26.7.11

Ventilador

Era um daqueles dias em que tudo parece conspirar contra mim. Fiquei uma hora e vinte a mais do que devia no trabalho, briguei com a chefe, o ônibus mudou de rota e me deixou lá no inferno, longe demais de casa pra andar sem derreter de tanto suar e perto demais pra pegar outro ônibus. A época do ano e a conjunção astral não colaboravam. Salário atrasado, carnaval - o inferno na terra - e, o pior: a perspectiva de passar um feriadão inteiro com exatos quinze reais no bolso, faltando comida em casa e o cigarro no final. Ilhada, entre três focos de folia desregrada, e sem poder fugir para nenhum lugar que se assemelhasse, ainda que remotamente, a um oasis de tranquilidade.

Claro que ia dar merda. Em algum lugar, um demônio olhou para mim e soltou uma risada maquiavélica.

Eu não podia fugir da minha ilha cercada de pagode por todos os lados porque, como não poderia deixar ser em se tratando de minha pessoa, a encomenda que fiz há quase um mês estava programada para chegar no meio das festas. Briguei com a chefe justamente por isso - não podia ir trabalhar na sexta, que já era minha folga mesmo, porque tinha que esperar a porcaria do pacote chegar. E era quinta.

Mal tinha terminado de almoçar os vestígios do almoço do dia anterior, a campainha toca. Com alguma dificuldade, levantei para abrir a porta e dei de cara com o zelador, com seu sorriso torto - aliás, o rosto todo dele é torto; lembra um pouco uma pintura cubista -, avisando que "vieram entregar uns pacotes pra você, tão lá na funerária, sobe lá pra buscar". 

Cabe aqui explicar que moro num prédio pegado a uma funerária. Na verdade, a funerária fica no prédio, e funciona como uma espécie de portaria mórbida 24 horas guarnecida por caixões de todos os modelos, cores e tamanhos. Então, é seguro e bastante realista dizer que moro no subsolo de uma funerária. Pois é, minha vida é uma piada de humor negro.

Subi os 5 lances de escada até a funerária e vejo uma caixa enorme e uma tábua de passar roupa me esperando. E nenhuma ajuda pra carregar os dois trambolhos escada abaixo. Ouvi a risada demoníaca de novo e lá fui eu, caixa de papelão nos braços, tábua de passar roupa em cima, descendo. No primeiro tropeção já senti vontade de arremessar tudo escada abaixo e descer pelo corrimão, mas lembrei que havia eletrodomésticos dentro da caixa. Entre quebrar as coisas pelas quais eu havia passado um mês esperando por pura preguiça e subir e descer aquelas malditas escadas algumas vezes, preferi a segunda opção.

Algumas horas de exercício aeróbico depois, sentei no chão do quarto e conferi a mercadoria. Ferro de passar, ok. Tábua, ok. Ventilador torre, ok. Mesa do computador... bom, definitivamente não caberia dentro daquela caixa. Decidi me preocupar com isso mais tarde, e montar o bendito ventilador, porque verão na Bahia sem um ventilador para chamar de meu é masoquismo demais até pra mim, que já fui gótica. Aliás, desisti de ser gótica justamente porque ser gótico no Nordeste é que nem ser nudista no Alasca: simplesmente não dá. Suor derrete maquiagem, afinal.

Enfim, peças desencaixotadas, kit de ferramentas por perto, telefone pro caso de eu acidentalmente perfurar meu baço com um parafuso, hora de por as mãos na massa. Percebi vagamente que os pedaços de ferro nos quais eu tinha que encaixar os pézinhos do ventilador pareciam ser mais estreitos do que deviam, mas imaginei que não fosse ser tão difícil assim. É óbvio que eu estava enganada. Empurrei, chutei, tentei arregaçar o ferro e prender com um livro bem grosso, tudo em vão. Aquela merda era estreita, ia continuar sendo estreita e, se eu queria enfiar alguma coisa mais espessa ali, teria que ser com muito cuspe e jeito. Bufando de raiva e pelo esforço, larguei aquilo de lado e fui trabalhar em outra peça.

Olhando o manual de instruções, vi que precisava desrosquear uma pecinha que regulava a altura da torre, pra poder encaixar o motor na haste. "Essa vai ser mais fácil", pensei. Girei pro lado um pouco, e a peça soltou um pouco. Tentei girar mais e nada. Tentei girar pro outro lado, também não ia. Peguei com a blusa, só consegui rasgar. Pra minha sorte, era uma camiseta promocional da Piraquê de mil novecentos e bolinha que eu só usava mesmo pra fazer faxina. Tentei com uma toalhinha - lembrança de casamento de alguém - e nada. Meia hora de esforço depois, vi que estava tentando girar o troço pro lado errado. Só podia. Tentei de novo com a toalha.

Desisti. Quase chorando, ameacei rumar a peça longe. Só não o fiz porque ou quebraria o computador da colega de quarto ou o meu armário. E então lembrei da máxima feminina: os homens só conseguem abrir potes tão fácil porque a gente afrouxa antes pra eles. Se tentássemos mais um pouco, conseguiríamos. Peguei aquela porcaria de volta, e dessa vez consegui, provando assim a teoria. Encaixei o cano de metal no motor, prendi e... descobri que teria que soltar de novo. Afinal, precisava aparafusar a haste na base - que eu havia deixado de lado - antes de prender o motor. Uma coisa óbvia, mas que nem passou pela minha cabeça.

Soltei a porra do motor e voltei a trabalhar na bendita base. Depois de cortar os dedos enfiando os pézinhos, chegou a hora de aparafusar. Mas quem disse que os parafusos entravam? Se eu conseguia prender três, o quarto ficava torto. Tentei de todos os jeitos possíveis, mas nada fazia aquele enviado minúsculo do próprio Satanás encaixar no lugar em que devia. Bom, é sabido que não sou muito fã dessa história de encaixar coisas em buracos, ainda mais tão apertados, mas ainda assim, tenho um bom embasamento prático e teórico na coisa, não deveria ser problema. Se até os pés da base consegui encaixar...

Mas não. Não era pra ser. Em desespero, comecei a chorar. Olhava para o ventilador e não via um equipamento necessário para a sobrevivência. Via um adversário, um antagonista. Uma inimizade mortal surgiu naquele momento. Olhei para ele e gritei, "POR QUE VOCÊ ME ODEIA TANTO ASSIM, SEU VENTILADOR DE MERDA?!" Eu queria dar uma de Narcisa e jogar aquela bosta pela janela, eu queria chutar aquelas pecinhas de metal como se fossem uma carcaça de cachorro morto, eu queria ligar pra algum amigo homem e pedir socorro, abrindo mão de décadas e mais décadas de luta feminista. Aquela máquina estava querendo me rebaixar e eu, do alto de minha TPM, não aguentava mais. Mas me lembrei que sou uma mulher independente e autossuficiente e, se mato baratas e outros insetos repugnantes sozinha, não é um mero pedaço de sucata que vai me derrubar. Enfiei o parafuso no tapa, rosqueei de qualquer jeito e lancei um urro de vitória.

Agora faltava pouco, e eu já sabia os procedimentos. Terminei de encaixar e aparafusar tudo, e o vento que o bichinho faz até que compensa o esforço. Liguei pra casa, pra avisar meu pai da falta da mesa do computador, e me preparei para sair da minha ilha subterrânea. Malas quase arrumadas, minha madrasta liga de volta:

- Olha, a mesa só chega aí depois do dia 20, e você que vai ter que montar. Mas a sua cama tá indo, viu? Deve chegar aí essa semana. Fique em casa para receber.

Arremessei o celular na parede. A funerária que se entendesse com minha cama. Apanhei minhas coisas e fui embora.

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