24.8.10

Em Fuga da Terra do Nunca

Discordamos na maior parte do tempo sobre música. Onde eu digo "J-Rock", ela reclama que é muito agudo e diz "Electro-pop". Eu torço o nariz. Detesto putz-putz. Detesto pop. Ela segue em frente e diz que ouve muito Britney Spears, Rihanna, que adora Lady Gaga, mas que, apesar disso, o negócio dela mesmo é Yeah Yeah Yeahs e outras coisas do gênero. Nunca entendi direito como alguém consegue gostar dessas coisas, as letras são repetitivas, não me dizem nada. Faço o já conhecido símbolo do DEUS METAL e começo a discorrer sobre todas as bandas com vocal rasgado que adoro tanto. Ela vira as costas e vai espanar a poeira dos meus mangás, acumulados num canto. "Isso é coisa de criança/adolescente, quando você crescer nem vai lembrar mais o porquê de gastar tanto dinheiro com essas tralhas", ela me diz, e eu fervo de raiva. Não, você está errada, eu nunca vou enjoar disso. Digo isso em voz alta e ela ri, ajeitando os cabelos meio curtos, meio desfiados, atrás das orelhas. Até o corte de cabelo dessa mulher me incomoda. Faço uma trança nos meus, longos e retos, e pergunto sobre cinema. Ela afirma gostar de assistir filmes, mas detesta ir ao cinema. Eu sempre gostei. Acho que sempre vou gostar. É como se ela fosse quase diametralmente diferente de mim, e eu não vejo como seríamos capazes de nos entender. "Olha, eu sempre fui de resolver minhas diferenças na base do álcool." Ela sorri. Pensara na mesma coisa. A chamo pra tomar um vinho barato num boteco vagabundo qualquer, e de novo ela ri descaradamente dos meus gostos. Diz que só vai se for em algum barzinho que tenha boa comida e cerveja decente e bem gelada, de preferência perto de alguma dessas insuportáveis baladinhas que ela gosta de frequentar. Desisto de argumentar com essa mulher. Acho que nem quero ser amiga dela. Viro as costas e volto pro meu lugar no passado dela, quietinha. Éramos melhores amigas; agora ela não precisa mais de mim. Meu tempo já era.

Fecho a tampa da caixa de fotos, retoco a maquiagem no espelho e saio, Tiësto gritando bem alto nos meus fones de ouvido, rumo ao bar onde meus amigos me esperam com a tal da cerveja gelada. Lá no fundo de mim mesma, chego a ouvir a eu dos natais passados resmungando alguma coisa como "gente, como eu decaí". Ignoro e vou viver.

Um comentário:

Aline disse...

Olhe, vou te contar que fiquei meio confusa, tentando identificar quem era quem... xD

Só sei que, como sempre, está muito bem escrito, e o final ficou perfeito. =D

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