22.12.10

Bast

Abriu os olhos e percebeu que o sol já havia escondido sua face há mais tempo do que esperava. Hora de acordar, enfim. Espreguiçou-se lentamente, esticando cada uma de suas extremidades com muita cautela. Lavou-se com esmero, como todos os dias, e foi atrás de sua primeira refeição.

Adorava o prazer da caça. Divertia-se com a tocaia, sentia seu sangue queimando como lava enquanto a adrenalina corria por seu organismo. A vítima, incauta, mal percebeu o vulto cinzento à espreita até que já era tarde demais. Era tão fácil, tão natural, que não pôde resistir à tentação de ser cruel. Brincou com a pobre criatura, fazendo-a ser arremessada de um lado a outro até, enfim, dar-lhe o golpe de misericórdia, lacerando sua garganta.

Esticou-se mais uma vez, como que para espantar a preguiça que lhe abatia após uma lauta refeição, e pôs-se a explorar o ambiente em que estava. Não se lembrava muito bem como fora parar por ali, mas também não importava muito: seu lar era qualquer lugar sob as estrelas, seu abrigo qualquer um que o protegesse da chuva. Curioso, vagou pelos arredores até encontrar água que pudesse beber. Bebeu até fartar-se, e seguiu sua jornada pelos caminhos que lhe parecessem mais interessantes.

Finalmente, o céu começou a clarear novamente. Hora de descansar. Encontrou uma árvore, subiu até o galho mais alto que pôde alcançar, fez sua higiene mais uma vez para tirar os fiapos de mato seco da pelagem cinza espessa, enroscou-se em si mesmo e dormiu, ronronando de puro prazer por mais uma noite bem aproveitada.

20.12.10

Olhos

Sentou-se ao meu lado e fingiu não me ver. Difícil, numa sala daquele tamanho, mas ainda assim ignorou meu sorriso tímido, automático à sua entrada. Decidi que nem era comigo e me concentrei em observar fervorosamente as marcas de cupim no carpete velho, as mãos cruzadas sobre as pernas cruzadas. Linguagem corporal toda errada, gritando pro mundo que o desconforto era pelo novo membro do grupo.

Sua mão buscou a minha na hora menos apropriada. Um leve aperto. Para os incautos, um gesto de amizade. Para nós, tantos desejos velados que nem caberia nas palavras. Evitei seus olhos pelo resto do dia, sem coragem de admitir que algo neles mexia comigo. Acendi seu cigarro, sentei a seu lado, conversei desconversando, os olhos fugídios. Não era hora nem lugar para aquele flerte absurdo e despropositado.

Caminhou comigo até meu ponto de ônibus e conversou sobre coisas frias e mundanas. Vamos trabalhar juntos, preciso de alguém pra dividir um freela, como vai a faculdade? Os olhos cobertos por filmes negros, todos os quatro, os rostos firmemente voltados para o horizonte. As mãos que tornam a se encontrar na surdina, os sussurros em meio ao caos urbano: estou com saudades. Eu também. Na esquina, separam-se as mãos, as vozes, e restam só os desejos unidos. Os corpos, que pena, ficam para uma próxima ocasião. Ainda estou com saudades. Ele também.

15.12.10

Até que

Um leve desconforto em meio às tardes de ócio nerd. Isso era tudo que o que aconteceu entre nós, naquela noite lamentável há tantos anos, significava em nossas vidas hoje em dia. Até que um dia...

Sempre tem um "até que" nessas histórias, não é? Um deslize é perfeitamente inofensivo, até que. Um passeio com os amigos pelo shopping é algo perfeitamente normal para se fazer numa sexta à noite, até que. Comprar esmaltes só te deixa confusa na hora de escolher a cor, até que.

Até que uma proposta indecente é lançada no ar. Até que um beijo acontece espontaneamente no meio da fila. Até que pessoas bêbadas resolvem dar vazão a vontades que talvez nem soubessem que existiam.

Até que tudo isso se repete e gera uma expectativa.

E agora eu fico aqui, nesse medo de que as coisas fujam do controle. De que essa amizade se corrompa. De que nada seja mais como antes. E esse último medo é simbolizado pelo beijo de despedida, na porta de casa. Da minha. Pelo convite para jantar. Na sua casa. Sem o álcool como desculpa, como muleta, como catapulta. Seguimos como amigos, mas, na calada da noite, as coisas mudam.

Até que nossos mundos comecem a ruir.

13.12.10

Promessa quebrada

Era o fruto proibido
Era o nunca
Era o irresistível
Era.

O sangue intoxicado
As bocas que se buscam
As mãos
O fogo que consumiu-se
E as estribeiras perdidas
E as roupas espalhadas
A respiração entrecortada

Você entre minhas luxúrias
Eu escorro

Me sussurra
Eu desmancho

À luz da manhã
Me invade
Acordo, enfim.

10.12.10

Sex and the City

Depois do décimo toque do despertador, insistia em continuar dormindo. A cama estava confortável e o sonho era muito mais interessante que a realidade que me esperava. Eu estava num porão enfrentando um monstro que tinha devorado o cachorro que eu tinha acabado de adotar, enquanto tentava desesperadamente achar o carinha por quem eu ando de fogo no rabo. O décimo primeiro toque do despertador me convenceu de que nada podia ser pior do que correr o risco de encontrar o tal carinha coberta de restos mortais do monstro, então resolvi levantar da cama e ir adiantar a porra do artigo que eu precisava entregar naquele dia.

Do banheiro, ouvi o celular tocando e saí correndo, ainda limpando restos de pasta de dentes dos cantos da boca na barra do pijama. Pelo toque, sabia que era das pessoas que estavam na lista dos "a hora que ligar eu atendo". Olhei o visor - era ele. Resisti ao instinto de comentar que tinha sonhado com ele, e tentei acordar mais um pouco. "Hm.", atendi. "Tá pronta pra ir pra facul? Passo aí pra te buscar." "Nem. Acabei de acordar. Paper pra terminar. Só saio de casa depois das onze." Eu não estava nem aí se estava falando estilo telegrama, tava morrendo de sono. "Puxa, então a gente não vai se ver hoje?" "Não sei. Quando eu estiver na facul e livre a gente se vê." "OK, te ligo."

Desliguei o telefone e fui trabalhar. Pouco mais de duas horas depois, me vi na faculdade e já plenamente livre de minhas obrigações. Peguei o celular. Dividida entre ligar ou não ligar, resolvi mandar uma mensagem. "Tô na facul e tô livre." Ele me liga logo na sequência. Saio do prédio, vou pro estacionamento, no caminho me bato com a outra. Ou eu que sou a outra, já me perdi nessa história e, sinceramente, foda-se, tô nem aí. Cheguei no estacionamento, entrei no carro dele, lugar mais calmo. Conversa vai, conversa vem, beijo vai, beijo vem, as mãos também vão e vem. Zíperes se abrem. Me dedico a me fazer de besta, de inocente, de tímida, porque não quero ser julgada. E é aí que me cai a ficha de que nenhum de nós dois tem moral pra julgar o outro, e me jogo. De corpo, alma, mãos e boca.

Acho meio sexy um homem gemendo por minha causa. Especialmente se eu estiver fazendo algo no qual eu particularmente não me acho muito talentosa. Resolvi caprichar, e, na empolgação, nem prestei muita atenção nos detalhes externos. Ele gemia, gemia forte, e puxava meus cabelos. Eu já não sabia mais de onde tirar forças pra continuar, mal conseguia respirar, mas foi só ele anunciar, entre gemidos, que estava prestes a, e eu tirei energia sabe deus de onde pra ir até o final. Nunca tinha feito um homem gozar só com a boca.

Enquanto fechava o zíper da bermuda, ele olhou pra mim ainda trêmulo e fez graça, fingindo levantar uma plaquinha e dizendo que olha, nota 10. Dei risada. Ele pediu minha avaliação da performance dele, e eu achei o cúmulo. Me recusei a entrar no mérito da questão da aparência e tamanho do pau dele, minha mãe me ensinou a ser uma dama. Mesmo logo depois de chupar o pau de alguém num carro em pleno meio-dia na frente da faculdade. Depois de um pouco pressionada, falei o que achava. Ele ficou inseguro. Disse que confiava no talento dele, e que, caso ele não correspondesse, era bom que ele fosse bom de língua. Me chamou de safada, e eu só consegui rir. Fui de mocinha tímida a imprestável - à imprestavel que sou e nunca neguei ser - em pouco mais de meia hora. Voltamos para o local pré-escapada e eu não sabia se ria ou ficava vermelha.

Fugi e ele me ligou. Não precisava ter fugido, te ligo mais tarde, beijo. Não ligou. Foda-se. Tá na hora de começar a tirar isso do sistema. Sento no PC, abro o bloco de notas. Começo a digitar.

"Depois do décimo toque do despertador..."