16.1.11

Tio

Um dia morno. Ela gastou uns cinco minutos rabiscando em seu diário mental, mas não conseguiu encontrar nenhuma outra palavra: morno definia. Não só o seu dia, como toda a sua existência. Correu os dedos pelas teclas do velho teclado de oito escalas, sem muita vontade de voltar a praticar. Correu os olhos pelas estantes, sem nenhuma vontade de sentar na poltrona de forro de veludo rasgado para ler algum livro. Suspirou fundo, desligou o aparelho de som e apoiou os cotovelos no parapeito da janela fechada. A chuva forte lambia os vidros da janela, e a cidade muito cinza lá embaixo brilhava em mil pontinhos, os faróis dos carros e as luzes dos postes parecendo difusas no vapor que subia do asfalto quente. Correu as persianas azuis com estrelinhas, e riu-se por um meio segundo da ironia que representava ter uma coisa tão tranquila dentro do próprio quarto quando sua mente e seu coração pareciam os escombros de um terremoto. Sentou-se na beirada do sofá que fazia as vezes de cama e ajeitou o travesseiro, com o cuidado de não mexer no cutelo afiado que repousava por baixo deste. Apagou a luz, finalmente, e deitou-se sem se despir. Essa era a noite. Degustou o sabor antecipado de vingança e fechou os olhos. Se aquele filho da puta entrasse em seu quarto de novo, o hálito alcoolizado e os passos desajeitados rumo a sua cama, não hesitaria. Nunca mais.

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