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26.6.23

Fender bender

My wake up call

Woke up the shadows inside

The angel drowning in the white noise

A highway to self-destruction

Projections and bright lights

So high we lost the connection


Things shared, best kept under the cover of night

Should have kept our underpants and the lights on

Never looking for understanding

But an excuse to undermine the control

Let the darkness out from under the skin

Before we realize the mess we're in


Freedom was dancing with the walls of our cages

And nothing held us back with the eyes closed

I'm in outer space and you hold me close

I hang onto my shackles to keep ashore

Trying to lose my mind in the moment,

The moment of madness that mesmerized us

A moment of mindfulness could have blinded us


No fear in my eyes until too late

No reason to fear until I realized 

There was no me, there was only you

There was no you, there was only lust

Past the point of no return until we turned to dust

We fell in lust with the mirror

But the mirror showed us only rust


It wasn't about us

(or me) (or even you)


I don't think I can judge at all

Broadcasting the siren call 

Beckoning to the depths of the abyss

Maybe it is just miscommunication

I wasn't given enough information

To give informed consent to the situation

My imagination never hinted I was in


Such deep conversations inside my head

And yet unaware of how deep the consequences 

Would crawl through the nooks and crannies

Craving beautiful poison in open wounds

A lifetime is still too short to heal

Can't say I don't see the appeal

But inside my head it is noisy

And all songs end with us both being dead


An excuse to feel something

Feel alive again flirting with death

And I'm not ready to feel like 

A poor excuse for assisted suicide

Call shotgun on a crash and burn ride

While I'm barely afloat enough to save myself

You made me up as an excuse to hurt yourself

You made me your excuse to be yourself


A goddess and a tamed beast fell in love

But the goddess only wanted to be human

And what the beast missed was being wild.

5.4.21

Lobos à minha porta

Hoje eu acordei e decidi que ia me convencer de que não preciso mais de você, custe o que custar. 

Abri os olhos e abracei um gato. Não preciso da sua respiração umedecendo e aquecendo meus cabelos, e há de chegar em breve o dia em que minha cintura não se sentirá nua pela falta dos seus braços ao redor dela.

Dormir está cada dia menos difícil. Talvez chegue o dia em que eu não precise do amparo medicamentoso pra conseguir enfim deslizar para o mundo dos sonhos sem antes desaguar no travesseiro todas as lágrimas que ainda tenho dentro de mim, congeladas.

Fiz café. Coloquei eu mesma uma quantidade muito maior de canela do que deveria -- algum dia vou acertar aquele ponto exato que você coloca instintivamente, mas esse dia não será hoje. Aos poucos, eu aprendo a fazer as coisas do jeito que eu gosto, que você descobriu tão espontaneamente. Hoje consegui não olhar pra sua caneca no armário e, com isso, não senti as rachaduras se espalhando ainda mais veemente e inexoravelmente pelo meu peito.

Pé ante pé, pouco a pouco, as rachaduras vão cicatrizar.

Ontem, senti vontade de me machucar. Ontem, senti muita vontade de chorar, mas não consegui, e não houve filme, jogo, música, droga, que tirasse de mim essa vontade terrível de arranhar minhas faces até abrir um canal pelo qual as lágrimas pudessem fluir livremente.

Mas consegui resistir.

Um dia, pouco a pouco, eu vou conseguir me libertar de você.

E, quando esse dia chegar, vou rir de mim mesma e apreciar o quão ridícula fui por me apegar tanto a alguém que era pra ser só uma distração.

Mas por enquanto, e só por enquanto, vou escrever pra você palavras que você nunca vai ler. Até que eu esgote minhas palavras pra você. Até que eu consiga não mais sentir.

5.11.20

Return to Nowhere

It was not supposed to happen this fast
No second comings and never looking back
I'm not ready and neither are you
Just talk about constellations and gods old and new
Get lost in a sweaty maze, minds a single haze
When dawn breaks, I'll be gone for good

But we couldn't just let go, could we?
We fell in love with the reflections in the mirror
Through the looking glass we wasted our newfound youth
Knowing full well the way back home led to nothing but hard truth
Now Narcissus is drowned, the king is dethroned
And only the past awaits in the desolation that is home

We willfully chose to ignore the ten of swords
But the tower always hung in the background
And now it's time to pick up the shards
and build myself up from the razed ground

This is not the first --
nor will it be the last --
time I have to reinvent myself

This is not the first --
but it will be the last --
time I let you pierce my mortal flesh

Mahogany eyes keep haunting my slumber
But the light of day hits my bed just wrong
The spell is broken, the sigil unspoken
Filled your travel pouch with blessings and longing
Now I'm claiming them back
You're not worthy of the promises heavy around your neck

It's not easy to get back on my feet
And turn my back to this burning pile left behind
Soon the embers will die and the ashes will fly
Like the memory of a dream that was not quite so bright
When this plague dies down, I'll have survived
I refuse to let your hand cast the last strike

And like the gods of old I might succumb for now
But return to die again a thousand times over
Winter always ends and I can't wait to see
The colors of the spring that will bloom inside of me

This is not the first --
nor will it be the last --
time I have to relearn myself

This is not the first --
but it will be the last --
time I burn myself at stake for you

18.7.19

Órion

O céu de chumbo volta a oprimir minha esperança tão adolescente de que a primavera um dia voltará. A natureza, ao que parece, insiste em espelhar o que vai dentro deste receptáculo oco que me habituei a chamar de coração. O vento que sopra pela desolação deste não-lugar é frio e cortante, mas os beijos que este deposita em meu rosto enquanto vago sem rumo certo pelas ruas que aprendi a amar e odiar na mesma proporção chegam a ser tórridos, quando há uma nevasca furiosa e inescapável dentro de mim. Sinto falta do seu toque, panaceia destinada a derreter o inverno que se instalou nas minhas entranhas, e me é doloroso contemplar esse não-futuro da sua ausência que se afigura cada vez mais próximo.

Processo meu raciocínio com uma lentidão excruciante, e talvez por isso eu me pegue, horas, sonhos e mundos depois, repetindo em subvoz tudo o que foi dito e, sobretudo, todo o percebido nas entrelinhas, completando as lacunas das nossas transparências com o que supus ouvir no espaços dos teus raros silêncios. Reviro e repenso ad nauseam cada ideia e as analiso sob todos os ângulos possíveis, numa agonia quase tão acre quanto desesperada e desesperadora de dar sentido ao que não faz sentido algum e criar algum arremedo de ordem no meio do caos. Em parte, aconchego; de resto, solidão.

Ferida e lacerada que estou por traumas dos quais me recuso a desapegar, insisto em gritar em versos surdos para as paredes manchadas a familiaridade desagradável da situação. Nada é original - tudo é reprise, e detesto me repetir. Sei que transfiro. Os personagens mudam, o contexto muda, e há diferenças cruciais que me permitem uma nesga de não sei bem se esperança ou expectativa. Me questiono o tempo todo se é sensato. Sei que não é. Nada faz sentido, mas certa vez me disseram que essas coisas não fazem sentido mesmo, que sentimento não obedece lógica e que esse meu hábito de burocratizar minhas relações é meu jeito de me convencer de que não sou digna de afeto.

Talvez não seja.

Sigo convencida de que o mais lógico seria dar por encerrado este conto de fadas tão bonito que comecei a escrever na minha cabeça, antes que as cicatrizes que começam a emergir na epiderme se tornem indeléveis, mas já cometi o grave erro de julgamento de pular da plataforma mais alta sem parar para avaliar se a adrenalina da queda livre compensaria o impacto ao fim da jornada. Agora, o que me resta é aprender a voar, e minhas asas estão por demais atrofiadas por desuso. O céu é chumbo. O fundo da baía, duro e pedregoso. A espuma na superfície das águas em movimento, deste ângulo, parece reluzir em carmesim, augúrio do que me espera quando o felizes-para-sempre falhar em chegar. Por muito tempo lutei para me manter à tona, mas parece que enfim é chegada a hora de, como nos velhos tempos, soçobrar e naufragar.

14.6.19

Conexão Interrompida

Tragédia anunciada:
Convertida em revelação
Alívio que suaviza os dias difíceis
Preciso de você (longe)

O inesperado:
Flor ceifada em botão
Morte do que renascia das cinzas
Preciso de você (aqui)

Que este ciclo se encerre,
Se enterre,
Se incendeie e incinere.

Aprender,
sem condicionar a outros
o valor que me dou.

Algum dia, encontrarei
o amor
do outro lado do espelho.

(de outro blog, outros tempos, outras dores,
pra me servir de lembrete - sempre válido -
de que tudo tem prazo de validade,
inclusive o luto por um sonho desfeito.)

13.6.19

Pecadilhos

Perversão das promessas pueris:
palavras proferidas na pulsão do presente.
Peço-lhe, impeça-me.

Impeça-me de pular uma parte portentosa
Do passado pujante que nos prende ao compasso do pretexto
Pedidos perdidos na pressa dos apesares
Sem sopesar o poço profundo dos pesares
Tão próprios de nós.

Piedade, peço-lhe. Impeça-me.
Se porventura pusermos um ponto,
punção perigosa, perene, impiedosa,
perderei-me, pesarosa
nas passagens primorosas
de projetos paralelos,
princípios permissivos presentes no apelo.

Preciso permitir-me parar e apreciar
o pêsame da ruptura primordial
para que possa pesar
a pusilanimidade da peça, um punhal.

Pretensões que pedem-me permissão:
Pinçando do pedestal a prova,
plúmbeas as preces,
a presunção pavorosa
do espaço perigoso entre meus pés
e seus passos pesados.

Da ponta porosa
escapa a prosa.
Da plenitude do peito,
por apressado que pareça o pleito,
permito-me padecer.

31.5.19

anamnese

os detalhes da tua voz.
o timbre e o sotaque e a cadência,
até os trejeitos do teu rosto,
teu sorriso tão tímido,
pontilhado de tristeza e sarcasmo
e estrelas.

voltávamos,
como sempre voltamos,
aos mesmos assuntos.

cíclicos.

te pedi um beijo
quase tarde demais
e era cedo demais para partir.

teu sorriso
chegou aos teus olhos, enfim
e o silêncio em mim
explodiu em cores

o gosto da tua boca,
tabaco e saliva e expectativa,
teus dentes. minhas marcas.

familiaridade.

cinderela sem sapatos,
depois da meia-noite
não há luxos,
apenas luxúria.

no banco da praça,
as pernas por cima das tuas,

memórias de tempos
que não vivemos juntos
mas tão vívidos
e tão antigos,
e tão jovens que somos,
e jovem era a noite.

teu sorriso secreto
destrancou algo em mim.
confiei.

o peso do teu abraço
e os passos embriagados
de pouco álcool e muita vontade
de parar o tempo,
tão sagaz e inclemente.

errando pela noite
nas ruas tão conhecidas
e tão estranhas,
tanto tempo.

a textura da tua mão,
do tamanho exato da minha.

tua linha do coração
me disse que um dia
tu ia ser feliz.

meu coração, desalinhado
não encontrou voz para dizer
que te acompanharia.

e agora, finalmente,
é tarde demais.

19.2.19

Silêncio

Eu não queria que você parasse de falar nunca.
É estranho, né?
Eu nunca soube bem como definir isso,
mas acho que gosto mais de ideias do que de pessoas.

E você falava bem sobre suas ideias,
e eu não queria que você parasse de falar,
porque quanto mais você falava,
mais eu me apaixonava pela ideia de você.

(Acho que acabei me apaixonando
pela imagem de você que eu criei
com base no que você escolheu me mostrar
e o resto eu fui preenchendo
com minhas próprias expectativas.)

Mas tudo que é incrível
um dia tem que acabar,
e você parou de falar,
e eu fiquei sem saber o que fazer
com tanto pathos
querendo escapar desarrazoadamente pela minha boca,
e eu não queria te assustar
com a tormenta que se formava dentro de mim,
então eu te beijei
pra tentar amenizar a intensidade
do que eu estava sentindo.

Eu não queria que você parasse de me beijar nunca.
É estranho, né?
Parece que seus lábios falam a minha língua
de todas as formas possíveis.

E o que era intenso transbordou,
e eu não podia suportar mais a ideia
de terminar a noite
sem sentir o calor da sua pele.

(Doía pensar que depois daquela noite
eu iria embora
e talvez eu nunca mais te visse
e talvez morresse sem saber
se seu corpo era mesmo o mesmo número do meu.)

Eu sabia que nunca ia conseguir te esquecer
se não desse uma noite de folga ao meu superego
e me permitisse perder o controle uma vez na vida.

Chego a esquecer
que tentei criar uma máscara
para não te mostrar
os monstros que se escondem aqui dentro,
pois é como se nos conhecêssemos
desde a infância
e fôssemos jovens novamente.

Inconsequentes.

Você corava
como uma donzela
todas as vezes
que nossos olhos se encontravam,
seu rosto contorcido
na tentativa
de conter seu transbordo.

Acendi um cigarro - você,
sem saber o que fazer com os olhos ou com as mãos,
voltou a falar
sobre qualquer coisa que lhe viesse à cabeça.

(Quando não sei o que dizer,
 deixo meu corpo falar.
Quando você não sabe o que fazer,
 deixa sua boca falar.)

Eu queria que você não tivesse começado a falar nunca,
porque eu sabia, no fundo,
o quanto a inevitável ausência da sua voz
doeria mais que não ter te conhecido.

3.10.14

Broken expectations

I was expecting mostly anything out of this:
to be frustrated, ignored, forgotten,
heartbroken, ridiculed even,
to wake up the next morning,
bitter taste on the mouth,
left on the gutter without a single happy memory left
to make me last through the day...
I guess I was expecting pain, as usual.

I'm too used to expecting too much,
so this time I decided to expect the worst,
just to ensure my expectations would be met this time.

What I definitely wasn't expecting
was to be swept off my feet.

18.9.14

Sinestesia

É uma daquelas noites
Em que sinto sua falta
Com todos os sentidos

O cheiro do seu corpo
Permaneceu em meus travesseiros
E fincou morada em mim
Marca indelével em minhas memórias

O calor de suas mãos
Incinerou cada fiapo de razão
E me perdi em um sentimento
Que mal posso começar a compreender

O gosto de seus lábios
O som de sua voz
Pura sinestesia
E meu coração e minha alma
Parecem prestes a explodir

Acho que a verdade é que
Você me toca
E eu viro melodia.

19.4.14

Quebra-cabeças

E então que as coisas encaixaram nos seus devidos lugares e nada na verdade encaixou onde devia.
Nada funciona bem. Nada funcionou. Nada nunca funcionou.

Na verdade, tentamos até onde podíamos e nada foi capaz de suprir os espaços vazios onde os buracos desse quebra-cabeças que chamamos de vida tentavam se encaixar. E ainda assim continuamos tentando, até a exaustão. E nada continuou a funcionar.

Na verdade, acho que talvez sejamos novos demais. Jovens demais. Imaturos demais. Talvez, ao contrário, sejamos almas velhas demais e já tenhamos passado por isso antes e nossa experiência seja frágil demais pra nos ajudar a resolver isso.

Talvez, só talvez, a vida tenha desandado em algum ponto e a gente tenha perdido o momento de voltar a fazer as coisas andarem na direção certa.

Não sei se quero saber. Só sei que as coisas não são capazes de voltar aos lugares certos assim tão fácil. E as peças nunca mais vão se encaixar...

30.3.14

Void

I just wish I could remember you better
I just wish that brief moment of intimacy hadn't been so fleeting
The soft touch of your lips imprinted itself in me
As something soothing in the eye of the maelstrom
You were something to hold on to amidst the chaos
The turbulence around and inside me
And I recklessly let myself drift away
Into other arms and other mouths and other worlds
Into myself and the crowd
And forget everything but the remembrance of something sweet.

4.3.14

Guerra fria

Teus olhos em meus olhos - prenúncio de tragédia. Sob as estrelas, desnudamos nossas almas e demos importância a coisas desimportantes, entre sussurros nossos e estrondos a nosso redor. Te perguntei sobre teus gostos enquanto me perguntava que gosto teria tua língua. Quis saber teus sentimentos enquanto imaginava como seria sentir teus lábios pressionados contra os meus. Perguntei se sabia dançar, desejando, na verdade, que nossos corpos se movessem juntos ao som das batidas do teu coração, da maneira como são percebidas pelo meu ouvido pressionado contra teu peito nu e suado. O vento soprava forte e cheirava a chuva e sal, e tua pele fria e úmida roçava preguiçosamente na minha quando nos abraçávamos. Abri os olhos completamente incensada de você e o sol que vinha da janela me fez desejar trancar as portas dos sonhos para nunca mais te deixar entrar e me bagunçar.

5.9.11

Das tantas coisas que não sei

Anda, me dá um cigarro. Eu preciso desabafar. Não me olha desse jeito, eu sei que falo demais, mas hoje é necessário. Eu queria, só por um dia, ser capaz de fingir. De sorrir quando quero chorar; de franzir o cenho e ostentar preocupação quando na verdade nada me abala. Como assim, eu finjo bem? O único fingimento que aprendi diz respeito a fazer de conta que sou uma estátua. Eu queria saber disfarçar, também. Por exemplo, pra olhar nos olhos sem denunciar o que vai no coração, ou desviá-los quando nada têm que fazer em determinada direção. Não faz graça. Olha que eu fujo, hein? Fica quieto e deixa eu continuar. Sabe o que mais eu queria? Saber quando ser ou quando não ser eu mesma. Quando me permitir e quando me resguardar. Eu sei, querido. Eu perco a linha fácil, não precisa jogar na minha cara. Eu precisava era, ainda que por poucas horas, ter tanto bom senso quanto se espera de mim. Ou quanto seria necessário pra me manter viva. Eu queria aprender a hora certa de calar minha boca. Como, por exemplo, agora.

20.7.11

Era uma vez

Não é seu amor que eu quero. Não faço questão de sua companhia, ou de longas noites de conversas cheias de significado ou poesia. Não quero, da noite pro dia, me tornar sua amiga, companheira, confidente. Não quero ser sua namorada, ou qualquer coisa do tipo. Não espero que você perdoe meus pecados, suporte minhas infidelidades, ature minhas lamúrias. Não sou uma gata borralheira esperando pelo príncipe encantado com o sapatinho de cristal. Não sou uma princesa aprisionada esperando que me salvem da bruxa, do dragão ou da madrasta malvada, e nem adianta esperar que eu não vou jogar minhas tranças pra você subir e me resgatar.

O que eu quero é físico. Não me importo se você vai sair da minha cama e pular na de outra qualquer. Eu faria o mesmo, se me desse na telha. Não me importo se você não vai ficar para dormir de conchinha e me cobrir de beijos ao amanhecer. O que eu quero é você dentro de mim, ainda que por apenas alguns minutos, não mais que o necessário. O que eu quero é o calor do seu beijo, o desespero no seu toque, a irregularidade nas nossas respirações. Quero sentir o sangue correndo e queimando em minhas veias, o peso do seu corpo contra o meu, as roupas se atirando pelos cantos, a pele se rasgando sob as unhas. Quero gritar. Mais ainda: quero ouvir seus gritos. Quero barulho, quero suor, quero tudo o que seus olhos me prometeram.


Todo o resto é ilusão de criança encantada, sonho de carochinha, e eu posso passar sem. Não quero um final de felizes para sempre. Termine seu serviço, e me deixe exausta na cama, Bela Adormecida à espera do próximo cavaleiro, e talvez nos encontremos num próximo conto de fadas. Ou não.

15.7.11

Ressaca

Uma batida. Duas batidas. Não sei por quanto tempo prendi a respiração, mas tudo o que eu podia fazer era contar as batidas do meu coração enquanto criava coragem para fazer o que há tanto tempo eu queria fazer. Enfim, respirei fundo e dei dois passos na direção dele. Já nem lembrava mais o que me impedia de beijá-lo; só me lembrava da vontade de fazê-lo, adormecida a tanto tempo dentro de mim. Entabulei uma conversa-disfarce, uma bobagem qualquer sobre música que eu poderia manter sem precisar raciocinar, enquanto dizia para mim mesma que faria aquilo apenas por desencargo de consciência. Nunca deixei de possuir alguém que desejasse, por mais tempo que levasse. E hoje, bonitinho, é a sua vez, pensei.

Não demorou muito para me perder nos beijos, no corpo junto ao meu. Esqueci de onde estávamos. O gosto da vodka em seus lábios não me incomodava; o gosto do cigarro em meus não parecia gerar qualquer desconforto. Suas mãos buscando meu corpo, minhas mãos buscando partes do seu que, sóbria, eu não ousaria tocar tão displicentemente. Suas unhas nas minhas costas. Minhas mãos puxando seus cabelos. Conversamos, é fato, mas pouco, e tudo que minha memória foi capaz de reter foi a data de seu aniversário. A linguagem de nossos corpos bastou, por aquela noite. Enfim sorri, beijei seus lábios uma última vez e entrei no carro. Na manhã seguinte, minha memória enturvada, só me lembrava do fogo que me consumira por instantes que pareceram breves demais para tanta vontade.

A ressaca martelava minha cabeça como se a uma bigorna, as mensagens trocadas prometiam coisas que, tenho certeza, nunca serão cumpridas. Coloquei Queens of the Stone Age pra tocar e olhei triste para o cartão de visitas abandonado sobre a escrivaninha. Uma lembrança ofuscada pelo brilho do álcool, e nada mais.

5.5.11

Coração na ponta da pena

Eu queria, uma vez na vida, viver um amor tão bonito quanto os tantos que inventei dentro de mim. E, de todos os romances que rabisquei a lápis nas margens da minha memória, o seu foi o mais floreado e rebuscado. Um amor assim, meio pós-moderno com pitadas ultrarromânticas, um cyberpunk ninado por menestréis. A mais bela e complexa trama de amor de todos os tempos, da qual nem eu nem você seríamos capazes de nos desemaranhar. Tinha todo o potencial pra virar best-seller, com adaptação cinematográfica recorde de bilheteria. Pena que o título foi cancelado e virou encalhe.

5.4.11

Mergulho

Abri os braços e os olhos e me joguei de cabeça erguida no abismo que se abriu à minha frente. A água gelada no fundo queria me tragar, enchia meus pulmões e narinas e me lembrava que nunca aprendi a nadar. Me afoguei. Me afoguei em mim mesma e lembrava, a cada instante, que aquelas lágrimas já foram choradas. Chorei compulsivamente, feito uma criança abandonada e com medo do escuro. Lágrimas de luto, não pela morte do amor que talvez nunca tenha existido, mas pela morte dos meus objetivos. Espadanei até meus braços doerem, e enfim retornei à superfície. A jornada de volta do fundo do abismo é longa e cansativa, mas sei que vou conseguir. Qualquer coisa para não deixar ninguém se acreditar dono dessa dor. Qualquer coisa para não me deixar acreditar que eu não superei.

22.2.11

A. C.

Eu olho nos seus olhos e, mesmo quando seus lábios me sorriem, posso divisar sua tristeza. Eu olho nos seus olhos e tento pensar em algo de feliz, de leviano, para te fazer sorrir de coração. Não consigo, não dá. É como disse o poeta: tua tristeza é tão exata, e hoje o dia é tão bonito... Essa tristeza que se esconde nas sombras dos teus olhos me encanta, me atrai, me contagia. Quero mergulhar nessa tristeza para entender a nascente, para cortar o mal pela raiz. Te vejo tão só... Quero te fazer companhia, te arrancar da beira do abismo, te ajudar a colocar seus pés de volta à estrada.

Não posso seguir esse caminho por você. Não posso sequer me comprometer a ficar ao seu lado por todo ele. Mas me bate um desejo furioso, incontrolável, indescritível, de estar por perto e te servir de apoio até que você seja capaz de seguir seu rumo sozinho.

Você não precisa ter pressa de nada. Isso não é um sonho - eu não vou desaparecer ao primeiro toque do despertador. Isso não é um favor - você não me deve nada. Isso não é uma missão - nem sequer a salvação da minha alma eu exijo em troca.

Tudo o que quero é iluminar um pouco essa noite sem fim, só o bastante para afugentar seus pesadelos. Não há o que temer, afinal - só me dê sua mão e eu prometo não soltar até que você me peça.

14.1.11

Gelo

- Suas unhas estão lindas hoje.

Porra, pensei. De novo esse papo, cara? Balancei a cabeça pros lados quase que imperceptivelmente, de incredulidade. Ele aparentemente não percebeu, mesmo. Resolvi mudar a tática.

- Obrigada. É pra combinar com a camisa.
- Não, não é. Você está com esse esmalte desde segunda-feira, e só vestiu verde hoje.
- Ah, quer dizer que você reparou?
- Sempre reparo. Foi assim que você me queixou, lembra?
- Lembro, claro.

Claro que lembro. E não foi assim. E não fui eu quem te queixou. Mas guardei essas informações pra mim. Vai que era um teste? Vai que ele queria saber se me marcou de alguma forma?

- Então... você sumiu.
- Te vejo aqui todos os dias.
- Não, eu quis dizer... da minha vida pessoal.
- É, isso é.
- E o namorado?
- Tá lá, no Rio. Ainda não o conheço pessoalmente.

Gastei alguns segundos rindo internamente da expressão de choque no rosto dele.

- E foi por um cara que você nem conhece pessoalmente que você me trocou?
- É. Pelo menos ele se importa com certos detalhes.

Apaguei meu cigarro na sola das sandálias e joguei na lixeira mais próxima. Me preparava para voltar ao trabalho, quando ele me puxou pelo braço.

- Ei... Vai fazer o que hoje à noite?
- Falar com meu namorado.
- Certo, certo, seu namorado... e depois disso?
- Dormir.
- Com alguém?
- Não.
- Posso me candidatar?
- Não.

Entrei no prédio e movi minhas coisas para a carteira mais distante possível da dele, na esperança de conseguir me esquivar dos olhares carregados de significado, para que ele não visse os meus vazios de interesse. Ao final do dia, me recusei a esperar. Ele que espere. Pro resto da vida, se assim o desejar.