8.9.10

Despedidas

Meu quarto nunca foi lá muito organizado, mas dessa vez estava um pouco demais. Ele estava sentado em cima da minha escrivaninha, aquele elemento a mais de caos na minha vida já completamente caótica por definição. Aquele elemento de caos que me deixou rindo feito uma idiota quando brotou de surpresa na minha cidade pra uma visita. Por isso não deu pra arrumar tudo em preparação; ele chegou do nada, sem avisar.

Então, ele estava sentado na escrivaninha, e eu sabia que não faltava muito tempo para ele ter que ir embora. A proximidade do momento da separação me deixava meio apreensiva, mas não demais, já que eu sabia que em breve seria minha vez de cruzar o pais para vê-lo. Estávamos em silêncio, eu perdida na minha apreensão e ele, bom, sei lá no que ele pensava. Serj Tankian gritava alguma coisa nas caixas de som, mas eu estava distraída demais pra prestar atenção.

De repente, o telefone dele tocou. Por questão de educação, decidi que era um bom momento para dar o fora daquela zona. Virei minhas costas e fui até a cozinha pegar alguma coisa pra beliscar. Quando voltei pro quarto, ele já não estava mais lá. Nem a porção dele da bagunça, uma mala displicentemente arremessada num canto. Estranhei. Sensação meio esquisita na boca do estômago. Corri até a sala e dei de cara com minha colega de quarto.

- Viu o Fê?
- Saiu ainda agora, te deixou um beijo, disse que arrumou uma carona pro aeroporto e não ia dar pra esperar você voltar.
- Oi?

Fui até a janela. Nem sinal. Aparentemente, a carona já ligou da porta aqui de casa. Me emputeci bastante, sabe? Não é normal uma pessoa vir de tão longe pra visitar alguém e ir embora assim, do nada, sem nem dizer tchau. Calcei meus tênis meio correndo, peguei um guarda-chuva - chovia a cântaros, como costuma acontecer durante a metade do ano em que Salvador não é insuportavelmente quente - e pulei dentro do primeiro Lapa-Itinga via Aeroporto que passou.

Devo ter cochilado dentro do ônibus, sei lá, mas nunca o trajeto Federação-Aeroporto foi tão curto. Corri como se minha vida dependesse disso até o portão de embarque, e consegui chegar lá antes dele. Estava pronta pra xingar. Pra reclamar que era muita falta de consideração. Pra não falar nada, simplesmente olhar pra cara dele com aquele olhar-de-fúria-gélida que eu só consigo fazer quando estou extremamente puta da vida, virar as costas e ir embora. Eu só não estava pronta pra cara que ele fez quando me viu. A raiva pareceu evaporar e sair em nuvenzinhas de fumaça vermelha pelos meus poros, tipo um nitrous purge, enquanto eu me aproximava lentamente, um pouquinho constrangida por ter chegado ali tão rápido e tão nitidamente em pé-de-guerra.

Ele abaixou os olhos quando cheguei perto. Me pareceu distinguir um leve tom de vermelho em seu rosto. Desviei os olhos, subitamente consciente do peso da situação. Nunca fomos namorados, mas o ar, pra mim, tinha cheiro, cor e gosto de pé na bunda. Ele quis ser o primeiro a falar.

- Pois é... eu tenho um problema, não sei se você lembra, mas eu...
- ...detesta despedidas. - completei por ele porque só agora me lembrei desse detalhe - Eu também. Mas ia ser uma puta sacanagem você ir embora assim sem me dar a chance de um último beijo.
- Não ia ser o último. Você vai me visitar logo, né?
- É. Mas eu queria algo pra ficar na memória.
- Engraçado como eu sempre me sinto triste quando a gente se separa.
- Engraçado? Eu acho normal. E adorável.
- Você gosta de ficar triste. - Não era uma pergunta.
- Não. Eu gosto de ter um motivo pra ficarmos tristes quando um de nós dois vai embora, é diferente.
- Xaxim Guaxinim...
- Hm?
- Vamos mais pra longe do portão de embarque um pouquinho? Não quero me despedir de você aqui. Fica com cara de pra sempre.
- Tá. Mas se você chorar, eu choro.

Demos as mãos e viramos as costas. Eu já sabia que nunca iria ser pra sempre.

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