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19.2.19

Profissional

O pastel de queijo com suco de acerola já não passava de uma vaga lembrança e eu ainda tinha quarenta minutos pra matar antes de ir para o trabalho, então sentei no murinho baixo do lado de fora do Sumaré e acendi um cigarro. Quando chego mais cedo, gosto de sentar naquele murinho e observar as pessoas - a essa hora da tarde, ninguém passa por ali sem uma missão específica, e tudo é tão agitado e ao mesmo tempo tão firmemente plantado na rotina que chega ser tranquilizador. É quase como se eu fosse invisível...

...exceto que, desta vez, eu não estava invisível. Nem percebi direito quando ele chegou, absorta que estava em observar o ir e vir alheio. De uniforme de trabalho com logotipo de alguma empresa que não reconheci, a camisa verde aberta até o penúltimo botão, um chapeuzinho preto na cabeça, a pele bem escura manchada aqui e ali pelo sol e a roupa coberta de uma mistura de poeira, cimento e manchas velhas de tinta. Só percebi que estava ali quando ouvi o barulho de seus pertences sendo arremessados no canteiro à minha esquerda. Não precisei olhar duas vezes para perceber que o rapaz tinha bebido mais até aquele momento do que eu nas férias inteiras.

Quando ele percebeu que tinha sido percebido, murmurou algo. Achei que fosse "cigarro", e, sem saber se era uma reclamação, uma tentativa de me dar conselhos ou um pedido, desviei os olhos. De canto de olho, no entanto, ainda consegui reparar quando ele começou a mexer na pilha de pertences, parecendo procurar algo.

- Ei, moça!

Olhei para ele por cima dos óculos.

- !#$#$$¨%¨@$#!#$@!@#você quer?

- Perdão, não entendi.

- Eu achei um pacote de hális aqui, você quer?

- Hein? Não, desculpa, estou de boa, mas obrigada.

- Pega aí, ninha.

- Não, valeu mesmo.

- Pegaí que é pra eu não ficar nervoso.

- ... tá certo. Já que é assim, obrigada. Quer um cigarro em troca?

Mais ou menos nessa hora que um segurança do shopping parou mais perto de nós e ficou ali, olhando discretamente na nossa direção.

- Em troca, não. Mas se você quiser me dar um cigarro só porque é legal, eu aceito.

Peguei o maço na mochila e estendi um cigarro para ele, que ele prontamente encaixou atrás da orelha. Guardei a bala no bolso.

- Você é muito simpática.

- Muito obrigada.

- Não, sério mesmo. Você é gente boa. Um ser humano decente. Coisa rara hoje em dia. Eu tô bem bêbado...

- ...é, eu percebi.

- ...mas olha, eu sou profissional. Digo, não bêbado profissional. Eu tenho uma profissão.

- É bêbado só por esporte, então?

- Aí sim, você sabe das coisas! Mas eu trabalho com construção.

- Por isso o uniforme sujo de cimento?

- É, eu tô todo sujo, que merda, desculpa moça, é chato eu estar todo sujo, mas aí o serviço acabou cedo e eu fui beber. Minha mãe... - e escondeu o rosto nas mãos e virou para o outro lado.

- Desculpa, você está bem? Aconteceu algo com sua mãe?

- Não, ela tá bem, é só que só de pensar no que ela ia dizer se me visse assim eu fico com vontade de chorar. Qual seu nome?

- Dianna.

- O meu é... é... olha, pode me chamar de Lino, tá? Tipo: Liiiiiinoooooo. Parece lindo, mas é Lino. Lindo é seu nome. Dianna. Você tem mãe?

- Ela é falecida há alguns anos.

- Ai, que triste. Meu pai também. Mas é recente. 

- Bom, sinto muito.

- Você é casada?

- Sou. - Nessa hora, caiu a ficha de que eu estava virtualmente sozinha, conversando com um desconhecido muito bêbado no meio da rua. Não passava pensamento com azeite.

- Você é legal. Não queria perder o contato. Você mora onde?

- ... - cuspi o primeiro nome de bairro que não fosse o meu que me veio à cabeça.

- Ah... legal, legal. Você é legal. A gente pode se ver num dia em que eu esteja mais sóbrio?

- Não sei se meu marido ia gostar.

- Ahhhhh. Hahaha. É verdade. Você é direita mesmo, gosto de você. Até queria dizer que... Ai, mas eu fico com vergonha.

- É, bom, eu preciso ir trabalhar.

- Negona... desculpa, negona é forma de dizer, tá? É carinhoso.

- Eu sei, relaxe.

- Eu preciso te confessar um negócio. É sério.

- ... diga aí.

- Eu nunca peguei uma mulher... assim, uma mulher bonita.

Não consegui conter uma gargalhada.

- É sério! Eu juro! Só peguei mulher feia a vida toda!

- Olha... Lino, né? Foi um prazer te conhecer, mas deu minha hora de verdade. - Estendi a mão para o rapaz. Achei que era o mínimo que eu devia pela gargalhada. 

Ele não fez nem sinal de retribuir o aperto de mão. Me olhou desconfiado, como se algo não estivesse certo.

- Não vai apertar minha mão não, rapaz?

- Mas você já vai?

- Já, tenho horário, eu falei. Vai pra casa, bicho. Cê tem mãe, ela deve estar preocupada.

Ele continuou me olhando como se um terceiro braço tivesse saído do meu pescoço. Joguei a mochila nas costas e fui pro trabalho, agora realmente na minha hora. Lino ficou lá. A bala ainda está no meu bolso. Espero que tenha chegado vivo em casa.

19.3.14

Demônio

E lá se ia o ônibus sacolejante, meio vazio já no final da hora do rush. Eu ia bem pimpona na janelinha, torcendo para que a brisa quase fresca da noite soteropolitana fizesse algum milagre na minha dor de cabeça. Não fez. Continuei sentindo como se meu cérebro estivesse tentando se expandir para além dos débeis limites da minha caixa craniana. Tentei remédio, cochilo, cachaça, enfim; de tudo e mais um pouco, mas nada de nada adiantou. Eu começava a cogitar trepanação como medida paliativa quando o demônio adentrou o coletivo.

Demônio, de acordo com a mitologia cristã, é um anjo que se rebelou contra deus e passou a lutar junto às forças do inferno na eterna batalha entre o bem e o mal. De acordo comigo mesma, é uma criança. Uma criança de colo. Uma criança de colo bem específica, que entrou no ônibus com o pai e, tão logo se aboletaram no banco vazio imediatamente atrás do meu, começou a chorar como se toda a felicidade do mundo tivesse sido sugada para dentro da cabeça do pai, onde insistia em ficar batendo, talvez tentando libertá-la. Olhei pra trás com o olhar mais carregado de ódio que minha cabeça explodindo me permitiu, e a criança sorriu para mim.

Não era um sorriso do tipo bandeira branca.

A criança sorriu para mim o sorriso mais malévolo que já vi uma criança sorrir, e olha que dou aula pra crianças. Sem parar de chorar por um segundo. Inclusive, pareceu chorar com ainda mais intensidade após cruzar o olhar comigo. O pai, desesperado, fazia que jogava a criança pra cima e para os lados e fazia ruídos que a qualquer um pareceriam apenas ruídos aleatórios, mas para quem prestasse atenção soavam estranhamente como se ele rezasse o pai nosso ao contrário. Tive a impressão de ver a cabeça da criança girando em 360 graus, mas a essa altura eu já alucinava de dor e pode ter sido apenas impressão mesmo.

Eu, que não sou cristã, comecei a cogitar pedir ajuda a tudo que é santo e anjo e até mesmo ao diabo pra me livrar daquele destino. O enviado de Cthulhu parecia saber que aquele era o momento mais propício pra levar alguém - no caso, eu - à insanidade apenas com seus berros guturais.

A criança não calou a boca por todo o trajeto da viagem. Ainda estavam no ônibus quando desci.

Ainda estou orando pela alma dos demais passageiros.

18.11.13

Batalha nossa de cada dia

Não é como se eu já não estivesse mal. Não é como se meu mundo já não estivesse à beira de um precipício, pendurado pelos dedos e no final de suas forças. Não é como se a porra da chuva que as nuvens prometiam não refletisse meu estado de espírito.

Não é como se eu precisasse que o lugar ao lado do meu no ônibus fosse ocupado por um babaca, desses com pinta de que batem na mulher, abusam dos filhos e mexem com qualquer mulher que passar na rua confortavelmente instalados em seus tronos de rei-do-boteco enquanto tomam sua cervejinha de fim de tarde de domingo.

Eu não precisava, mas é claro que tudo isso aconteceu. E o merda do meu lado sentou ocupando todo o espaço que restava entre eu e o resto do mundo, e ainda tomou mais um pouquinho do meu. Fiquei incomodada, óbvio, mas não tinha muito o que fazer - empurrar o cara um pouquinho mais pro lado requereria tocar nele deliberadamente, e isso era tudo que eu não queria fazer. Eu sentia seu braço pegajoso de suor de fim de expediente encostando no meu braço gelado de acabei-de-sair-do-ar-condicionado, e o nojo que isso me causava fez com que eu folheasse umas dez páginas do meu livro sem conseguir prestar atenção em nenhuma das palavras.

De canto de olho, olhei na direção dele. O filho da puta sorriu, e, pelo sorriso, senti o cheiro de cachaça. Um dos palpites estava certo. Eu não queria saber dos outros. Eu não sorri de volta. Voltei os olhos pro livro, e senti o corpo fétido - a essa altura, não sabia se o cheiro forte de suor-e-álcool existia de verdade ou se era construção da minha imaginação, mas eu já estava pra lá de nauseada e querendo vomitar -, seu corpo fétido de camisa de botão e calça jeans me pressionando um pouco mais contra a janela do ônibus, milímetro a milímetro, numa dominação lenta e discreta. Eventualmente, eu não tinha mais espaço para manusear meu livro, e o animal me cercando, sorrindo para mim seu sorriso vulgar e letárgico, e meus sentidos disparando em alerta contra essa ofensa que agora eu tinha certeza que era proposital.

Levei os olhos à janela em busca de socorro ou qualquer coisa que pudesse me libertar dessa situação desagradável, e não foi sem alívio que notei que meu ponto se aproximava. Enfiei o livro na bolsa e, com a voz mais grave que consegui encontrar - pelo meu estado de espírito, temi que a voz saísse parecida com um miado histérico de filhote de gato - pedi licença. Ele fez ouvidos moucos. Pedi licença de novo, já em pé. Ele me olhou como se eu fosse um pedaço de sujeira de cachorro que tivesse ficado preso em seus sapatos novos. Comecei a forçar a passagem.

Ele virou de lado no banco e, enquanto eu passava espremida entre suas pernas e o banco da frente, senti sua mão na minha bunda. Ainda sussurrou quando saí, alto o bastante para que eu ouvisse, baixo demais para qualquer outra pessoa - "gostosa, se te pego na rua escura te faço um estrago". Desci correndo do ônibus, agarrando a bolsa contra o peito e caminhando a passos rápidos sob a chuva que já começara a cair, com medo da própria sombra.

E é por isso que sou a favor de porte de armas.

5.4.13

Dia Z

Quem tem muito pouco tempo para si sabe muito bem que existem apenas três lugares realmente funcionais para se ler um bom livro, independente do dia estar frio ou não e de você ser o Djavan ou não. Por ordem de conforto, são eles: a cama, naqueles minutinhos antes de dormir; o vaso sanitário, naqueles minutinhos de privacidade; e o ônibus, naquele espaço de tempo que pode compreender alguns poucos minutos ou várias horas, a depender da situação do trânsito da cidade em que você vive. Como ler na cama invariavelmente faz com que eu pegue no sono sem nem sentir e acabe deixando o livro todo amassado e babado e sem o marcador de página, e ler por muito tempo nas instalações sanitárias causa hemorroidas (pelo menos pelo que minha mãe me dizia), acabo dedicando aqueles momentos intermináveis de sacolejo rodoviário para botar minhas leituras em dia. Dizem que descola a retina, não sei. Nem sabia que ela era colada, nunca lembrei de perguntar a um oftalmologista se descola mesmo ou se dá pra colar de volta com Super Bonder, mas, mesmo que solte e não dê pra colar de volta mesmo, eu não me importo. Já entro no ônibus com o livro na mão e vou adiantando um ou dois capítulos no caminho pra casa ou pro trabalho.

Hoje não foi diferente, e o livro da vez é "World War Z", de Max Brooks, que peguei emprestado do namorado.

Já chegando perto do meu ponto, lamentei ter que interromper a leitura. Estava numa parte em que alguém contava já se julgar seguro no ponto em que se encontrava, quando de repente um daqueles zumbis sem pernas começa a se arrastar na direção da pessoa pelas costas e... Ouvi um gemido.

Foi aí, inclusive, que levantei os olhos, vi que faltavam apenas três pontos para o meu e concluí que era um bom momento para fechar o livro.

Guardei o mesmo na mochila com todo o cuidado - afinal, não era meu - e foi aí que ouvi o segundo gemido, vindo nitidamente de trás de mim. Cogitei que alguém estivesse talvez fazendo sexo dentro do ônibus, mas logo descartei a ideia. Não era um gemido sexual. Não era sequer um gemido de dor. É o tipo de gemido que a gente faz quando acabou de sair do dentista e ainda tá com a boca torta e anestesiada parecendo o Stallone.

Com o canto do olho, notei alguma movimentação mais ou menos à altura dos bancos. Olhei assustada, e vi que era mesmo uma cabeça. Desci mais os olhos, e dei de cara com um corpo que se arrastava pelo chão do ônibus. Era daí que vinham os gemidos.

Olhei ao redor e constatei que alguns riam da cena, outros olhavam com nojo, alguns ignoravam... Será possível que só eu enxergava o perigo? Seu motorista, pare esse ônibus agora! Cadê meu taco de baseball?
Alguém tem um pé de cabra?

Na falta de arma melhor, me resignei a atacar o zed com minha bolsa mesmo, ainda que isso fosse sinônimo de sacrificar meu querido notebook. Afinal, mais vale ficar sem computador do que ficar sem vida, ou ainda, com uma não-vida, morta-viva, deixa eu parar que já está virando poesia simbolista, certo?

Agarrei firme minha bolsa pelas laterais e me preparei para atacar. E nesse momento o zumbi levantou. Digo, zumbi não. Mendigo. O mendigo levantou, segurou com força na barra do ônibus, soltou mais um gemido profundo e rouco, que eu percebi agora ser um bocejo. Passou alguns segundos dançando no corredor, parecendo indeciso entre o banco vazio à esquerda dele ou seguir pelo corredor. Decidiu sentar.

Aproveitei a brecha para correr pra frente do ônibus. Vai que numa dessas ele se jogava em cima de mim e me mordia, né?

21.3.13

Surrealidades da vida


No ponto de ônibus escuro, sombrio e deserto da Federação, estava eu sozinha esperando o transporte milagroso que me levaria para casa. De repente, não mais que de repente, surge das trevas profundas que me cercavam um grupo de rapazes jovens, todos trajando roupas da Cyclone, gesticulando muito e falando alto naquele dialeto próprio deles. Eis que um deles se aproxima de mim e para, bem na minha frente, fixando os olhos em mim.

A essas alturas, sozinha como estava, eu não poderia sequer emitir um flato, já que o buraco de saída dos mesmos estava tão fechado que já tinha deixado de existir.

Ele manteve o olhar fixo em mim por uns segundos, desviou o mesmo para meu cigarro aceso já pela metade, e exclamou:

"PORRA VÉI, ISSO SIM É QUE É UMA BRASA DE RESPEITO!"

E seguiu seu caminho.

---

Uns poucos minutos depois, desci do ônibus no ponto final perto de minha casa. Andava ainda no modo "não passa nem pensamento", já que minha vizinhança não inspira confiança alguma, quando ouvi passos extremamente apressados atrás de mim. Olhei pra trás e era uma velhinha, dessas bem velhinhas mesmo, que a gente imagina indo dormir depois de alimentar os gatos a uma hora dessas da noite. Ela me viu e começou a tagarelar, como se continuasse uma conversa que eu não me lembrava de ter existido.

"Pois é menina, sempre que eu desço do ônibus e tô chegando perto de casa eu fico desesperada pra fazer xixi."

"Como é, senhora?"

Sempre andando depressa, a essas alturas quase me ultrapassando, ela explicou.

"É. Tem banheiro lá perto de onde eu trabalho, mas eu odeio usar banheiro público, então seguro até chegar em casa. O problema é que, quanto mais perto chego, maior a vontade, né? Então eu já bato o portão de casa com tudo querendo começar a pingar. E corro pro banheiro. O problema é que o pessoal fica querendo parar pra conversar, e eu fico tendo que segurar mais. Odeio parar pra conversar na rua quando tô apertada. Acontece com você?"

"É... normal, acho."

"Pois é, ainda mais numa rua escura dessas, fica perigoso, aí dá medo, com medo dá mais vontade ainda de fazer xixi, né?"

"É..."

A essas alturas, não ouvi mais o que ela dizia. Ela já estava a uns bons metros à minha frente, e continuava a tagarelar, agora com um rapaz que tinha surgido sabe-se lá de onde.

Até agora me pergunto: se ela não gostava de conversar... por que, meu deus, por quê?

5.11.12

Rapaz bem nascido procura moça direita para casar

Nove e vinte e cinco e a porra do ônibus de nove e dez ainda não apareceu. Não que ônibus atrasar em Salvador seja grande novidade. Sentei na mureta do prédio e acendi um cigarro, apelando pro velho truque do summon buzu. E lá se foi metade do cigarro e nada, e eu sozinha no ponto deserto, começando a rezar internamente pra tudo que é deus.

Aí que eu senti uma cutucada no braço e já olhei pro lado assustada né, vai saber, a Graça anda perigosa, vai que... E era um cara. Com a cara mais inofensiva do universo, de camisa xadrez pra dentro da calça jeans folgada e botas de couro, barba, óculos e uma barriga de fazer inveja na minha, cultivada a anos de cevada. E falando algo que eu não entendi.

- Oi?
- Do you speak English?
- Ahn... Yes, yes I do.
- Yay! Where do you live?
- Ahn... aqui em Salvador mesmo.
- Ah, mas você é de que país?
- ...sou brasileira.
- Ah é? Que bom! E você mora por aqui?
- Mais ou menos, tô esperando o ônibus.
- Ah. Posso pegar seu telefone?
- Oi?
- Meu tio vive dizendo que tá na hora de eu arrumar uma moça direita, que eu preciso namorar, mas tem que ser moça direita, hein! Que é pra casar. Que ele banca o casamento todo, e... posso sentar do seu lado? Então. Ele banca o casamento, champanhe, festa, cachaça, o que for, hahaha! E aí, você tem Oi? Anota seu número aí pra mim. Aliás, qual seu nome?
- Er... Dianna.
- Prazer, Dianna, eu sou Fred. Anota o número do seu Oi aí pra mim - e me estendeu o celular.

Nessa hora, senhoras e senhores, eu fiz o impensável. Eu realmente anotei o número do meu Oi no celular dele. Só não avisei, é claro, que o número está desativado há mais de dois anos, mas ele pediu meu Oi...

- Então, anota aí o meu. É Oi, hein? E meu nome é Fred. F, R, E, D. Pode me ligar a qualquer hora. Sou rapaz direito, acordo bem cedo, seis da manhã já tô de pé. Mas se quiser conversar com alguém meia noite, uma da manhã, eu ainda tô acordado também.
- Nossa, e você dorme que horas?
- Eu durmo pouco, é, eu durmo pouco. Só domingo que às vezes eu durmo uma meia horinha depois do almoço, aí eu vou no Shopping Barra passear, a menina de lá até falou que arranja passaporte pra mim. Mas eu sou de boa família, tenho uma fazenda de cavalos... Eu tava procurando uma esposa que falasse inglês, por isso que eu te perguntei se você fala inglês, porque eu não quero morar em Salvador pra sempre, sabe... A moça do shopping falou que arranja meu passaporte, daí é muito mais legal que ir até Recife só pra tirar o passaporte, né?
- Mas passaporte você pode tirar aqui. O visto é que é em Recife. Ou em São Paulo.
- Ah, não, ela disse que arranjava pra mim. Prefiro Recife. São Paulo é muito violenta. Você é americana?
- Não, sou brasileira.
- Mas não é daqui não, né?
- Não, sou do Rio.
- Olha que legal! Já tenho onde ficar quando resolver ir ao Rio!
- Nah, nem eu tenho direito onde ficar quando for pra lá.
- Por quê?
- Porque mal tenho família lá.
- Ah, tá bom. Nem quero mesmo ir pro Rio. Eu quero é ir pra Londres, ou pra Paris, ou pra Bélgica, ou pra França...
- Mas aí você tem que aprender francês também.
- Mas eu falo francês!
- É mesmo?
- É sim! Eu sempre fui muito bom em português, e quando a gente é bom em português, a gente é bom em francês também, né?
- Não é bem assim...
- É porque as duas línguas são parecidas, as duas vêm do latim. Quer ver?
- Fala aí.
- Hable tu français?
- Non, je ne parle pas français.
- Olha, tá sabendo! Então, você é casada?
- Não, sou noiva.
- Tá brincando?
- Tô não, olha aqui - e mostrei minha aliança de compromisso, na esperança de que isso encerrasse o assunto.
- Ai... quantos anos ele tem?
- 20 e poucos.
- Nossa, fedendo a leite! Você precisa de um homem mais velho, que possa prover por você.
- E quantos anos você tem?
- 23.
- ...
- Mas você veio fazer o que em Salvador?
- Vim pra me casar.
- Então casa comigo!
- Er. Você é muito legal, Fred, mas... olha! Meu ônibus! Tchau, prazer em te conhecer.
- Me liga, viu!
- Ligo sim.
- Beijo!

E pegou minha mão. E só soltou quando a porta do ônibus estava pra fechar nos dedos dele.

A gente faz qualquer coisa pra não ficar sozinha no ponto de ônibus tarde da noite, viu?

9.12.11

Sobre putas e amadoras

- Eu gosto mesmo é de mulher - ela disse, me olhando nos olhos. - Tenho um pouco de nojinho de pau, minha relação com os homens é puramente profissional.

- Engraçado. Eu já tinha ouvido falar que a maioria das garotas de programa e atrizes pornô tinham essa vibe, mas achava que era lenda. E porque escolheu essa... digamos, área de especialização?

- Preciso ganhar a vida né, meu. Trabalhando, todo mundo se fode de um jeito ou de outro. Pelo menos tô fodendo alguém também. Fora que sempre rola de encontrar uma cliente legal que nem vocês, aí fica mais prazeroso trabalhar. Me empresta o isqueiro?

- Tá aqui. Vê se não acaba com todo o meu fogo ainda aqui, hein.

Ela riu. Tinha o riso gostoso de ouvir, Morena. Era daquelas pessoas bem expansivas, brincando com todo mundo, extremamente alto astral. Depois de dez minutos de conversa, eu já tinha esquecido em que tipo de lugar e situação me encontrava. Aliás, depois de dez minutos de conversa, e todo o vinho bebido antes, e a vodka, e o cheiro intoxicantemente doce do ambiente, esqueci até que era minha primeira vez num puteiro. A outra menina também era divertida. Minha amiga, mais experiente, tinha tratado de toda a negociação. Eu estava ali só pra curtir o momento.

Depois de alguns detalhes cuidadosamente acertados – preço, quantidade de tempo, local, etc – entramos no táxi rumo ao motel, sob os olhares medianamente curiosos e abertamente lascivos dos outros clientes do lugar. Eu mesma ainda estava meio em choque. Quando minha amiga sugeriu irmos a um brega, uma ideia que pareceu consideravelmente mais atraente à medida em que as garrafas de vinho vazias se acumulavam no canto da mesa, imaginei que a gente ia só pra ver qual era a do ambiente. Não passou pela minha cabeça sair de lá acompanhada de alguma menina.

Chegamos a um motel que eu só conhecia de passar na frente da porta, e pensei com carinho na ironia das coisas – logo do outro lado da rua, o prédio da primeira menina com quem dormi. Paguei o táxi e subimos para o quarto. Ela já foi tirando os sapatos e subindo o vestido impossivelmente curto, deixando à mostra uma calcinha minúscula de renda vermelha. Minha amiga e a outra menina seguiram o exemplo, e eu não me fiz de rogada – chutei de qualquer jeito minhas sandálias rasteiras prum canto qualquer do quarto e me sentei na cama.

Júlia e Morena já estavam aos amassos, as bocas coladas como se suas vidas dependessem disso. Outro tabu, outra lenda quebrada – a de que puta não beija na boca. Dei de ombros e fui conversar com a outra. Dentro de pouco tempo, nossas roupas já estavam no chão e nossas pernas entrelaçadas. Ela olhou meio divertida pra mim e perguntou se eu já tinha feito sexo com mulher antes. Para ela, eu era a cara da heterossexualidade. À guisa de demonstração, subi nela e mostrei todos os meus conhecimentos, enquanto ela ria e dizia que eu era sensível demais. Minha sensibilidade escorria por entre nossas pernas, ecoava nas paredes do quarto, marcava-se de leve nas costas morenas e tatuadas da mulher. Os seios dela tinham gosto doce. Achei que combinava com seu nome adotado – Morango.

Quando terminamos, meu coração aos saltos dentro do peito, percebemos que Júlia e Morena tinham sumido no quarto contíguo. Eu estava exausta, mas ainda tínhamos algumas horas pela frente. Tomei uma cerveja para me recuperar do meu orgasmo barulhento e partimos para o round dois.

- Bonita tatuagem, a sua. O que são essas flores?

- É uma trepadeira. Fiz na prisão.

Minha curiosidade foi atiçada, mas estava entretida demais segurando o riso para perguntar porque ela esteve na prisão. De mais a mais, achei indelicado, por mais que, àquela altura, ela já soubesse que eu era escritora e que minha curiosidade era estritamente profissional. Ela percebeu meu desconcerto.

- Que foi, amiga?

- Achei curioso uma prostituta ter uma trepadeira tatuada nas costas, só isso.

Ela me jogou um travesseiro e riu.

- Pra quem é virgem de puta, você tá muito engraçadinha. E eu aqui achando que você era toda inocente...

- Você também achou que eu era hetero, gata. Aparências enganam.

Ela puxou um cigarro da minha carteira, acendeu e deu um gole na cerveja, à essa altura já morna. Olhou pra mim de cima a baixo, eu que me encontrava estranhamente confortável com minha nudez na frente de uma total desconhecida. Acedeu com um ar de aprovação.

- Vamos comigo pra praia amanhã?

- Como é?

- Um cliente me chamou pra fazer um programa de dupla na praia, mas minha amiga não vai poder ir. Não vai rolar de ir sozinha. Vem comigo!

- Linda, numa boa... Você mesma jogou na minha cara ainda agora que eu sou virgem de puta. Agora tá me chamando pra fazer programa também? Só se o cara quiser que a foda seja registrada em um conto erótico e for exibicionista. Ainda não tô na vibe de curtir uma onda dessas não.

- Que pena, ia ser legal ter você lá.

Nos enrolamos nas toalhas e fomos no quarto ao lado ver como nossas amigas estavam. Sentadas na cama, conversavam alegremente. Morango gritou, “ei, minha gente, vocês não fizeram amorzinho gostoso ainda não?”

As duas riram e nos chamaram para sentar na cama. Morena puxou o celular e me chamou mais pra perto.

- Olha aqui - começou a me mostrar fotos - a gente tirou foto com a Thammy Gretchen. Não é legal?

Olhei para o visor do Galaxy e lá estavam as duas, com a filha da rainha do rebolado no meio. Dei risada.

- Vocês foram tirar foto com ela porque ela apoia a profissão ou porque ela é do babado?

- Os dois, amiga. Tô te falando. Pau é trabalho, a gente curte mesmo é chupar buceta. Olha, tem foto com a Gretchen também, e essa é minha irmã, e...



Passava das quatro e meia da manhã quando o táxi finalmente encostou na frente do meu prédio. O taxista, amigo das meninas, ia levar Morango para casa, depois de me deixar. Júlia e Morena ficaram pelo motel mesmo, o programa delas era um pouco mais longo. Me despedi da menina com um selinho.

- Foi um prazer te conhecer, viu, linda?

- Você também. Foi legal. Pena que você não curte praia, podia ir junto só pela curtição.

- Talvez da próxima vez que você estiver em Salvador - disse, enquanto batia a porta do carro.

Ela abriu a janela e me chamou de volta.

- Escuta, você é mesmo escritora ou falou isso só pra tentar impressionar?

- Sou mesmo escritora. Te juro que meu interesse hoje a princípio era puramente profissional.

- O meu, a princípio, também, mas as coisas mudam, né. Então, posso te pedir uma coisa?

- Pode. Se der, eu faço.

- Escreve sobre a gente.

26.11.11

Guilherme

Eu tinha lá meus 16 anos e tava às voltas com problemas típicos de uma adolescente de seus 16 anos. Tá, típicos porra nenhuma, a não ser que seja hora de abandonar a fé na humanidade e achar que todo mundo aos 16 anos é ou foi que nem eu era nessa idade. Deixa eu começar essa bosta de novo.

Eu tinha lá meus 16 anos e tinha acabado de chegar em casa, podre de bêbada e coberta de hematomas de skatista frustrada, às 11 da noite de uma quarta-feira. Pra melhorar o quadro, tinha uma prova de matemática no dia seguinte de tarde para a qual não tinha estudado porra nenhuma e eu já era repetente, se me fudesse de novo meu pai ia metaforicamente comer meu rabo. Entrei em casa, então, pé ante pé – falhando miseravelmente em ser silenciosa, claro – e me enfiei no quarto pra tentar fazer com que aqueles números fizessem algum sentido na minha cabeça entoxicada. Mal tinha tirado os tênis sujos e arrebentados e aberto o livro no colo quando ouvi as batidas na porta.

Minha mãe, com cara de estar tão fora do ar quanto eu, tava só de calcinha e sutiã. Nada de muito incomum, considerando que morávamos só nós duas e ela sempre foi meio adepta do naturismo. O problema é que quando eu cheguei a porta do quarto dela tava fechada, o que me fez pensar na hora que algum dos “amigos” dela da internet estava na área. O cheiro forte de maconha vindo da porta vizinha entreaberta me fez identificar quem era.

- O Guilherme tá aí, né?
- Tá sim, filha. E ele quer falar com você. Perguntou se você queria dar uns pegas.

Olha, eu até que gostava desse cara. Era bem mais novo que minha mãe – apesar de ainda bem mais velho que eu – e curtia uns sons bem loucos. Até era meio gostoso, mas eu olhava pra ele daquele jeito “quando eu crescer quero arrumar um peguete tipo assim”, sabe? Era como se fosse aquele tio-irmão-mais-novo-dos-pais que levam a gente pra putaria escondido, acabam virando amigões e péssima influência, que todo mundo menos eu teve em algum momento da vida. E fumava pra caralho, e me ajudou a convencer minha mãe que eu não estava vivendo uma espécie de Cristiane F. cover só porque estava andando com punks e usando drogas leves. Mas eu nunca tinha fumado com ele antes. Pareceu uma idéia legal.

- Beleza, deixa só eu terminar com esse logaritmo aqui que eu já vou.

Depois de tentar umas três vezes encontrar algum sentido na merda que eu estava fazendo com aqueles números, toquei o foda-se e entrei no quarto escuro. Guilherme me esperava, em pé, encostado na parede do quarto, só de zorba branca e com um novo baseado, ainda virgem, entre os dedos. Acho que o álcool me ajudou a achar aquilo tudo muito normal, ou então o meu senso de normalidade já tava bem fodido àquela altura, e sentei na beira da cama.

- Vai acender essa porra aí ou vai ficar só de enfeite, Gui?
- Porra, Leti, você é tão selvagem quanto tua mãe, sabia? - ele riu da minha cara, e me entregou o beck bonitinho, bem fechadinho, como por muito tempo eu não fui capaz de fechar - Faz as honras.

Peguei meu isqueiro no bolso da calça rasgada e acendi. A erva era bacana, subiu gostoso pra cabeça. Dei uns dois tragos e passei a bola.

- Seguinte, guria. Tem um lance que preciso conversar meio a sério contigo.

Olhei de rabo de olho pra minha mãe, que tinha se deitado do outro lado da cama. Ela não fumava, dizia que nunca teve coragem, mas curtia ficar por perto quando eu fumava em casa porque gostava do cheiro. Acho que na real ela curtia era ficar meio marolada, até fiz algumas piadas com ela sobre isso, mas ela jurava que nunca bateu nada. Dessa vez ela tava quieta. Era uma situação muito, muito esquisita. O clima parecia tenso, ela quieta ali do lado, o namorado dela de cueca, o quarto escuro e a fumaça rodopiando no ar parado de início de primavera. Olhei pro cara, os olhos já meio pesados.

- Falaí, brother.
- Você sabe que eu gosto da tua mãe pra caralho, né?
- Espero que sim, porque você só vive aqui agora. Tava me perguntando quando que vocês iam me pedir pra parar de te chamar de Gui e começar a chamar de, sei lá, padrastinho ou qualquer merda do tipo.
- Gracinha. Mas tipo que eu sempre tive uma espécie de fantasia, tá ligado?
- Tipo de super homem? - ri, meio chapada, da minha própria piada sem graça.
- Não, porra. Fantasia, fantasia. Ah, qual é, Leti, você sabe do que eu tô falando. Tu pode ter essa cara de santa e convencer meia dúzia de pessoas que não te viram mais que duas vezes na vida que tu presta, mas na real não é como se você fosse uma virgenzinha inocente.
- Tá, cara, fantasia. Saquei. E o que é que isso tem a ver comigo?
- Então. A fantasia era que um dia eu ia conhecer uma mamãe enxuta que tivesse uma filhinha gostosa e...
- ...cara, para. Para tudo. Você não vai dizer o que eu acho que vai dizer.
- ...então. Você é bem gostosinha, com esse jeito toda rebelde revoltada porra louca. Podia ser um lance bem bacana. Topa?
- Brother, essa erva é do caralho mesmo. Cê tá alucinando aí. Quantos desses tu já fumou antes de eu chegar mesmo?
- Tô falando sério, porra.

Desacreditei. Não, sério, desacreditei total. Olhei pra trás e minha mãe olhava pro teto, como se não estivesse ali. Filha da puta. Ela sabia qual era a do cara e não se intrometeu. Sei que toda adolescente odeia os pais em algum ponto, faz parte da nossa formação como seres humanos contestar todo tipo de autoridade, mas acho que nunca odiei tanto minha mãe como naquele momento. Olhei de volta pro Gui sem acreditar. Tomei o baseado da mão dele e dei mais umas três puxadas bem longas pra tentar me acalmar. Depois me dei conta de que ficar mais doidona do que eu já tava não ia ajudar muito naquela situação. Apaguei o beck no cinzeiro do meu lado e acendi um cigarro. Pensei em gritar com ele, mas minha cabeça já tava no teto e eu achei que não valia a pena me estressar tanto.

- Cara, é o seguinte. Eu só tenho 16 anos.
- Eu tô ligado. Mas vendo como você bebe, fuma e cai no mundo, ninguém diz.
- Foda-se. Se liga. Eu só tenho 16 anos. Mal sei lidar com sexo, cacete, e olha que já tem um tempinho que eu não sou mais virgem. Você quer que eu lide com a ideia de uma porra de um menage, cacete? Com minha mãe e um cara... Sei lá, bicho, tu é o quê? Vinte anos mais velho que eu? Isso não é, tipo, crime?
- Ninguém precisa saber. E não é crime se for consensual e seus pais não processarem...
- Eu vou saber, cara. Eu vou saber. E se minha mãe tivesse um pingo de juízo na cabeça, ela te denunciava só de você pensar numa porra dessas. Tá achando que é quem, Humbert Humbert? Olha, eu não tenho cabeça nem estômago pra digerir essa merda não. Eu tenho 16 anos, tô bêbada, tô chapada pra caralho, tenho prova de matemática amanhã e não estudei porra nenhuma. Vou voltar pro meu quarto e fingir que você nunca me deu essa ideia errada, beleza?
- Po, Leti, pensa com calma. Se mudar de ideia só falar.
- Calma é o cacete. Não acho que eu vá mudar de ideia, não antes dessa maconha toda transformar meu cérebro em geléia. Tchau, Gui. Boa noite, mãe. Durmam bem. Fodam bem na minha intenção. Sei lá, façam seja lá que porra vocês pretendem fazer depois daqui.

Saí do quarto batendo a porta. Sentei na cama tentando entender o que tinha rolado, mas não caía a ficha de jeito nenhum. Abri o livro, tentei estudar, não deu. Levantei, bati na porta do quarto ao lado. Minha mãe abriu, meio espantada. Tossi, meio sem graça, sem saber o que fazer com as mãos ou pra onde olhar. Guilherme me olhou com os olhos brilhando. Limpei a garganta e consegui encontrar minha voz.

- Olha, seu filho da puta, não mudei de ideia não, mas rola de me dar aquela ponta que sobrou?

15.10.11

Bárbara

Era uma explosão sensorial. Beirava o excesso de informação, mas, ainda assim, mantendo um mínimo de bom gosto. A pele muito branca, o cabelo muito preto, o batom muito vermelho. Os olhos variavam entre o cinza claro da luz do sol e o azul escuro das nossas noites à luz de velas, e viviam pintados de muito preto-cinza-fumaça. Cortesia da Avon ou da Natura ou sei lá onde que ela achava tanta maquiagem escura. Eu achava misterioso, dramático, profundo. Hoje penso que só fazia dar àquele rosto uma aparência meio de panda. Até o nome dela tinha algo de feral, de animalesco, de selvagem: Bárbara.

Pior que a desgraçada era gostosa pra caralho. A cintura fina, gostosa de abraçar, e as pernas longas e macias e lisas e agradavelmente roliças que se embolavam com as minhas, misturando nossos suores e secreções. A boca tinha gosto de cigarro de cravo, de vodka e cereja, de pecado daqueles que te levam direto pro segundo círculo de Dante. Os seios redondos, enormes, macios, os mamilos rosados olhando pra mim, apontando pra minha cara e me desafiando a decifrá-los. A pele... bom, a pele tinha um gosto só dela, meio de suor e feromônio. Pra mim ela sempre me pareceu meio suja, mas não de um jeito nojento, sabe? Suja-chic, suja deliberada, suja de auto-afirmação. Tudo nela, aliás, era sujo – os pensamentos, os desejos, as palavras.

Não é que eu nunca tenha comido uma mulher antes dela. Aliás, talvez seja: antes da Bárbara, só tinha comido meninas. Acho que ela foi a primeira Mulher, assim mesmo, com eme maiúsculo, com quem eu tive a oportunidade de foder. E fodíamos. Diariamente, onde quer que nos encontrássemos, da forma como desse. E, puta que pariu, era bom. Era tão bom que eu até esquecia quem eu era. Comer Bárbara anulava totalmente meu ego, meu superego, meu id, meu caralho a quatro. Eu era só sensação. E ela percebia isso, e se aproveitava disso, e lá vou eu, moça-certinha-com-reputação-a-zelar, me viciando e me perdendo e pedindo perdão a deus toda santa noite antes de dormir só pra pecar de novo no dia seguinte com a consciência mais leve. Ela se divertia com minha confusão. Adorava rir da minha cara e desconstruir pedacinho por pedacinho de tudo que eu acreditava e dizia e julgava, até me deixar mentalmente e emocionalmente tão incapacitada quanto fisicamente. Vagabunda sádica. Foi depois da Bárbara que eu virei atéia, porque até a capacidade de acreditar ela me sugou.

Viver com ela era um pesadelo Lynchiano. Como toda mulher que tem o poder de virar o mundo de cabeça pra baixo – e ela era dessas –, Bárbara era completamente maluca. De eu chegar em casa, cansada do trabalho, e dar de cara com ela nua, sentada no chão na frente do espelho, um bocado de velas acesas, dizendo que se o apocalipse começasse ela queria ser a primeira a ir pro inferno, e gritando que queria que eu a fodesse como a puta baixa que era, sem o menor respeito pela decência ou pelos vizinhos. De ler minha sorte na palma da minha mão ou nas cartas de tarô e dizer que eu só seria feliz sozinha, ou com um homem, ou que eu ia morrer antes dela e que ela passaria o resto da vida de luto e se isolaria num convento. De brigar com facas – ainda tenho as cicatrizes nas costas da mão e na coxa direita – e depois fazer sexo violentamente, e acabar a noite com ela ronronando feito um gatinho implorando pra eu nunca abandoná-la. Eu sempre prometia, meio emocionada, meio preocupada.

Um dia, ela é quem me abandonou.

Abri a porta com cuidado, sem saber qual seria a palhaçada da vez. Estava preparada pra encontrar um bode sacrificado em cima da mesa de jantar, um palco de teatro vaudevilesco, um rastro de pegadas de sangue, uma orgia de doce e pico, qualquer merda dessas, mas vê-la ali, sentada calmamente no sofá, as malas prontas aos pés, me deixou boquiaberta. Bárbara me esperava, vestida  com uma de suas roupas mais convencionais, a cara limpa de maquiagem. O cabelo preto, comprido, escorrido, preso numa trança. Já tinha visto Bárbara com todas as roupas – ou falta delas – possíveis, com as mais variadas maquiagens experimentais, mas nunca a vi tão... esquisita. Disse que não aguentava mais, que viver comigo tava transformando ela em alguém que ela não reconhecia, que me amava mas que não dava pra ir em frente, e começou a chorar. Foi nessa hora, acho, que entrei em parafuso. Eu queria gritar, chorar, implorar, mas só consegui ficar parada ali, no meio da sala, a bolsa e a chave de casa ainda nas mãos, quando ela levantou, colocou a chave dela em cima da mesa, me deu um beijo no canto da boca e saiu sem dizer mais nada. Levou uma meia hora pra ficha cair.

Ainda hoje tento entender. Ainda hoje não me recuperei do furacão que ela foi em minha vida. Ainda hoje é pensando nela que me toco furiosamente. Ainda hoje não me conformo, e continuo procurando pedacinhos dela em tudo que é vagabunda louca que encontro pelos becos escuros da vida.

Acho que ela estava totalmente errada. Não foi ela quem se transformou em mim aos pouquinhos. Eu que me transformei nela.

17.9.11

Cicatriz

Começou com um ato falho. De minha parte, é claro. Devo ser a rainha dos deslizes verbais, especialmente quando é, de alguma forma, importante pra mim. De qualquer forma, com um ato falho começou e eu sequer perdi o fôlego. “Você pode ou não considerar isso uma cantada, você é quem sabe”, eu disse. E todas as vezes que o vi depois fingi que nada tinha acontecido. Até o dia em que decidi que ou era, ou não era, e fodam-se as convenções sociais porque não são elas que vão encher minha barriga ou pagar minhas contas.

E foi. Não me perguntem como, mas foi. E eu gostei, ainda que as lembranças se resumam a um borrão vermelho em minhas lembranças. Borrão vermelho, sinal de que foi bom. Lembro da frustração de faltar um detalhe e isso (não) foder com tudo. E de abotoar meu sutiã e sair andando, embriagada tanto do álcool quanto do corpo que segundos antes estava contra o meu, poucos momentos antes da queda. Lembro de deixar minha marca gravada, como uma assinatura doentia, vampira que sou, em um pescoço. Lembro de sussurros ao pé do ouvido. Lembro de convites, originalmente aceitos e depois recusados. E nada mais.

Não há necessidade de perguntas. Nos meus olhos, na minha pele, sinais de como estou. Não é o frio que faz gelar minha pele. Não é a indignação que faz meus olhos faiscarem. Não é a solidão que me aflige.

São as promessas feitas. E as subentendidas.

E que esta história fique por aqui. Afinal, para bom entendedor...

10.9.11

A última vez em que fiz amor


Cansei de olhar pro teto manchado de umidade, as paredes amareladas de nicotina. Procurei o que restou de minha razão em todas as marcas indistintas que me cercam, e, não tendo encontrado em nenhuma, simplesmente desisti. Gritos de violência ecoam no exíguo espaço em que me encontro, e sequer esses gritos parecem me compreender. Nunca me senti tão só. A música alta não dialoga com meus sentimentos; a solidão não mais me refugia. Cansei de exibir sempre a mesma identidade, a mesma ideologia, a mesma idiotice. Parece que nasci ao contrário, que me perdi de quem devia ser em algum ponto do caminho. Grito de volta para a música até que minha garganta arranhe, minha cabeça pareça explodir, meus ossos vibrem de agonia. Arremesso objetos pelo quarto, espalho destroços, tento me esconder na minha alma, mas a dor aqui dentro é grande demais e até mesmo meu corpo me rejeita. Não me envergonho das minhas feridas, mas gostaria que elas doessem menos. Não me orgulho de minhas cicatrizes, mas gostaria que essas marcas fossem apenas externas. Sangro por dentro, e esse sangue é negro e ácido. Tenho medo de que me envenene e corroa até que seja impossível recuperar qualquer coisa que preste. Se é que ainda há algo que preste aqui dentro de mim. As manchas de umidade e fumaça nas paredes nuas e descascadas: é isso que sou. É isso que me representa. O descaso e a constância do vício, de um vício qualquer, de todos os vícios. Me viciei demais nessa não-vida. Me entreguei demais a tudo na esperança de fugir daquilo que mais me importava. Fugi da luz, me habituei à escuridão. Não se consegue sair do buraco sem antes chegar ao fundo do poço, e eu cheguei. Agora, cá estou eu acenando e gritando, e não existe um bom coração que seja disposto a me arremessar uma corda ou sequer estender a mão pra facilitar a escalada de volta ao mundo dos vivos. Não sou decadente, pois não há mais como decair. Do ponto onde me encontro, só o inferno me parece uma rota viável. Não tenho mais forças para subir, então, para baixo é que vamos. Não há ninguém pra me pedir que eu sobreviva a isso. Ninguém que morreria por mim. Só eu. E esse é o mínimo que eu posso fazer por mim mesmo. Para me poupar de maiores apodrecimentos. Um dia, tomo coragem e acabo com tudo. Algum dia muito em breve. Talvez agora mesmo, quem sabe? A arma carregada ao lado da escrivaninha me parece propícia. Meus dedos famintos por ação; os sentimentos cuidadosamente embalados em uma caixa, prontos para o distanciamento frio que este ato corajoso exige. É só relaxar e ir dormir. Um leve fisgar, é isso. Um leve fisgar de carne dilacerada e está terminado. Sinto a carne rasgar na boca do estômago, e a dor lancinante quase me nubla os sentidos. Escorro em direção ao chão, como uma trouxa de roupa suja dobrada sobre si mesma. Eu não podia morrer de forma pacífica, precisava sofrer. Meu purgatório em vida. O sangue empapa minha camisa, nódoa vermelho escuro quase imperceptível no tecido negro, e começa a empoçar no chão. Não quero que o abraço da morte seja tão breve – quero fazer amor com ela, quero que a entrega seja completa. Dói pra caralho. Nunca nada doeu tanto assim. Enquanto a morte me enraba, a vida me abandona, emputecida pela traição. Meu último pé na bunda. O sangue já deixa um rastro até a porta do quarto. Ninguém nunca me disse que morrer era tão doloroso. Minha visão está turvada, e eu só consigo discernir o rosto da minha última amante. Ela me olha nos olhos, e não consigo amar nada do que vejo lá. É a vida, a minha vida, sendo refletida de volta pelas órbitas negras, sem julgamentos, sem piedade. A morte é minha última puta, e nem ela me oferece conforto. Sei que tomei a decisão certa quando sinto seu desprezo. Fecho os olhos uma última vez, o momento final de desespero eternamente gravado em minhas retinas. Deixo escapar um suspiro. A morte me toma pela mão, me oferece mais um cigarro e finalmente um pouco de compaixão, e partimos juntos. Meu corpo agora não passa de um mero amarfanhado de roupas e sangue embolados no chão. Antes de partir de vez, percebo um leve sorriso doentio finalmente brotando em meus lábios. Alívio, enfim. Acabou.

9.8.11

O Fim

- Agora acabou de verdade.
- … E agora?
- Agora ele me botou pra fora de casa.
- Puta bosta. Eu te ofereceria de ficar lá comigo, mas tô voltando pra minha cidade amanhã.
- Sua casa tá cheia?
- Não, minha família só volta de viagem daqui a uma semana.
- Então meu problema está resolvido.
- Como assim?
- Eu vou contigo, ué.
- Mas isso não vai dar merda?
- E daí? Ele já me odeia.
- Ele nos odeia.
- Mais um bom motivo pra sumirmos das vistas dele.
- Mas você vai ficar bem? Fim de namoro é sempre uma bosta.
- Enquanto eu não ficar sozinha, eu estou bem.
- E você confia em mim pra cuidar de você?
- Sempre.
- Então, vamos juntos.
- Te amo.
- Também te amo.
- Que bom. Mas e aí, sexo no banheiro do ônibus?
- Sempre.

8.8.11

Romance político

Conheci numa passeata pelos direitos estudantis, e continuamos nos esbarrando em diversas plenárias pela zona norte afora. Cogitei a possibilidade de ir lá puxar um papo, mas já estava meio-que-comprometida com outro dos meninos do partido, então segurei a onda. Mas anotei seu nome no fundo da memória mesmo assim, para futura referência, e por isso pude cumprimentá-lo com desenvoltura quando me bati com ele no lugar onde eu costumava ir andar de skate e beber.

Ele era até bonitinho, visto assim à luz do meu círculo de amizades mais frequente, mas tinha um terrível defeito - estava aos beijos e abraços com um desafeto meu. Ou desafeta. Enfim. Era uma gracinha, mas já estava tomado e, pior, por alguém que não tinha absolutamente a menor graça. Tudo bem. Não faz diferença, ele é muito hard rock farofa pro meu gosto mesmo, quero mais é saber da galera mais headbanger. Virei as costas e continuei conversando com o cabeludinho que insistia em tentar me ensinar a jogar um card game qualquer que nem me interessava tanto assim.

Alguns dias depois, fui a um bar com minha mãe e ele estava lá. Dessa vez, nem companheiro de partido nem desafeta estavam presentes; claro que eu não ia deixar passar a chance. Nem precisei gastar muito do meu charme e em poucos minutos já estávamos nos atracando contra alguma parede da rua movimentada. O problema é que tudo estava intenso demais, provavelmente devido à alta concentração de vinho em nossos sangues, e logo se tornou necessário que encontrássemos um local um pouco mais reservado. Por sorte, eu conhecia um prédio abandonado logo ali, do ladinho de onde estávamos. E foi aí que erramos.

Mal atingimos um patamar suficientemente escuro, as mãos e as roupas e outras partes de nosso corpos teimavam em se tocar e esfregar e contorcer. Um zíper foi aberto; uma embalagem de plástico metalizado, rasgada. Deslizou para onde queria, e foi aí que, em meio aos sons de respiração entrecortada, ouvimos uma voz gritando, a plenos pulmões, "QUE PUTARIA É ESSA AQUI".

Viramo-nos lentamente e demos de cara com o cano de uma arma apontada para nossas cabeças. Aparentemente, desde a última vez que qualquer um de nós utilizou aquele local para esses fins, ali havia se tornado o point dos traficantes e usuários de qualquer droga que não fosse maconha (porque essa era amplamente consumida abertamente mesmo na rua onde estávamos). O traficante em questão esperou impacientemente que nos vestíssemos, deu na cara do pobre bonitinho com a coronha e perguntou o que tínhamos pra perder. Além de nossas dignidades e vidas, aparentemente. Timidamente, tiramos dos bolsos o que restava de camisinhas, uma carteira de cigarros amassada, um isqueiro e documentos. Não conseguíamos olhar nos olhos nem de nosso captor nem um do outro. Percebemos que ele analisou rápidamente o resumo de nossas minguadas posses antes de nos devolver tudo e mandar a gente sair dali voando. Acho que as calças foram subidas e devidamente abotoadas a meio caminho da porta.

Constrangidos, conferimos juntos nossos pertences na rua e voltamos para o bar. Cada um no seu canto. Nunca mais o vi, nem em plenárias, nem em passeatas, nem em pistas de skate. Eis aí mais uma coisa destruída pelo tráfico: o companheirismo pós-sexo.

28.7.11

Eu chamo a polícia!

Era um sábado como outro qualquer. Na época, eu trabalhava em Itapuã, e, apesar de morar pela região, geralmente saía do trabalho e ia pra Liberdade, independente da hora que fosse. Pra quem não está muito familiarizado com a geografia de Salvador, basta dizer que eu levava umas duas horas pra chegar lá se o segundo ônibus não demorasse muito. Mas enfim.

Era sábado, por volta de meio-dia, e eu estava dentro de um Estação Pirajá que sacolejava mais que carroça puxada por jumento. Fazia um calor infernal, o trânsito estava infernal, e eu tenho certeza de que já fazia mais de 15 minutos que eu estava sentada naquele ônibus e minha casa, a 15 minutos de caminhada do trabalho, ainda não estava nem perto. O ônibus, para melhorar, estava entupido de todo tipo de gente: ratos de praia fedendo a sargasso, vendedores de toda sorte de quinquilharia, patricinhas e gente saindo do trabalho. De alguma forma, consegui sentar na janela, coloquei meus fones de ouvido e me concentrei em ignorar o mundo.

Um daqueles vendedores de algum abrigo para pessoas dependentes de narcóticos entrou no ônibus, vestido de palhaço e mais implorando do que de fato tentando vender alguma coisa. Como sempre acontece, foi solenemente ignorado pela grande maioria, inclusive por mim, que estava, para completar, com o mau humor da vida toda. De repente, sem maiores avisos prévios, uma mulher que estava sentada na frente do ônibus levanta, dá algumas moedas pro rapaz e começa a xingar todo mundo.

Não é aquela xingadela resmungada por baixo da respiração, estilo "cambada de filho da puta casquinha" nem nada do tipo. Foi uma xingada de respeito. Levantou do banco em que estava sentada, encheu os pulmões e começou a apontar o dedo na cara de todo mundo.

- Vocês são todos uns falsos cristãos! Ficam aí defendendo o amor ao próximo, mas ninguém tem um trocadinho pra dar pra ajudar os outros! Pois eu DUVIDO que ninguém tenha dinheiro pra doar aí! Todo mundo usando calça de mil reais e blusa de quatrocentos...

Nessa hora eu já comecei a engasgar de rir. Olhei pras minhas calças - presente de uma tia, não deviam ter custado nem trinta reais - e a blusa do uniforme do trabalho, e me perguntei de onde que ela tinha tirado que era todo mundo rico. Garanto que se eu fosse rica não estava naquele ônibus. Mas ela não parou por aí.

- Todo mundo com cara de rico e ninguém quer ajudar ninguém! E eu aqui, ganhando minha vida vendendo coentro numa barraquinha em Peri Peri, não me envergonho de fazer o que posso pra ajudar! Vocês são todos uns hipócritas!

A essa altura metade do ônibus já estava cochichando, comentando com quem estivesse próximo a atitude da velha. Um mais gaiato berrou, "cala a boca, velha maluca!" antes de descer do ônibus. Foi o que bastou pra ela se inflamar. Levantou do banco, veio mais pro fundoe parou exatamente do meu lado.

- Cadê? Cadê esse covarde que me mandou calar a boca? Fala na minha cara, filho da puta, que eu te encho de porrada! Cadê? Na minha frente não tem coragem não, é?

- Ele já desceu, senhora!

- Desceu? Filho da puta! Para esse ônibus, motorista, para que eu quero ir na delegacia prestar queixa. Tá pensando o quê? Eu não tenho pena quando mauricinho amanhece com a boca de formiga na beira do morro não! Traficante não mata por nada não! Se tá morto, é porque fez alguma coisa que não devia. Quando a galera lá da minha área tem problema, eles vão é pedir ajuda pros traficantes. Eu não. Eu nem me abalo não. Eu chamo é a poliííííííííííííciaaaaaaa!

Eu quase me dobrava de rir do jeito que ela berrava "polícia".

- Olha, e vocês tão pensando o que? Eu não sou crente não! Minha religião é a CACHAÇA! Mas meu único pecado é gostar do marido das outras. Motorista, para esse ônibus que eu vou descer é aqui mesmo. Cambada de filho da puta hipócrita.

Desceu do ônibus. Subitamente, tudo ficou chato. Enfiei os fones de novo nos ouvidos e aproveitei o restante das horas de viagem.

26.7.11

Ventilador

Era um daqueles dias em que tudo parece conspirar contra mim. Fiquei uma hora e vinte a mais do que devia no trabalho, briguei com a chefe, o ônibus mudou de rota e me deixou lá no inferno, longe demais de casa pra andar sem derreter de tanto suar e perto demais pra pegar outro ônibus. A época do ano e a conjunção astral não colaboravam. Salário atrasado, carnaval - o inferno na terra - e, o pior: a perspectiva de passar um feriadão inteiro com exatos quinze reais no bolso, faltando comida em casa e o cigarro no final. Ilhada, entre três focos de folia desregrada, e sem poder fugir para nenhum lugar que se assemelhasse, ainda que remotamente, a um oasis de tranquilidade.

Claro que ia dar merda. Em algum lugar, um demônio olhou para mim e soltou uma risada maquiavélica.

Eu não podia fugir da minha ilha cercada de pagode por todos os lados porque, como não poderia deixar ser em se tratando de minha pessoa, a encomenda que fiz há quase um mês estava programada para chegar no meio das festas. Briguei com a chefe justamente por isso - não podia ir trabalhar na sexta, que já era minha folga mesmo, porque tinha que esperar a porcaria do pacote chegar. E era quinta.

Mal tinha terminado de almoçar os vestígios do almoço do dia anterior, a campainha toca. Com alguma dificuldade, levantei para abrir a porta e dei de cara com o zelador, com seu sorriso torto - aliás, o rosto todo dele é torto; lembra um pouco uma pintura cubista -, avisando que "vieram entregar uns pacotes pra você, tão lá na funerária, sobe lá pra buscar". 

Cabe aqui explicar que moro num prédio pegado a uma funerária. Na verdade, a funerária fica no prédio, e funciona como uma espécie de portaria mórbida 24 horas guarnecida por caixões de todos os modelos, cores e tamanhos. Então, é seguro e bastante realista dizer que moro no subsolo de uma funerária. Pois é, minha vida é uma piada de humor negro.

Subi os 5 lances de escada até a funerária e vejo uma caixa enorme e uma tábua de passar roupa me esperando. E nenhuma ajuda pra carregar os dois trambolhos escada abaixo. Ouvi a risada demoníaca de novo e lá fui eu, caixa de papelão nos braços, tábua de passar roupa em cima, descendo. No primeiro tropeção já senti vontade de arremessar tudo escada abaixo e descer pelo corrimão, mas lembrei que havia eletrodomésticos dentro da caixa. Entre quebrar as coisas pelas quais eu havia passado um mês esperando por pura preguiça e subir e descer aquelas malditas escadas algumas vezes, preferi a segunda opção.

Algumas horas de exercício aeróbico depois, sentei no chão do quarto e conferi a mercadoria. Ferro de passar, ok. Tábua, ok. Ventilador torre, ok. Mesa do computador... bom, definitivamente não caberia dentro daquela caixa. Decidi me preocupar com isso mais tarde, e montar o bendito ventilador, porque verão na Bahia sem um ventilador para chamar de meu é masoquismo demais até pra mim, que já fui gótica. Aliás, desisti de ser gótica justamente porque ser gótico no Nordeste é que nem ser nudista no Alasca: simplesmente não dá. Suor derrete maquiagem, afinal.

Enfim, peças desencaixotadas, kit de ferramentas por perto, telefone pro caso de eu acidentalmente perfurar meu baço com um parafuso, hora de por as mãos na massa. Percebi vagamente que os pedaços de ferro nos quais eu tinha que encaixar os pézinhos do ventilador pareciam ser mais estreitos do que deviam, mas imaginei que não fosse ser tão difícil assim. É óbvio que eu estava enganada. Empurrei, chutei, tentei arregaçar o ferro e prender com um livro bem grosso, tudo em vão. Aquela merda era estreita, ia continuar sendo estreita e, se eu queria enfiar alguma coisa mais espessa ali, teria que ser com muito cuspe e jeito. Bufando de raiva e pelo esforço, larguei aquilo de lado e fui trabalhar em outra peça.

Olhando o manual de instruções, vi que precisava desrosquear uma pecinha que regulava a altura da torre, pra poder encaixar o motor na haste. "Essa vai ser mais fácil", pensei. Girei pro lado um pouco, e a peça soltou um pouco. Tentei girar mais e nada. Tentei girar pro outro lado, também não ia. Peguei com a blusa, só consegui rasgar. Pra minha sorte, era uma camiseta promocional da Piraquê de mil novecentos e bolinha que eu só usava mesmo pra fazer faxina. Tentei com uma toalhinha - lembrança de casamento de alguém - e nada. Meia hora de esforço depois, vi que estava tentando girar o troço pro lado errado. Só podia. Tentei de novo com a toalha.

Desisti. Quase chorando, ameacei rumar a peça longe. Só não o fiz porque ou quebraria o computador da colega de quarto ou o meu armário. E então lembrei da máxima feminina: os homens só conseguem abrir potes tão fácil porque a gente afrouxa antes pra eles. Se tentássemos mais um pouco, conseguiríamos. Peguei aquela porcaria de volta, e dessa vez consegui, provando assim a teoria. Encaixei o cano de metal no motor, prendi e... descobri que teria que soltar de novo. Afinal, precisava aparafusar a haste na base - que eu havia deixado de lado - antes de prender o motor. Uma coisa óbvia, mas que nem passou pela minha cabeça.

Soltei a porra do motor e voltei a trabalhar na bendita base. Depois de cortar os dedos enfiando os pézinhos, chegou a hora de aparafusar. Mas quem disse que os parafusos entravam? Se eu conseguia prender três, o quarto ficava torto. Tentei de todos os jeitos possíveis, mas nada fazia aquele enviado minúsculo do próprio Satanás encaixar no lugar em que devia. Bom, é sabido que não sou muito fã dessa história de encaixar coisas em buracos, ainda mais tão apertados, mas ainda assim, tenho um bom embasamento prático e teórico na coisa, não deveria ser problema. Se até os pés da base consegui encaixar...

Mas não. Não era pra ser. Em desespero, comecei a chorar. Olhava para o ventilador e não via um equipamento necessário para a sobrevivência. Via um adversário, um antagonista. Uma inimizade mortal surgiu naquele momento. Olhei para ele e gritei, "POR QUE VOCÊ ME ODEIA TANTO ASSIM, SEU VENTILADOR DE MERDA?!" Eu queria dar uma de Narcisa e jogar aquela bosta pela janela, eu queria chutar aquelas pecinhas de metal como se fossem uma carcaça de cachorro morto, eu queria ligar pra algum amigo homem e pedir socorro, abrindo mão de décadas e mais décadas de luta feminista. Aquela máquina estava querendo me rebaixar e eu, do alto de minha TPM, não aguentava mais. Mas me lembrei que sou uma mulher independente e autossuficiente e, se mato baratas e outros insetos repugnantes sozinha, não é um mero pedaço de sucata que vai me derrubar. Enfiei o parafuso no tapa, rosqueei de qualquer jeito e lancei um urro de vitória.

Agora faltava pouco, e eu já sabia os procedimentos. Terminei de encaixar e aparafusar tudo, e o vento que o bichinho faz até que compensa o esforço. Liguei pra casa, pra avisar meu pai da falta da mesa do computador, e me preparei para sair da minha ilha subterrânea. Malas quase arrumadas, minha madrasta liga de volta:

- Olha, a mesa só chega aí depois do dia 20, e você que vai ter que montar. Mas a sua cama tá indo, viu? Deve chegar aí essa semana. Fique em casa para receber.

Arremessei o celular na parede. A funerária que se entendesse com minha cama. Apanhei minhas coisas e fui embora.

21.7.11

O mendigo que ouvia Motorhead

Sozinha, toda de preto, na porta do cemitério. Em uma circunstância qualquer, poucos se atreveriam a se engraçar, mas o caso é que era um sábado à noite. Parou na banca de jornal ao lado do ponto e comprou uma carteira de cigarros. Acendeu um enquanto esperava. E foi aí que ele se aproximou.

- Ei!
- …  – Ela  se recusou a responder.
- Me arruma um cigarro desses aí, madame!

Era em momentos como esses que ela cogitava a possibilidade de parar de fumar. Menos um motivo pra ser abordada por malucos na rua, Muito a contragosto, tirou um cigarro da bolsa e entregou ao mendigo, esperando ser deixada em paz.

Não foi.

- Ei!

Ela tentou ignorar.

- Ei! Ruiva!

Ela desistiu de ignorar.

- Tá indo prum show de rock?
- Não.
- Tá indo estudar filosofia, então?
- Não! – a falta de lógica da sugestão fez com que ela deixasse escapar um sorriso.
- Tá indo fazer o quê, se não vai pro rock nem estudar filosofia?
- … Encontrar um amigo.
- Namorado?
- Não.
- E cadê o namorado?
- Em casa, dormindo, eu acho. Espero. Sei lá.
- E você tá indo encontrar com um amigo pra ir prum show de rock?
- Não! Só encontrar com um amigo! – Deuses, pensou, qual a cisma desse cara com shows de rock?
- Mas você gosta de rock, não gosta?
- É...
- Curte um Metallica?
- Curto.
- E um Mötorhead? Do you like it?
- Como é?
- Do you like it? Mötorhead, good music. Do you like it or not?
- Fuck yeah I do! – Gente, o mendigo fala inglês!
- I like Mötorhead. Eu queria ir num show deles, eu até ia, mas é frio demais pra mim. Fico por aqui mesmo, mais quentinho.
- É... Muito frio. E aqui é muito quente.
- É. Você tem fogo?
- Excuse me?
- Isqueiro. Lighter. Pra eu acender o cigarro.
- Ah... toma – ela acendeu o cigarro para ele, e guardou o isqueiro.
- Valeu. Posso ir pro show de rock com você?
- Eu não vou pra um show de rock!
- E estudar filosofia?
- Eu não vou... Olha, deixa pra lá.
- E formação acadêmica, você tem?
- Tenho. Mas o que isso...
- Que bom. É muito importante você fazer algo de útil pela humanidade. Eu comecei a fazer faculdade, mas larguei. Preferi beber. Você bebe?
- Um pouco.
- Vai beber hoje no show?
- Vou. Mas não no show. Pro qual eu não vou. Nem sei se tem algum show hoje.
- É show de quê? De rock?
- Amigo, eu já falei que não vou pra show nenhum. Mas, se fosse, sim, seria de rock. Possivelmente. A não ser que fosse de... rock. Olha, já estou ficando confusa, viu?
- E a faculdade, você fez de quê? Filosofia?
- Não, letras. Olha, o papo tá bom, mas eu tenho que ir, viu? Meu ônibus tá vindo.
- Tudo bem. Prazer em te conhecer, viu – Ele estendeu a mão. Ela arqueou a sobrancelha, e apertou a mão do mendigo – Você é muito legal.

Fez sinal pro ônibus e correu para a porta, ainda gritando, meio de costas, um “valeu!”. Enquanto entrava no ônibus, ainda ouviu um “bom show!”. Quando enfiou a cabeça na janela pra reclamar, mais uma vez, que não ia a show nenhum, ele tinha desaparecido. Ainda piscou umas duas vezes pra entender o que tinha acabado de acontecer. Certas coisas só acontecem na noite de Salvador.

15.7.11

Ressaca

Uma batida. Duas batidas. Não sei por quanto tempo prendi a respiração, mas tudo o que eu podia fazer era contar as batidas do meu coração enquanto criava coragem para fazer o que há tanto tempo eu queria fazer. Enfim, respirei fundo e dei dois passos na direção dele. Já nem lembrava mais o que me impedia de beijá-lo; só me lembrava da vontade de fazê-lo, adormecida a tanto tempo dentro de mim. Entabulei uma conversa-disfarce, uma bobagem qualquer sobre música que eu poderia manter sem precisar raciocinar, enquanto dizia para mim mesma que faria aquilo apenas por desencargo de consciência. Nunca deixei de possuir alguém que desejasse, por mais tempo que levasse. E hoje, bonitinho, é a sua vez, pensei.

Não demorou muito para me perder nos beijos, no corpo junto ao meu. Esqueci de onde estávamos. O gosto da vodka em seus lábios não me incomodava; o gosto do cigarro em meus não parecia gerar qualquer desconforto. Suas mãos buscando meu corpo, minhas mãos buscando partes do seu que, sóbria, eu não ousaria tocar tão displicentemente. Suas unhas nas minhas costas. Minhas mãos puxando seus cabelos. Conversamos, é fato, mas pouco, e tudo que minha memória foi capaz de reter foi a data de seu aniversário. A linguagem de nossos corpos bastou, por aquela noite. Enfim sorri, beijei seus lábios uma última vez e entrei no carro. Na manhã seguinte, minha memória enturvada, só me lembrava do fogo que me consumira por instantes que pareceram breves demais para tanta vontade.

A ressaca martelava minha cabeça como se a uma bigorna, as mensagens trocadas prometiam coisas que, tenho certeza, nunca serão cumpridas. Coloquei Queens of the Stone Age pra tocar e olhei triste para o cartão de visitas abandonado sobre a escrivaninha. Uma lembrança ofuscada pelo brilho do álcool, e nada mais.

16.1.11

Tio

Um dia morno. Ela gastou uns cinco minutos rabiscando em seu diário mental, mas não conseguiu encontrar nenhuma outra palavra: morno definia. Não só o seu dia, como toda a sua existência. Correu os dedos pelas teclas do velho teclado de oito escalas, sem muita vontade de voltar a praticar. Correu os olhos pelas estantes, sem nenhuma vontade de sentar na poltrona de forro de veludo rasgado para ler algum livro. Suspirou fundo, desligou o aparelho de som e apoiou os cotovelos no parapeito da janela fechada. A chuva forte lambia os vidros da janela, e a cidade muito cinza lá embaixo brilhava em mil pontinhos, os faróis dos carros e as luzes dos postes parecendo difusas no vapor que subia do asfalto quente. Correu as persianas azuis com estrelinhas, e riu-se por um meio segundo da ironia que representava ter uma coisa tão tranquila dentro do próprio quarto quando sua mente e seu coração pareciam os escombros de um terremoto. Sentou-se na beirada do sofá que fazia as vezes de cama e ajeitou o travesseiro, com o cuidado de não mexer no cutelo afiado que repousava por baixo deste. Apagou a luz, finalmente, e deitou-se sem se despir. Essa era a noite. Degustou o sabor antecipado de vingança e fechou os olhos. Se aquele filho da puta entrasse em seu quarto de novo, o hálito alcoolizado e os passos desajeitados rumo a sua cama, não hesitaria. Nunca mais.

14.1.11

Gelo

- Suas unhas estão lindas hoje.

Porra, pensei. De novo esse papo, cara? Balancei a cabeça pros lados quase que imperceptivelmente, de incredulidade. Ele aparentemente não percebeu, mesmo. Resolvi mudar a tática.

- Obrigada. É pra combinar com a camisa.
- Não, não é. Você está com esse esmalte desde segunda-feira, e só vestiu verde hoje.
- Ah, quer dizer que você reparou?
- Sempre reparo. Foi assim que você me queixou, lembra?
- Lembro, claro.

Claro que lembro. E não foi assim. E não fui eu quem te queixou. Mas guardei essas informações pra mim. Vai que era um teste? Vai que ele queria saber se me marcou de alguma forma?

- Então... você sumiu.
- Te vejo aqui todos os dias.
- Não, eu quis dizer... da minha vida pessoal.
- É, isso é.
- E o namorado?
- Tá lá, no Rio. Ainda não o conheço pessoalmente.

Gastei alguns segundos rindo internamente da expressão de choque no rosto dele.

- E foi por um cara que você nem conhece pessoalmente que você me trocou?
- É. Pelo menos ele se importa com certos detalhes.

Apaguei meu cigarro na sola das sandálias e joguei na lixeira mais próxima. Me preparava para voltar ao trabalho, quando ele me puxou pelo braço.

- Ei... Vai fazer o que hoje à noite?
- Falar com meu namorado.
- Certo, certo, seu namorado... e depois disso?
- Dormir.
- Com alguém?
- Não.
- Posso me candidatar?
- Não.

Entrei no prédio e movi minhas coisas para a carteira mais distante possível da dele, na esperança de conseguir me esquivar dos olhares carregados de significado, para que ele não visse os meus vazios de interesse. Ao final do dia, me recusei a esperar. Ele que espere. Pro resto da vida, se assim o desejar.

A primeira vez

Quando ele sussurrou no meu ouvido, "vamos sair daqui e ir para algum lugar mais privado", eu queria morrer de tanto rir. Era uma coisa tão clichê que eu nem conseguia acreditar nos meus ouvidos, mas pelo menos alguma coisa nessa nossa história tão incomum precisava cair num clichê. E ele me olhava com olhos esperançosos, louco para ouvir uma resposta minha, e tudo o que consegui dizer sem cair na gargalhada foi "nunca fui a um motel, meio que fere meus princípios". Mas se tinha um cara no mundo que conseguiria me convencer a ignorar qualquer princípio referente a sexo que eu pudesse ter, era ele. E não precisou de mais que uns cinco minutos de insistência para que eu mandasse às favas meu pudor e concordasse. Segundos depois, meu melhor amigo voltou pra mesa, e, ao nos ver aos beijos, resmungou "get a room". Agora sim, todo o riso sem graça que eu tinha segurado antes explodiu, com o riso dele fazendo coro. Ficou óbvio que ele acertara na mosca, especialmente porque meu rosto estava da cor dos cabelos. Pagamos a conta, o amigo foi para casa e ficamos nós, dois eternos adolescentes perdidos na Augusta em pleno momento crítico de nostalgia. Entramos no primeiro motel que vimos pela frente, e eu simplesmente não conseguia parar de rir. O homem da recepção entregou uma ficha e pediu para que ele preenchesse. Eu já chorava, os músculos do rosto doendo de tanto rir, enquanto eu o via preencher o papelzinho. "Nome do pai: El Matador", "Nome da mãe: Mamma C.", e eu me perguntando que diabo de motel era aquele que fazia questão de tantas informações na hora de fornecer um quarto. Quando chegou em "profissão", precisei sair de perto. "Super herói ;D", ele preencheu alegremente, e eu querendo morrer. Entregou a ficha, pagou adiantado e subimos, já tirando parte da roupa no caminho até o quarto. Uma vez a portas fechadas, as bocas não se soltavam e as mãos não cessavam de abrir desajeitadamente botões e arrebentar pulseiras e lutar com o fecho do sutiã que era ligeiramente mais complicado do que ele esperava. As calças já se arrastavam pelo chão, presas apenas pelos sapatos que, na pressa, esquecêramos de tirar, quando o telefone tocou. Ele atendeu. "É, sou super herói. É minha profissão, cara. Porra, eu tô dormindo, amanhã eu preencho essa bosta direito. Sou designer, caralho. Tá." Ele puto, e eu gargalhando tanto que quase me esqueci do que me motivara a ir até ali. Ficou no quase. Ele não me deixou esquecer.