10.2.15

Gente que corre

As pessoas que correm não são pessoas normais. Não me refiro àqueles como eu, você ou o vizinho, que correm normalmente no dia-a-dia por razões perfeitamente justificáveis, como pra não perder o ônibus ou pra chegar no banco antes que ele feche, ou até mesmo pra atacar a mesa de salgadinhos da festa do sobrinho antes que comam todas as bolinhas de queijo. Pessoas que correm, neste contexto, são as pessoas que correm por hobby, por lazer, mesmo. Quanto mais penso na ocorrência cada vez maior de pessoas que correm na minha vida - em especial, na virtual - mais concluo que eles não são pessoas como eu e você.

Gente que corre nào corre só para si. Esse papo de superação, satisfação pessoal, não cola comigo. Gente que corre o faz pelos outros. Gente que corre posta foto no instagram com o outfit do treino, geralmente algo de lycra em cores berrantes, antes de ir pra academia, porque gente que corre só gosta de correr e ficar suada em competições. Gente que corre gosta de correr no ar condicionado. Quando eu ia à academia, era fácil identificar quem era a gente que corria - eram aqueles que ocupavam as esteiras de viseira (nossa, que solzaço que faz dentro dessa academia, não é mesmo?), e que precisavam ser tirados do aparelho pelos instrutores, pois se esqueciam da regra de convivência de no máximo 15 minutos de aparelho pra deixar os gordinhos se torturarem também.

Gente que corre gosta de registrar seus momentos e conquistas para depois compartilhá-los em todas as redes sociais possíveis. Nada mais gente que corre que ter, na capa do perfil, uma foto sua rompendo a linha de chegada de alguma corrida. E aliás, que corrida cara, viu? Gente que corre paga caro pelo privilégio de correr. Pelo que vejo, gente que corre é gente da elite. Para reles mortais como nós, correr é consequência de querer economizar uns trocados. Gente que corre gasta até 150 reais para correr por duas horas numa via pública.

Gente que corre é branca, magra, bem cuidada. Vai um negro pobre correr junto no calçadão da praia! Certamente essa elite que corre vai ficar com medo de ser assaltada. Vai uma gorda correr junto! Certamente será motivo de chacotas ou, caso seja próxima, de conselhos não requisitados para otimizar sua perda de peso. Gente que corre sabe tudo de saúde, especialmente da saúde dos outros, mesmo sendo de áreas extremamente distantes da área de saúde.

Gente que corre não gosta de correr sozinho. Gente que corre tenta convencer os amigos próximos, a família, os amigos, os colegas de trabalho, os pais dos amiguinhos dos filhos e até mesmo os colegas de academia a correr também. Acompanhado é mais divertido, dizem. Gente que corre deve realmente ter um fôlego de invejar, porque mal consigo ser sociável e manter uma conversa amena enquanto subo uma escada, imagine conversar enquanto corro. Não tem condições. Gente que corre diz que isso é falta de preparo, e pode até ser mesmo, mas dou uma caixa de big big pra quem conseguir passar cinquenta minutos correndo sem parar de conversar. Ou um pacote de granola. Sei lá o que gente que corre come.

Gente que corre pode até dizer que não, mas a gente sabe bem que gente que corre gosta de ostentar suas vitórias. Fiz questão de ocultar todas as postagens de gente que corre no meu facebook, porque não sou obrigada a lidar com o estilo de vida saudável dos outros. Gente que corre está em todos os lugares, mas a gente nunca as vê porque, enquanto estamos nós correndo por obrigações da vida, eles estão bem confortáveis a bordo de seus carros, o vidro do carro fechado e o ar condicionado ligado, porque obviamente pra gostar de correr por hobby você não pode ter o costume de correr por obrigação.

Alguém devia, algum dia, organizar uma corrida especial para gente que corre. Daqui até o polo sul. Só de ida, e sem wifi no final para que ninguém poste atualizações de chegada no facebook. Só assim pra essa gente que corre deixar os sedentários por opção (grupo no qual me incluo) serem sedentários em paz, sem sentimento de culpa por estar num sábado de manhã dormindo de ressaca em casa, em vez de correndo em algum parque sob o sol com outras 50 pessoas.

Porque gente que corre causa esse efeito. Queríamos ter essa energia toda, mas o conforto de nossa cama e de um bom filminho na TV nos impede de cedermos ao lado que corre da força. Gente que corre faz a gente se sentir culpado por ser feliz do nosso jeito.

13.10.14

11 anos

Era uma segunda-feira chuvosa e, pra variar, acordei em cima da hora de ir pra escola depois de uma madrugada perdida na frente do computador. Abri a porta do quarto, mas o silêncio era tanto que não quis acordá-la. Escrevi um bilhete, deixei em cima da mesa ao lado de um prato de mingau feito com amor (porque sabia que, com sua tireoide inchada como estava, nada mais sólido que isso passaria), tomei meu banho e cheguei até a porta para ir cuidar da minha vida.

Foi mais ou menos aí que o interfone tocou, acho. As lembranças desse trecho - desse dia como um todo, aliás - são bastante confusas, por mais que por muito tempo eu as tenha revirado e analisado por todos os ângulos possíveis pra tentar me convencer de que a culpa não foi minha. O interfone tocou, e era da portaria, avisando que vinha um moço pintar as paredes da varanda. Fiquei chateada, porque eu não poderia ir pra escola e deixá-la dormindo em paz, depois de termos passado o domingo inteiro no hospital brigando com o sistema público que sempre foi uma bosta, com um estranho dentro casa. Mandei o rapaz subir.

Abri a porta de seu quarto de novo. "Mãe", eu disse da porta, "acorda, o moço da varanda tá aí." Silêncio. Silêncio absoluto, em contraste gritante com os roncos que ecoaram a madrugada inteira, devido à sua dificuldade em respirar. Senti um calafrio. Me aproximei. "Mãe", chamei de novo. Nada. Encostei a mão em seu braço, pra tentar acordá-la com carinho, como nas tantas vezes que a acordei nos dezessete anos anteriores, tentando não assustar. Seu braço estava frio. Frio demais. Dei a volta na cama, e os olhos e a boca abertos, sem umidade, sem vida, me confirmaram o que eu tive medo de ser verdade na hora em que chamei da primeira vez.

Lembro de minha reação ter sido, imediatamente, calmamente, sem escândalo, ir até a varanda e chamar o moço. "Moço, o senhor pode me fazer um favor? Desce e chama o seu Zé, lá na portaria. Acho que minha mãe morreu e somos só nós duas aqui e eu não sei bem o que fazer." Calmíssima. Fria como o gelo. Dentro da minha cabeça, eu ainda não conseguia processar o que estava acontecendo. O rapaz também não se abalou. Acenou com a cabeça, disse "tudo bem", e saiu, sem um toque no braço por simpatia, sem olhar muito no meu rosto. Parando pra pensar agora, talvez ele tenha ficado um pouco perturbado de ouvir uma notícia dessas saindo da boca de uma menina de 17 anos sem uma lágrima nos olhos, logo no começo do seu dia de trabalho.

Assim que o rapaz saiu, o telefone tocou, e era minha tia, querendo saber como minha mãe estava. Ainda no estado catatônico em que me encontrava - acho que só isso explica tamanha frieza, o choque - expliquei que eu não tinha conseguido acordar ela, que ela estava deitada com a boca e os olhos abertos, e que eu achava que ela não estava respirando.

Não sei se foram minutos ou horas que se passaram até chegar alguém lá em casa. Fui pro computador, mandei mensagem para o namorado que morava em outro estado explicando o que tinha acontecido, sentei no sofá e lá fiquei, esperando. Não tinha mais nada a fazer. A escola certamente já tinha sido avisada - a filha da tia que ligou era minha professora - e eu não conseguia pensar em mais ninguém, exceto os amigos da escola que provavelmente ouviriam falar disso na aula, que eu gostaria de notificar. Nem pro meu pai me ocorreu ligar. Não me ocorreu sequer fechar os olhos dela. Fiquei sentada, em estado de choque absoluto, enquanto iam e vinham vizinhos, parentes e amigos pra prestar homenagens e tentar ajudar no que fosse. Por horas fiquei sentada, até a mãe de uma amiga aparecer lá em casa com ela e com outro amigo nosso para me arrancar de casa enquanto os adultos cuidavam dos problemas, e depois me entregar nas mãos da tia que cuidaria de mim até o final do ano letivo.

Sequer uma lágrima foi derramada nesse dia. Ou nos próximos.

Não chorei no enterro, não chorei na missa de sétimo dia, não chorei nem fraquejei nem me descuidei de minhas responsabilidades por um minuto sequer. Dois dias depois eu já tinha voltado pra escola e a vida seguia normalmente. Eu não era menina de chorar. Era tão tomboy que me considerava um menininho. E meninos não choram.

Até que uma noite, duas semanas depois, acordei no meio da noite e, pela primeira vez, a ficha caiu. Me dei conta de que estava dormindo num colchão da sala da minha tia, a poucos meses de me mudar de cidade para morar com meu pai, deixando pra trás todos os amigos e família, e que isso me agoniava e me desesperava. Digo que a ficha caiu porque foi nesse momento que me dei conta de que tudo o que eu precisava era do colo da minha mãe, pra desabafar toda a estranheza dos últimos dias e do quanto eu estava odiando tudo aquilo. E que eu nunca mais teria o colo dela.

Eram 11h da noite do dia 30 de outubro e eu só parei de chorar às 5h da manhã.

Desde então, chorei várias vezes, por motivos variados - de dor, de solidão, de raiva, de emoção, de felicidade, de saudades dela, até. Mas nenhum choro foi tão demorado nem tão sofrido quanto esse. Foi meu primeiro choro de "nunca mais".


Hoje completou 11 anos. E até terminar de escrever esse texto eu achava que não conseguiria mais chorar por isso.

A última foto juntas.

3.10.14

Broken expectations

I was expecting mostly anything out of this:
to be frustrated, ignored, forgotten,
heartbroken, ridiculed even,
to wake up the next morning,
bitter taste on the mouth,
left on the gutter without a single happy memory left
to make me last through the day...
I guess I was expecting pain, as usual.

I'm too used to expecting too much,
so this time I decided to expect the worst,
just to ensure my expectations would be met this time.

What I definitely wasn't expecting
was to be swept off my feet.

18.9.14

Sinestesia

É uma daquelas noites
Em que sinto sua falta
Com todos os sentidos

O cheiro do seu corpo
Permaneceu em meus travesseiros
E fincou morada em mim
Marca indelével em minhas memórias

O calor de suas mãos
Incinerou cada fiapo de razão
E me perdi em um sentimento
Que mal posso começar a compreender

O gosto de seus lábios
O som de sua voz
Pura sinestesia
E meu coração e minha alma
Parecem prestes a explodir

Acho que a verdade é que
Você me toca
E eu viro melodia.

14.8.14

Restless

I've forgotten how to deal with your effects
I listen to the same song over and over again
And this emptiness inside of me won't subside
No matter how much I try to fill the void you left

Singing aloud to the naked, dirty walls
I only get echo as an answer
I want you to hear my voice
When I scream the words I'll never say
When I scream your name in the middle of the night
And my body rises from my bed
As if from its own grave
Shuddering and trembling, weak and powerless
Forgotten how to breathe

Feels like drowning
Everything's so damp
And I gasp desperately for air
And dig my nails into the mattress
Back arched against such a deep wave
Of feelings caused by the mere memory of you

Finally I let myself drop
Tired, sweaty, exhausted,
And drift slowly into sleep
Knowing we'll meet again soon enough
Even if it's only in my dreams