16.9.10

Ninho antigo

Adoro a cidade em que moro, mas não aguento mais morar nela. Salvador é suja - em todos os sentidos que você for capaz de aplicar a palavra "suja" - e desorganizada. As pessoas - prestem atenção, estou fazendo uma generalização, não apontando dedo na cara de ninguém - são mal educadas. O clima é quente, abafado, úmido demais. Sinto como se estivesse sempre molhada - quando não é a chuva, é o meu suor. A cidade é muito bonita, mas olhando ao redor, percebe-se que está praticamente abandonada às moscas.

Adoro meu trabalho e as pessoas que trabalham comigo. Mas, de uns tempos pra cá, aquele sorriso nos lábios que brotava espontaneamente ao pensar em ir pra lá tem sido mais e mais raro. Me sinto exausta só de pensar na distância que preciso atravessar pra chegar ao trabalho. Me dá agonia pensar nas duas horas de ônibus de todo dia pra ir de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Olho a lista dos alunos do dia e suspiro fundo, lamentando-me porque sei que esse aluno não vem, esse vai chegar meia hora atrasado e querer que eu faça milagre e aquele terceiro até que é tranquilo, mas vou precisar do diário de classe do professor dele, que não atualiza os dados desde a última era glacial e não está na escola hoje. O café vai estar sem açúcar, aguado, frio ou todas as três opções simultaneamente; toda vez que eu tentar escapar pra fumar um cigarro, alguém vai surgir com alguma nova obrigação.

Sou apaixonada pelo meu curso na faculdade. Na verdade, acho que a única parte do dia em que realmente sorrio com vontade é a manhã. Sei que vou aprender/rever coisas que me interessam. Sei que estarei junto com pessoas que me são muito queridas. Sei que darei boas risadas. Mas também sei que isso quer dizer acordar mais cedo do que meu organismo, movido a café-cigarro-álcool, gostaria. Quer dizer subir e descer um monte de escadas e ladeiras, sujar a barra da calça de lama, almoçar correndo. Quer dizer encarar aquele professor chato que faz a matéria mais interessante parecer pura boçalidade.

Sair com os amigos, coisa que deveria ser um motivo de alívio no meio de tanto desânimo, parece mais um sacrifício. Me arrumo. Calço sapatos de salto, visto uma minissaia, uma blusa decotada e... bate aquele mau pressentimento, invariavelmente correto. Não me dá mais prazer. Não vejo mais graça em sair, encher a cara como se não houvesse amanhã, beijar uns 3 garotos, 2 garotas e um poste e chegar em casa de manhã. Especialmente porque nunca me lembro de ter feito nada disso.

Sinto vontade de procurar um terapeuta às vezes, mas duvido muito que possa me ajudar. Acho que meu problema se resume em uma palavra: tédio. Estou há tempo demais na mesma cidade. No mesmo emprego. Na mesma rotina. Preciso de mudança. Preciso ir embora. Mesmo que seja pro Acre.

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