5.7.19

Ariadna

O eremita ergueu sua lanterna
mas a chama fugídia de pouco serviu
senão para lançar sombras bruxuleantes,
platônicas,
nas paredes deste labirinto.

Presa fácil, cíclica,
do eterno e inescapável retorno:
à vida, aos amores,
aos humores e dissabores.

Quis crer que encontrei a cura
para esta trajetória execrável,
mas Mercúrio está sempre retrógrado
e minha natureza esquiva
é a própria moléstia a me consumir.

Ao final da meada,
nada é passageiro;
tudo é reprise,
tudo é transferência.

4.7.19

serafina

quero voar
e tenho asas
mas há algo invisível
que me ata
e insiste
em embaraçar
os fios do destino.

o céu castanho
também envelheceu.
já se ilumina
animado pelo burburinho
(da vida,
e, por vezes,
da morte)
e sinto que
quebrei algo
sagrado
(em mim)
e o que era orgulho
despedaçou-se.

agora, nada mais ouço
senão a música das florestas
(cinzentas),
o canto das dríades
insistindo em oferecer
unicidade e
clareza.

do alto
o caos parece
tão pequeno,
tão nítido.

daqui de cima,
as estrelas
nunca foram
tão distantes.

14.6.19

Conexão Interrompida

Tragédia anunciada:
Convertida em revelação
Alívio que suaviza os dias difíceis
Preciso de você (longe)

O inesperado:
Flor ceifada em botão
Morte do que renascia das cinzas
Preciso de você (aqui)

Que este ciclo se encerre,
Se enterre,
Se incendeie e incinere.

Aprender,
sem condicionar a outros
o valor que me dou.

Algum dia, encontrarei
o amor
do outro lado do espelho.

(de outro blog, outros tempos, outras dores,
pra me servir de lembrete - sempre válido -
de que tudo tem prazo de validade,
inclusive o luto por um sonho desfeito.)

13.6.19

Pecadilhos

Perversão das promessas pueris:
palavras proferidas na pulsão do presente.
Peço-lhe, impeça-me.

Impeça-me de pular uma parte portentosa
Do passado pujante que nos prende ao compasso do pretexto
Pedidos perdidos na pressa dos apesares
Sem sopesar o poço profundo dos pesares
Tão próprios de nós.

Piedade, peço-lhe. Impeça-me.
Se porventura pusermos um ponto,
punção perigosa, perene, impiedosa,
perderei-me, pesarosa
nas passagens primorosas
de projetos paralelos,
princípios permissivos presentes no apelo.

Preciso permitir-me parar e apreciar
o pêsame da ruptura primordial
para que possa pesar
a pusilanimidade da peça, um punhal.

Pretensões que pedem-me permissão:
Pinçando do pedestal a prova,
plúmbeas as preces,
a presunção pavorosa
do espaço perigoso entre meus pés
e seus passos pesados.

Da ponta porosa
escapa a prosa.
Da plenitude do peito,
por apressado que pareça o pleito,
permito-me padecer.

31.5.19

anamnese

os detalhes da tua voz.
o timbre e o sotaque e a cadência,
até os trejeitos do teu rosto,
teu sorriso tão tímido,
pontilhado de tristeza e sarcasmo
e estrelas.

voltávamos,
como sempre voltamos,
aos mesmos assuntos.

cíclicos.

te pedi um beijo
quase tarde demais
e era cedo demais para partir.

teu sorriso
chegou aos teus olhos, enfim
e o silêncio em mim
explodiu em cores

o gosto da tua boca,
tabaco e saliva e expectativa,
teus dentes. minhas marcas.

familiaridade.

cinderela sem sapatos,
depois da meia-noite
não há luxos,
apenas luxúria.

no banco da praça,
as pernas por cima das tuas,

memórias de tempos
que não vivemos juntos
mas tão vívidos
e tão antigos,
e tão jovens que somos,
e jovem era a noite.

teu sorriso secreto
destrancou algo em mim.
confiei.

o peso do teu abraço
e os passos embriagados
de pouco álcool e muita vontade
de parar o tempo,
tão sagaz e inclemente.

errando pela noite
nas ruas tão conhecidas
e tão estranhas,
tanto tempo.

a textura da tua mão,
do tamanho exato da minha.

tua linha do coração
me disse que um dia
tu ia ser feliz.

meu coração, desalinhado
não encontrou voz para dizer
que te acompanharia.

e agora, finalmente,
é tarde demais.