22.5.12

Os primeiros versos para o último amor


Lágrimas de chumbo castigam o asfalto lá fora,
e é tudo cinza; cinza-concreto, cinza-tempestade,
cinzas do calor que a tudo consumiu até que só restaram vestígios,
e faz frio.
Faz um frio miserável
(ainda que apenas pros padrões locais)
e meus ossos congelam;
meus ossos e todos os líquidos do meu corpo,
tudo viscoso, tudo pétreo, tudo imóvel.
Me sinto pegajosa, entupida, paralisada, sei lá.
Me sinto fria.

Me sinto fria, e solitária.
Essa cama minúscula e dura, assim, tão de repente,
parece grande demais para conter apenas os meus sonhos.
Falta uma peça nesse quebra-cabeças,
e é como se eu tivesse esquecido como dormir
sem seu corpo encaixado no meu
ou sua respiração bagunçado o ritmo da minha.
Falta sua risada barulhenta ecoando pelas paredes amareladas,
faltam seus cabelos revoltos espalhados pelo meu travesseiro.

Não sei mais, e nem sei se quero reaprender,
a dormir sem brigar pelo lençol
ou sem entrelaçar pernas e braços,
provocações inocentes sem pudor algum.
Uma vontade absurda e irrefreável
de acordar pra vê-lo sorrir
ou zelar por seu sono até que o meu retorne.

As gotas pesadas tamborilando na janela
e eu aqui embrulhada nesse cobertor surrado
(mero sucedâneo para suprir sua ausência)
brincando de contar os dias, horas, minutos,
segundos, até,
para a próxima noite em seus braços.

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