26.11.11

Guilherme

Eu tinha lá meus 16 anos e tava às voltas com problemas típicos de uma adolescente de seus 16 anos. Tá, típicos porra nenhuma, a não ser que seja hora de abandonar a fé na humanidade e achar que todo mundo aos 16 anos é ou foi que nem eu era nessa idade. Deixa eu começar essa bosta de novo.

Eu tinha lá meus 16 anos e tinha acabado de chegar em casa, podre de bêbada e coberta de hematomas de skatista frustrada, às 11 da noite de uma quarta-feira. Pra melhorar o quadro, tinha uma prova de matemática no dia seguinte de tarde para a qual não tinha estudado porra nenhuma e eu já era repetente, se me fudesse de novo meu pai ia metaforicamente comer meu rabo. Entrei em casa, então, pé ante pé – falhando miseravelmente em ser silenciosa, claro – e me enfiei no quarto pra tentar fazer com que aqueles números fizessem algum sentido na minha cabeça entoxicada. Mal tinha tirado os tênis sujos e arrebentados e aberto o livro no colo quando ouvi as batidas na porta.

Minha mãe, com cara de estar tão fora do ar quanto eu, tava só de calcinha e sutiã. Nada de muito incomum, considerando que morávamos só nós duas e ela sempre foi meio adepta do naturismo. O problema é que quando eu cheguei a porta do quarto dela tava fechada, o que me fez pensar na hora que algum dos “amigos” dela da internet estava na área. O cheiro forte de maconha vindo da porta vizinha entreaberta me fez identificar quem era.

- O Guilherme tá aí, né?
- Tá sim, filha. E ele quer falar com você. Perguntou se você queria dar uns pegas.

Olha, eu até que gostava desse cara. Era bem mais novo que minha mãe – apesar de ainda bem mais velho que eu – e curtia uns sons bem loucos. Até era meio gostoso, mas eu olhava pra ele daquele jeito “quando eu crescer quero arrumar um peguete tipo assim”, sabe? Era como se fosse aquele tio-irmão-mais-novo-dos-pais que levam a gente pra putaria escondido, acabam virando amigões e péssima influência, que todo mundo menos eu teve em algum momento da vida. E fumava pra caralho, e me ajudou a convencer minha mãe que eu não estava vivendo uma espécie de Cristiane F. cover só porque estava andando com punks e usando drogas leves. Mas eu nunca tinha fumado com ele antes. Pareceu uma idéia legal.

- Beleza, deixa só eu terminar com esse logaritmo aqui que eu já vou.

Depois de tentar umas três vezes encontrar algum sentido na merda que eu estava fazendo com aqueles números, toquei o foda-se e entrei no quarto escuro. Guilherme me esperava, em pé, encostado na parede do quarto, só de zorba branca e com um novo baseado, ainda virgem, entre os dedos. Acho que o álcool me ajudou a achar aquilo tudo muito normal, ou então o meu senso de normalidade já tava bem fodido àquela altura, e sentei na beira da cama.

- Vai acender essa porra aí ou vai ficar só de enfeite, Gui?
- Porra, Leti, você é tão selvagem quanto tua mãe, sabia? - ele riu da minha cara, e me entregou o beck bonitinho, bem fechadinho, como por muito tempo eu não fui capaz de fechar - Faz as honras.

Peguei meu isqueiro no bolso da calça rasgada e acendi. A erva era bacana, subiu gostoso pra cabeça. Dei uns dois tragos e passei a bola.

- Seguinte, guria. Tem um lance que preciso conversar meio a sério contigo.

Olhei de rabo de olho pra minha mãe, que tinha se deitado do outro lado da cama. Ela não fumava, dizia que nunca teve coragem, mas curtia ficar por perto quando eu fumava em casa porque gostava do cheiro. Acho que na real ela curtia era ficar meio marolada, até fiz algumas piadas com ela sobre isso, mas ela jurava que nunca bateu nada. Dessa vez ela tava quieta. Era uma situação muito, muito esquisita. O clima parecia tenso, ela quieta ali do lado, o namorado dela de cueca, o quarto escuro e a fumaça rodopiando no ar parado de início de primavera. Olhei pro cara, os olhos já meio pesados.

- Falaí, brother.
- Você sabe que eu gosto da tua mãe pra caralho, né?
- Espero que sim, porque você só vive aqui agora. Tava me perguntando quando que vocês iam me pedir pra parar de te chamar de Gui e começar a chamar de, sei lá, padrastinho ou qualquer merda do tipo.
- Gracinha. Mas tipo que eu sempre tive uma espécie de fantasia, tá ligado?
- Tipo de super homem? - ri, meio chapada, da minha própria piada sem graça.
- Não, porra. Fantasia, fantasia. Ah, qual é, Leti, você sabe do que eu tô falando. Tu pode ter essa cara de santa e convencer meia dúzia de pessoas que não te viram mais que duas vezes na vida que tu presta, mas na real não é como se você fosse uma virgenzinha inocente.
- Tá, cara, fantasia. Saquei. E o que é que isso tem a ver comigo?
- Então. A fantasia era que um dia eu ia conhecer uma mamãe enxuta que tivesse uma filhinha gostosa e...
- ...cara, para. Para tudo. Você não vai dizer o que eu acho que vai dizer.
- ...então. Você é bem gostosinha, com esse jeito toda rebelde revoltada porra louca. Podia ser um lance bem bacana. Topa?
- Brother, essa erva é do caralho mesmo. Cê tá alucinando aí. Quantos desses tu já fumou antes de eu chegar mesmo?
- Tô falando sério, porra.

Desacreditei. Não, sério, desacreditei total. Olhei pra trás e minha mãe olhava pro teto, como se não estivesse ali. Filha da puta. Ela sabia qual era a do cara e não se intrometeu. Sei que toda adolescente odeia os pais em algum ponto, faz parte da nossa formação como seres humanos contestar todo tipo de autoridade, mas acho que nunca odiei tanto minha mãe como naquele momento. Olhei de volta pro Gui sem acreditar. Tomei o baseado da mão dele e dei mais umas três puxadas bem longas pra tentar me acalmar. Depois me dei conta de que ficar mais doidona do que eu já tava não ia ajudar muito naquela situação. Apaguei o beck no cinzeiro do meu lado e acendi um cigarro. Pensei em gritar com ele, mas minha cabeça já tava no teto e eu achei que não valia a pena me estressar tanto.

- Cara, é o seguinte. Eu só tenho 16 anos.
- Eu tô ligado. Mas vendo como você bebe, fuma e cai no mundo, ninguém diz.
- Foda-se. Se liga. Eu só tenho 16 anos. Mal sei lidar com sexo, cacete, e olha que já tem um tempinho que eu não sou mais virgem. Você quer que eu lide com a ideia de uma porra de um menage, cacete? Com minha mãe e um cara... Sei lá, bicho, tu é o quê? Vinte anos mais velho que eu? Isso não é, tipo, crime?
- Ninguém precisa saber. E não é crime se for consensual e seus pais não processarem...
- Eu vou saber, cara. Eu vou saber. E se minha mãe tivesse um pingo de juízo na cabeça, ela te denunciava só de você pensar numa porra dessas. Tá achando que é quem, Humbert Humbert? Olha, eu não tenho cabeça nem estômago pra digerir essa merda não. Eu tenho 16 anos, tô bêbada, tô chapada pra caralho, tenho prova de matemática amanhã e não estudei porra nenhuma. Vou voltar pro meu quarto e fingir que você nunca me deu essa ideia errada, beleza?
- Po, Leti, pensa com calma. Se mudar de ideia só falar.
- Calma é o cacete. Não acho que eu vá mudar de ideia, não antes dessa maconha toda transformar meu cérebro em geléia. Tchau, Gui. Boa noite, mãe. Durmam bem. Fodam bem na minha intenção. Sei lá, façam seja lá que porra vocês pretendem fazer depois daqui.

Saí do quarto batendo a porta. Sentei na cama tentando entender o que tinha rolado, mas não caía a ficha de jeito nenhum. Abri o livro, tentei estudar, não deu. Levantei, bati na porta do quarto ao lado. Minha mãe abriu, meio espantada. Tossi, meio sem graça, sem saber o que fazer com as mãos ou pra onde olhar. Guilherme me olhou com os olhos brilhando. Limpei a garganta e consegui encontrar minha voz.

- Olha, seu filho da puta, não mudei de ideia não, mas rola de me dar aquela ponta que sobrou?

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