19.3.14

Demônio

E lá se ia o ônibus sacolejante, meio vazio já no final da hora do rush. Eu ia bem pimpona na janelinha, torcendo para que a brisa quase fresca da noite soteropolitana fizesse algum milagre na minha dor de cabeça. Não fez. Continuei sentindo como se meu cérebro estivesse tentando se expandir para além dos débeis limites da minha caixa craniana. Tentei remédio, cochilo, cachaça, enfim; de tudo e mais um pouco, mas nada de nada adiantou. Eu começava a cogitar trepanação como medida paliativa quando o demônio adentrou o coletivo.

Demônio, de acordo com a mitologia cristã, é um anjo que se rebelou contra deus e passou a lutar junto às forças do inferno na eterna batalha entre o bem e o mal. De acordo comigo mesma, é uma criança. Uma criança de colo. Uma criança de colo bem específica, que entrou no ônibus com o pai e, tão logo se aboletaram no banco vazio imediatamente atrás do meu, começou a chorar como se toda a felicidade do mundo tivesse sido sugada para dentro da cabeça do pai, onde insistia em ficar batendo, talvez tentando libertá-la. Olhei pra trás com o olhar mais carregado de ódio que minha cabeça explodindo me permitiu, e a criança sorriu para mim.

Não era um sorriso do tipo bandeira branca.

A criança sorriu para mim o sorriso mais malévolo que já vi uma criança sorrir, e olha que dou aula pra crianças. Sem parar de chorar por um segundo. Inclusive, pareceu chorar com ainda mais intensidade após cruzar o olhar comigo. O pai, desesperado, fazia que jogava a criança pra cima e para os lados e fazia ruídos que a qualquer um pareceriam apenas ruídos aleatórios, mas para quem prestasse atenção soavam estranhamente como se ele rezasse o pai nosso ao contrário. Tive a impressão de ver a cabeça da criança girando em 360 graus, mas a essa altura eu já alucinava de dor e pode ter sido apenas impressão mesmo.

Eu, que não sou cristã, comecei a cogitar pedir ajuda a tudo que é santo e anjo e até mesmo ao diabo pra me livrar daquele destino. O enviado de Cthulhu parecia saber que aquele era o momento mais propício pra levar alguém - no caso, eu - à insanidade apenas com seus berros guturais.

A criança não calou a boca por todo o trajeto da viagem. Ainda estavam no ônibus quando desci.

Ainda estou orando pela alma dos demais passageiros.

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