5.1.11

Por que escrevo

E ela olha pras palavras na tela e desaba de chorar porque queria ter escrito algo assim, não porque é bonito, mas porque se sente da mesma forma e não saberia como expressar isso, tão dolorido, tão trancado dentro dela que estava. E ele olha pr'aquele texto imenso e não consegue conter um meio sorriso daqueles carregados de nostalgia, e não consegue impedir o coração de falhar aquela batida, porque está tudo ali, é a vida dele, com detalhes que ele nem lembrava que existiram, mas ah se existiram. E aí outra pessoa lê um poema tão, tão curtinho, e sente toda a carga de saudade do que ainda não existiu, e não resiste a se manifestar a respeito, porque sabe que aquilo ali é o que eu quero pro nosso futuro. E aí aquele amigo que entende tudo o que eu passei lê a carta e vem me dizer com todas as letras que ele gostaria de poder dizer tudo aquilo também pr'aquela pessoa mas não pode mais.

E essas coisas todas acontecem... espontaneamente. Essas palavras que brotam de mim e, de alguma forma, calam na alma de outras pessoas. Quando escrevo, parece que saio de mim. Parece que essas coisas não saem só de mim, são retalhos de tantas outras pessoas que eu nem sei mais. É por isso. É por isso que a pena será, eternamente, minha arma, e a folha, o escudo. É por isso que não desisto.

E isso tudo é pra agradecer a vocês que lêem isso aqui e, mesmo que não comentem aqui, vêm me dizer, por msn ou twitter ou seja lá como for, o que acharam, que se identificaram, que gostaram ou que se lembram. Vocês fazem parte disso aqui, de um jeito ou de outro. E vocês é que me dão forças para continuar. Obrigada, de coração. <3

4.1.11

Fim de férias

Queria levantar-se preguiçosamente, desenrolando com cuidado todos os membros do corpo do lençol amarfanhado, e sobressaltar-se com o céu já escuro. Queria lembrar-se delicadamente dos sonhos que tivera. Queria, enfim, aproveitar o último dia oficial de férias para dormir tanto quanto pudesse e voltar ao trabalho com  a pilha recarregada o suficiente pra não se importar em dormir menos de 6h/noite. Mas ninguém nunca deixa, não é?

Abriu os olhos com o som irritante do celular. Piscou de leve, bem de leve, enquanto tentava identificar de onde vinha aquela música de videogame. O sonho não tinha videogame, ou será que tinha? O que estava sonhando, mesmo? Mal humorada, atendeu o aparelhinho dos demônios. Não, acabei de acordar. É. Não, acordei com o telefone tocando. Não quero falar com ela, tô com sono. Tchau. Voltou pra cama com o celular em mãos e viu que tinha uma ligação perdida. Quem, em sã consciência, me liga às 9h45 da manhã durante as férias? Viu que era um caso antigo, já dado por encerrado. Foda-se, não vou retornar. Voltou a dormir.

Acordou meia hora depois, sem sonhos nem ânimo. Hoje, o dia vai ser uma bosta. Ligou o computador, esquentou o almoço e foi não-viver.

3.1.11

1D6

O lado iluminado te atraiu. O lado sombrio não te afastou. O lado quente te acolheu. O lado perverso te entreteve. O lado lúdico te assemelhou.

Qual o lado de mim que preciso usar para te trazer pro meu lado?

Carta para Gigi

Em quantas camas dormi desde que você se foi? Quantas lágrimas calei, quantos gritos de desespero febril engoli a seco com uma talagada de vodka ou cerveja sem gosto?

Muitas vezes me perdi, na esperança vã de encontrar um vestígio que fosse de você dentro de mim. Tentei fincar minhas bandeiras e chamar de lar todos os lugares em que estive, mas no fundo sei que nunca será para sempre. Eternamente de passagem, me jogo para lá e para cá, sem rumo, as bagagens nunca totalmente desfeitas, à espera do próximo passo.

E sempre, em meio ao caos que constantemente me cerca, pequenos souvenires de você. No armário, suas roupas que teimo em manter. Na caixa, fotos suas escondidas até de mim mesma. No meu peito, o seu símbolo. Nas minhas unhas, suas cores. No reflexo do espelho, seus genes que gritam, orgulhosos, sua herança.

E já fazem sete, sete ingratos anos, e você ainda está aqui, tão tangível quanto a fumaça do cigarro que você mesma me ensinou a tragar, tão impregnada, até em minha caligrafia, quanto a umidade nas roupas que secam nos varais de março.

Hoje choveu, e eu ouvi sua voz no sussurro do vento. Sei até, como o lavrador que sabe que o tempo vai mudar, que esta noite só pararei de chorar quando sentir seus dedos frágeis roçando meu cabelo.

Me pergunto, tolamente, se você teria orgulho de mim. Sei que sim, mas gostaria de poder ainda ouvir sua voz me dizendo isso.

Há muito mais que eu gostaria de dizer, mas tudo pode ser resumido em cinco ínfimas palavras:

Te amo. Sinto sua falta.

Um beijo,
Sua filha.


(originalmente escrito em 29/03/10)

2.1.11

Nós

Era um sonho. Era uma ilusão. Era uma brincadeira. Era disso que eu passei a última semana tentando me convencer. E aí eu ouvi sua voz. E aí o segredo foi sendo revelado. E aí, uma letra. Uma mensagem bêbada. Declarações. Madrugadas em claro. Um novo ano. E as coisas vão cada vez mais tomando forma e jeito de coisa real. Na verdade, contar pra alguém parece que torna mais real. E assim nossa história vai indo, com as páginas do meu caderno se enchendo cada vez mais de você, a sua lembrança enchendo cada vez mais meu peito e minha cabeça, as expectativas aumentando exponencialmente à medida em que os dias se passam. Eu não achei que eu ainda fosse capaz de dizer ou sentir isso, mas percebi, no pior momento possivel, que sou, e disse com todas as letras. E que você nunca duvide de que é verdade.