9.1.20

É noite no Rio de Janeiro.

Me dei conta, andando pelas vielas do condomínio, de que escrevi inúmeras cartas de amor, algumas de rancor, para Salvador, cidade que me acolheu e aturou por uma parcela tão grande da minha vida. Contemplei, ainda que nunca tenha tirado a ideia do papel, escrever algumas linhas para a noite lagartense, conforme observada da varanda à qual jamais retornarei. Talvez não tenha sido uma carta de amor, mas sei que escrevi alguns textos ácidos e severamente críticos sobre o panorama geopolítico igarassuense.

Mas nunca escrevi para o Rio.

Talvez o Rio de Janeiro não me motivasse a escrever, em outros tempos, porque não era um local que me gerasse qualquer tipo de incômodo ou sensação nova - pelo contrário, era, talvez, meu estado-base, não no sentido estado-unidade-federativa, mas estado de espírito, mesmo. Eu não sabia escrever sobre o estar carioca porque, intrinsecamente, eu ainda me via como sendo carioca.

Com o tempo, isso mudou.

Mudou porque, com o passar dos anos, acho que me esqueci. Não do Rio, em si, mas de quem eu sou quando estou no Rio. As memórias tão vívidas, lembranças límpidas que eu considerava gravadas no meu corpo e no meu espírito de maneira tão nítida quanto as cicatrizes que a vida se encarregou de me proporcionar, foram se esmaecendo com o tempo. O Rio de Janeiro se tornou meu lugar de memórias afetivas, lembranças nostálgicas, romantização.

A primeira vez que pisei no Rio, depois de 13 anos longe, eu chorei ao ver o primeiro táxi amarelo, antes mesmo de descer do ônibus.

E agora estou aqui, sem vontade nem pressa de ir embora, disposta a meter as caras e correr atrás e ficar. A encarar a crise e a recessão e a falta de emprego e o desalento e tanta, tanta coisa que pode dar errado, simplesmente para voltar para perto das minhas raízes, da família, dos laços indeléveis construídos há tantos anos e enfim fortalecidos, dos novos laços tão estreitos e tão sólidos construídos ao longo destes dois últimos anos.

É noite no Rio de Janeiro, e em pouco menos de um mês já sinto meu instinto voltando a me guiar por estas ruas da zona norte que conheço tão bem, por mais estranho que seja caminhar com meus próprios pés por estas calçadas às quais minha mente retornava quando fechava meus olhos e deixava o pensamento voar. Meus ouvidos, desacostumados, não estranharam tanto o ruído dos tiros - que referencial terrível! - e meu coração, tão plácido, não quis pular da boca ao ver a arma na mão do assaltante.

Aos poucos, o Rio deixa de ser esse lugar imaginário das minhas memórias afetivas e passa a tomar forma, concreta e dolorosa, e torna-se cada vez mais fácil para mim aceitar que, da mesma maneira que eu não sou a mesma Dianna que deixou esta cidade há 16 anos, talvez esta cidade já não seja a mesma que eu deixei para trás em busca de novas paragens.

E talvez finalmente estejamos prontas para o reencontro, por demorado que tenha sido, e para voltarmos a caminhar juntas.

18.7.19

Órion

O céu de chumbo volta a oprimir minha esperança tão adolescente de que a primavera um dia voltará. A natureza, ao que parece, insiste em espelhar o que vai dentro deste receptáculo oco que me habituei a chamar de coração. O vento que sopra pela desolação deste não-lugar é frio e cortante, mas os beijos que este deposita em meu rosto enquanto vago sem rumo certo pelas ruas que aprendi a amar e odiar na mesma proporção chegam a ser tórridos, quando há uma nevasca furiosa e inescapável dentro de mim. Sinto falta do seu toque, panaceia destinada a derreter o inverno que se instalou nas minhas entranhas, e me é doloroso contemplar esse não-futuro da sua ausência que se afigura cada vez mais próximo.

Processo meu raciocínio com uma lentidão excruciante, e talvez por isso eu me pegue, horas, sonhos e mundos depois, repetindo em subvoz tudo o que foi dito e, sobretudo, todo o percebido nas entrelinhas, completando as lacunas das nossas transparências com o que supus ouvir no espaços dos teus raros silêncios. Reviro e repenso ad nauseam cada ideia e as analiso sob todos os ângulos possíveis, numa agonia quase tão acre quanto desesperada e desesperadora de dar sentido ao que não faz sentido algum e criar algum arremedo de ordem no meio do caos. Em parte, aconchego; de resto, solidão.

Ferida e lacerada que estou por traumas dos quais me recuso a desapegar, insisto em gritar em versos surdos para as paredes manchadas a familiaridade desagradável da situação. Nada é original - tudo é reprise, e detesto me repetir. Sei que transfiro. Os personagens mudam, o contexto muda, e há diferenças cruciais que me permitem uma nesga de não sei bem se esperança ou expectativa. Me questiono o tempo todo se é sensato. Sei que não é. Nada faz sentido, mas certa vez me disseram que essas coisas não fazem sentido mesmo, que sentimento não obedece lógica e que esse meu hábito de burocratizar minhas relações é meu jeito de me convencer de que não sou digna de afeto.

Talvez não seja.

Sigo convencida de que o mais lógico seria dar por encerrado este conto de fadas tão bonito que comecei a escrever na minha cabeça, antes que as cicatrizes que começam a emergir na epiderme se tornem indeléveis, mas já cometi o grave erro de julgamento de pular da plataforma mais alta sem parar para avaliar se a adrenalina da queda livre compensaria o impacto ao fim da jornada. Agora, o que me resta é aprender a voar, e minhas asas estão por demais atrofiadas por desuso. O céu é chumbo. O fundo da baía, duro e pedregoso. A espuma na superfície das águas em movimento, deste ângulo, parece reluzir em carmesim, augúrio do que me espera quando o felizes-para-sempre falhar em chegar. Por muito tempo lutei para me manter à tona, mas parece que enfim é chegada a hora de, como nos velhos tempos, soçobrar e naufragar.

5.7.19

Ariadna

O eremita ergueu sua lanterna
mas a chama fugídia de pouco serviu
senão para lançar sombras bruxuleantes,
platônicas,
nas paredes deste labirinto.

Presa fácil, cíclica,
do eterno e inescapável retorno:
à vida, aos amores,
aos humores e dissabores.

Quis crer que encontrei a cura
para esta trajetória execrável,
mas Mercúrio está sempre retrógrado
e minha natureza esquiva
é a própria moléstia a me consumir.

Ao final da meada,
nada é passageiro;
tudo é reprise,
tudo é transferência.

4.7.19

serafina

quero voar
e tenho asas
mas há algo invisível
que me ata
e insiste
em embaraçar
os fios do destino.

o céu castanho
também envelheceu.
já se ilumina
animado pelo burburinho
(da vida,
e, por vezes,
da morte)
e sinto que
quebrei algo
sagrado
(em mim)
e o que era orgulho
despedaçou-se.

agora, nada mais ouço
senão a música das florestas
(cinzentas),
o canto das dríades
insistindo em oferecer
unicidade e
clareza.

do alto
o caos parece
tão pequeno,
tão nítido.

daqui de cima,
as estrelas
nunca foram
tão distantes.

14.6.19

Conexão Interrompida

Tragédia anunciada:
Convertida em revelação
Alívio que suaviza os dias difíceis
Preciso de você (longe)

O inesperado:
Flor ceifada em botão
Morte do que renascia das cinzas
Preciso de você (aqui)

Que este ciclo se encerre,
Se enterre,
Se incendeie e incinere.

Aprender,
sem condicionar a outros
o valor que me dou.

Algum dia, encontrarei
o amor
do outro lado do espelho.

(de outro blog, outros tempos, outras dores,
pra me servir de lembrete - sempre válido -
de que tudo tem prazo de validade,
inclusive o luto por um sonho desfeito.)