Pois bem. Devido a uma disciplina que estou cursando esse semestre, fez-se necessária a utilização de uma ferramenta como um blog para poder devanear e destrinchar os assuntos discutidos em sala. Foi sugerido que usássemos os blogs que já possuíssemos, por questões de praticidade e coisa e tal. Mas não me pareceu certo misturar prazer com obrigação - afinal, sempre faço a analogia de professores com prostitutas, mas ainda não chegou a esse ponto - e ainda menos certo expor vocês, meus fiéis e queridos leitores (s2) a meus devaneios acadêmicos... Ao menos não diretamente.
Assim, venho por meio destas mal traçadas linhas avisá-los que tem blog novo na área! Nele, as atualizações serão consideravelmente mais frequentes, já que dependem menos da minha criatividade e mais do input recebido. O tema geral é tecnologia e educação. Fiquem à vontade para dar uma passadinha lá e, quem sabe, oferecer um pitaco ou dois.
O link para o primeiro post está aqui. Boa leitura!
27.11.12
5.11.12
Rapaz bem nascido procura moça direita para casar
Nove e vinte e cinco e a porra do ônibus de nove e dez ainda não apareceu. Não que ônibus atrasar em Salvador seja grande novidade. Sentei na mureta do prédio e acendi um cigarro, apelando pro velho truque do summon buzu. E lá se foi metade do cigarro e nada, e eu sozinha no ponto deserto, começando a rezar internamente pra tudo que é deus.
Aí que eu senti uma cutucada no braço e já olhei pro lado assustada né, vai saber, a Graça anda perigosa, vai que... E era um cara. Com a cara mais inofensiva do universo, de camisa xadrez pra dentro da calça jeans folgada e botas de couro, barba, óculos e uma barriga de fazer inveja na minha, cultivada a anos de cevada. E falando algo que eu não entendi.
- Oi?
- Do you speak English?
- Ahn... Yes, yes I do.
- Yay! Where do you live?
- Ahn... aqui em Salvador mesmo.
- Ah, mas você é de que país?
- ...sou brasileira.
- Ah é? Que bom! E você mora por aqui?
- Mais ou menos, tô esperando o ônibus.
- Ah. Posso pegar seu telefone?
- Oi?
- Meu tio vive dizendo que tá na hora de eu arrumar uma moça direita, que eu preciso namorar, mas tem que ser moça direita, hein! Que é pra casar. Que ele banca o casamento todo, e... posso sentar do seu lado? Então. Ele banca o casamento, champanhe, festa, cachaça, o que for, hahaha! E aí, você tem Oi? Anota seu número aí pra mim. Aliás, qual seu nome?
- Er... Dianna.
- Prazer, Dianna, eu sou Fred. Anota o número do seu Oi aí pra mim - e me estendeu o celular.
Nessa hora, senhoras e senhores, eu fiz o impensável. Eu realmente anotei o número do meu Oi no celular dele. Só não avisei, é claro, que o número está desativado há mais de dois anos, mas ele pediu meu Oi...
- Então, anota aí o meu. É Oi, hein? E meu nome é Fred. F, R, E, D. Pode me ligar a qualquer hora. Sou rapaz direito, acordo bem cedo, seis da manhã já tô de pé. Mas se quiser conversar com alguém meia noite, uma da manhã, eu ainda tô acordado também.
- Nossa, e você dorme que horas?
- Eu durmo pouco, é, eu durmo pouco. Só domingo que às vezes eu durmo uma meia horinha depois do almoço, aí eu vou no Shopping Barra passear, a menina de lá até falou que arranja passaporte pra mim. Mas eu sou de boa família, tenho uma fazenda de cavalos... Eu tava procurando uma esposa que falasse inglês, por isso que eu te perguntei se você fala inglês, porque eu não quero morar em Salvador pra sempre, sabe... A moça do shopping falou que arranja meu passaporte, daí é muito mais legal que ir até Recife só pra tirar o passaporte, né?
- Mas passaporte você pode tirar aqui. O visto é que é em Recife. Ou em São Paulo.
- Ah, não, ela disse que arranjava pra mim. Prefiro Recife. São Paulo é muito violenta. Você é americana?
- Não, sou brasileira.
- Mas não é daqui não, né?
- Não, sou do Rio.
- Olha que legal! Já tenho onde ficar quando resolver ir ao Rio!
- Nah, nem eu tenho direito onde ficar quando for pra lá.
- Por quê?
- Porque mal tenho família lá.
- Ah, tá bom. Nem quero mesmo ir pro Rio. Eu quero é ir pra Londres, ou pra Paris, ou pra Bélgica, ou pra França...
- Mas aí você tem que aprender francês também.
- Mas eu falo francês!
- É mesmo?
- É sim! Eu sempre fui muito bom em português, e quando a gente é bom em português, a gente é bom em francês também, né?
- Não é bem assim...
- É porque as duas línguas são parecidas, as duas vêm do latim. Quer ver?
- Fala aí.
- Hable tu français?
- Non, je ne parle pas français.
- Olha, tá sabendo! Então, você é casada?
- Não, sou noiva.
- Tá brincando?
- Tô não, olha aqui - e mostrei minha aliança de compromisso, na esperança de que isso encerrasse o assunto.
- Ai... quantos anos ele tem?
- 20 e poucos.
- Nossa, fedendo a leite! Você precisa de um homem mais velho, que possa prover por você.
- E quantos anos você tem?
- 23.
- ...
- Mas você veio fazer o que em Salvador?
- Vim pra me casar.
- Então casa comigo!
- Er. Você é muito legal, Fred, mas... olha! Meu ônibus! Tchau, prazer em te conhecer.
- Me liga, viu!
- Ligo sim.
- Beijo!
E pegou minha mão. E só soltou quando a porta do ônibus estava pra fechar nos dedos dele.
A gente faz qualquer coisa pra não ficar sozinha no ponto de ônibus tarde da noite, viu?
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27.9.12
on growing up
get a diploma
land a safe job
have a home
nurture a loving family
find love, they say. love is what makes the world go round, they say.
pay your bills
be responsible for your choices
try to save the world
you are special, they say. someday you'll be a star, they say.
make friends
solve problems
find ways
you gotta look out for yourself, they say. you'll be eaten out there if you don't, they say.
pretend. pretend with all your heart,
with all your might.
keep that fake smile upon your lips until your cheeks are numb.
the world is out to get you if you don't, they say.
who the fuck are they?
how come they know so much about you?
where are they when you need them,
in the dead of the night when your heart is bleeding
and you can't find your way out of this mess,
this beautifully crafted cage you made out of their dreams and plans for you,
while your own dreams are crushing you so hard you can hardly breathe?
where the fuck are they when you go through hell
lost in between the you they expect you to be
and the you you actually want to be,
crying alone in the solitude of a bleak room
counting down the days you still have left to live?
smile, be polite
remember to say your prayers before you sleep
and be thankful for being allowed to be part of this
even if "this" is exactly what's parting you from yourself.
in the end, we are nothing but machines
rusting away for want of oil and purpose
god's little playthings
for as long as our heart beats
until this cancer eats away our freedom,
until life itself breaks our will.
22.5.12
Os primeiros versos para o último amor
Lágrimas de chumbo castigam o asfalto lá fora,
e é tudo cinza; cinza-concreto, cinza-tempestade,
cinzas do calor que a tudo consumiu até que só restaram vestígios,
e faz frio.
Faz um frio miserável
(ainda que apenas pros padrões locais)
e meus ossos congelam;
meus ossos e todos os líquidos do meu corpo,
tudo viscoso, tudo pétreo, tudo imóvel.
Me sinto pegajosa, entupida, paralisada, sei lá.
Me sinto fria.
Me sinto fria, e solitária.
Essa cama minúscula e dura, assim, tão de repente,
parece grande demais para conter apenas os meus sonhos.
Falta uma peça nesse quebra-cabeças,
e é como se eu tivesse esquecido como dormir
sem seu corpo encaixado no meu
ou sua respiração bagunçado o ritmo da minha.
Falta sua risada barulhenta ecoando pelas paredes amareladas,
faltam seus cabelos revoltos espalhados pelo meu travesseiro.
Não sei mais, e nem sei se quero reaprender,
a dormir sem brigar pelo lençol
ou sem entrelaçar pernas e braços,
provocações inocentes sem pudor algum.
Uma vontade absurda e irrefreável
de acordar pra vê-lo sorrir
ou zelar por seu sono até que o meu retorne.
As gotas pesadas tamborilando na janela
e eu aqui embrulhada nesse cobertor surrado
(mero sucedâneo para suprir sua ausência)
brincando de contar os dias, horas, minutos,
segundos, até,
para a próxima noite em seus braços.
16.3.12
Selvagem na caixa de vidro
Não foi sempre que fui assim. Nem sempre fui este meio-ser de cores emprestadas e olhos baços de quem já viu o mundo de todos os ângulos e a quem nada mais choca ou surpreende. Nem sempre encarei quedas e fraturas expostas e feridas sangue podridão com a naturalidade de quem mergulha numa piscina num dia de sol escaldante. Nem sempre, eu. Esse eu é coisa nova, fruto da modernidade, vítima da sociedade, produto do meio, sei lá, chamem como quiserem, mas essa porra dessa criatura que saltita e grita e brinca e ostenta uma felicidade quase real não sou eu, nunca fui, e nem me perguntem porque passei a ser. É um daqueles mistérios que nem Freud, nem a bíblia e muito menos Walter Mercado explicam.
Eu sei lá, na real. Eu olho pra trás e parece que não é comigo. Não era eu. É uma coisa engraçada, essa dualidade toda. Eu sei que essa eu que escreve não é a mesma que escrevia há um ano. Há dois anos, sei lá. Bota mais tempo nisso aí. Faz tempo que eu não sou eu. Tenho sérios problemas identitários. Eu olho pras partes mais tensas do meu passado e... com quem foi mesmo que isso aconteceu? Parece que tem uma parede entre eu e a antiga eu. Uma parede de vidro, daqueles vidros blindados e foscos de um lado, tipo de interrogatório, e eu sou da lei e tô vendo tudinho acontecendo mas não posso me meter e posso inclusive fingir que nem é comigo.
Só que eu cansei de fingir que nem é comigo, porque eu cansei de viver como se estivesse constantemente sob efeito de anestesia. Cansei de observar tudo com a fria indiferença de quem se sabe distanciado. Quero o ardor da experiência, quero a dor da solidão, quero a pontada amarga da flecha dilacerando novamente minha carne e vertendo em sangue as memórias da minha alma.
Sem o pecado, sem a paixão, sem o oculto: sem infelicidade. E assim sigo clamando para mim meu direito inalienável de ser infeliz. Só assim vale a pena viver.
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