5.4.13

Dia Z

Quem tem muito pouco tempo para si sabe muito bem que existem apenas três lugares realmente funcionais para se ler um bom livro, independente do dia estar frio ou não e de você ser o Djavan ou não. Por ordem de conforto, são eles: a cama, naqueles minutinhos antes de dormir; o vaso sanitário, naqueles minutinhos de privacidade; e o ônibus, naquele espaço de tempo que pode compreender alguns poucos minutos ou várias horas, a depender da situação do trânsito da cidade em que você vive. Como ler na cama invariavelmente faz com que eu pegue no sono sem nem sentir e acabe deixando o livro todo amassado e babado e sem o marcador de página, e ler por muito tempo nas instalações sanitárias causa hemorroidas (pelo menos pelo que minha mãe me dizia), acabo dedicando aqueles momentos intermináveis de sacolejo rodoviário para botar minhas leituras em dia. Dizem que descola a retina, não sei. Nem sabia que ela era colada, nunca lembrei de perguntar a um oftalmologista se descola mesmo ou se dá pra colar de volta com Super Bonder, mas, mesmo que solte e não dê pra colar de volta mesmo, eu não me importo. Já entro no ônibus com o livro na mão e vou adiantando um ou dois capítulos no caminho pra casa ou pro trabalho.

Hoje não foi diferente, e o livro da vez é "World War Z", de Max Brooks, que peguei emprestado do namorado.

Já chegando perto do meu ponto, lamentei ter que interromper a leitura. Estava numa parte em que alguém contava já se julgar seguro no ponto em que se encontrava, quando de repente um daqueles zumbis sem pernas começa a se arrastar na direção da pessoa pelas costas e... Ouvi um gemido.

Foi aí, inclusive, que levantei os olhos, vi que faltavam apenas três pontos para o meu e concluí que era um bom momento para fechar o livro.

Guardei o mesmo na mochila com todo o cuidado - afinal, não era meu - e foi aí que ouvi o segundo gemido, vindo nitidamente de trás de mim. Cogitei que alguém estivesse talvez fazendo sexo dentro do ônibus, mas logo descartei a ideia. Não era um gemido sexual. Não era sequer um gemido de dor. É o tipo de gemido que a gente faz quando acabou de sair do dentista e ainda tá com a boca torta e anestesiada parecendo o Stallone.

Com o canto do olho, notei alguma movimentação mais ou menos à altura dos bancos. Olhei assustada, e vi que era mesmo uma cabeça. Desci mais os olhos, e dei de cara com um corpo que se arrastava pelo chão do ônibus. Era daí que vinham os gemidos.

Olhei ao redor e constatei que alguns riam da cena, outros olhavam com nojo, alguns ignoravam... Será possível que só eu enxergava o perigo? Seu motorista, pare esse ônibus agora! Cadê meu taco de baseball?
Alguém tem um pé de cabra?

Na falta de arma melhor, me resignei a atacar o zed com minha bolsa mesmo, ainda que isso fosse sinônimo de sacrificar meu querido notebook. Afinal, mais vale ficar sem computador do que ficar sem vida, ou ainda, com uma não-vida, morta-viva, deixa eu parar que já está virando poesia simbolista, certo?

Agarrei firme minha bolsa pelas laterais e me preparei para atacar. E nesse momento o zumbi levantou. Digo, zumbi não. Mendigo. O mendigo levantou, segurou com força na barra do ônibus, soltou mais um gemido profundo e rouco, que eu percebi agora ser um bocejo. Passou alguns segundos dançando no corredor, parecendo indeciso entre o banco vazio à esquerda dele ou seguir pelo corredor. Decidiu sentar.

Aproveitei a brecha para correr pra frente do ônibus. Vai que numa dessas ele se jogava em cima de mim e me mordia, né?

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