1.4.19

Auto-biografia II

Durmo pouco,
bebo café demais
e talvez devesse parar de fumar.

Falo palavrão demais,
mas insisto em calar as verdades
que me corroem o esôfago,
ácidas que são
em seu estado bruto.

Não sei sentar de pernas cruzadas que nem mocinha,
e, na verdade, sempre detestei
as coisas de que
(dizem)
eu devia gostar.

Não sei ser moderada nas opiniões,
nos vícios ou nas paixões.

Choro fácil por tudo
(menos pelo que importa)
e demonstro afeto
com garras e safanões.

Por vezes, acho
que vivo minha vida do avesso,
e que do outro lado do espelho
talvez seja tudo mais simples.

Às vezes, sou nada além
da síntese de todas as expectativas
empilhadas e mal-ajambradas
sobre meus ombros tão jovens
e tão exaustos.

Às vezes me convenço de que tenho jeito;
outras,
do fundo do poço de desesperança,
escavado com as setas que me perfuram,
sustentado pelas pedras que me atordoam,
me resigno a ser apenas eu:

errante na vida, errada sempre.

19.2.19

Profissional

O pastel de queijo com suco de acerola já não passava de uma vaga lembrança e eu ainda tinha quarenta minutos pra matar antes de ir para o trabalho, então sentei no murinho baixo do lado de fora do Sumaré e acendi um cigarro. Quando chego mais cedo, gosto de sentar naquele murinho e observar as pessoas - a essa hora da tarde, ninguém passa por ali sem uma missão específica, e tudo é tão agitado e ao mesmo tempo tão firmemente plantado na rotina que chega ser tranquilizador. É quase como se eu fosse invisível...

...exceto que, desta vez, eu não estava invisível. Nem percebi direito quando ele chegou, absorta que estava em observar o ir e vir alheio. De uniforme de trabalho com logotipo de alguma empresa que não reconheci, a camisa verde aberta até o penúltimo botão, um chapeuzinho preto na cabeça, a pele bem escura manchada aqui e ali pelo sol e a roupa coberta de uma mistura de poeira, cimento e manchas velhas de tinta. Só percebi que estava ali quando ouvi o barulho de seus pertences sendo arremessados no canteiro à minha esquerda. Não precisei olhar duas vezes para perceber que o rapaz tinha bebido mais até aquele momento do que eu nas férias inteiras.

Quando ele percebeu que tinha sido percebido, murmurou algo. Achei que fosse "cigarro", e, sem saber se era uma reclamação, uma tentativa de me dar conselhos ou um pedido, desviei os olhos. De canto de olho, no entanto, ainda consegui reparar quando ele começou a mexer na pilha de pertences, parecendo procurar algo.

- Ei, moça!

Olhei para ele por cima dos óculos.

- !#$#$$¨%¨@$#!#$@!@#você quer?

- Perdão, não entendi.

- Eu achei um pacote de hális aqui, você quer?

- Hein? Não, desculpa, estou de boa, mas obrigada.

- Pega aí, ninha.

- Não, valeu mesmo.

- Pegaí que é pra eu não ficar nervoso.

- ... tá certo. Já que é assim, obrigada. Quer um cigarro em troca?

Mais ou menos nessa hora que um segurança do shopping parou mais perto de nós e ficou ali, olhando discretamente na nossa direção.

- Em troca, não. Mas se você quiser me dar um cigarro só porque é legal, eu aceito.

Peguei o maço na mochila e estendi um cigarro para ele, que ele prontamente encaixou atrás da orelha. Guardei a bala no bolso.

- Você é muito simpática.

- Muito obrigada.

- Não, sério mesmo. Você é gente boa. Um ser humano decente. Coisa rara hoje em dia. Eu tô bem bêbado...

- ...é, eu percebi.

- ...mas olha, eu sou profissional. Digo, não bêbado profissional. Eu tenho uma profissão.

- É bêbado só por esporte, então?

- Aí sim, você sabe das coisas! Mas eu trabalho com construção.

- Por isso o uniforme sujo de cimento?

- É, eu tô todo sujo, que merda, desculpa moça, é chato eu estar todo sujo, mas aí o serviço acabou cedo e eu fui beber. Minha mãe... - e escondeu o rosto nas mãos e virou para o outro lado.

- Desculpa, você está bem? Aconteceu algo com sua mãe?

- Não, ela tá bem, é só que só de pensar no que ela ia dizer se me visse assim eu fico com vontade de chorar. Qual seu nome?

- Dianna.

- O meu é... é... olha, pode me chamar de Lino, tá? Tipo: Liiiiiinoooooo. Parece lindo, mas é Lino. Lindo é seu nome. Dianna. Você tem mãe?

- Ela é falecida há alguns anos.

- Ai, que triste. Meu pai também. Mas é recente. 

- Bom, sinto muito.

- Você é casada?

- Sou. - Nessa hora, caiu a ficha de que eu estava virtualmente sozinha, conversando com um desconhecido muito bêbado no meio da rua. Não passava pensamento com azeite.

- Você é legal. Não queria perder o contato. Você mora onde?

- ... - cuspi o primeiro nome de bairro que não fosse o meu que me veio à cabeça.

- Ah... legal, legal. Você é legal. A gente pode se ver num dia em que eu esteja mais sóbrio?

- Não sei se meu marido ia gostar.

- Ahhhhh. Hahaha. É verdade. Você é direita mesmo, gosto de você. Até queria dizer que... Ai, mas eu fico com vergonha.

- É, bom, eu preciso ir trabalhar.

- Negona... desculpa, negona é forma de dizer, tá? É carinhoso.

- Eu sei, relaxe.

- Eu preciso te confessar um negócio. É sério.

- ... diga aí.

- Eu nunca peguei uma mulher... assim, uma mulher bonita.

Não consegui conter uma gargalhada.

- É sério! Eu juro! Só peguei mulher feia a vida toda!

- Olha... Lino, né? Foi um prazer te conhecer, mas deu minha hora de verdade. - Estendi a mão para o rapaz. Achei que era o mínimo que eu devia pela gargalhada. 

Ele não fez nem sinal de retribuir o aperto de mão. Me olhou desconfiado, como se algo não estivesse certo.

- Não vai apertar minha mão não, rapaz?

- Mas você já vai?

- Já, tenho horário, eu falei. Vai pra casa, bicho. Cê tem mãe, ela deve estar preocupada.

Ele continuou me olhando como se um terceiro braço tivesse saído do meu pescoço. Joguei a mochila nas costas e fui pro trabalho, agora realmente na minha hora. Lino ficou lá. A bala ainda está no meu bolso. Espero que tenha chegado vivo em casa.

Silêncio

Eu não queria que você parasse de falar nunca.
É estranho, né?
Eu nunca soube bem como definir isso,
mas acho que gosto mais de ideias do que de pessoas.

E você falava bem sobre suas ideias,
e eu não queria que você parasse de falar,
porque quanto mais você falava,
mais eu me apaixonava pela ideia de você.

(Acho que acabei me apaixonando
pela imagem de você que eu criei
com base no que você escolheu me mostrar
e o resto eu fui preenchendo
com minhas próprias expectativas.)

Mas tudo que é incrível
um dia tem que acabar,
e você parou de falar,
e eu fiquei sem saber o que fazer
com tanto pathos
querendo escapar desarrazoadamente pela minha boca,
e eu não queria te assustar
com a tormenta que se formava dentro de mim,
então eu te beijei
pra tentar amenizar a intensidade
do que eu estava sentindo.

Eu não queria que você parasse de me beijar nunca.
É estranho, né?
Parece que seus lábios falam a minha língua
de todas as formas possíveis.

E o que era intenso transbordou,
e eu não podia suportar mais a ideia
de terminar a noite
sem sentir o calor da sua pele.

(Doía pensar que depois daquela noite
eu iria embora
e talvez eu nunca mais te visse
e talvez morresse sem saber
se seu corpo era mesmo o mesmo número do meu.)

Eu sabia que nunca ia conseguir te esquecer
se não desse uma noite de folga ao meu superego
e me permitisse perder o controle uma vez na vida.

Chego a esquecer
que tentei criar uma máscara
para não te mostrar
os monstros que se escondem aqui dentro,
pois é como se nos conhecêssemos
desde a infância
e fôssemos jovens novamente.

Inconsequentes.

Você corava
como uma donzela
todas as vezes
que nossos olhos se encontravam,
seu rosto contorcido
na tentativa
de conter seu transbordo.

Acendi um cigarro - você,
sem saber o que fazer com os olhos ou com as mãos,
voltou a falar
sobre qualquer coisa que lhe viesse à cabeça.

(Quando não sei o que dizer,
 deixo meu corpo falar.
Quando você não sabe o que fazer,
 deixa sua boca falar.)

Eu queria que você não tivesse começado a falar nunca,
porque eu sabia, no fundo,
o quanto a inevitável ausência da sua voz
doeria mais que não ter te conhecido.

19.11.17

Carta aberta ao homem que me destruiu

Salvador, 04 de novembro de 2017

Quando meu telefone tocou, às 00:48 de um sábado, pulei da cama, coração imediatamente disparado.

Teria disparado de qualquer forma, independente do horário. Quase ninguém me liga, porque sabem a ansiedade que isso me causa, e quando ligam, num geral, é questão de emergência. O avançado do horário só fez intensificar a sensação de desespero.

Vou deixar a encargo de quem lê este texto imaginar o tamanho da minha surpresa ao identificar, do outro lado da linha, a voz daquele que roubou a minha fé e desconsiderou minha humanidade.

Demonstrando mais uma vez sua imbatível falta de respeito ao "não" de uma mulher e ao seu direito de decidir pelo próprio bem-estar, ele teve a pachorra de descrever o que me fez em termos de mal entendido, de desconforto acidental. "Sou eu, o cara que pisou na bola feio com você".

Deve ser legal ser homem. Dizem que eles já tem, de fábrica, a licença poética para tratar os crimes que cometem contra mulheres como um simples "vacilo".

O outro homem, outrora adormecido ao meu lado mas recém-desperto pelo toque estridente do telefone, gritava ao meu ouvido para que eu desligasse, me atordoando e acuando ainda mais. Desliguei sem ouvir o que meu estuprador tinha a me dizer, sem ter a oportunidade de desengasgar da minha garganta todos os gritos e frustrações que lá se foram alojando a cada momento em que minha vida ruía mais um pouco, ruindo para sempre em decorrência dos efeitos que o "vacilo" dele provocou.

Esta carta é minha chance de finalmente enterrar esse assunto.

Daniel disse ter pisado feio na bola comigo. Daniel entrou em contato, provavelmente pelo avançado estado etílico em que se encontrava - ninguém liga para uma pessoa com quem não fala há três anos à 1h da manhã para pedir desculpas por erros do passado se estiver sóbrio - para admitir que me arrastou para uma série de problemas que estavam acontecendo com ele e pedir desculpas por me colocar em, palavras dele, "um momento ruim". Daniel me explicou tudo isso por mensagem de texto, depois que eu desliguei o telefone na cara dele já que ele se recusou a aceitar que "não posso e nem quero falar com você agora pois acordo em 5h para ir trabalhar".

Daniel não me pediu desculpas por arruinar inexoravelmente minha tênue habilidade de manter uma ilusão de equilíbrio psicológico, nem por aleijar irreversivelmente a parte de mim capaz de confiar naqueles que se dizem meus amigos. Daniel não tentou se desculpar pela associação indelével que, graças a seus atos, meu subconsciente passou a fazer entre intimidade sexual e agressão. Daniel não pediu desculpas por reacender em mim, no meio da madrugada, essa brasa incandescente e invisível chamada "trauma". Daniel sequer teve a coragem de admitir que o nome do que ele fez comigo não é vacilo nem mancada, e sim ESTUPRO, que é criminalmente tipificado.

Daniel não me pediu desculpas pelo que ele, de fato, fez comigo. Ele pediu desculpas pelo que ele acha que fez de errado - e nada do que ele disse demonstra qualquer preocupação de fato comigo, apenas com o que ele entende ter feito. Incapaz de admitir o crime que cometeu - pois, necessário mais uma vez destacar, estupro é crime -, Daniel me expôs a mais uma iteração de seu já conhecido modus operandi de "estou ouvindo seus protestos, mas a satisfação de meu desejo imediato é mais importante" e não hesitou em me fazer reviver todo o inferno do qual passei os 3 últimos anos tentando escapar apenas para satisfazer a sua necessidade de ter uma consciência mais leve, afinal, se ele "pediu desculpas", ele não pode ser mais culpado de nada, não é?

À mim, sobrevivente do seu crime, resta apenas uma chance de resistência: negar o perdão, não apenas a ele como a todos os outros homens, que por associação direta ou similitude de ações, a mim convém chamar de seus companheiros.

Não o faço por rancor.

O faço por saber que, se arrependimento real houvesse, essa ligação no meio da madrugada teria sido diretamente para a polícia, e não para mim, pois haveria o reconhecimento do crime cometido e do sofrimento causado.

7.2.16

Uma carta de amor

Não é muito comum eu estar na rua 6h da manhã durante o verão. Na verdade, na medida do possível, prefiro acordar o mais tarde possível ou ir dormir o máximo possível antes do nascer do sol - ou o mínimo possível após. Não gosto de sol, não gosto do calor que ele traz e não gosto de ficar acordada além do necessário.

Mas, às vezes, acontece de eu voltar pra casa mais ou menos quando o sol ganha força no firmamento. E, mais às vezes ainda, coincide com eu voltar pra casa junto com o sol no meio do feriadão de carnaval.

Não sei quantos de vocês sabem, mas a primeira vez que pisei em Salvador foi numa quarta-feira de cinzas, há 11 anos. Voltei pra casa duas semanas depois, e fiquei indo e voltando até enfim decidir que talvez fosse um bom lugar pra tentar fincar raízes, três meses depois. O motivo para fincar raízes já nem mora mais por estas paragens e há muito deixou de ser motivação para ficar, mas ainda estou por aqui.

E hoje, pela primeira vez nesses quase onze anos exatos, passei pelos mesmos lugares (ainda que em sentido contrário) pelos quais passei nesse primeiro momento, mais ou menos no mesmo horário. E me lembrei.

Acho que me apaixonei por Salvador desde a primeira vez que pisei aqui.

Quase que exatamente onze anos atrás, vim de ônibus de Recife para Salvador. Eu não morava exatamente em Recife, e sim em Igarassu - um lugarzinho no meio do nada, com sabor - pelo menos para mim - de pitanga e acerola e cheiro de terra molhada. Eu esperava chegar às 22 horas, mas acabei chegando cinco da manhã. 

Eu ia ficar hospedada em Piatã, e, por algum motivo, meu anfitrião, que não me conhecia pessoalmente e tinha todos os motivos possíveis pra desistir de me esperar (afinal, convenhamos - foram 9 horas de espera e eu não tinha sinal na estrada pra ligar e avisar que ia demorar) aguentou o tempo todo.

Lembro com carinho da voz sonolenta que atendeu o telefone quando desembarquei nessa cidade que eu nem conhecia, ainda sonolento de dormir torto nas cadeiras da rodoviárias, da alegria de ver aquela pessoa ainda esperando por mim, a despeito de qualquer tentativa do bom senso gritar que "ela não veio, vai pra casa que é melhor". Isso foi um ato de fé. Meu então pretendente, posteriormente namorado, namorido e atualmente irmão e um dos melhores amigos que já tive e tenho na vida, ter me esperado por tanto tempo na rodoviária sem sinal de que eu fosse chegar talvez tenha sido um sinal divino de que talvez aqui fosse meu lugar...

Eu nem sabia que lembrava, mas naquela viagem junto ao sol que se erguia, memorizei o jeito que o sol bate em cada edifício da região do Iguatemi e das árvores da orla até Itapuã. Sei disso porque hoje, como naquele dia longínquo em que a menina de 18 anos saía pra explorar um pouco mais do mundo, ouvi os prédios e as poucas palmeiras que ainda restam cantarem.

É uma canção linda - que rima com a história da cidade e é enfeitada com a voz de Yemanjá, que se recusa a calar a despeito de toda a civilização que se constrói em volta de sua casa - mas também triste. Só quem vê Salvador à luz dos primeiros raios da manhã consegue sentir a intensidade da beleza da cidade e, ao mesmo tempo, o quão deixada ao léu esta metrópole, eternamente em (des)construção e reconstrução, se encontra. 

Salvador é a cidade mais linda do mundo. Sinto ciúmes da cidade que me abraçou e acolheu. Não gosto de ouvir ninguém falando mal dela, pois, para mim, é uma amiga, uma parente próxima, talvez até uma mãe-de-leite que acolheu uma pobre órfã quando eu mais precisava de aconchego e equilíbrio. Reclamo de seus defeitos, como se queixa qualquer pessoa que veja alguém querido indo por caminhos que talvez não sejam os melhores, mas não admito que ninguém a culpe. Digo todos os dias que quero abandoná-la, mas - e acho que ela me entende - não passa de caprichos de adolescente, de querer fugir de casa quando as coisas parecem ruins mesmo sabendo que não estão tão ruins assim. Salvador, afinal, se tornou minha casa. 
Explico para as pessoas que não sou daqui, e muitas vezes é difícil acreditar nisso. Eu mesma demoro, por vezes, a acreditar nisso. Me orgulhava de ter coração nômade, de não me fixar em lugar algum, mas, mesmo sem perceber, aqui lancei âncora e defini meu porto seguro. Essa cidade, abandonada como está pelos humanos que se crêem deuses e muitas vezes desprezada pelos seus filhos, conseguiu fisgar meu coração de tal forma que me dói, quase que fisicamente, pensar em abandoná-la.

Eu odeio Salvador. Por tudo que há de errado nesta cidade. Por todas as pessoas que lhe guiam na direção em que ela não mereceria de ir. Por todo o abandono e descaso. Por todas as árvores cortadas, por todas as ruas e instituições sucateadas, por tudo o que poderia ser e não é. Sobretudo, odeio Salvador por não me deixar partir, por sua persistência em me lembrar o quanto e o porquê de me apaixonar por Ela a cada vez que fraquejo e cogito ir embora.

Salvador é minha amante abusiva. E a essas horas da manhã, quando a chuva entra pela janela e me mostra que o sol só deu as caras para me lembrar o quanto preciso dessa cidade, concluo que não será tão logo o momento em que conseguirei me livrar dela.