10.12.10

Sex and the City

Depois do décimo toque do despertador, insistia em continuar dormindo. A cama estava confortável e o sonho era muito mais interessante que a realidade que me esperava. Eu estava num porão enfrentando um monstro que tinha devorado o cachorro que eu tinha acabado de adotar, enquanto tentava desesperadamente achar o carinha por quem eu ando de fogo no rabo. O décimo primeiro toque do despertador me convenceu de que nada podia ser pior do que correr o risco de encontrar o tal carinha coberta de restos mortais do monstro, então resolvi levantar da cama e ir adiantar a porra do artigo que eu precisava entregar naquele dia.

Do banheiro, ouvi o celular tocando e saí correndo, ainda limpando restos de pasta de dentes dos cantos da boca na barra do pijama. Pelo toque, sabia que era das pessoas que estavam na lista dos "a hora que ligar eu atendo". Olhei o visor - era ele. Resisti ao instinto de comentar que tinha sonhado com ele, e tentei acordar mais um pouco. "Hm.", atendi. "Tá pronta pra ir pra facul? Passo aí pra te buscar." "Nem. Acabei de acordar. Paper pra terminar. Só saio de casa depois das onze." Eu não estava nem aí se estava falando estilo telegrama, tava morrendo de sono. "Puxa, então a gente não vai se ver hoje?" "Não sei. Quando eu estiver na facul e livre a gente se vê." "OK, te ligo."

Desliguei o telefone e fui trabalhar. Pouco mais de duas horas depois, me vi na faculdade e já plenamente livre de minhas obrigações. Peguei o celular. Dividida entre ligar ou não ligar, resolvi mandar uma mensagem. "Tô na facul e tô livre." Ele me liga logo na sequência. Saio do prédio, vou pro estacionamento, no caminho me bato com a outra. Ou eu que sou a outra, já me perdi nessa história e, sinceramente, foda-se, tô nem aí. Cheguei no estacionamento, entrei no carro dele, lugar mais calmo. Conversa vai, conversa vem, beijo vai, beijo vem, as mãos também vão e vem. Zíperes se abrem. Me dedico a me fazer de besta, de inocente, de tímida, porque não quero ser julgada. E é aí que me cai a ficha de que nenhum de nós dois tem moral pra julgar o outro, e me jogo. De corpo, alma, mãos e boca.

Acho meio sexy um homem gemendo por minha causa. Especialmente se eu estiver fazendo algo no qual eu particularmente não me acho muito talentosa. Resolvi caprichar, e, na empolgação, nem prestei muita atenção nos detalhes externos. Ele gemia, gemia forte, e puxava meus cabelos. Eu já não sabia mais de onde tirar forças pra continuar, mal conseguia respirar, mas foi só ele anunciar, entre gemidos, que estava prestes a, e eu tirei energia sabe deus de onde pra ir até o final. Nunca tinha feito um homem gozar só com a boca.

Enquanto fechava o zíper da bermuda, ele olhou pra mim ainda trêmulo e fez graça, fingindo levantar uma plaquinha e dizendo que olha, nota 10. Dei risada. Ele pediu minha avaliação da performance dele, e eu achei o cúmulo. Me recusei a entrar no mérito da questão da aparência e tamanho do pau dele, minha mãe me ensinou a ser uma dama. Mesmo logo depois de chupar o pau de alguém num carro em pleno meio-dia na frente da faculdade. Depois de um pouco pressionada, falei o que achava. Ele ficou inseguro. Disse que confiava no talento dele, e que, caso ele não correspondesse, era bom que ele fosse bom de língua. Me chamou de safada, e eu só consegui rir. Fui de mocinha tímida a imprestável - à imprestavel que sou e nunca neguei ser - em pouco mais de meia hora. Voltamos para o local pré-escapada e eu não sabia se ria ou ficava vermelha.

Fugi e ele me ligou. Não precisava ter fugido, te ligo mais tarde, beijo. Não ligou. Foda-se. Tá na hora de começar a tirar isso do sistema. Sento no PC, abro o bloco de notas. Começo a digitar.

"Depois do décimo toque do despertador..."

Um comentário:

Evil Magus disse...

Tentar julgar a si mesma o tempo todo só piora o julgamento dos outros.

Filosofia aleatória da semana.

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