4.13
Dia Z
Quem tem muito pouco tempo para si sabe muito bem que existem apenas três lugares realmente funcionais para se ler um bom livro, independente do dia estar frio ou não e de você ser o Djavan ou não. Por ordem de conforto, são eles: a cama, naqueles minutinhos antes de dormir; o vaso sanitário, naqueles minutinhos de privacidade; e o ônibus, naquele espaço de tempo que pode compreender alguns poucos minutos ou várias horas, a depender da situação do trânsito da cidade em que você vive. Como ler na cama invariavelmente faz com que eu pegue no sono sem nem sentir e acabe deixando o livro todo amassado e babado e sem o marcador de página, e ler por muito tempo nas instalações sanitárias causa hemorroidas (pelo menos pelo que minha mãe me dizia), acabo dedicando aqueles momentos intermináveis de sacolejo rodoviário para botar minhas leituras em dia. Dizem que descola a retina, não sei. Nem sabia que ela era colada, nunca lembrei de perguntar a um oftalmologista se descola mesmo ou se dá pra colar de volta com Super Bonder, mas, mesmo que solte e não dê pra colar de volta mesmo, eu não me importo. Já entro no ônibus com o livro na mão e vou adiantando um ou dois capítulos no caminho pra casa ou pro trabalho.
Hoje não foi diferente, e o livro da vez é "World War Z", de Max Brooks, que peguei emprestado do namorado.
Já chegando perto do meu ponto, lamentei ter que interromper a leitura. Estava numa parte em que alguém contava já se julgar seguro no ponto em que se encontrava, quando de repente um daqueles zumbis sem pernas começa a se arrastar na direção da pessoa pelas costas e... Ouvi um gemido.
Foi aí, inclusive, que levantei os olhos, vi que faltavam apenas três pontos para o meu e concluí que era um bom momento para fechar o livro.
Guardei o mesmo na mochila com todo o cuidado - afinal, não era meu - e foi aí que ouvi o segundo gemido, vindo nitidamente de trás de mim. Cogitei que alguém estivesse talvez fazendo sexo dentro do ônibus, mas logo descartei a ideia. Não era um gemido sexual. Não era sequer um gemido de dor. É o tipo de gemido que a gente faz quando acabou de sair do dentista e ainda tá com a boca torta e anestesiada parecendo o Stallone.
Com o canto do olho, notei alguma movimentação mais ou menos à altura dos bancos. Olhei assustada, e vi que era mesmo uma cabeça. Desci mais os olhos, e dei de cara com um corpo que se arrastava pelo chão do ônibus. Era daí que vinham os gemidos.
Olhei ao redor e constatei que alguns riam da cena, outros olhavam com nojo, alguns ignoravam... Será possível que só eu enxergava o perigo? Seu motorista, pare esse ônibus agora! Cadê meu taco de baseball?
Alguém tem um pé de cabra?
Na falta de arma melhor, me resignei a atacar o zed com minha bolsa mesmo, ainda que isso fosse sinônimo de sacrificar meu querido notebook. Afinal, mais vale ficar sem computador do que ficar sem vida, ou ainda, com uma não-vida, morta-viva, deixa eu parar que já está virando poesia simbolista, certo?
Agarrei firme minha bolsa pelas laterais e me preparei para atacar. E nesse momento o zumbi levantou. Digo, zumbi não. Mendigo. O mendigo levantou, segurou com força na barra do ônibus, soltou mais um gemido profundo e rouco, que eu percebi agora ser um bocejo. Passou alguns segundos dançando no corredor, parecendo indeciso entre o banco vazio à esquerda dele ou seguir pelo corredor. Decidiu sentar.
Aproveitei a brecha para correr pra frente do ônibus. Vai que numa dessas ele se jogava em cima de mim e me mordia, né?
Hoje não foi diferente, e o livro da vez é "World War Z", de Max Brooks, que peguei emprestado do namorado.
Já chegando perto do meu ponto, lamentei ter que interromper a leitura. Estava numa parte em que alguém contava já se julgar seguro no ponto em que se encontrava, quando de repente um daqueles zumbis sem pernas começa a se arrastar na direção da pessoa pelas costas e... Ouvi um gemido.
Foi aí, inclusive, que levantei os olhos, vi que faltavam apenas três pontos para o meu e concluí que era um bom momento para fechar o livro.
Guardei o mesmo na mochila com todo o cuidado - afinal, não era meu - e foi aí que ouvi o segundo gemido, vindo nitidamente de trás de mim. Cogitei que alguém estivesse talvez fazendo sexo dentro do ônibus, mas logo descartei a ideia. Não era um gemido sexual. Não era sequer um gemido de dor. É o tipo de gemido que a gente faz quando acabou de sair do dentista e ainda tá com a boca torta e anestesiada parecendo o Stallone.
Com o canto do olho, notei alguma movimentação mais ou menos à altura dos bancos. Olhei assustada, e vi que era mesmo uma cabeça. Desci mais os olhos, e dei de cara com um corpo que se arrastava pelo chão do ônibus. Era daí que vinham os gemidos.
Olhei ao redor e constatei que alguns riam da cena, outros olhavam com nojo, alguns ignoravam... Será possível que só eu enxergava o perigo? Seu motorista, pare esse ônibus agora! Cadê meu taco de baseball?
Alguém tem um pé de cabra?
Na falta de arma melhor, me resignei a atacar o zed com minha bolsa mesmo, ainda que isso fosse sinônimo de sacrificar meu querido notebook. Afinal, mais vale ficar sem computador do que ficar sem vida, ou ainda, com uma não-vida, morta-viva, deixa eu parar que já está virando poesia simbolista, certo?
Agarrei firme minha bolsa pelas laterais e me preparei para atacar. E nesse momento o zumbi levantou. Digo, zumbi não. Mendigo. O mendigo levantou, segurou com força na barra do ônibus, soltou mais um gemido profundo e rouco, que eu percebi agora ser um bocejo. Passou alguns segundos dançando no corredor, parecendo indeciso entre o banco vazio à esquerda dele ou seguir pelo corredor. Decidiu sentar.
Aproveitei a brecha para correr pra frente do ônibus. Vai que numa dessas ele se jogava em cima de mim e me mordia, né?
13.7.09
Papo de ônibus I
- Você é religiosa?
- Não, por quê?
- Porque você tem cara de mórmon.
- Ufa, por alguns instantes achei que você fosse tentar me converter.
- Não, eu desisti de igreja. Muita falcatrua. Então, você é ou não é?
- O quê?
- Mórmon, ué.
- Ah. Não.
- É que você tem cara de...
- Americana?
- É.
- Não, não sou.
- Ah.
- Por que largou a igreja?
- Acho que todo mundo respira o mesmo ar, então é ridículo temer o inferno. Todo mundo menos eu, claro.
- Como assim?
- Eu roubo o ar alheio. Quer ir à praia comigo qualquer dia?

Papo de ônibus I by Dianna Montenegro is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.
- Não, por quê?
- Porque você tem cara de mórmon.
- Ufa, por alguns instantes achei que você fosse tentar me converter.
- Não, eu desisti de igreja. Muita falcatrua. Então, você é ou não é?
- O quê?
- Mórmon, ué.
- Ah. Não.
- É que você tem cara de...
- Americana?
- É.
- Não, não sou.
- Ah.
- Por que largou a igreja?
- Acho que todo mundo respira o mesmo ar, então é ridículo temer o inferno. Todo mundo menos eu, claro.
- Como assim?
- Eu roubo o ar alheio. Quer ir à praia comigo qualquer dia?
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8.7.09
Uma questão de destino
Fionn-Briana: Oi.
AnnaKarenina: Já vou avisando que detesto caçadoras.
Fionn-Briana: Como assim, caçadoras?
AnnaKarenina: Essas meninas que chegam aqui largando um monte de cantada de caminhoneiro. Salas de bate-papo lésbicas são suficientemente insuportáveis sem esse tipo de coisa.
Fionn-Briana: Entendo o que quer dizer. Também odeio esses lugares.
AnnaKarenina: Por que está aqui, então?
Fionn-Briana: Minha namorada me deu um pé, e uma amiga hétero me convenceu de que talvez fosse uma boa idéia procurar pessoas novas.
AnnaKarenina: Temos a mesma história. Por que terminaram?
Fionn-Briana: Eu fui uma insensível, e não consegui compreender o jeito dela demonstrar que me amava. E ela era meio problemática demais. Vocês?
AnnaKarenina: A mesma coisa. Só que ela também foi meio insensível. E talvez eu também seja meio problemática.
Fionn-Briana: Quantos anos você tem?
AnnaKarenina: O que isso importa? Minha idade ou meu nome não me definem. Gostei de você. Quero conhecer sua alma primeiro, deixa esses detalhes superficiais para depois.
Fionn-Briana: Tudo bem. Podemos, pelo menos, sair deste chat? Já que nós duas odiamos este ambiente?
AnnaKarenina: Pode ser. Qual seu MSN?
Fionn-Briana: É meuapelido@meuservidor.com.
AnnaKarenina: Não acredito. Thais?
Fionn-Briana: Elisa?
AnnaKarenina: Típico. Tanta mulher nesse chat e a única que eu acho interessante é minha ex.
Fionn-Briana: Até que faz sentido, já que, aparentemente, nós ainda não nos superamos.
AnnaKarenina: Talvez você tenha razão. Quer sair para tomar um sorvete e tentar passar a limpo essa nossa história?
Fionn-Briana: Será que devemos?
AnnaKarenina: Bom, pra nós duas nos encontrarmos numa sala de bate-papo depois de tanto tempo, sendo que as duas odeiam esse tipo de coisa... Só pode ser destino. E aí, topa?
Fionn-Briana: Pode ser. Por que não?
AnnaKarenina: Passo aí em uma hora.
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6.7.09
A princesinha do lotação
A pequena princesinha subiu apressada em seu ônibus-coche de faz-de-conta e, por trás da máscara, piscou seus olhinhos curiosos. Olhou para seus súditos-passageiros e pareceu dar-se conta, de estalo, que não cabia bem a uma princesa mostrar-se amarrotada como estava. Alisou as pregas da saia muito colorida, ajeitou os longos cabelos de rapunzel-sem-trança, cruzou as mãozinhas minúsculas e delicadas sobre os joelhos e sorriu um sorriso de mil sóis. Ou antes, vinte e outo sóis, perfeitamente brancos. E assim ficou, infante com ares de grande dama, sentada comportadamente até sua mãe pagar a passagem ao cobrador.
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