28.7.11

Eu chamo a polícia!

Era um sábado como outro qualquer. Na época, eu trabalhava em Itapuã, e, apesar de morar pela região, geralmente saía do trabalho e ia pra Liberdade, independente da hora que fosse. Pra quem não está muito familiarizado com a geografia de Salvador, basta dizer que eu levava umas duas horas pra chegar lá se o segundo ônibus não demorasse muito. Mas enfim.

Era sábado, por volta de meio-dia, e eu estava dentro de um Estação Pirajá que sacolejava mais que carroça puxada por jumento. Fazia um calor infernal, o trânsito estava infernal, e eu tenho certeza de que já fazia mais de 15 minutos que eu estava sentada naquele ônibus e minha casa, a 15 minutos de caminhada do trabalho, ainda não estava nem perto. O ônibus, para melhorar, estava entupido de todo tipo de gente: ratos de praia fedendo a sargasso, vendedores de toda sorte de quinquilharia, patricinhas e gente saindo do trabalho. De alguma forma, consegui sentar na janela, coloquei meus fones de ouvido e me concentrei em ignorar o mundo.

Um daqueles vendedores de algum abrigo para pessoas dependentes de narcóticos entrou no ônibus, vestido de palhaço e mais implorando do que de fato tentando vender alguma coisa. Como sempre acontece, foi solenemente ignorado pela grande maioria, inclusive por mim, que estava, para completar, com o mau humor da vida toda. De repente, sem maiores avisos prévios, uma mulher que estava sentada na frente do ônibus levanta, dá algumas moedas pro rapaz e começa a xingar todo mundo.

Não é aquela xingadela resmungada por baixo da respiração, estilo "cambada de filho da puta casquinha" nem nada do tipo. Foi uma xingada de respeito. Levantou do banco em que estava sentada, encheu os pulmões e começou a apontar o dedo na cara de todo mundo.

- Vocês são todos uns falsos cristãos! Ficam aí defendendo o amor ao próximo, mas ninguém tem um trocadinho pra dar pra ajudar os outros! Pois eu DUVIDO que ninguém tenha dinheiro pra doar aí! Todo mundo usando calça de mil reais e blusa de quatrocentos...

Nessa hora eu já comecei a engasgar de rir. Olhei pras minhas calças - presente de uma tia, não deviam ter custado nem trinta reais - e a blusa do uniforme do trabalho, e me perguntei de onde que ela tinha tirado que era todo mundo rico. Garanto que se eu fosse rica não estava naquele ônibus. Mas ela não parou por aí.

- Todo mundo com cara de rico e ninguém quer ajudar ninguém! E eu aqui, ganhando minha vida vendendo coentro numa barraquinha em Peri Peri, não me envergonho de fazer o que posso pra ajudar! Vocês são todos uns hipócritas!

A essa altura metade do ônibus já estava cochichando, comentando com quem estivesse próximo a atitude da velha. Um mais gaiato berrou, "cala a boca, velha maluca!" antes de descer do ônibus. Foi o que bastou pra ela se inflamar. Levantou do banco, veio mais pro fundoe parou exatamente do meu lado.

- Cadê? Cadê esse covarde que me mandou calar a boca? Fala na minha cara, filho da puta, que eu te encho de porrada! Cadê? Na minha frente não tem coragem não, é?

- Ele já desceu, senhora!

- Desceu? Filho da puta! Para esse ônibus, motorista, para que eu quero ir na delegacia prestar queixa. Tá pensando o quê? Eu não tenho pena quando mauricinho amanhece com a boca de formiga na beira do morro não! Traficante não mata por nada não! Se tá morto, é porque fez alguma coisa que não devia. Quando a galera lá da minha área tem problema, eles vão é pedir ajuda pros traficantes. Eu não. Eu nem me abalo não. Eu chamo é a poliííííííííííííciaaaaaaa!

Eu quase me dobrava de rir do jeito que ela berrava "polícia".

- Olha, e vocês tão pensando o que? Eu não sou crente não! Minha religião é a CACHAÇA! Mas meu único pecado é gostar do marido das outras. Motorista, para esse ônibus que eu vou descer é aqui mesmo. Cambada de filho da puta hipócrita.

Desceu do ônibus. Subitamente, tudo ficou chato. Enfiei os fones de novo nos ouvidos e aproveitei o restante das horas de viagem.

27.7.11

Saias

Daí que até recentemente eu não sabia que existia uma coisa chamada "saia masculina".

Fiquei aqui pensando com os botões do casaco que não uso, como raios será que funciona um negócio desses? Qual a diferença de uma saia masculina pra uma saia feminina? Será que é mais larga? Será que é mais fechada, sei lá? Fui perguntar pro deus Google, então, e ele me vem com isso:



Pois é. Sacaram a diferença pras saias femininas? Sério? Porque eu não.

Juro pra vocês que, nas minhas fases mais gotiquetes, eu só usava saias assim. E não entendo porque, da noite pro dia, começou essa papagaiada de definir gênero pra saias.

Cabe aqui deixar bem claro que não tenho problema nenhum com homem usando saia. Acho até bonitinho, e imagino que deva ser bem mais confortável. Até porque não posso ser hipócrita, conhecida como sou por usar calças masculinas sem dó nem piedade pelas ruas afora. Meu problema é com a definição de gênero das peças de roupa.

Há aqueles que dizem que a invenção da saia masculina (oi, invenção? Tão aí os escoceses a trocentos milênios pra clamar a honraria) é um marco na liberdade de expressão de gênero. Meu ovo esquerdo imaginário. Liberdade de expressão de gênero no vestuário, no meu entender, implicaria na não distinção de gêneros para peças específicas.

Hoje em dia, vê-se mulher usando de tudo na rua sem maiores estranhamentos. Há anos conquistamos as calças; hoje em dia, suspensórios e gravatas não são de todo incomuns, e até houve a moda da tal da "calça boyfriend". No entanto, para que os homens conquistassem o direito de usar saias sem precisar ir morar nas ilhas britânicas foi necessária a adição do adjetivo "masculino" após o nome da peça de roupa. Se não for uma saia masculina, o cidadão que tá usando só pode ser viado. Né?

Cai no mesmo clichê da homossexualidade. Por algum motivo, homossexualidade feminina é bem mais bem aceita que a masculina. Pergunte ao seu pai. Pergunte ao seu amigo. Pergunte ao seu namorado. Você, mulher bem resolvida, pergunte ao seu pai careta e conservador se ele encararia mais na boa você gostar de mulher ou seu irmão gostar de homem. Sugira ao seu namorado que você encare uma bi-curiosity só pra fazer charminho pra ele e, depois que ele se animar, diga que só faz se ele também o fizer. Duas mulheres se pegando faz parte do imaginário sexual masculino. Já dois homens se pegando... bom, acho que existem motivos de sobra pra crer que não é uma prática tão tranquila assim.

O mundo é machista. Nem venham me chamar de femista radical nos comentários, vocês sabem que é verdade. E só isso explica a necessidade de definir e rotular gêneros em peças de roupas.

Deixo aqui registrado meu protesto e o início da campanha: PELO DIREITO DE HOMEM USAR MINISSAIA DE VINIL ROSA-CHOQUE SE ASSIM DESEJAR. Porque viadagem é ficar se escondendo atrás de nomenclatura imbecil pra assegurar masculinidade, ora porra.

26.7.11

Ventilador

Era um daqueles dias em que tudo parece conspirar contra mim. Fiquei uma hora e vinte a mais do que devia no trabalho, briguei com a chefe, o ônibus mudou de rota e me deixou lá no inferno, longe demais de casa pra andar sem derreter de tanto suar e perto demais pra pegar outro ônibus. A época do ano e a conjunção astral não colaboravam. Salário atrasado, carnaval - o inferno na terra - e, o pior: a perspectiva de passar um feriadão inteiro com exatos quinze reais no bolso, faltando comida em casa e o cigarro no final. Ilhada, entre três focos de folia desregrada, e sem poder fugir para nenhum lugar que se assemelhasse, ainda que remotamente, a um oasis de tranquilidade.

Claro que ia dar merda. Em algum lugar, um demônio olhou para mim e soltou uma risada maquiavélica.

Eu não podia fugir da minha ilha cercada de pagode por todos os lados porque, como não poderia deixar ser em se tratando de minha pessoa, a encomenda que fiz há quase um mês estava programada para chegar no meio das festas. Briguei com a chefe justamente por isso - não podia ir trabalhar na sexta, que já era minha folga mesmo, porque tinha que esperar a porcaria do pacote chegar. E era quinta.

Mal tinha terminado de almoçar os vestígios do almoço do dia anterior, a campainha toca. Com alguma dificuldade, levantei para abrir a porta e dei de cara com o zelador, com seu sorriso torto - aliás, o rosto todo dele é torto; lembra um pouco uma pintura cubista -, avisando que "vieram entregar uns pacotes pra você, tão lá na funerária, sobe lá pra buscar". 

Cabe aqui explicar que moro num prédio pegado a uma funerária. Na verdade, a funerária fica no prédio, e funciona como uma espécie de portaria mórbida 24 horas guarnecida por caixões de todos os modelos, cores e tamanhos. Então, é seguro e bastante realista dizer que moro no subsolo de uma funerária. Pois é, minha vida é uma piada de humor negro.

Subi os 5 lances de escada até a funerária e vejo uma caixa enorme e uma tábua de passar roupa me esperando. E nenhuma ajuda pra carregar os dois trambolhos escada abaixo. Ouvi a risada demoníaca de novo e lá fui eu, caixa de papelão nos braços, tábua de passar roupa em cima, descendo. No primeiro tropeção já senti vontade de arremessar tudo escada abaixo e descer pelo corrimão, mas lembrei que havia eletrodomésticos dentro da caixa. Entre quebrar as coisas pelas quais eu havia passado um mês esperando por pura preguiça e subir e descer aquelas malditas escadas algumas vezes, preferi a segunda opção.

Algumas horas de exercício aeróbico depois, sentei no chão do quarto e conferi a mercadoria. Ferro de passar, ok. Tábua, ok. Ventilador torre, ok. Mesa do computador... bom, definitivamente não caberia dentro daquela caixa. Decidi me preocupar com isso mais tarde, e montar o bendito ventilador, porque verão na Bahia sem um ventilador para chamar de meu é masoquismo demais até pra mim, que já fui gótica. Aliás, desisti de ser gótica justamente porque ser gótico no Nordeste é que nem ser nudista no Alasca: simplesmente não dá. Suor derrete maquiagem, afinal.

Enfim, peças desencaixotadas, kit de ferramentas por perto, telefone pro caso de eu acidentalmente perfurar meu baço com um parafuso, hora de por as mãos na massa. Percebi vagamente que os pedaços de ferro nos quais eu tinha que encaixar os pézinhos do ventilador pareciam ser mais estreitos do que deviam, mas imaginei que não fosse ser tão difícil assim. É óbvio que eu estava enganada. Empurrei, chutei, tentei arregaçar o ferro e prender com um livro bem grosso, tudo em vão. Aquela merda era estreita, ia continuar sendo estreita e, se eu queria enfiar alguma coisa mais espessa ali, teria que ser com muito cuspe e jeito. Bufando de raiva e pelo esforço, larguei aquilo de lado e fui trabalhar em outra peça.

Olhando o manual de instruções, vi que precisava desrosquear uma pecinha que regulava a altura da torre, pra poder encaixar o motor na haste. "Essa vai ser mais fácil", pensei. Girei pro lado um pouco, e a peça soltou um pouco. Tentei girar mais e nada. Tentei girar pro outro lado, também não ia. Peguei com a blusa, só consegui rasgar. Pra minha sorte, era uma camiseta promocional da Piraquê de mil novecentos e bolinha que eu só usava mesmo pra fazer faxina. Tentei com uma toalhinha - lembrança de casamento de alguém - e nada. Meia hora de esforço depois, vi que estava tentando girar o troço pro lado errado. Só podia. Tentei de novo com a toalha.

Desisti. Quase chorando, ameacei rumar a peça longe. Só não o fiz porque ou quebraria o computador da colega de quarto ou o meu armário. E então lembrei da máxima feminina: os homens só conseguem abrir potes tão fácil porque a gente afrouxa antes pra eles. Se tentássemos mais um pouco, conseguiríamos. Peguei aquela porcaria de volta, e dessa vez consegui, provando assim a teoria. Encaixei o cano de metal no motor, prendi e... descobri que teria que soltar de novo. Afinal, precisava aparafusar a haste na base - que eu havia deixado de lado - antes de prender o motor. Uma coisa óbvia, mas que nem passou pela minha cabeça.

Soltei a porra do motor e voltei a trabalhar na bendita base. Depois de cortar os dedos enfiando os pézinhos, chegou a hora de aparafusar. Mas quem disse que os parafusos entravam? Se eu conseguia prender três, o quarto ficava torto. Tentei de todos os jeitos possíveis, mas nada fazia aquele enviado minúsculo do próprio Satanás encaixar no lugar em que devia. Bom, é sabido que não sou muito fã dessa história de encaixar coisas em buracos, ainda mais tão apertados, mas ainda assim, tenho um bom embasamento prático e teórico na coisa, não deveria ser problema. Se até os pés da base consegui encaixar...

Mas não. Não era pra ser. Em desespero, comecei a chorar. Olhava para o ventilador e não via um equipamento necessário para a sobrevivência. Via um adversário, um antagonista. Uma inimizade mortal surgiu naquele momento. Olhei para ele e gritei, "POR QUE VOCÊ ME ODEIA TANTO ASSIM, SEU VENTILADOR DE MERDA?!" Eu queria dar uma de Narcisa e jogar aquela bosta pela janela, eu queria chutar aquelas pecinhas de metal como se fossem uma carcaça de cachorro morto, eu queria ligar pra algum amigo homem e pedir socorro, abrindo mão de décadas e mais décadas de luta feminista. Aquela máquina estava querendo me rebaixar e eu, do alto de minha TPM, não aguentava mais. Mas me lembrei que sou uma mulher independente e autossuficiente e, se mato baratas e outros insetos repugnantes sozinha, não é um mero pedaço de sucata que vai me derrubar. Enfiei o parafuso no tapa, rosqueei de qualquer jeito e lancei um urro de vitória.

Agora faltava pouco, e eu já sabia os procedimentos. Terminei de encaixar e aparafusar tudo, e o vento que o bichinho faz até que compensa o esforço. Liguei pra casa, pra avisar meu pai da falta da mesa do computador, e me preparei para sair da minha ilha subterrânea. Malas quase arrumadas, minha madrasta liga de volta:

- Olha, a mesa só chega aí depois do dia 20, e você que vai ter que montar. Mas a sua cama tá indo, viu? Deve chegar aí essa semana. Fique em casa para receber.

Arremessei o celular na parede. A funerária que se entendesse com minha cama. Apanhei minhas coisas e fui embora.

25.7.11

Platão, reloaded

Já perdi as contas de quantas vezes te reinventei na minha cabeça. Nos meus sonhos, a cada dia você era um pouquinho mais criação minha, até que um dia não te reconheci mais. Você desapareceu, e em bem pouco tempo a você que eu criei também parou de aparecer. Perdeu a forma, a cor e a graça. Ainda sinto aquela pontada de tristeza por tudo o que vivemos na minha imaginação e que nunca será. Ainda lembro dos detalhes das linhas de suas mãos e do som do seu sorriso. E é só isso que tenho agora, lembranças. Você sumiu de todos os meus mundos, e nem posso te culpar. Você nunca soube o quão minha era.

24.7.11

Cansei

Um dia eu acordei e cansei de viver na minha pele. Não sei; foi daquelas cismas que vêm sem quê nem porquê e abalam a gente. Eu queria ser outra pessoa. Cansei de olhar no espelho e ver os mesmos olhos cansados de sempre refletindo esverdeados a mesma eu que sempre fui. Cansei de buscar na minha consciência e encontrar os mesmos erros cometidos toda santa vez, e os mesmos parcos acertos sem honra nem razão de ser outra que não a mera sorte. Cansei de minhas idéias, cansei de meus desesperos, cansei de lutas vãs e noites vazias. Cansei de me apegar nesse desapego de mim mesma. Cansei de não me apegar por tempo o suficiente pra que mude alguma coisa na minha vida. Cansei de madrugadas perdidas, da mente embotada, da eterna procura por algo que nunca vou encontrar por sequer saber o que é. Cansei da minha vida. Cansei de mim. Posto isso, pego o papel em que rascunhei minha história, amasso e jogo na lareira. É hora de recomeçar.

22.7.11

This is an apologize.

Eu queria não pensar tanto. Eu queria não romantizar tanto as coisas, nem me iludir tanto. Mas é difícil, difícil pra caramba. As palavras escapam levianas por meus dedos, e nem sempre sou capaz de prever todas as consequências. Nem sempre me dou ao trabalho de tentar, também. E é aí que as coisas degringolam. Porque eu não meço palavras mais do que meço sentimentos, e, infelizmente, mudo de idéia como mudo as cores das unhas. Ontem, me sentia segura; hoje, me sinto presa; amanhã, possivelmente, sufocada e moribunda. E me esqueço de que as pessoas não estão dentro de mim pra acompanhar a velocidade dessas transições ou entender como foi que isso aconteceu.

Aliás, eu mesma não entendo.

Você me estabilizou. Vi em você muito do que me faltava, e, por cerca de duas ou três semanas, estive em paz. Comigo mesma, com o mundo, com a vida. Ou, pelo menos, achei que estava. Por fora, ao menos, estava. Por dentro, tudo estava em ebulição, só esperando o pior momento possível para explodir. A menor brecha que fosse. E essa brecha apareceu.

Pelo menos não foi tão tarde que o dano não possa ser reversível.

Não espero que você perdoe minhas falhas nem meus pecados. São meus, e errei mais ainda em permitir que você se envolvesse neles. Isto é um pedido de desculpas por ter deixado você entrar tão fundo na minha vida, antes que tivesse tempo de visualizar o gelo das águas no fundo desse poço de contradições.

Mesmo que eu tenha avisado desde o início como isso ia terminar.

21.7.11

O mendigo que ouvia Motorhead

Sozinha, toda de preto, na porta do cemitério. Em uma circunstância qualquer, poucos se atreveriam a se engraçar, mas o caso é que era um sábado à noite. Parou na banca de jornal ao lado do ponto e comprou uma carteira de cigarros. Acendeu um enquanto esperava. E foi aí que ele se aproximou.

- Ei!
- …  – Ela  se recusou a responder.
- Me arruma um cigarro desses aí, madame!

Era em momentos como esses que ela cogitava a possibilidade de parar de fumar. Menos um motivo pra ser abordada por malucos na rua, Muito a contragosto, tirou um cigarro da bolsa e entregou ao mendigo, esperando ser deixada em paz.

Não foi.

- Ei!

Ela tentou ignorar.

- Ei! Ruiva!

Ela desistiu de ignorar.

- Tá indo prum show de rock?
- Não.
- Tá indo estudar filosofia, então?
- Não! – a falta de lógica da sugestão fez com que ela deixasse escapar um sorriso.
- Tá indo fazer o quê, se não vai pro rock nem estudar filosofia?
- … Encontrar um amigo.
- Namorado?
- Não.
- E cadê o namorado?
- Em casa, dormindo, eu acho. Espero. Sei lá.
- E você tá indo encontrar com um amigo pra ir prum show de rock?
- Não! Só encontrar com um amigo! – Deuses, pensou, qual a cisma desse cara com shows de rock?
- Mas você gosta de rock, não gosta?
- É...
- Curte um Metallica?
- Curto.
- E um Mötorhead? Do you like it?
- Como é?
- Do you like it? Mötorhead, good music. Do you like it or not?
- Fuck yeah I do! – Gente, o mendigo fala inglês!
- I like Mötorhead. Eu queria ir num show deles, eu até ia, mas é frio demais pra mim. Fico por aqui mesmo, mais quentinho.
- É... Muito frio. E aqui é muito quente.
- É. Você tem fogo?
- Excuse me?
- Isqueiro. Lighter. Pra eu acender o cigarro.
- Ah... toma – ela acendeu o cigarro para ele, e guardou o isqueiro.
- Valeu. Posso ir pro show de rock com você?
- Eu não vou pra um show de rock!
- E estudar filosofia?
- Eu não vou... Olha, deixa pra lá.
- E formação acadêmica, você tem?
- Tenho. Mas o que isso...
- Que bom. É muito importante você fazer algo de útil pela humanidade. Eu comecei a fazer faculdade, mas larguei. Preferi beber. Você bebe?
- Um pouco.
- Vai beber hoje no show?
- Vou. Mas não no show. Pro qual eu não vou. Nem sei se tem algum show hoje.
- É show de quê? De rock?
- Amigo, eu já falei que não vou pra show nenhum. Mas, se fosse, sim, seria de rock. Possivelmente. A não ser que fosse de... rock. Olha, já estou ficando confusa, viu?
- E a faculdade, você fez de quê? Filosofia?
- Não, letras. Olha, o papo tá bom, mas eu tenho que ir, viu? Meu ônibus tá vindo.
- Tudo bem. Prazer em te conhecer, viu – Ele estendeu a mão. Ela arqueou a sobrancelha, e apertou a mão do mendigo – Você é muito legal.

Fez sinal pro ônibus e correu para a porta, ainda gritando, meio de costas, um “valeu!”. Enquanto entrava no ônibus, ainda ouviu um “bom show!”. Quando enfiou a cabeça na janela pra reclamar, mais uma vez, que não ia a show nenhum, ele tinha desaparecido. Ainda piscou umas duas vezes pra entender o que tinha acabado de acontecer. Certas coisas só acontecem na noite de Salvador.

20.7.11

Era uma vez

Não é seu amor que eu quero. Não faço questão de sua companhia, ou de longas noites de conversas cheias de significado ou poesia. Não quero, da noite pro dia, me tornar sua amiga, companheira, confidente. Não quero ser sua namorada, ou qualquer coisa do tipo. Não espero que você perdoe meus pecados, suporte minhas infidelidades, ature minhas lamúrias. Não sou uma gata borralheira esperando pelo príncipe encantado com o sapatinho de cristal. Não sou uma princesa aprisionada esperando que me salvem da bruxa, do dragão ou da madrasta malvada, e nem adianta esperar que eu não vou jogar minhas tranças pra você subir e me resgatar.

O que eu quero é físico. Não me importo se você vai sair da minha cama e pular na de outra qualquer. Eu faria o mesmo, se me desse na telha. Não me importo se você não vai ficar para dormir de conchinha e me cobrir de beijos ao amanhecer. O que eu quero é você dentro de mim, ainda que por apenas alguns minutos, não mais que o necessário. O que eu quero é o calor do seu beijo, o desespero no seu toque, a irregularidade nas nossas respirações. Quero sentir o sangue correndo e queimando em minhas veias, o peso do seu corpo contra o meu, as roupas se atirando pelos cantos, a pele se rasgando sob as unhas. Quero gritar. Mais ainda: quero ouvir seus gritos. Quero barulho, quero suor, quero tudo o que seus olhos me prometeram.


Todo o resto é ilusão de criança encantada, sonho de carochinha, e eu posso passar sem. Não quero um final de felizes para sempre. Termine seu serviço, e me deixe exausta na cama, Bela Adormecida à espera do próximo cavaleiro, e talvez nos encontremos num próximo conto de fadas. Ou não.

15.7.11

Ressaca

Uma batida. Duas batidas. Não sei por quanto tempo prendi a respiração, mas tudo o que eu podia fazer era contar as batidas do meu coração enquanto criava coragem para fazer o que há tanto tempo eu queria fazer. Enfim, respirei fundo e dei dois passos na direção dele. Já nem lembrava mais o que me impedia de beijá-lo; só me lembrava da vontade de fazê-lo, adormecida a tanto tempo dentro de mim. Entabulei uma conversa-disfarce, uma bobagem qualquer sobre música que eu poderia manter sem precisar raciocinar, enquanto dizia para mim mesma que faria aquilo apenas por desencargo de consciência. Nunca deixei de possuir alguém que desejasse, por mais tempo que levasse. E hoje, bonitinho, é a sua vez, pensei.

Não demorou muito para me perder nos beijos, no corpo junto ao meu. Esqueci de onde estávamos. O gosto da vodka em seus lábios não me incomodava; o gosto do cigarro em meus não parecia gerar qualquer desconforto. Suas mãos buscando meu corpo, minhas mãos buscando partes do seu que, sóbria, eu não ousaria tocar tão displicentemente. Suas unhas nas minhas costas. Minhas mãos puxando seus cabelos. Conversamos, é fato, mas pouco, e tudo que minha memória foi capaz de reter foi a data de seu aniversário. A linguagem de nossos corpos bastou, por aquela noite. Enfim sorri, beijei seus lábios uma última vez e entrei no carro. Na manhã seguinte, minha memória enturvada, só me lembrava do fogo que me consumira por instantes que pareceram breves demais para tanta vontade.

A ressaca martelava minha cabeça como se a uma bigorna, as mensagens trocadas prometiam coisas que, tenho certeza, nunca serão cumpridas. Coloquei Queens of the Stone Age pra tocar e olhei triste para o cartão de visitas abandonado sobre a escrivaninha. Uma lembrança ofuscada pelo brilho do álcool, e nada mais.

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