12.1.12

Livre arbítrio?

Quando eu fiz 17 anos, fui morar em Pernambuco com meu pai. Por nenhum de nós ser lá muito religioso (na realidade, nenhum de nós acredita em Deus. Pelo menos, não o cristão), e por questões de proximidade e economia, fui matriculada numa escola teoricamente laica a cerca de 15km de casa - sim, era a escola mais próxima. Fiquei bastante aliviada, porque a outra opção era uma escola católica, e eu me recusava a, em pleno terceiro ano, ter que perder tempo estudando religião.

No primeiro dia de aula, quando vi o crucifixo pendurado na parte de dentro do corredor das salas de aula, achei que tinha entrado na escola errada.

Do alto de meus 17 anos, eu era muito metida a gótica. Um ankh gigantesco pendurado no pescoço, sobretudo preto sem mangas e coturnos completavam meu uniforme escolar, chamando ainda mais atenção que a pele muito branca e o cabelo meio vermelho e meio loiro. Enquanto todos os alunos olhavam pra cara da novata com jeitão esquisito como se tivessem visto uma aparição, a novata em questão olhava com cara de "putaquepariucêssópodemestardesacanagem" pro símbolo religioso na parede. Ali eu já senti que ia dar merda em algum momento, mas não comentei nada ao chegar em casa porque minha reputação de aluna inútil já me precedi desde que eu repeti de ano por falta.

Os meses foram se passando, e cheguei a pensar que escaparia ilesa ao meu último ano de escola, mesmo sendo a novata que veio da cidade grande. Até o dia em que cheguei em casa e meu pai me esperava com cara de poucos amigos.

- Que foi, paizinho?
- Me disseram que você andou espalhando pros seus colegas de escola que sua mãe morreu de overdose de cocaína. Por que você faz tanta questão de aparecer? Que espécie de reputação você está tentando construir?
- Hein? Quando me perguntaram, eu disse que ela infartou. Quem foi que te disse um absurdo desses?
- A diretora. E eu particularmente me sinto mais propenso a acreditar nela do que em você. Vai ficar uma semana sem internet.

Me emputeci, obviamente, e, no dia seguinte, ao chegar na escola, procurei a diretora, que me disse que foi a professora de inglês que tinha espalhado tal patacoada. Fiquei quieta. A desgraçada da mulher, parecendo uma sapa gorda e verruguenta tanto em questões anfíbias quanto de orientação sexual, me odiava desde que percebeu que meu inglês era melhor que o dela. Dei de ombros e segui minha vidinha.

Até o dia em que a tal sapa resolveu implementar na escola - com grande concordância entre a maioria dos professores - a obrigatoriedade de se rezar um pai nosso em círculo de mãos dadas dentro da sala, todos os dias antes da primeira aula do dia começar. Deixa eu lembrar vocês aqui: não-cristã. Me senti afrontada e me recusei a participar da festividade.

No primeiro dia, a professora de biologia, quando expliquei a situação, deixou que eu ficasse em pé do lado de fora da sala enquanto oravam.

No segundo dia, o professor de geografia pediu que eu só ficasse de mãos dadas com os coleguinhas, mas sem rezar, só pra dar apoio moral, mas, que se eu me sentisse incomodada demais, poderia sair no meio. Fiquei só pela gentileza.

No terceiro dia, a primeira aula era da sapa.

Levantei-me junto com todos os outros e fui, emburrada, em direção à porta.

- Onde você pensa que vai, Dianna?
- Lá pra fora.
- Tem que rezar.
- Não sou cristã. Conheço meu direito a liberdade religiosa. Isso não faz parte da minha fé, seria falta de respeito comigo e com vocês.
- Se não rezar, vai ter que ficar sentada no meio do círculo. É bom que a gente reza pela sua alma também e tenta tirar essa ideias do demônio da sua cabeça.

Sem muita escolha, voltei pro meu lugar. Foi, possivelmente, o momento mais constrangedor da minha vida até então. Pela fervorosidade com a qual alguns colegas rezavam olhando pra mim, fiquei com a impressão de que muitos deles compartilhavam da opinião da professora. Eu queria sair dali correndo, me esconder, nunca mais voltar pra aula, mas ali eu decidi que não ia dar esse gostinho a eles. Aguentei a humilhação quietinha, caladinha, até o fim. No dia seguinte, a primeira aula seria com a mesma professora, e eu teria tempo pra pensar no que fazer.

Quando chegou a quinta-feira e eu vi a abençoada se aproximando, não tive dúvidas. Parei na porta da sala e lá fiquei.

- Não vai entrar?
- Depende. Você vai continuar me tratando como se eu fosse o anticristo?
- Não se você tomar vergonha na cara e rezar com a gente.
- Então não entro. Ou além de querer tolher minha liberdade religiosa você também vai aplicar punições físicas?
- Você quer ir pra sala da diretora?
- Depende, lá eu vou ter que ir contra tudo o que acredito e defendo?
- Como é?
- Olha, deixa. Eu sei o caminho.

Pisando duro e com a certeza de que, no mínimo, eu seria suspensa, lá fui eu para a sala da diretora. Os saltos dos coturnos faziam um som seco nas tábuas do chão. Bati na porta sem graça, e Dona Júlia me olhou sem surpresa.

- Deixa eu adivinhar. Pam queria te forçar a rezar e você não quis.
- É, Dona Júlia.
- Por quê?
- Porque não é minha fé. Não é no que acredito. Eu não quero repetir meu discurso, Dona Júlia. A senhora me conhece pouco, mas me conhece um pouco. Sabe que eu não posso concordar com isso.
- Faz o seguinte, então... Vou deixar um aviso na portaria permitindo que você entre com 10 minutos de atraso às quartas e quintas. Assim, você não precisa passar por esse constrangimento. Certo?
- Obrigada. De verdade.
- Vai beber uma água, depois direto pra sala.

Aliviada pela compreensão da diretora, fiz o que ela me pediu. Entrei de volta na sala sob o olhar emputecido da professora e curioso dos alunos, com um sorriso de orelha a orelha estampado na cara. Na hora, não percebi os cochichos na frente da sala enquanto me encaminhava pra minha carteira no fundão.

Na hora do recreio, corri para me juntar às minhas poucas amigas, todas de séries mais baixas, mas uma colega de sala me interceptou no meio do caminho e me disse que queria me mostrar um negócio legal no laboratório de informática. Lá fui eu atrás, me sentindo uma vencedora depois do embate com a professora de mais cedo. O laboratório era no subsolo, tudo escuro. Ao chegar lá, dois meninos barraram a porta com cadeiras. A sala estava na penumbra, só as luzes dos monitores acesas.

- Que merda é essa?
- Desculpa, mas a gente gosta de você e quer te trazer pro lado da luz. Você se incomoda se rezarmos por você?
- Olha, eu agradeço a preocupação, mas acho que luz por luz eu prefiro a lá de fora... Eu sou meio claustrofóbica, sabe?
- Você precisa conhecer a bíblia.

Olhei ao redor, os olhos mais habituados à semi-escuridão. Não sei se era o ambiente tétrico ou a atitude irracional, mas o que vi foi uma meia dúzia de zumbis religiosos me olhando com aquele ar de quem espera salvar uma alma perdida e, com isso, garantir sua entrada no céu. Senti um misto de medo e de emputecimento. Quem aqueles desgraçados achavam que eram? Pra variar, o nervoso todo da situação me fez falar a primeira merda que me veio na cabeça.

- Olha, galera, valeu o interesse, mas, antes de começar a usar as folhas pra apertar baseados, eu li a bíblia toda. Curto muito como ficção, os caras que escreveram eram bastante criativos.
- Você precisa aceitar a palavra de deus. Você está com o demônio no corpo.
- Olha, eu não acredito nem em um nem em outro, mas se você tá dizendo...
- Deixa a gente rezar pela sua alma.
- Tá, olha, foda-se. É o único jeito de vocês me deixarem sair? Então vai, reza aí e pronto. Juro que fico quietinha.

Nessa hora, dois dos meninos, bem maiores que eu, me puxaram e me botaram de joelhos no chão. Uma menina mirradinha de cabelo cacheado botou uma mão em minha cabeça, os outros fizeram um círculo e se deram as mãos. A baixinha começou a falar. Na verdade, nem prestei atenção no que ela falava. Estava muito entretida tentando controlar minha vontade de chorar de raiva pela humilhação, pela impotência, pela ignorância da menina. Ela rezava pedindo a deus pra salvar minha alma, eu rezava pra tudo que é deus pra iluminar as mentes daquelas criaturas, e pela primeira vez na vida achei que o deus deles teria mais sorte do que os meus todos juntos. A sessão de tortura levou quase o intervalo inteiro. Minha barriga rugia de fome, eu ainda estava em jejum e sabia que se desmaiasse ali todo mundo ia dizer que era o tal do demônio saindo de mim.

Tão logo acabaram a palhaçada, saí correndo e me escondi no banheiro pra chorar.

Chegando em casa, depois da aula, contei tudo pro meu pai. Passei uma semana sem aparecer na escola. Quando finalmente voltei, me contaram que meus agressores tinham sido suspensos. Achei pouco.

Achei pouco porque soube depois que os pais fizeram todo um fuzuê na escola porque acharam que os filhos foram punidos injustamente. Achei pouco porque eles ganharam uns dois dias de folga na escola enquanto eu ganhei uma vida inteira de trauma. Achei pouco porque esse preconceito imbecil é fomentado e incentivado dentro de casa, por pessoas que seguem uma religião que teoricamente prega o amor ao próximo. Achei pouco porque, num estado teoricamente laico, pessoas como eles podem professar suas religiões e eu não posso simplesmente optar por me abster de qualquer contato religioso que envolva ferir a liberdade dos outros.

Achei pouco porque, mais do que me humilhar, eles tentaram ferir meu direito inalienável à liberdade de escolha.

Escrevi tudo isso por conta deste artigo aqui.

Agora quero que pensem cautelosamente se é esse o país que vocês querem deixar pros seus descendentes. Porque olha, cada vez que olho uma porra dessas, sinto mais e mais vergonha de ser brasileira.

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