6.8.10

Última viagem - parte 2

Querem beber o que hoje? Ah, eu escolho? Vamos de vodka, então. Vodka é bebida de russo comunista malvado. Vamos ser russos comunistas malvados. Vamos, deixem de preguiça, movam suas bundas secas e acomodadas e vamos no mercado. Ah, ninguém quer ir? Dá o dinheiro que eu vou sozinha então. Tá frio, porra.

- Eu vou com você. Não posso deixar uma dama andar sozinha por aí a essa hora.

Olhei nos olhos dele e ele deu um sorriso. Pra todo mundo, aquilo deve ter parecido a finalização amistosa de uma piada cavalheiresca. A mim, me pareceu sentir uma pontada de malícia em seus olhos. Ontem à noite, no terraço... Aquilo não foi um sonho. Ainda que parecesse bom demais pra ser verdade.

Coletamos o dinheiro da vaquinha etílica e saímos para a fria noite de inverno curitibana, acendendo nossos cigarros tão logo chegamos à calçada. Não era a primeira vez que nosso vício em comum nos colocava a sós, mas era a primeira vez que nós dois estávamos abertamente satisfeitos com isso. Nos demos as mãos e fomos caminhando em direção ao mercado mais próximo, sem medo de sermos vistos.



A ideia de que estávamos fazendo algo de muito errado passou de leve na minha cabeça enquanto eu procurava uma posição mais confortável para me apoiar no poço de pedra. Seus braços me enlaçavam a cintura, nossos corpos moviam-se juntos e o pensamento foi embora junto com a brisa da noite. Nem nos ocorreu o perigo de dois jovens recém-adultos serem presos por fazer esse tipo de coisa em um terreno baldio, até que ouvimos a sirene de um carro de polícia passando perto. Arrumamos nossas roupas amassadas e corremos para o mercado. Comecei a me perguntar se notariam a nossa demora.



Duas horas depois, entramos no apartamento com uma garrafa de vodka e toda a cara de quem tem culpa no cartório possível. Senti no meu sangue que de hoje esse namoro não passava. E ainda haveria a pausa pro cigarro de mais tarde... Comecei a tremer por antecipação.

19.7.10

A última viagem

Desculpas esfarrapadas. Nada mais. Eu sabia que o irritaria, mas fui mesmo assim, porque a necessidade era mais forte. Fumar. Depois de tanto álcool, eu precisava desesperadamente de uma dose de nicotina direto nos pulmões. Um foi comigo, teoricamente por compartilhar o vício, e dois que não fumavam, teoricamente pra conversar. Claro que não era nada disso.

Nosso suposto vício falou mais alto, e os dois fumantes passivos foram embora, enquanto fumávamos nossos últimos cigarros. Que não existiam. Abrimos minha carteira, abrimos a carteira dele e o vazio nos olhava. Bêbados, rimos e nos abraçamos. Tudo o que não devíamos fazer.

Fora da proteção das escadas, a chuva e o vento congelavam, mas o encontro de nossas peles já nuas parecia queimar. Era a prévia do inferno para onde seríamos enviados por isso. Já não importava. Mandei um belo foda-se, porque minha alma já estava perdida na primeira vez em que nossas mãos se tocaram. E eu queria muito mais do que segurar sua mão. Eu o queria em todo o meu corpo. E meu desejo foi atendido.

Horas mais tarde, me enfiei debaixo das cobertas junto a meu noivo, numa esperança vã de manter dentro de mim o calor do encontro proibido. O frio da culpa tentava me dominar, mas já era tarde. Eu sabia que a única coisa errada que eu estava fazendo era me enganar.

Ele tentou me beijar. Recusei, dizendo que estava com gosto de cigarro na boca. Mas também, você fumou uma carteira inteira lá em cima! Foram três horas! Grunhi qualquer coisa em resposta e virei pro lado, fingindo não vê-lo ali. Eu mal podia esperar pelo rendez-vous do dia seguinte.

15.5.10

Pós-Cognição

Deitei na cama ansiando pelo abraço do mais promíscuo de meus amantes noturnos, mas ele relutava em me envolver. Disse-me que havia muito que conversarmos, e que a conversa seria difícil. Insisti, implorei, me revirei na cama amarrotando os lençóis, e, depois de muita luta, ele me aceitou, e, mais que me dizer, me mostrou. Eis aí o que vi.

O amor é um negócio complicado. A gente quer estar junto, se desespera, sofre, e no final... tudo é vazio, tudo é solidão. Almoçamos juntas porque eu insisti, mas eu não esperava pelo terceiro elemento na equação. E aí veio o choque. A raiva. A frustração. Me senti enganada e, sim, traída. Mais que como amante, como amiga. E o chá. Gelado que era, foi no colo. Se estivesse quente, teria sido contra o rosto, sem pudores ou arrependimentos.

Acordei arrependida de ter aceitado o abraço de Morfeu. Mandei uma mensagem, buscando um conforto, uma negação, mas só obtive uma certeza. Morfeu nunca me traiu.

15.4.10

Corretivo

Ela abriu os braços e se jogou do alto da ponte gigantesca que eram seus medos. Chegando lá embaixo, viu que ainda estava viva e se arrependeu das tantas vezes que morrera de coração aberto por ter medo de sofrer ao enfrentar o que a angustiava.

Olhou os cacos do vidro do espelho no chão sujo e descobriu duas coisas importantíssimas: que o espelho estava embaçado demais por suas lágrimas para que pudesse realmente se enxergar, e que seu sangue era tão vermelho quanto o de qualquer um.

Recolheu as páginas rasgadas dos cadernos e viu que não adiantara nada. Rasgara as folhas, quebrara os espelhos, saltara e se espatifara, mas seu passado ainda estava ali, a espreitar, a lembrá-la de que uma simples lufada de coragem nunca seria suficiente para apagar seus erros. Nada nunca seria suficiente para apagar seus erros, porque eles já foram cometidos e, o que ela estava pensando, coragem não é liquid paper, porra.

Olhou para o céu em busca de um Deus que sempre tentaram convencer-lhe de que existia, mas ele não lhe deu respostas nem soluções. O que não tem remédio, remediado está.

Inspirou fundo, pegou um caco de vidro e se matou.

Enquanto sentia sua vida indo embora, se deu conta de que a lembrança dos seus erros ia se esvaindo pouco a pouco e sorriu, feliz.

1.12.09

Inocência

Do pai recebera a liberdade;
Da natureza, o chamado implacável.
Mulher selvagem, da caça e das feras
Detentora da pureza intocada
Com que dançava em meio às ninfas,
em luz prateada.

Um dia, foi conquistada
Pelo olhar de um caçador
Filho das águas e inimigo do irmão
Que, ardiloso, resolveu o impasse:
Apelando à vaidade da irmã,
desafiou-a que o flechasse.

Quando apercebeu-se do feito
Diana afogou-se em dor
Fez do amado um punhado de estrelas
E nisso, seu cão o acompanhou;
E a deusa, coração em pedaços,
nunca mais se apaixonou.