Teus olhos em meus olhos - prenúncio de tragédia. Sob as estrelas, desnudamos nossas almas e demos importância a coisas desimportantes, entre sussurros nossos e estrondos a nosso redor. Te perguntei sobre teus gostos enquanto me perguntava que gosto teria tua língua. Quis saber teus sentimentos enquanto imaginava como seria sentir teus lábios pressionados contra os meus. Perguntei se sabia dançar, desejando, na verdade, que nossos corpos se movessem juntos ao som das batidas do teu coração, da maneira como são percebidas pelo meu ouvido pressionado contra teu peito nu e suado. O vento soprava forte e cheirava a chuva e sal, e tua pele fria e úmida roçava preguiçosamente na minha quando nos abraçávamos. Abri os olhos completamente incensada de você e o sol que vinha da janela me fez desejar trancar as portas dos sonhos para nunca mais te deixar entrar e me bagunçar.
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4.3.14
24.1.12
Gatas extraordinárias
Eu tava lá, de boa com o brother, quando de repente surgiu uma língua a mais na jogada. Não que eu me importasse - não faço muito o tipo ciumenta, todo mundo sabe disso. Só fiquei meio curiosa com o "de onde essa gata saiu", porque olha, a morena era linda demais, e aparentemente me queria tanto quanto queria o cara.
Depois de algumas idas, vindas, idas e vindas, finalmente acalmamos nossos corpos e corações e pude conversar um pouco com a morena. Ela me explicou que era casada com o cara há não sei quantos anos, e que ambos eram meio chegados nessas liberalidades de troca de casais, menáge, o escambau. Achei mais do que digno, e fiz questão de deixar isso bem claro.
Aí ela me disse que na verdade eles dois se juntaram porque tinham um detalhe tenso em comum. Por meio segundo me assustei, mas lembrei que tinha visto a mulher de tudo que era ângulo e não vi nem sinal de bônus, então consegui recuperar a calma o suficiente pra perguntar o que era.
Nessa hora ela virou um gato.
Juro pra vocês, ela se transformou num gato listrado cinzento minúsculo assim, sem mais nem porquê, bem na minha frente.
E foi essa a hora que o marido dela, que tinha ido tomar um bom banho, escolheu voltar pro quarto. Quando viu que o segredo tinha sido revelado, ficou puto e saiu de novo. Voltou com uma arma na mão.
- Da qual foi, muito doido? - perguntei pro cara - Vai pipocar a brother só porque ela me contou o segredo?
- Nós tinhamos um pacto. No momento em que alguém descobrisse sobre nossa real identidade, nós dois precisaríamos morrer.
- Mas olha, nem fudendo.
Peguei a gata (agora literalmente uma gata), enfiei debaixo do braço e abri o gás. Não sei por quanto tempo corri ou quais caminhos tomei, mas sei que, quando dei por mim, estava no antigo home office do meu pai em Copacabana, revirando as prateleiras atrás de uma arma e de alguns livros, enquanto explicava pra ele que "eu não tô maluca, tô fazendo isso pra salvar uma mulher por quem me apaixonei".
Quando ele finalmente se convenceu de que a porra ficou séria, tirou um .38 de dentro da gaveta - eu podia jurar que aquele .38 tinha sido roubado há quase 20 anos atrás - e uma pilha de livros clássicos do armário - Cervantes, Dumas, Machado de Assis - e enfiou tudo numa mala pra mim. Me disse que onde eu tivesse conhecimento, não estaria indefesa. Mas que, no caso de eu emprestar os livros pra alguém e não me devolverem, uma arma quebrava o galho também. Fez um cafuné na gata - ainda em sua forma Felix catus, ronronando como se não houvesse amanhã - e saiu, me deixando sozinha no apartamento com a sacola de viagem aberta em cima da mesa.
A gata se enroscou nas minhas pernas, sempre ronronando. Eu sabia o que ela queria, ou pelo menos achava.
- É ração que você quer?
Ela miou, inconformada.
- Olha, se seu plano for me seduzir pra me levar pra cama, deixa eu te deixar um negócio bem claro: por mais que eu tenha te comido em forma humana, zoofilia nunca foi minha praia. Ou você se transforma ou vai gastar esse cio se esfregando na parede.
Ela mordeu meu pé, irritada, com força. E aí eu acordei.
Depois de algumas idas, vindas, idas e vindas, finalmente acalmamos nossos corpos e corações e pude conversar um pouco com a morena. Ela me explicou que era casada com o cara há não sei quantos anos, e que ambos eram meio chegados nessas liberalidades de troca de casais, menáge, o escambau. Achei mais do que digno, e fiz questão de deixar isso bem claro.
Aí ela me disse que na verdade eles dois se juntaram porque tinham um detalhe tenso em comum. Por meio segundo me assustei, mas lembrei que tinha visto a mulher de tudo que era ângulo e não vi nem sinal de bônus, então consegui recuperar a calma o suficiente pra perguntar o que era.
Nessa hora ela virou um gato.
Juro pra vocês, ela se transformou num gato listrado cinzento minúsculo assim, sem mais nem porquê, bem na minha frente.
E foi essa a hora que o marido dela, que tinha ido tomar um bom banho, escolheu voltar pro quarto. Quando viu que o segredo tinha sido revelado, ficou puto e saiu de novo. Voltou com uma arma na mão.
- Da qual foi, muito doido? - perguntei pro cara - Vai pipocar a brother só porque ela me contou o segredo?
- Nós tinhamos um pacto. No momento em que alguém descobrisse sobre nossa real identidade, nós dois precisaríamos morrer.
- Mas olha, nem fudendo.
Peguei a gata (agora literalmente uma gata), enfiei debaixo do braço e abri o gás. Não sei por quanto tempo corri ou quais caminhos tomei, mas sei que, quando dei por mim, estava no antigo home office do meu pai em Copacabana, revirando as prateleiras atrás de uma arma e de alguns livros, enquanto explicava pra ele que "eu não tô maluca, tô fazendo isso pra salvar uma mulher por quem me apaixonei".
Quando ele finalmente se convenceu de que a porra ficou séria, tirou um .38 de dentro da gaveta - eu podia jurar que aquele .38 tinha sido roubado há quase 20 anos atrás - e uma pilha de livros clássicos do armário - Cervantes, Dumas, Machado de Assis - e enfiou tudo numa mala pra mim. Me disse que onde eu tivesse conhecimento, não estaria indefesa. Mas que, no caso de eu emprestar os livros pra alguém e não me devolverem, uma arma quebrava o galho também. Fez um cafuné na gata - ainda em sua forma Felix catus, ronronando como se não houvesse amanhã - e saiu, me deixando sozinha no apartamento com a sacola de viagem aberta em cima da mesa.
A gata se enroscou nas minhas pernas, sempre ronronando. Eu sabia o que ela queria, ou pelo menos achava.
- É ração que você quer?
Ela miou, inconformada.
- Olha, se seu plano for me seduzir pra me levar pra cama, deixa eu te deixar um negócio bem claro: por mais que eu tenha te comido em forma humana, zoofilia nunca foi minha praia. Ou você se transforma ou vai gastar esse cio se esfregando na parede.
Ela mordeu meu pé, irritada, com força. E aí eu acordei.
19.1.12
Mais um pesadelo pra coleção
Era uma festa muito, muito esquisita. Cheguei lá dirigindo com um pouco de dificuldade, porque estava escuro pra caramba e a parada era literalmente no meio do mato. Cau, Spike e Dude ficavam rindo da minha cara o tempo todo por eu demonstrar tão pouca intimidade com o volante.
De qualquer forma e com um pouco de sorte, achei a porra do lugar. Era tipo uma rave, só que não era bem uma rave. Música eletrônica vinha de algum lugar indefinido, pois não havia uma caixa de som à vista. Era tipo uma quadra de terra batida, numa clareira entre milhares de árvores. Logo avistei Dattoli e Lucas Sena, entre outros rostos conhecidos de outras festas estranhas com gente esquisita, e fui falar com eles atrás de meu brinco de golfinho.
Não sei quanto tempo se passou ou o que exatamente consumi, mas quando dei por mim a festa tinha acabado. Vagueei pra fora da clareira até o lugar onde as pessoas estavam reunindo suas coisas e dei de cara com meus três companheiros. Era noite fechada e só tínhamos sobrado nós. Eles estavam preocupados porque eu sumi. Eu ainda não estava muito bem, parecia estar me recuperando de uma viagem muito tensa de ácido, então sugeri que parte deles fosse levando nossas tralhas pro carro, estacionado um pouco mais distante, enquanto alguém me fazia companhia. Eu precisava desesperadamente ir ao banheiro, e não tinha coragem de ficar por ali sozinha. Só que aparentemente ninguém entendia o que eu estava falando, porque Spike, o último a se dirigir ao carro, saiu de perto, carregando um teclado de computador e uma mala rosa.
O banheiro era um casebre. Literalmente um casebre. O lugar estava caindo aos pedaços, madeira apodrecendo, o chão ensopado de água e sabe deus que outros fluidos mais. O cheiro era insuportável, o único reservado com a porta aberta tinha a privada transbordando, e eu me senti numa cena de Trainspotting. Foda-se, preciso mijar, suspendi a saia, arriei a calcinha e tentei me equilibrar precariamente, sem encostar em absolutamente parte nenhum daquele pardieiro.
Nessa hora, vi sangue escorrendo e pingando na minha calcinha. "Puta que pariu", pensei, "que hora filha da puta pra ficar menstruada".
Só que era muito sangue.
Sangue demais.
Quando pingou uma gota na minha testa eu percebi que aquela porra não era minha.
Olhei para a parede na qual eu tentava arduamente não tocar. O sangue escorria por ela, pingava do teto, aumentava a umidade e o cheiro do lugar. Chovia sangue em mim, nas minhas roupas, em tudo. Tentei gritar pra chamar os meninos, mas sabia que eles estariam longe do alcance da minha voz.
Olhei pro espaço entre o chão e a divisória, e finalmente a vi. Era um rosto de velha, bem velha, bem decrépita, pálida e desgrenhada. A boca era um buraco negro cercado por esparsas estalactites e estalagmites pontiagudas, vorazes, podres. O sangue escorria por seu queixo, misturado a saliva e alguma outra coisa viscosa que eu não conseguia e nem realmente queria identificar. Entrei em pânico.
O rosto se aproximava e eu não conseguia levantar dali, pois ainda não tinha terminado meu serviço e o medo deixava minha bexiga frouxa e meus joelhos trêmulos. Era só um rosto, sem corpo, sem sentido, incorpóreo. E o rosto flutuou e alcançou a altura do meu.
Tentei mais uma vez gritar, implorar aos meninos que voltassem, que não me deixassem só, que me salvassem, mas a voz não saía de jeito nenhum. Do rosto fantasmagórico, uma língua pontuda, escarlate e fétida tentava alcançar meu rosto. Eu já estava coberta de sangue e sufocava com o grito que se recusava a sair. Não conseguia me mover. Sentia meu corpo se debatendo por dentro, mas, por fora, sequer um movimento. Eu sabia que os meninos estavam só me esperando, a chave do carro continuava comigo e eles não tinham como ir embora sem mim. Me fazer ouvir era a única chance de escapar, mas nem isso eu conseguia.
Acordei suada, agitada, gritando pelos meninos, xingando-os por terem me abandonado, sentindo uma dor lancinante no ponto da minha bochecha onde, molhada por lágrimas e minha própria saliva, eu ainda sentia o toque da língua detestável. No relógio, 3:15 da manhã. Cerca de 4h até o toque do despertador. Narrei minha história e voltei a dormir, rezando a qualquer divindade disposta a me escutar por um resto de noite sem sonhos.
De qualquer forma e com um pouco de sorte, achei a porra do lugar. Era tipo uma rave, só que não era bem uma rave. Música eletrônica vinha de algum lugar indefinido, pois não havia uma caixa de som à vista. Era tipo uma quadra de terra batida, numa clareira entre milhares de árvores. Logo avistei Dattoli e Lucas Sena, entre outros rostos conhecidos de outras festas estranhas com gente esquisita, e fui falar com eles atrás de meu brinco de golfinho.
Não sei quanto tempo se passou ou o que exatamente consumi, mas quando dei por mim a festa tinha acabado. Vagueei pra fora da clareira até o lugar onde as pessoas estavam reunindo suas coisas e dei de cara com meus três companheiros. Era noite fechada e só tínhamos sobrado nós. Eles estavam preocupados porque eu sumi. Eu ainda não estava muito bem, parecia estar me recuperando de uma viagem muito tensa de ácido, então sugeri que parte deles fosse levando nossas tralhas pro carro, estacionado um pouco mais distante, enquanto alguém me fazia companhia. Eu precisava desesperadamente ir ao banheiro, e não tinha coragem de ficar por ali sozinha. Só que aparentemente ninguém entendia o que eu estava falando, porque Spike, o último a se dirigir ao carro, saiu de perto, carregando um teclado de computador e uma mala rosa.
O banheiro era um casebre. Literalmente um casebre. O lugar estava caindo aos pedaços, madeira apodrecendo, o chão ensopado de água e sabe deus que outros fluidos mais. O cheiro era insuportável, o único reservado com a porta aberta tinha a privada transbordando, e eu me senti numa cena de Trainspotting. Foda-se, preciso mijar, suspendi a saia, arriei a calcinha e tentei me equilibrar precariamente, sem encostar em absolutamente parte nenhum daquele pardieiro.
Nessa hora, vi sangue escorrendo e pingando na minha calcinha. "Puta que pariu", pensei, "que hora filha da puta pra ficar menstruada".
Só que era muito sangue.
Sangue demais.
Quando pingou uma gota na minha testa eu percebi que aquela porra não era minha.
Olhei para a parede na qual eu tentava arduamente não tocar. O sangue escorria por ela, pingava do teto, aumentava a umidade e o cheiro do lugar. Chovia sangue em mim, nas minhas roupas, em tudo. Tentei gritar pra chamar os meninos, mas sabia que eles estariam longe do alcance da minha voz.
Olhei pro espaço entre o chão e a divisória, e finalmente a vi. Era um rosto de velha, bem velha, bem decrépita, pálida e desgrenhada. A boca era um buraco negro cercado por esparsas estalactites e estalagmites pontiagudas, vorazes, podres. O sangue escorria por seu queixo, misturado a saliva e alguma outra coisa viscosa que eu não conseguia e nem realmente queria identificar. Entrei em pânico.
O rosto se aproximava e eu não conseguia levantar dali, pois ainda não tinha terminado meu serviço e o medo deixava minha bexiga frouxa e meus joelhos trêmulos. Era só um rosto, sem corpo, sem sentido, incorpóreo. E o rosto flutuou e alcançou a altura do meu.
Tentei mais uma vez gritar, implorar aos meninos que voltassem, que não me deixassem só, que me salvassem, mas a voz não saía de jeito nenhum. Do rosto fantasmagórico, uma língua pontuda, escarlate e fétida tentava alcançar meu rosto. Eu já estava coberta de sangue e sufocava com o grito que se recusava a sair. Não conseguia me mover. Sentia meu corpo se debatendo por dentro, mas, por fora, sequer um movimento. Eu sabia que os meninos estavam só me esperando, a chave do carro continuava comigo e eles não tinham como ir embora sem mim. Me fazer ouvir era a única chance de escapar, mas nem isso eu conseguia.
Acordei suada, agitada, gritando pelos meninos, xingando-os por terem me abandonado, sentindo uma dor lancinante no ponto da minha bochecha onde, molhada por lágrimas e minha própria saliva, eu ainda sentia o toque da língua detestável. No relógio, 3:15 da manhã. Cerca de 4h até o toque do despertador. Narrei minha história e voltei a dormir, rezando a qualquer divindade disposta a me escutar por um resto de noite sem sonhos.
4.10.11
Dia 04 - O Imperador
Que gatos são criaturas com porte de realeza e acostumadas a ter suas demandas cumpridas, todo mundo já tá cansado de saber. A questão é que, lá em casa, o rei mesmo era meu pai, e ele já tinha declarado com sua voz de trovão que nem pensar, chega de gato nessa casa, não aguento mais você e essa sua mania esquisita de adotar tudo que é felino que vê pela frente e ainda por cima colocando nome de gente. É um tal de Raoul, Edgar, Lili, Léo, o caralho a quatro, e agora Vicente? Não senhora, não debaixo do meu teto. Então, com muito pesar, coloquei o gato cinzento raiado de cinza mais escuro que tinha encontrado debaixo da marquise durante a chuva do dia anterior, no patamar da porta da frente e fechei, Tinha certeza de que ele conseguiria se virar sozinho. Afinal, crescera na rua, e, se fosse esperto, ficaria por perto dali onde tinha conquistado uma amiga e comida fácil.
Voltei pra dentro do quarto e me enrosquei na cama com Raoul, o gordo, enquanto tentava me convencer de que tudo ficaria bem. De alguma forma, o gato parecia ainda maior do que eu me lembrava, como se para ocupar o próprio espaço e o do irmãozinho que quase ganhou. Nem senti o tempo passar. Acho que devo ter cochilado, sei lá. Só sei que, quando dei por mim, a gataiada toda estava empoleirada na minha cama, o mostrador do relógio digital me dizia com seus olhos vermelhos que eram quase três da manhã, e tinha alguma coisa raspando minha janela por fora.
Demorei um pouquinho pra conseguir sair da cama sem desalojar todos os outros ocupantes, e fui meio com medinho ver que diabo de barulho era aquele. Se aquilo fosse um pesadelo ou um filme de terror, com certeza um monstro estaria me esperando do outro lado, mas eu tinha alguma esperança de estar acordada de verdade. Respirei fundo e contei até três antes de abrir a janela, e, do outro lado da tela, Vicente miava baixinho, encarapitado num galho de árvore. Soltei a tela em uma das pontas e acolhi o bicho, meio sem saber o que estava fazendo. Se meu pai me pegasse com ele ali, não ia ter “ele me seguiu até em casa, posso ficar com ele?” certo, que esse não é o tipo de papo que cola cinco vezes. Mas essa noite eu não ia deixar o bichinho dormindo na rua. Fechei a janela de volta, avisei aos filhotes que era para fazerem silêncio e desci pra buscar comida, tanto pra eles quanto pra mim.
Era uma hora um tanto incomum pra se pegar comida de gato na cozinha, então era importante que eu fizesse o mínimo de barulho possível para que meu pai não percebesse que eu estava por ali. Tudo bem que ele, minha madrasta e meus avós deveriam estar no décimo sono, mas velho tem tudo sono leve e meu avô andava com a mania de acordar no meio da madrugada pra ir ao banheiro. Desci as escadas e entrei na cozinha na ponta dos pés. Abri as portas dos armários devagarzinho, com medo de fazer barulho, mas não encontrava a ração em canto nenhum. Encontrei uns biscoitos muito esquisitos, botei alguns em um prato pra mim, peguei um pouco de carne moída crua e sem tempero na geladeira pro gato e comecei a subir de volta, quando vi uma sombra larga e muito alta se mexendo no corredor lá em cima. Só podia ser meu pai. Entoquei a carne atrás de um vaso de plantas (aliás, o que um vaso de plantas estava fazendo no meio da escada?) e continuei subindo devagar, matutando uma desculpa qualquer pra estar comendo biscoitos as três e meia da manhã, quando vi Vicente andando tranquilamente. No teto. Não fazia o menor sentido, mas fiquei mais preocupada em chamar a atenção dele pra ele se esconder do que com o fato de que as leis da gravidade aparentemente foram revogadas por algum juiz meio maluco. Mas nessa justa hora o gato resolveu começar a miar. Ouvi barulhos de passos ecoando ao meu redor, e aquela escada parecia nunca mais ter fim. Comecei a correr, agora verdadeiramente assustada, mas a porta do meu quarto não aparecia de jeito nenhum. E o gato miando, no teto, nas paredes, por todos os lugares.
3.10.11
Dia 03: A Imperatriz
Fazia tempo que eu não via Regina. Até me sentia meio mal por isso, porque sempre fomos muito próximas, mas a correria da vida fez com que simplesmente sumíssemos uma da vida da outra. Por outro lado, desde que nosso relacionamento terminou que as coisas às vezes ficavam meio tensas quando nos encontrávamos pessoalmente, e com o tempo nem pela internet nos procurávamos mais. Fomos desaparecendo uma da outra, até que se passaram bem alguns anos sem notícias.
Por isso tomei um susto quando recebi uma ligação desesperada do Alex dizendo pra eu ir pro hospital porque ela precisava da minha ajuda. Por mais distantes que estivéssemos, eu nunca negaria ajuda a alguém que já amei tanto, então peguei correndo a bolsa e fui.
Encontrei os dois na porta. Alex parecia fisicamente bem, mas a cara dele estava desesperadora. Mais desesperadora ainda era o quadro como um todo: Regina estava deitada numa maca, a barriga quase explodindo de gravidez. Eu não sabia como reagir àquilo. Parecia uma gata prenha de uma dúzia, enorme, redonda, a cintura bem marcada que eu tanto amava completamente deformada, as pernas delicadas incapazes de sustentar o peso do corpo.
O que mais me confundia, na verdade, era a gravidez por si só. Regina nunca gostou de homens na vida – se autodefinia como uma estrela dourada, termo corrente pra lésbicas “com selo de garantia”, e, pelo menos quando estávamos juntas, dizia que se quiséssemos mesmo ter Olga e Catarina, eu é quem teria que abrir mão das minhas formas pra fazer inseminação, porque se recusava terminantemente a engravidar, ficaria ridícula masculina como era, etc. Naquele momento, masculina seria a última palavra que eu usaria para defini-la. Os cabelos mais compridos do que eu jamais vira – a franja chegava na linha do queixo – e uma aparência geral de fragilidade e sofrimento impossível de definir com palavras conferiam ao quadro um langor insuportavelmente delicado. Passei alguns instantes de choque observando a cena antes de conseguir abrir a boca pra falar o que quer que fosse.
– Como foi que isso aconteceu?
– Não sei! – me respondeu, a voz sufocada. Parecia doer até para respirar.
– Como, não sabe?
– Um belo dia, minha menstruação não veio. Depois de um mês assim, fui no médico e ele me deu as “boas novas”. Não lembro de ter ido pra cama com homem nenhum. Não lembro de ter injetado porra nenhuma no útero. Não lembro de nada.
Um espasmo mais forte de dor fez com que o rosto de Regina se distorcesse de uma forma que partiu meu coração. Tava na hora de fazer alguma coisa. Peguei a maca e corri com ela hospital adentro, vagamente notando no caminho que Alex havia desaparecido, possivelmente para fumar. Corremos por corredores brancos, através de portas brancas, era tudo muito branco, eu já nem sabia mais onde estava. Até que ouvi Regina gritando.
– Chega, Lili! Chega! Tá na hora! Você vai ter que resolver isso!
Nunca fiz um parto na minha vida, mas era bem familiarizada com a parte da anatomia de Regina que eu teria que encarar agora. Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei trazer ao mundo o filho da minha ex namorada, mas pelo visto era o dia internacional do surrealismo, então não demorei muito pra me preparar psicologicamente. Me coloquei de frente para as pernas arqueadas da pobrezinha, separei seus joelhos e, sem me preocupar com água quente ou toalhas brancas, pedi que ela empurrasse.
Regina não precisou fazer muito esforço. O que quer que fosse aquilo saindo de dentro dela queria tanto sair quanto ela queria se livrar da dor. A criatura rastejou para fora dela, garras rasgando a carne e ensopando a confusão de panos brancos de sangue vermelho escuro, depois rosado, depois só água. Rastejou e rastejou, até se aninhar no topo da barriga da mãe. Não era uma criança. Não sei descrever aquilo; parecia um alienígena, um pokémon, um demônio, sei lá o que diabo era. Parecia feito puramente de carne e osso, sem pele, sem pelos, sem nada que o identificasse como um ser vivo exceto os olhos, muito negros, muito brilhantes. A porra da criatura era rosa, aquele rosa-carne de pele leitosa suja de sangue, parecia mesmo que era isso porque era um rosa meio raiado de branco, e me olhou tristemente por alguns segundos antes de parar de se mexer. Morreu ali, ainda sobre o ventre de Regina, o cordão umbilical enorme ainda preso à hospedeira. Entrei em pânico. Não queria que Regina visse aquilo, mas era tarde demais. Ela estava em choque, não conseguia falar, os olhos arregalados presos naquele pedaço de pesadelo.
– Rê, você tá bem?
Silêncio.
– Rê, fala comigo! Rê, me escuta, nada disso é real, tá? Isso é um pesadelo. Uma porra dum pesadelo absurdo e assustador, mas ainda assim um pesadelo. Olha pra mim, Rê!
Mas ela não me respondia. Os olhos vidrados, a boca entreaberta, e eu podia jurar que ela não estava respirando. Tornei a correr pelos corredores, empurrando a maca em busca de um médico, um curandeiro, alguém que pudesse socorrer minha amiga. Não pode acabar assim, não podia deixar ela morrer. Corri feito louca, e parecia presa no tempo. As portas abertas, os corredores desertos, Jesus, onde foi que a gente veio parar?
Dei com uma porta fechada. Chutei com toda a força que minhas pernas bambas de terror permitiam e puxei a maca na direção dela. Uma luz muito forte me ofuscou. Um barulho vagamente eletrônico disparou em meus ouvidos, e, atordoada, consegui abri os olhos.
O celular marcava seis horas da manhã e o alarme era insuportavelmente irritante. Esfreguei os olhos e tirei a carta de tarô de debaixo do travesseiro. A Imperatriz me encarava com seus olhos tranquilos. Esfreguei os meus e fui cuidar da minha vida.
5.1.11
Sexo, drogas e violência
Era uma janela do MSN. O amigo da voz doce de menino tímido e o amor conversavam, e o amigo afirmava que eu ia parar nos Trending Topics do twitter. O motivo? Eu estaria fazendo um tal treinamento de Ogunjá. O tal treinamento consistiria em eu definir quanto tempo de sono teria. No entanto, ia dar errado, porque eu tinha dito que só ia dormir por meia hora, e todo mundo sabe que eu não sou o tipo de pessoa que consegue cochilar por meia hora. Eu não ia sair da cama antes das dez. E o amigo dizia que isso era porque eu tinha caído enquanto pulava as sete ondas na praia, no ano novo.
Era o quarto onde eu morava na minha terra natal. Eu estava deitada, só de calcinha, em uma cama de casal, que era o único móvel claro do quarto. Todos os outros eram de madeira escura. De repente, o caso rompido entra pela porta do quarto sem maiores cerimônias. Me enrolei no lençol e lá fiquei, tentando convencê-lo de que não era uma boa idéia estarmos ali, sozinhos, os dois, eu seminua. Acabava por ceder. Nus de todo, agora, nos púnhamos a repetir o feito daquela manhã de quinta-feira. E aí a porta do quarto novamente se escancarava, e o irmão da minha chefe irrompia quarto a dentro, com um par de carregadores, e eles começavam a levar a mobília embora, exceto minha cama. E ficávamos lá, os dois, sem saber onde nos esconder. Depois, voltavam os carregadores, com moveis novos, de madeira clara, e muitas, muitas televisões. Contei cinco, espalhadas por toda a mobília, e aquilo me frustrava porque eu não tinha onde colocar o computador. Estava tudo tomado por televisões. Voltei para cama, incomodada, e ouvia a voz do irmão da chefe me dizendo que, além dos móveis, eles trouxeram também camarão empanado e outras bobagens para compensar o incômodo. O caso rompido, a essa altura usando um crucifixo de prata que me pertencia, perguntou displicentemente se tinha mais comida lá fora, porque ele estava com fome e de olho no camarão. Começou a comer e ficamos ali, na cama, comendo.
Era um quarto de paredes meio azuladas, com uma beliche encostada em uma parede e um pufe que parecia ser feito de saco de lixo encostado no canto. Estávamos jogando videogame, eu e meus colegas de trabalho, algum jogo de esportes. Então, um rapaz que era a cara do Chad Lindberg entrava, se jogava no pufe e arremessava para cada um de nós uma pistola branca, dizendo que eram controles especiais. Todos analisamos cuidadosamente nossos controles, até que uma das meninas, visivelmente drogada, enfiava o cano da pistola dentro das calças e dizia que havia um bicho lá dentro e que ela queria matá-lo. Puxou o gatilho. O sangue começou a manchar sua calça jeans clara e ela desmaiou sobre a cama. Tomei a arma da mão dela e comecei a tirar a munição, enquanto, desesperada, xingava o responsável por aquilo. As balas pareciam pilhas AAA. Eu tirava uma por uma do pente e gritava, "IT'S ALL YOUR FAULT". Mandava ele sumir com aquilo, mas só aí percebi que as armas estavam cheias de impressões digitais minhas. Me desesperei para tentar limpar, mas então a amiga acordou, disse que não se sentia muito bem e ia para casa esperar a onda passar.
O despertador tocou pela vigésima vez. Acordei.
3.11.10
Gatonirico
Abriu os olhos e percebeu que estava no trabalho. Na sua cadeira, seu substituto oficial. Deu de ombros e foi pra sala onde costumava ocupar suas horas ociosas. Deu de cara com gatos, muito gatos, miando e pedindo carinho e sendo adoráveis. Um conseguiu escalar seu ombro, e lá ficou, pendurado, ronronando baixo perto a seu ouvido, amassando a blusa com as garrinhas. Colocou o gato no chão. O gato se tremeu todo, e tremendo, sentou num canto. Ameaçou molhar o chão, mas conseguiu segurar. Piscou os olhos, muito redondos muito enormes muito azuis, e olhou com carinha de triste. Ela ficou com pena por meio segundo. Depois, acordou.
21.9.10
Auto-biografia I
Gerada num dia fora do tempo, numa noite de lua negra, numa casa condenada, caindo aos pedaços, ocupada por dois perfeitos desconhecidos determinados a me trazer ao mundo. Criada num lar desfeito, por uma mãe desequilibrada e um pai que se esforçava tanto que acabava por nunca estar. Desde cedo, o álcool como tutor. Indesejada pela maioria, adotada pelos demais. Órfã aos 17, toda uma bagagem de erros nas costas, uma estrada de nuvens cor-de-chumbo à frente. Prometi: só volto vitoriosa, ou em um caixão. Ainda não chegou a hora de decidir qual dos dois.
16.9.10
Desconhecimento
Não tinha o direito de tocá-la, mas também era difícil manter-me distante. Deitadas lado-a-lado, repousei minha cabeça no seu ombro e a abracei. Ela estremeceu. Um casal de amigos dela, sendo um colega meu de faculdade e o outro primo de um amigo meu, deu risada de nossa intimidade recém-criada. Me aninhei mais, feliz como há muito tempo não me sentia. "Você sabe que eu sou hetero", ela me disse com ar de reprovação. "Você sabe que eu não me importo", respondi meio divertida pelos protestos. Ela me puxou pra perto. Olhei nos seus olhos e tenho certeza de que a confusão em meu semblante estava mais que nítida: eu não fazia absolutamente a menor idéia de quem era ela.
8.9.10
Despedidas
Meu quarto nunca foi lá muito organizado, mas dessa vez estava um pouco demais. Ele estava sentado em cima da minha escrivaninha, aquele elemento a mais de caos na minha vida já completamente caótica por definição. Aquele elemento de caos que me deixou rindo feito uma idiota quando brotou de surpresa na minha cidade pra uma visita. Por isso não deu pra arrumar tudo em preparação; ele chegou do nada, sem avisar.
Então, ele estava sentado na escrivaninha, e eu sabia que não faltava muito tempo para ele ter que ir embora. A proximidade do momento da separação me deixava meio apreensiva, mas não demais, já que eu sabia que em breve seria minha vez de cruzar o pais para vê-lo. Estávamos em silêncio, eu perdida na minha apreensão e ele, bom, sei lá no que ele pensava. Serj Tankian gritava alguma coisa nas caixas de som, mas eu estava distraída demais pra prestar atenção.
De repente, o telefone dele tocou. Por questão de educação, decidi que era um bom momento para dar o fora daquela zona. Virei minhas costas e fui até a cozinha pegar alguma coisa pra beliscar. Quando voltei pro quarto, ele já não estava mais lá. Nem a porção dele da bagunça, uma mala displicentemente arremessada num canto. Estranhei. Sensação meio esquisita na boca do estômago. Corri até a sala e dei de cara com minha colega de quarto.
- Viu o Fê?
- Saiu ainda agora, te deixou um beijo, disse que arrumou uma carona pro aeroporto e não ia dar pra esperar você voltar.
- Oi?
Fui até a janela. Nem sinal. Aparentemente, a carona já ligou da porta aqui de casa. Me emputeci bastante, sabe? Não é normal uma pessoa vir de tão longe pra visitar alguém e ir embora assim, do nada, sem nem dizer tchau. Calcei meus tênis meio correndo, peguei um guarda-chuva - chovia a cântaros, como costuma acontecer durante a metade do ano em que Salvador não é insuportavelmente quente - e pulei dentro do primeiro Lapa-Itinga via Aeroporto que passou.
Devo ter cochilado dentro do ônibus, sei lá, mas nunca o trajeto Federação-Aeroporto foi tão curto. Corri como se minha vida dependesse disso até o portão de embarque, e consegui chegar lá antes dele. Estava pronta pra xingar. Pra reclamar que era muita falta de consideração. Pra não falar nada, simplesmente olhar pra cara dele com aquele olhar-de-fúria-gélida que eu só consigo fazer quando estou extremamente puta da vida, virar as costas e ir embora. Eu só não estava pronta pra cara que ele fez quando me viu. A raiva pareceu evaporar e sair em nuvenzinhas de fumaça vermelha pelos meus poros, tipo um nitrous purge, enquanto eu me aproximava lentamente, um pouquinho constrangida por ter chegado ali tão rápido e tão nitidamente em pé-de-guerra.
Ele abaixou os olhos quando cheguei perto. Me pareceu distinguir um leve tom de vermelho em seu rosto. Desviei os olhos, subitamente consciente do peso da situação. Nunca fomos namorados, mas o ar, pra mim, tinha cheiro, cor e gosto de pé na bunda. Ele quis ser o primeiro a falar.
- Pois é... eu tenho um problema, não sei se você lembra, mas eu...
- ...detesta despedidas. - completei por ele porque só agora me lembrei desse detalhe - Eu também. Mas ia ser uma puta sacanagem você ir embora assim sem me dar a chance de um último beijo.
- Não ia ser o último. Você vai me visitar logo, né?
- É. Mas eu queria algo pra ficar na memória.
- Engraçado como eu sempre me sinto triste quando a gente se separa.
- Engraçado? Eu acho normal. E adorável.
- Você gosta de ficar triste. - Não era uma pergunta.
- Não. Eu gosto de ter um motivo pra ficarmos tristes quando um de nós dois vai embora, é diferente.
- Xaxim Guaxinim...
- Hm?
- Vamos mais pra longe do portão de embarque um pouquinho? Não quero me despedir de você aqui. Fica com cara de pra sempre.
- Tá. Mas se você chorar, eu choro.
Demos as mãos e viramos as costas. Eu já sabia que nunca iria ser pra sempre.
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