1.10.11

Dia 01: O Mago

Olhei pra cima e vi um universo inteiro de possibilidades. Olhei pra baixo e encontrei meus pés descalços contra o chão de terra batida, os grãozinhos entrelaçando-se com meus dedos e dando aquela sensação gostosa de fazer parte de alguma coisa maior. Suspendi de leve a túnica clara, tão leve, que usava. Organizei meus materiais e me pus a trabalhar. Não sei bem o que pretendia fazer, mas sabia que tinha que fazer alguma coisa. Algo precisava ser mudado, transformado, transmutado. A mudança tem que vir de dentro pra fora, algo me dizia. Mudei. Mudei meu jeito de encarar a vida, de pensar, até mesmo meus ideais que eu julgava me definirem. Mudei tudo, para poder mudar o mundo. E só então consegui fazer alguma coisa. Mergulhei de corpo e alma no trabalho, e, quando por fim pude dá-lo como encerrado, me satisfiz. Despi minhas roupas de transição e voltei pra casa, os dedos tintos de mercúrio e destino. O mundo voltou a seu eixo, como sempre há de voltar.

30.9.11

Dia 00: O Louco

Todo dia eu acordo e os raios de sol entram pelo mesmo ângulo pela janelinha do quarto, diluídos pelos prédios e paredes e janelas. Todo santo dia é dia de acordar escovar os dentes tomar banho comer juntar as coisas na mochila sair correndo, assim mesmo, sem vírgulas nem pausas pra respirar. Todo dia chego atrasada. Todo dia corro contra o tempo, como se apostasse com o dia qual de nós terminaria sua jornada primeiro, e sempre perco. Todo dia estresse, cansaço, desilusão. Todo dia sonho acordada com o dia em que vou acabar com essa merda de rotina que um dia vai acabar me matando ou enlouquecendo, um ou outro, quem sabe os dois. Escrevo na minha cabeça mil e uma histórias pra justificar esse existir sem prazer, essa submissão desgraçada, essa falta de coragem pra mudar o que me incomoda, e nenhuma é boa o bastante pra me convencer de que tem alguma coisa certa na história canônica da minha vida. Eu quero é voar por aí, cansei de ficar que nem água empoçada presa sempre na mesma vidinha medíocre. Eu quero liberdade. A liberdade de sonhar quando e o quanto eu quiser, a liberdade de ir aonde meu coração mandar. Um dia, junto todas as minhas tralhas e destroços numa trouxa e parto sem rumo. Um dia, vou encontrar algum canto onde o sol me acorde sem intermediários. Um dia, vou acordar e fazer as coisas no meu ritmo, sem culpa nem desespero, e uma vez que seja vou me permitir enlouquecer só pra saber como é fazer isso de propósito. Um dia eu vou ser feliz do jeito que quero e acho que mereço, seja no fundo do poço ou no alto de um penhasco. Até lá, vou cultivando minhas rosas brancas e tentando fazer as pazes comigo mesma.

24.9.11

Dançando com as sombras nas paredes

Eu devia ter uns 12 anos. Desde cedo sofro de crises de insônia, alternadas com dias em que, se deixar, passo de 48h seguidas na cama. Essa foi uma das crises de insônia. Rolava pra lá e pra cá e não conseguia afundar no sono. Desisti de dormir e liguei o rádio. A música me embalava, me animava. Comecei a dançar sem sequer levantar da cama. O sono, já perdido havia horas, resolveu se mandar de uma vez. A aula do dia seguinte que se fodesse: até as duas horas da manhã, ouvi música atrás de música, clássico atrás de clássico. Nunca mais parei.

Esse tipo de reminiscência me pegou completamente desprevenida enquanto, do alto de meu tédio insone noite dessas, me peguei ouvindo música baixinho, fones de ouvido bem atochados em meus canais auditivos, encolhida no cantinho da cama abraçada com um dos bichos de pelúcia. Eu cantarolava pra espantar a ansiedade, meros murmúrios, mas parecia que o sono é que se afastava de mim cada vez mais e mais rápido.

Música não me ajuda a dormir. Nunca ajudou. Dormir é deixar de existir por algumas horas que sejam, o suficiente pra recuperar o ânimo pra encarar o sofrimento de trabalhar de sol a sol. Dormir é letargia, é suspensão temporária.

Música me ajuda a viver.

23.9.11

Free bird

It was summer. The damp breeze
Didn't do much to cool our spirits
The blue sky was tempting
Back itching with wings born anew

Frightened as a young bird I was
Struggling to forfeit nest and safety
The unexpected to come, the life left behind

Still the wind called
The open road urged me on
Split me open and seize the agony
Moving kept me alive

I resigned. Flung the backpack
over my shoulder and kissed
Dad goodbye.
Tears and wavings
Empty the nest, my dreams await.

I haven't gone back ever since.

18.9.11

Inícios

Eu gosto de inícios.

A primeira chuva do inverno, a primeira brisa quente do verão. Tudo que é novo me fascina, me instiga. Espírito curioso que sou, quero destrinchar tudo, desvendar os mistérios, me apropriar do inexplorado. O primeiro beijo. A primeira vez sorrateira, escondida atrás de um muro. A primeira vez que chorei.

Inícios me inspiram. Inícios me trazem esperança, a esperança de que, eventualmente, tudo vá dar certo.

Não consigo, no entanto, escrever sobre finais.

Nunca sei terminar um texto; odeio escrever poemas porque sempre me parece faltar algo no último verso. Meu sonho é um texto infinito, uma série de textos entrelaçados cujas últimas linhas sejam sempre as primeiras do próximo, um eterno ciclo... Odeio finais. Odeio ser lembrada, a cada instante, de que tudo tem prazo de validade, data hora local certos para se encerrar, tudo fenece, tudo perece. Nada nunca vai ser eterno, nem mesmo o tempo, e isso me angustia.

Queria um amor que fosse como meus textos: só inícios. A cada dia, um novo começo,  até que chegasse ao fim. E no destino inexorável de todas as coisas, que fosse como iniciar um novo ciclo.

Quem sabe assim um dia eu não consigo começar a ser feliz?