Selvagem na caixa de vidro

Não foi sempre que fui assim. Nem sempre fui este meio-ser de cores emprestadas e olhos baços de quem já viu o mundo de todos os ângulos e a quem nada mais choca ou surpreende. Nem sempre encarei quedas e fraturas expostas e feridas sangue podridão com a naturalidade de quem mergulha numa piscina num dia de sol escaldante. Nem sempre, eu. Esse eu é coisa nova, fruto da modernidade, vítima da sociedade, produto do meio, sei lá, chamem como quiserem, mas essa porra dessa criatura que saltita e grita e brinca e ostenta uma felicidade quase real não sou eu, nunca fui, e nem me perguntem porque passei a ser. É um daqueles mistérios que nem Freud, nem a bíblia e muito menos Walter Mercado explicam.

Eu sei lá, na real. Eu olho pra trás e parece que não é comigo. Não era eu. É uma coisa engraçada, essa dualidade toda. Eu sei que essa eu que escreve não é a mesma que escrevia há um ano. Há dois anos, sei lá. Bota mais tempo nisso aí. Faz tempo que eu não sou eu. Tenho sérios problemas identitários. Eu olho pras partes mais tensas do meu passado e... com quem foi mesmo que isso aconteceu? Parece que tem uma parede entre eu e a antiga eu. Uma parede de vidro, daqueles vidros blindados e foscos de um lado, tipo de interrogatório, e eu sou da lei e tô vendo tudinho acontecendo mas não posso me meter e posso inclusive fingir que nem é comigo.

Só que eu cansei de fingir que nem é comigo, porque eu cansei de viver como se estivesse constantemente sob efeito de anestesia. Cansei de observar tudo com a fria indiferença de quem se sabe distanciado. Quero o ardor da experiência, quero a dor da solidão, quero a pontada amarga da flecha dilacerando novamente minha carne e vertendo em sangue as memórias da minha alma.

Sem o pecado, sem a paixão, sem o oculto: sem infelicidade. E assim sigo clamando para mim meu direito inalienável de ser infeliz. Só assim vale a pena viver.

Random rant

Eu já quis ser muita coisa na minha vida.

Quando eu era bem, bem guria, eu queria ser cantora. Meu sonho era cantar pras multidões e ver pessoas cantando junto comigo músicas criadas por mim. Filha de família pé-no-chão que sou, esse sonho logo foi devidamente arrancado, amassado e repudiado.

Mais tarde, pensei em ser médica. Cuidar das pessoas parecia uma boa ideia, sempre gostei de ver todo mundo bem. O problema é que passo mal só de ver sangue, e não gosto nem de cortar carne crua. A ideia foi pra gaveta de sonhos abandonados e nunca mais voltou.

Outros sonhos e planos e vontades passaram pela minha vida. Jornalista, psicóloga, escritora (bom, nesse continuo insistindo), advogada... Até que enfim eu simplesmente aceitei que não dá pra fugir da vocação nem das responsabilidades, e fui ser professora.

Enfim, adulta. Os planos para o futuro mudaram. Agora, que eu teoricamente já tinha me tornado o que eu queria ser, outras prioridades surgiram: eu queria ser uma boa profissional, uma boa educadora, uma boa estudante na universidade, uma boa dona de casa no meu próprio lar. Uma boa namorada pra alguém. Uma amiga de confiança para quem se dispusesse a ficar por perto. Tudo isso (exceto talvez a parte do dona de casa) tenho conseguido cumprir com algum sucesso.

Mas algo que eu nunca pretendi ser na vida foi exemplo pra alguém.

Até porque, desde meus 14 anos, sempre disse que se eu poderia servir de exemplo pra algo, é de alguém que as pessoas nunca deveriam desejar ser.

Sei que tenho muitas qualidades, mas, a meu ver, nenhuma delas me qualifica pra servir de exemplo pro que quer que fosse.

E eis que me chega esse... não vou chamá-lo de menino porque isso poderia soar a menosprezo. Essa pessoa, essa pessoa linda, que entrou na minha vida de sopetão e, pouco a pouco, vai conquistando um espaço que eu não sabia que ainda existia dentro de mim, chega e me acusa de ser um exemplo pro que ele pretende ser na vida escolar/acadêmica.

Claro, já estou habituada a influenciar mentes jovens, dando aula como dou a crianças e pré-adolescentes. Como professora, faz parte das atribuições formar opiniões e cidadãos. O que eu não esperava era ouvir uma dessas de uma pessoa tão querida e tão profundamente entranhada na minha vida estritamente pessoal.

Como me sinto? Olha, nem me perguntem. É assustador como A PORRA você saber que gerou uma impressão tão forte na vida de alguém, especialmente sem ter intenção de tal coisa. Mas é bom. É bom saber que, por mais errada que eu seja, ainda posso fazer o bem de alguma forma para alguém (se é que isso é fazer o bem).

E é bom saber que essa pessoa gosta de mim a esse ponto também.

A essas alturas, nem sei mais o que era que eu pretendia com esse texto. Acho que só queria compartilhar com vocês minha felicidade. E é isso.

Por todos os caminhos

E aí eu olho ao meu redor e vejo tanta, mas tanta gente escrevendo sobre problemas e esperanças e lutas e afincos e me identifico com cada palavra, cada vírgula. É um sentimento esquisito esse de se sentir capaz de entender todas as dores do mundo. As músicas dos outros cantam meus sofrimentos; os textos e filmes alheios contam pra mim direitinho tudo o que espero do meu futuro, tudo o que eu já sei que vai acontecer, e que sei porque sinto nos meus ossos que estou fadada a quebrar a cara e continuar tentando incessantemente até que um dia dê certo. Não gosto disso. Não de saber até onde posso ir, essa parte é tranquila. Mas não gosto de ver minha história escrita em palavras alheias, nas paredes avulsas, tatuada em outras peles. Preciso parar de viver a vida que todo mundo já viveu e encontrar meu próprio caminho. Cada dia mais me convenço de que tá passando da hora de jogar a mochila nas costas de novo e, mais uma vez, seguir pela estrada menos viajada. Até o dia em que chegar a um precipício.

Gatas extraordinárias

Eu tava lá, de boa com o brother, quando de repente surgiu uma língua a mais na jogada. Não que eu me importasse - não faço muito o tipo ciumenta, todo mundo sabe disso. Só fiquei meio curiosa com o "de onde essa gata saiu", porque olha, a morena era linda demais, e aparentemente me queria tanto quanto queria o cara.

Depois de algumas idas, vindas, idas e vindas, finalmente acalmamos nossos corpos e corações e pude conversar um pouco com a morena. Ela me explicou que era casada com o cara há não sei quantos anos, e que ambos eram meio chegados nessas liberalidades de troca de casais, menáge, o escambau. Achei mais do que digno, e fiz questão de deixar isso bem claro.

Aí ela me disse que na verdade eles dois se juntaram porque tinham um detalhe tenso em comum. Por meio segundo me assustei, mas lembrei que tinha visto a mulher de tudo que era ângulo e não vi nem sinal de bônus, então consegui recuperar a calma o suficiente pra perguntar o que era.

Nessa hora ela virou um gato.

Juro pra vocês, ela se transformou num gato listrado cinzento minúsculo assim, sem mais nem porquê, bem na minha frente.

E foi essa a hora que o marido dela, que tinha ido tomar um bom banho, escolheu voltar pro quarto. Quando viu que o segredo tinha sido revelado, ficou puto e saiu de novo. Voltou com uma arma na mão.

- Da qual foi, muito doido? - perguntei pro cara - Vai pipocar a brother só porque ela me contou o segredo?

- Nós tinhamos um pacto. No momento em que alguém descobrisse sobre nossa real identidade, nós dois precisaríamos morrer.

- Mas olha, nem fudendo.

Peguei a gata (agora literalmente uma gata), enfiei debaixo do braço e abri o gás. Não sei por quanto tempo corri ou quais caminhos tomei, mas sei que, quando dei por mim, estava no antigo home office do meu pai em Copacabana, revirando as prateleiras atrás de uma arma e de alguns livros, enquanto explicava pra ele que "eu não tô maluca, tô fazendo isso pra salvar uma mulher por quem me apaixonei".

Quando ele finalmente se convenceu de que a porra ficou séria, tirou um .38 de dentro da gaveta - eu podia jurar que aquele .38 tinha sido roubado há quase 20 anos atrás - e uma pilha de livros clássicos do armário - Cervantes, Dumas, Machado de Assis - e enfiou tudo numa mala pra mim. Me disse que onde eu tivesse conhecimento, não estaria indefesa. Mas que, no caso de eu emprestar os livros pra alguém e não me devolverem, uma arma quebrava o galho também. Fez um cafuné na gata - ainda em sua forma Felix catus, ronronando como se não houvesse amanhã - e saiu, me deixando sozinha no apartamento com a sacola de viagem aberta em cima da mesa.

A gata se enroscou nas minhas pernas, sempre ronronando. Eu sabia o que ela queria, ou pelo menos achava.

- É ração que você quer?

Ela miou, inconformada.

- Olha, se seu plano for me seduzir pra me levar pra cama, deixa eu te deixar um negócio bem claro: por mais que eu tenha te comido em forma humana, zoofilia nunca foi minha praia. Ou você se transforma ou vai gastar esse cio se esfregando na parede.

Ela mordeu meu pé, irritada, com força. E aí eu acordei.

Mais um pesadelo pra coleção

Era uma festa muito, muito esquisita. Cheguei lá dirigindo com um pouco de dificuldade, porque estava escuro pra caramba e a parada era literalmente no meio do mato. Cau, Spike e Dude ficavam rindo da minha cara o tempo todo por eu demonstrar tão pouca intimidade com o volante.

De qualquer forma e com um pouco de sorte, achei a porra do lugar. Era tipo uma rave, só que não era bem uma rave. Música eletrônica vinha de algum lugar indefinido, pois não havia uma caixa de som à vista. Era tipo uma quadra de terra batida, numa clareira entre milhares de árvores. Logo avistei Dattoli e Lucas Sena, entre outros rostos conhecidos de outras festas estranhas com gente esquisita, e fui falar com eles atrás de meu brinco de golfinho.

Não sei quanto tempo se passou ou o que exatamente consumi, mas quando dei por mim a festa tinha acabado. Vagueei pra fora da clareira até o lugar onde as pessoas estavam reunindo suas coisas e dei de cara com meus três companheiros. Era noite fechada e só tínhamos sobrado nós. Eles estavam preocupados porque eu sumi. Eu ainda não estava muito bem, parecia estar me recuperando de uma viagem muito tensa de ácido, então sugeri que parte deles fosse levando nossas tralhas pro carro, estacionado um pouco mais distante, enquanto alguém me fazia companhia. Eu precisava desesperadamente ir ao banheiro, e não tinha coragem de ficar por ali sozinha. Só que aparentemente ninguém entendia o que eu estava falando, porque Spike, o último a se dirigir ao carro, saiu de perto, carregando um teclado de computador e uma mala rosa.

O banheiro era um casebre. Literalmente um casebre. O lugar estava caindo aos pedaços, madeira apodrecendo, o chão ensopado de água e sabe deus que outros fluidos mais. O cheiro era insuportável, o único reservado com a porta aberta tinha a privada transbordando, e eu me senti numa cena de Trainspotting. Foda-se, preciso mijar, suspendi a saia, arriei a calcinha e tentei me equilibrar precariamente, sem encostar em absolutamente parte nenhum daquele pardieiro.

Nessa hora, vi sangue escorrendo e pingando na minha calcinha. "Puta que pariu", pensei, "que hora filha da puta pra ficar menstruada".

Só que era muito sangue.

Sangue demais.

Quando pingou uma gota na minha testa eu percebi que aquela porra não era minha.

Olhei para a parede na qual eu tentava arduamente não tocar. O sangue escorria por ela, pingava do teto, aumentava a umidade e o cheiro do lugar. Chovia sangue em mim, nas minhas roupas, em tudo. Tentei gritar pra chamar os meninos, mas sabia que eles estariam longe do alcance da minha voz.

Olhei pro espaço entre o chão e a divisória, e finalmente a vi. Era um rosto de velha, bem velha, bem decrépita, pálida e desgrenhada. A boca era um buraco negro cercado por esparsas estalactites e estalagmites pontiagudas, vorazes, podres. O sangue escorria por seu queixo, misturado a saliva e alguma outra coisa viscosa que eu não conseguia e nem realmente queria identificar. Entrei em pânico.

O rosto se aproximava e eu não conseguia levantar dali, pois ainda não tinha terminado meu serviço e o medo deixava minha bexiga frouxa e meus joelhos trêmulos. Era só um rosto, sem corpo, sem sentido, incorpóreo. E o rosto flutuou e alcançou a altura do meu.

Tentei mais uma vez gritar, implorar aos meninos que voltassem, que não me deixassem só, que me salvassem, mas a voz não saía de jeito nenhum. Do rosto fantasmagórico, uma língua pontuda, escarlate e fétida tentava alcançar meu rosto. Eu já estava coberta de sangue e sufocava com o grito que se recusava a sair. Não conseguia me mover. Sentia meu corpo se debatendo por dentro, mas, por fora, sequer um movimento. Eu sabia que os meninos estavam só me esperando, a chave do carro continuava comigo e eles não tinham como ir embora sem mim. Me fazer ouvir era a única chance de escapar, mas nem isso eu conseguia.

Acordei suada, agitada, gritando pelos meninos, xingando-os por terem me abandonado, sentindo uma dor lancinante no ponto da minha bochecha onde, molhada por lágrimas e minha própria saliva, eu ainda sentia o toque da língua detestável. No relógio, 3:15 da manhã. Cerca de 4h até o toque do despertador. Narrei minha história e voltei a dormir, rezando a qualquer divindade disposta a me escutar por um resto de noite sem sonhos.

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Gerada numa noite chuvosa de um dia fora do tempo. Às vezes sim, às vezes não, às vezes simplesmente.
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