29.7.13

Pró-vida... de quem?

A imagem da polêmica
De cara já vou pedindo desculpas porque este post vai ser beeeem longo.

Hoje mais cedo rolou uma pequena discussão no grupo da UFBA sobre aborto.

Claro que uma discussão sobre um tema desse naipe tinha tudo para gerar controvérsia, especialmente num grupo tão plural quanto o conjunto de estudantes de uma universidade pública. É importante deixar claro, aliás, que a intenção deste post não é desmerecer a opinião de ninguém, mas organizar meus dois centavos de ideia a respeito do tema de forma mais estruturada que meus comentários quilométricos no grupo e no post em si.

Digo isso porque alguns posicionamentos radicalmente contra a legalização do aborto - e alguns dos argumentos que foram utilizados para se opor aos contra - me chamaram a atenção. Não vou reproduzi-los aqui ipsis litteris, pois são muitos comentários a serem printados, mas tentarei ao máximo trabalhar em cima da interpretação que deles tirei.

Um desses argumentos foi o de que só engravida quem quer e que a sociedade não é obrigada a pagar pelo desleixo de alguns. Em parte, concordo que, num mundo onde existe internet, só quem não procura informação sobre métodos contraceptivos não sabe o suficiente sobre eles para se prevenir. O problema é: quem procura? Vivemos em um país que é laico apenas na teoria - na prática, conceitos e preceitos morais de ordem religiosa, especialmente cristã, predominam em nossa sociedade. Desta forma, pais tendem a seguir os passos de seus pais e manter o esclarecimento sobre questões sexuais o mínimo possível. Afinal, quanto menos ensinamos a nossos filhos sobre sexo sem fins reprodutivos, menores as chances de eles criarem curiosidade sobre isso e fazerem suas experiências por aí, não é mesmo? Além do mais, métodos contraceptivos são coisa de gente que faz sexo pra se divertir e isso é errado, e, por ser errado, nossas crianças nunca o farão, certo? ...bom. Sabemos que não.

Além disso, essa moral religiosa conta com uma forte aliada: a culpa. Aqueles de nós que somos educados sob uma ótica religiosa somos ensinados que é errado, que é pecado, que deus castiga; e assim, sentimos vergonha de buscarmos informação e proteção, o que leva à tão problemática gravidez. Claro que o indivíduo tem livre arbítrio para decidir ou não por "se cuidar" - mas é bastante difícil romper com ideais que nos foram martelados na cabeça desde que nos entendemos por gente. De forma que nem sempre a gravidez é uma escolha, e sim uma falta desta.

Outro argumento defendido foi o de que procedimentos de laqueadura/vasectomia são muito menos invasivos do que um aborto, e com muito menos riscos para a saúde dos envolvidos. De fato. Sou completamente à favor da esterilização voluntária daqueles que têm certeza de que não querem gerar prole. E é aí que entra em jogo a questão do machismo. Muito é dito que as feministas exageram, que o machismo presente na sociedade não é tão forte assim, que não estamos mais na década de 60 e ninguém mais precisa queimar sutiã. No entanto, o procedimento de vasectomia é extremamente simples e não requer muita burocracia - no caso de clínicas particulares/que atendam por planos de saúde, o desejo do paciente não é muito questionado. Você é homem e solteiro e não quer ter filhos, tem certeza disso? Tem? Ok. Vamos lá.

Experimente ser uma mulher que tem certeza absoluta de que jamais quer ter filhos. Uma mulher solteira, de 24 anos. E vá lá tentar fazer sua laqueadura numa clínica particular. Boa sorte. A legislação no Brasil impede que mulheres menores de 25 anos ou que tenham menos que dois filhos realizem o procedimento, mesmo que em clínicas particulares. Além disso, é obrigatório um período de 60 dias desde a requisição da cirurgia, durante o qual a candidata deve passar por um programa de educação sobre planejamento familiar, preferencialmente com seu cônjuge e... peraí, cônjuge? Certo. Vou lá arrumar um Senhor pra me acompanhar e autorizar. Liberdade de escolha para quê, não é mesmo?

Outro argumento que foi utilizado foi o de que toda vida deve ser respeitada e protegida. Esse é meu argumento preferido, pois ele traz um conceito preocupante: que a vida de um feto é mais importante do que a vida de uma mulher. É sabido que abortos são realizados independente de sua ilegalidade - quem tem dinheiro, em clínicas caríssimas e que prezam pela discrição. Quem não tem, sempre conhece alguém que conhece alguma "fazedora de anjo", dessas que realizam o trabalho sujo com o que tem a mão, nas condições que tiverem - e geralmente o que têm à mão não é muito mais preciso que um cabide de arame e as condições não muito mais higiênicas que as de um banheiro de boteco. Acho que quem realmente tomou a decisão de abortar e se submete a uma situação dessas não o faz porque gosta, e sim porque não enxergou outra saída.

Legalizar o aborto é garantir que essas mulheres, que se colocam em situações de risco num momento de desespero, sobrevivam. Ser contra o aborto por se colocar à favor da vida é ilógico, irracional e sem um pingo de empatia. É priorizar a vida de um punhado de células acima da vida de um ser humano perfeitamente funcional e produtivo da sociedade. É doar mais afeto e respeito à uma vida que, propriamente, ainda não existe de fato, do que à vida de um indivíduo que tem laços afetivos concretos, e, caso leve-se em conta as estatísticas que geraram toda a discussão, tem uma família para cuidar. É o caso mais literal de se trocar o certo pelo duvidoso que já vi em toda a minha vida.

Ainda vi argumentos como "não quero que o dinheiro dos impostos que eu pago banque o aborto de umas e outras", "vão usar o aborto como método contraceptivo", "nem vítima de estupro devia abortar porque o Estado já oferece suporte a elas", entre outros. Não vou endereçar estes argumentos aqui, pois os julgo tão pequeno, egoístas e/ou carentes de empatia que simplesmente não quero mais lembrar que realmente existe gente que pensa dessa forma.

Por fim, gostaria de lembrar a todos que uma legalização não torna nada obrigatório. Aborto legal não é apologia à vida sexual desregrada. Ninguém é obrigado a abortar e, sobretudo, a higienização e humanização do aborto não o torna uma experiência menos traumática ou invasiva. Não é por deixar de ser crime que todo mundo vai começar a fazer sem critério - é uma maneira de garantir que essas mulheres que tomam uma decisão drástica como esta sobrevivam para contar a história.

Em tempo: não sei se seria capaz de deliberadamente passar por um aborto em algum momento da minha vida. Mas dou todo o apoio àquelas que optarem por isso.


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