Quem tem muito pouco tempo para si sabe muito bem que existem apenas três lugares realmente funcionais para se ler um bom livro, independente do dia estar frio ou não e de você ser o Djavan ou não. Por ordem de conforto, são eles: a cama, naqueles minutinhos antes de dormir; o vaso sanitário, naqueles minutinhos de privacidade; e o ônibus, naquele espaço de tempo que pode compreender alguns poucos minutos ou várias horas, a depender da situação do trânsito da cidade em que você vive. Como ler na cama invariavelmente faz com que eu pegue no sono sem nem sentir e acabe deixando o livro todo amassado e babado e sem o marcador de página, e ler por muito tempo nas instalações sanitárias causa hemorroidas (pelo menos pelo que minha mãe me dizia), acabo dedicando aqueles momentos intermináveis de sacolejo rodoviário para botar minhas leituras em dia. Dizem que descola a retina, não sei. Nem sabia que ela era colada, nunca lembrei de perguntar a um oftalmologista se descola mesmo ou se dá pra colar de volta com Super Bonder, mas, mesmo que solte e não dê pra colar de volta mesmo, eu não me importo. Já entro no ônibus com o livro na mão e vou adiantando um ou dois capítulos no caminho pra casa ou pro trabalho.
Hoje não foi diferente, e o livro da vez é "World War Z", de Max Brooks, que peguei emprestado do namorado.
Já chegando perto do meu ponto, lamentei ter que interromper a leitura. Estava numa parte em que alguém contava já se julgar seguro no ponto em que se encontrava, quando de repente um daqueles zumbis sem pernas começa a se arrastar na direção da pessoa pelas costas e... Ouvi um gemido.
Foi aí, inclusive, que levantei os olhos, vi que faltavam apenas três pontos para o meu e concluí que era um bom momento para fechar o livro.
Guardei o mesmo na mochila com todo o cuidado - afinal, não era meu - e foi aí que ouvi o segundo gemido, vindo nitidamente de trás de mim. Cogitei que alguém estivesse talvez fazendo sexo dentro do ônibus, mas logo descartei a ideia. Não era um gemido sexual. Não era sequer um gemido de dor. É o tipo de gemido que a gente faz quando acabou de sair do dentista e ainda tá com a boca torta e anestesiada parecendo o Stallone.
Com o canto do olho, notei alguma movimentação mais ou menos à altura dos bancos. Olhei assustada, e vi que era mesmo uma cabeça. Desci mais os olhos, e dei de cara com um corpo que se arrastava pelo chão do ônibus. Era daí que vinham os gemidos.
Olhei ao redor e constatei que alguns riam da cena, outros olhavam com nojo, alguns ignoravam... Será possível que só eu enxergava o perigo? Seu motorista, pare esse ônibus agora! Cadê meu taco de baseball?
Alguém tem um pé de cabra?
Na falta de arma melhor, me resignei a atacar o zed com minha bolsa mesmo, ainda que isso fosse sinônimo de sacrificar meu querido notebook. Afinal, mais vale ficar sem computador do que ficar sem vida, ou ainda, com uma não-vida, morta-viva, deixa eu parar que já está virando poesia simbolista, certo?
Agarrei firme minha bolsa pelas laterais e me preparei para atacar. E nesse momento o zumbi levantou. Digo, zumbi não. Mendigo. O mendigo levantou, segurou com força na barra do ônibus, soltou mais um gemido profundo e rouco, que eu percebi agora ser um bocejo. Passou alguns segundos dançando no corredor, parecendo indeciso entre o banco vazio à esquerda dele ou seguir pelo corredor. Decidiu sentar.
Aproveitei a brecha para correr pra frente do ônibus. Vai que numa dessas ele se jogava em cima de mim e me mordia, né?
5.4.13
21.3.13
Surrealidades da vida
No ponto de ônibus escuro, sombrio e deserto da Federação, estava eu sozinha esperando o transporte milagroso que me levaria para casa. De repente, não mais que de repente, surge das trevas profundas que me cercavam um grupo de rapazes jovens, todos trajando roupas da Cyclone, gesticulando muito e falando alto naquele dialeto próprio deles. Eis que um deles se aproxima de mim e para, bem na minha frente, fixando os olhos em mim.
A essas alturas, sozinha como estava, eu não poderia sequer emitir um flato, já que o buraco de saída dos mesmos estava tão fechado que já tinha deixado de existir.
Ele manteve o olhar fixo em mim por uns segundos, desviou o mesmo para meu cigarro aceso já pela metade, e exclamou:
"PORRA VÉI, ISSO SIM É QUE É UMA BRASA DE RESPEITO!"
E seguiu seu caminho.
---
Uns poucos minutos depois, desci do ônibus no ponto final perto de minha casa. Andava ainda no modo "não passa nem pensamento", já que minha vizinhança não inspira confiança alguma, quando ouvi passos extremamente apressados atrás de mim. Olhei pra trás e era uma velhinha, dessas bem velhinhas mesmo, que a gente imagina indo dormir depois de alimentar os gatos a uma hora dessas da noite. Ela me viu e começou a tagarelar, como se continuasse uma conversa que eu não me lembrava de ter existido.
"Pois é menina, sempre que eu desço do ônibus e tô chegando perto de casa eu fico desesperada pra fazer xixi."
"Como é, senhora?"
Sempre andando depressa, a essas alturas quase me ultrapassando, ela explicou.
"É. Tem banheiro lá perto de onde eu trabalho, mas eu odeio usar banheiro público, então seguro até chegar em casa. O problema é que, quanto mais perto chego, maior a vontade, né? Então eu já bato o portão de casa com tudo querendo começar a pingar. E corro pro banheiro. O problema é que o pessoal fica querendo parar pra conversar, e eu fico tendo que segurar mais. Odeio parar pra conversar na rua quando tô apertada. Acontece com você?"
"É... normal, acho."
"Pois é, ainda mais numa rua escura dessas, fica perigoso, aí dá medo, com medo dá mais vontade ainda de fazer xixi, né?"
"É..."
A essas alturas, não ouvi mais o que ela dizia. Ela já estava a uns bons metros à minha frente, e continuava a tagarelar, agora com um rapaz que tinha surgido sabe-se lá de onde.
Até agora me pergunto: se ela não gostava de conversar... por que, meu deus, por quê?
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8.3.13
Eu fico me perguntando o que é que as pessoas querem dizer, afinal, com essa história de que mulher tem que se dar valor. É valor comercial, de mercado? Valor no sentido de bravura? Eu, que até hoje só usei bolsa pra carregar minhas tralhas, nunca consegui entender esse conceito de ser tratada como se fosse ação.
Vejo homens - e, ai! mulheres também - desfiando ladainhas de "mulher que é mulher tem que se dar ao respeito!", "se você não se valorizar, ninguém vai!", "fica dando pra todo mundo e quer arrumar namorado, pff", "mas também, com esse shortinho..." Com base em todos esses "argumentos contundentes", só consigo entender que essa palhaçada toda de se valorizar significa, simplesmente, deixar de ser a criatura sem valor que você intrinsecamente é e começar a ser um objeto a ser cobiçado pelo homem, uma moça "casadoira", mulher de família, etc. AI GENTE PARA. Para mesmo, que tá ficando feio.
Me envergonha profundamente ver mulheres ditas esclarecidas e modernas repetindo os mesmos clichês - que a essas alturas já perderam completamente o fundamento - que suas avós e mães repetiam ad nauseam. Moças, acordem para a vida: nem faz sentido direito mulher ser machista, é quase tão ruim quanto um homossexual ser homofóbico ou um negro ser racista.
Enfim. Esse texto todo é apenas para esclarecer: se ser uma mulher que se dá valor significa se comportar como uma santa, se vestir que nem freira e se submeter feito... uma oprimida, sei lá, faltou uma boa comparação aí, mas enfim, se significa tudo isso... Eu tô valendo menos que um ponto no Bomclube. E sabem o que é mais? Com orgulho!
27.11.12
Blog novo na área
Pois bem. Devido a uma disciplina que estou cursando esse semestre, fez-se necessária a utilização de uma ferramenta como um blog para poder devanear e destrinchar os assuntos discutidos em sala. Foi sugerido que usássemos os blogs que já possuíssemos, por questões de praticidade e coisa e tal. Mas não me pareceu certo misturar prazer com obrigação - afinal, sempre faço a analogia de professores com prostitutas, mas ainda não chegou a esse ponto - e ainda menos certo expor vocês, meus fiéis e queridos leitores (s2) a meus devaneios acadêmicos... Ao menos não diretamente.
Assim, venho por meio destas mal traçadas linhas avisá-los que tem blog novo na área! Nele, as atualizações serão consideravelmente mais frequentes, já que dependem menos da minha criatividade e mais do input recebido. O tema geral é tecnologia e educação. Fiquem à vontade para dar uma passadinha lá e, quem sabe, oferecer um pitaco ou dois.
O link para o primeiro post está aqui. Boa leitura!
Assim, venho por meio destas mal traçadas linhas avisá-los que tem blog novo na área! Nele, as atualizações serão consideravelmente mais frequentes, já que dependem menos da minha criatividade e mais do input recebido. O tema geral é tecnologia e educação. Fiquem à vontade para dar uma passadinha lá e, quem sabe, oferecer um pitaco ou dois.
O link para o primeiro post está aqui. Boa leitura!
5.11.12
Rapaz bem nascido procura moça direita para casar
Nove e vinte e cinco e a porra do ônibus de nove e dez ainda não apareceu. Não que ônibus atrasar em Salvador seja grande novidade. Sentei na mureta do prédio e acendi um cigarro, apelando pro velho truque do summon buzu. E lá se foi metade do cigarro e nada, e eu sozinha no ponto deserto, começando a rezar internamente pra tudo que é deus.
Aí que eu senti uma cutucada no braço e já olhei pro lado assustada né, vai saber, a Graça anda perigosa, vai que... E era um cara. Com a cara mais inofensiva do universo, de camisa xadrez pra dentro da calça jeans folgada e botas de couro, barba, óculos e uma barriga de fazer inveja na minha, cultivada a anos de cevada. E falando algo que eu não entendi.
- Oi?
- Do you speak English?
- Ahn... Yes, yes I do.
- Yay! Where do you live?
- Ahn... aqui em Salvador mesmo.
- Ah, mas você é de que país?
- ...sou brasileira.
- Ah é? Que bom! E você mora por aqui?
- Mais ou menos, tô esperando o ônibus.
- Ah. Posso pegar seu telefone?
- Oi?
- Meu tio vive dizendo que tá na hora de eu arrumar uma moça direita, que eu preciso namorar, mas tem que ser moça direita, hein! Que é pra casar. Que ele banca o casamento todo, e... posso sentar do seu lado? Então. Ele banca o casamento, champanhe, festa, cachaça, o que for, hahaha! E aí, você tem Oi? Anota seu número aí pra mim. Aliás, qual seu nome?
- Er... Dianna.
- Prazer, Dianna, eu sou Fred. Anota o número do seu Oi aí pra mim - e me estendeu o celular.
Nessa hora, senhoras e senhores, eu fiz o impensável. Eu realmente anotei o número do meu Oi no celular dele. Só não avisei, é claro, que o número está desativado há mais de dois anos, mas ele pediu meu Oi...
- Então, anota aí o meu. É Oi, hein? E meu nome é Fred. F, R, E, D. Pode me ligar a qualquer hora. Sou rapaz direito, acordo bem cedo, seis da manhã já tô de pé. Mas se quiser conversar com alguém meia noite, uma da manhã, eu ainda tô acordado também.
- Nossa, e você dorme que horas?
- Eu durmo pouco, é, eu durmo pouco. Só domingo que às vezes eu durmo uma meia horinha depois do almoço, aí eu vou no Shopping Barra passear, a menina de lá até falou que arranja passaporte pra mim. Mas eu sou de boa família, tenho uma fazenda de cavalos... Eu tava procurando uma esposa que falasse inglês, por isso que eu te perguntei se você fala inglês, porque eu não quero morar em Salvador pra sempre, sabe... A moça do shopping falou que arranja meu passaporte, daí é muito mais legal que ir até Recife só pra tirar o passaporte, né?
- Mas passaporte você pode tirar aqui. O visto é que é em Recife. Ou em São Paulo.
- Ah, não, ela disse que arranjava pra mim. Prefiro Recife. São Paulo é muito violenta. Você é americana?
- Não, sou brasileira.
- Mas não é daqui não, né?
- Não, sou do Rio.
- Olha que legal! Já tenho onde ficar quando resolver ir ao Rio!
- Nah, nem eu tenho direito onde ficar quando for pra lá.
- Por quê?
- Porque mal tenho família lá.
- Ah, tá bom. Nem quero mesmo ir pro Rio. Eu quero é ir pra Londres, ou pra Paris, ou pra Bélgica, ou pra França...
- Mas aí você tem que aprender francês também.
- Mas eu falo francês!
- É mesmo?
- É sim! Eu sempre fui muito bom em português, e quando a gente é bom em português, a gente é bom em francês também, né?
- Não é bem assim...
- É porque as duas línguas são parecidas, as duas vêm do latim. Quer ver?
- Fala aí.
- Hable tu français?
- Non, je ne parle pas français.
- Olha, tá sabendo! Então, você é casada?
- Não, sou noiva.
- Tá brincando?
- Tô não, olha aqui - e mostrei minha aliança de compromisso, na esperança de que isso encerrasse o assunto.
- Ai... quantos anos ele tem?
- 20 e poucos.
- Nossa, fedendo a leite! Você precisa de um homem mais velho, que possa prover por você.
- E quantos anos você tem?
- 23.
- ...
- Mas você veio fazer o que em Salvador?
- Vim pra me casar.
- Então casa comigo!
- Er. Você é muito legal, Fred, mas... olha! Meu ônibus! Tchau, prazer em te conhecer.
- Me liga, viu!
- Ligo sim.
- Beijo!
E pegou minha mão. E só soltou quando a porta do ônibus estava pra fechar nos dedos dele.
A gente faz qualquer coisa pra não ficar sozinha no ponto de ônibus tarde da noite, viu?
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