7.2.16

Uma carta de amor

Não é muito comum eu estar na rua 6h da manhã durante o verão. Na verdade, na medida do possível, prefiro acordar o mais tarde possível ou ir dormir o máximo possível antes do nascer do sol - ou o mínimo possível após. Não gosto de sol, não gosto do calor que ele traz e não gosto de ficar acordada além do necessário.

Mas, às vezes, acontece de eu voltar pra casa mais ou menos quando o sol ganha força no firmamento. E, mais às vezes ainda, coincide com eu voltar pra casa junto com o sol no meio do feriadão de carnaval.

Não sei quantos de vocês sabem, mas a primeira vez que pisei em Salvador foi numa quarta-feira de cinzas, há 11 anos. Voltei pra casa duas semanas depois, e fiquei indo e voltando até enfim decidir que talvez fosse um bom lugar pra tentar fincar raízes, três meses depois. O motivo para fincar raízes já nem mora mais por estas paragens e há muito deixou de ser motivação para ficar, mas ainda estou por aqui.

E hoje, pela primeira vez nesses quase onze anos exatos, passei pelos mesmos lugares (ainda que em sentido contrário) pelos quais passei nesse primeiro momento, mais ou menos no mesmo horário. E me lembrei.

Acho que me apaixonei por Salvador desde a primeira vez que pisei aqui.

Quase que exatamente onze anos atrás, vim de ônibus de Recife para Salvador. Eu não morava exatamente em Recife, e sim em Igarassu - um lugarzinho no meio do nada, com sabor - pelo menos para mim - de pitanga e acerola e cheiro de terra molhada. Eu esperava chegar às 22 horas, mas acabei chegando cinco da manhã. 

Eu ia ficar hospedada em Piatã, e, por algum motivo, meu anfitrião, que não me conhecia pessoalmente e tinha todos os motivos possíveis pra desistir de me esperar (afinal, convenhamos - foram 9 horas de espera e eu não tinha sinal na estrada pra ligar e avisar que ia demorar) aguentou o tempo todo.

Lembro com carinho da voz sonolenta que atendeu o telefone quando desembarquei nessa cidade que eu nem conhecia, ainda sonolento de dormir torto nas cadeiras da rodoviárias, da alegria de ver aquela pessoa ainda esperando por mim, a despeito de qualquer tentativa do bom senso gritar que "ela não veio, vai pra casa que é melhor". Isso foi um ato de fé. Meu então pretendente, posteriormente namorado, namorido e atualmente irmão e um dos melhores amigos que já tive e tenho na vida, ter me esperado por tanto tempo na rodoviária sem sinal de que eu fosse chegar talvez tenha sido um sinal divino de que talvez aqui fosse meu lugar...

Eu nem sabia que lembrava, mas naquela viagem junto ao sol que se erguia, memorizei o jeito que o sol bate em cada edifício da região do Iguatemi e das árvores da orla até Itapuã. Sei disso porque hoje, como naquele dia longínquo em que a menina de 18 anos saía pra explorar um pouco mais do mundo, ouvi os prédios e as poucas palmeiras que ainda restam cantarem.

É uma canção linda - que rima com a história da cidade e é enfeitada com a voz de Yemanjá, que se recusa a calar a despeito de toda a civilização que se constrói em volta de sua casa - mas também triste. Só quem vê Salvador à luz dos primeiros raios da manhã consegue sentir a intensidade da beleza da cidade e, ao mesmo tempo, o quão deixada ao léu esta metrópole, eternamente em (des)construção e reconstrução, se encontra. 

Salvador é a cidade mais linda do mundo. Sinto ciúmes da cidade que me abraçou e acolheu. Não gosto de ouvir ninguém falando mal dela, pois, para mim, é uma amiga, uma parente próxima, talvez até uma mãe-de-leite que acolheu uma pobre órfã quando eu mais precisava de aconchego e equilíbrio. Reclamo de seus defeitos, como se queixa qualquer pessoa que veja alguém querido indo por caminhos que talvez não sejam os melhores, mas não admito que ninguém a culpe. Digo todos os dias que quero abandoná-la, mas - e acho que ela me entende - não passa de caprichos de adolescente, de querer fugir de casa quando as coisas parecem ruins mesmo sabendo que não estão tão ruins assim. Salvador, afinal, se tornou minha casa. 
Explico para as pessoas que não sou daqui, e muitas vezes é difícil acreditar nisso. Eu mesma demoro, por vezes, a acreditar nisso. Me orgulhava de ter coração nômade, de não me fixar em lugar algum, mas, mesmo sem perceber, aqui lancei âncora e defini meu porto seguro. Essa cidade, abandonada como está pelos humanos que se crêem deuses e muitas vezes desprezada pelos seus filhos, conseguiu fisgar meu coração de tal forma que me dói, quase que fisicamente, pensar em abandoná-la.

Eu odeio Salvador. Por tudo que há de errado nesta cidade. Por todas as pessoas que lhe guiam na direção em que ela não mereceria de ir. Por todo o abandono e descaso. Por todas as árvores cortadas, por todas as ruas e instituições sucateadas, por tudo o que poderia ser e não é. Sobretudo, odeio Salvador por não me deixar partir, por sua persistência em me lembrar o quanto e o porquê de me apaixonar por Ela a cada vez que fraquejo e cogito ir embora.

Salvador é minha amante abusiva. E a essas horas da manhã, quando a chuva entra pela janela e me mostra que o sol só deu as caras para me lembrar o quanto preciso dessa cidade, concluo que não será tão logo o momento em que conseguirei me livrar dela.

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