3.10.11

Dia 03: A Imperatriz

Fazia tempo que eu não via Regina. Até me sentia meio mal por isso, porque sempre fomos muito próximas, mas a correria da vida fez com que simplesmente sumíssemos uma da vida da outra. Por outro lado, desde que nosso relacionamento terminou que as coisas às vezes ficavam meio tensas quando nos encontrávamos pessoalmente, e com o tempo nem pela internet nos procurávamos mais.  Fomos desaparecendo uma da outra, até que se passaram bem alguns anos sem notícias.

Por isso tomei um susto quando recebi uma ligação desesperada do Alex dizendo pra eu ir pro hospital porque ela precisava da minha ajuda. Por mais distantes que estivéssemos, eu nunca negaria ajuda a alguém que já amei tanto, então peguei correndo a bolsa e fui.

Encontrei os dois na porta. Alex parecia fisicamente bem, mas a cara dele estava desesperadora. Mais desesperadora ainda era o quadro como um todo: Regina estava deitada numa maca, a barriga quase explodindo de gravidez. Eu não sabia como reagir àquilo. Parecia uma gata prenha de uma dúzia, enorme, redonda, a cintura bem marcada que eu tanto amava completamente deformada, as pernas delicadas incapazes de sustentar o peso do corpo.

O que mais me confundia, na verdade, era a gravidez por si só. Regina nunca gostou de homens na vida – se autodefinia como uma estrela dourada, termo corrente pra lésbicas “com selo de garantia”, e, pelo menos quando estávamos juntas, dizia que se quiséssemos mesmo ter Olga e Catarina, eu é quem teria que abrir mão das minhas formas pra fazer inseminação, porque se recusava terminantemente a engravidar, ficaria ridícula masculina como era, etc. Naquele momento, masculina seria a última palavra que eu usaria para defini-la. Os cabelos mais compridos do que eu jamais vira – a franja chegava na linha do queixo – e uma aparência geral de fragilidade e sofrimento impossível de definir com palavras conferiam ao quadro um langor insuportavelmente delicado. Passei alguns instantes de choque observando a cena antes de conseguir abrir a boca pra falar o que quer que fosse.

– Como foi que isso aconteceu?
– Não sei! – me respondeu, a voz sufocada. Parecia doer até para respirar.
– Como, não sabe?
– Um belo dia, minha menstruação não veio. Depois de um mês assim, fui no médico e ele me deu as “boas novas”. Não lembro de ter ido pra cama com homem nenhum. Não lembro de ter injetado porra nenhuma no útero. Não lembro de nada.

Um espasmo mais forte de dor fez com que o rosto de Regina se distorcesse de uma forma que partiu meu coração. Tava na hora de fazer alguma coisa. Peguei a maca e corri com ela hospital adentro, vagamente notando no caminho que Alex havia desaparecido, possivelmente para fumar. Corremos por corredores brancos, através de portas brancas, era tudo muito branco, eu já nem sabia mais onde estava. Até que ouvi Regina gritando.

– Chega, Lili! Chega! Tá na hora! Você vai ter que resolver isso!

Nunca fiz um parto na minha vida, mas era bem familiarizada com a parte da anatomia de Regina que eu teria que encarar agora. Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei trazer ao mundo o filho da minha ex namorada, mas pelo visto era o dia internacional do surrealismo, então não demorei muito pra me preparar psicologicamente. Me coloquei de frente para as pernas arqueadas da pobrezinha, separei seus joelhos e, sem me preocupar com água quente ou toalhas brancas, pedi que ela empurrasse.

Regina não precisou fazer muito esforço. O que quer que fosse aquilo saindo de dentro dela queria tanto sair quanto ela queria se livrar da dor. A criatura rastejou para fora dela, garras rasgando a carne e ensopando a confusão de panos brancos de sangue vermelho escuro, depois rosado, depois só água. Rastejou e rastejou, até se aninhar no topo da barriga da mãe. Não era uma criança. Não sei descrever aquilo; parecia um alienígena, um pokémon, um demônio, sei lá o que diabo era. Parecia feito puramente de carne e osso, sem pele, sem pelos, sem nada que o identificasse como um ser vivo exceto os olhos, muito negros, muito brilhantes. A porra da criatura era rosa, aquele rosa-carne de pele leitosa suja de sangue, parecia mesmo que era isso porque era um rosa meio raiado de branco, e me olhou tristemente por alguns segundos antes de parar de se mexer. Morreu ali, ainda sobre o ventre de Regina, o cordão umbilical enorme ainda preso à hospedeira. Entrei em pânico. Não queria que Regina visse aquilo, mas era tarde demais. Ela estava em choque, não conseguia falar, os olhos arregalados presos naquele pedaço de pesadelo.

–  Rê, você tá bem?

Silêncio.

– Rê, fala comigo! Rê, me escuta, nada disso é real, tá? Isso é um pesadelo. Uma porra dum pesadelo absurdo e assustador, mas ainda assim um pesadelo. Olha pra mim, Rê!

Mas ela não me respondia. Os olhos vidrados, a boca entreaberta, e eu podia jurar que ela não estava respirando. Tornei a correr pelos corredores, empurrando a maca em busca de um médico, um curandeiro, alguém que pudesse socorrer minha amiga. Não pode acabar assim, não podia deixar ela morrer. Corri feito louca, e parecia presa no tempo. As portas abertas, os corredores desertos, Jesus, onde foi que a gente veio parar?

Dei com uma porta fechada. Chutei com toda a força que minhas pernas bambas de terror permitiam e puxei a maca na direção dela. Uma luz muito forte me ofuscou. Um barulho vagamente eletrônico disparou em meus ouvidos, e, atordoada, consegui abri os olhos.

O celular marcava seis horas da manhã e o alarme era insuportavelmente irritante. Esfreguei os olhos e tirei a carta de tarô de debaixo do travesseiro. A Imperatriz me encarava com seus olhos tranquilos. Esfreguei os meus e fui cuidar da minha vida.

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