25.8.10

A próxima viagem

Chega de tanto sofrimento surdo
De gritar para as paredes e só receber o eco em resposta
Rasgar as cartas, as fotos, os quadros, os lençóis
Eu quero uma vida de verdade agora
Sem essas ilusões de que me alimentei

Chega do ranço das coisas velhas
Das costelas partidas e unhas gastas
Chega de brigas, de dor, de sangue
Eu quero passar uma borracha no que se passou
No passado imprestável do qual nada aprendi

Chega de linhas tortas e poemas descompassados
De contos e mais contos escritos na calada da noite
Chega de ser marginal, clandestina
Eu quero gritar pro mundo o que eu tô sentindo
Satisfazer esse instinto tão primitivo

Chega de ansiar por um futuro tão próximo e tão distante
De marcar os dias no calendário
Chegar a contar os segundos no relógio
Eu quero que esse dia se aproxime rápido
Chega logo, dia, chega.

24.8.10

Rapidinha

Se eu disser que te quero mesmo com todos os seus defeitos de fábrica e avarias circunstanciais, com validade perto de vencer e a embalagem já meio desgastada, independente do estado de conservação e sem garantia nenhuma... você vai me dar a chance de tentar te fazer feliz daquele jeito efêmero que só a gente sabe fazer?

Em Fuga da Terra do Nunca

Discordamos na maior parte do tempo sobre música. Onde eu digo "J-Rock", ela reclama que é muito agudo e diz "Electro-pop". Eu torço o nariz. Detesto putz-putz. Detesto pop. Ela segue em frente e diz que ouve muito Britney Spears, Rihanna, que adora Lady Gaga, mas que, apesar disso, o negócio dela mesmo é Yeah Yeah Yeahs e outras coisas do gênero. Nunca entendi direito como alguém consegue gostar dessas coisas, as letras são repetitivas, não me dizem nada. Faço o já conhecido símbolo do DEUS METAL e começo a discorrer sobre todas as bandas com vocal rasgado que adoro tanto. Ela vira as costas e vai espanar a poeira dos meus mangás, acumulados num canto. "Isso é coisa de criança/adolescente, quando você crescer nem vai lembrar mais o porquê de gastar tanto dinheiro com essas tralhas", ela me diz, e eu fervo de raiva. Não, você está errada, eu nunca vou enjoar disso. Digo isso em voz alta e ela ri, ajeitando os cabelos meio curtos, meio desfiados, atrás das orelhas. Até o corte de cabelo dessa mulher me incomoda. Faço uma trança nos meus, longos e retos, e pergunto sobre cinema. Ela afirma gostar de assistir filmes, mas detesta ir ao cinema. Eu sempre gostei. Acho que sempre vou gostar. É como se ela fosse quase diametralmente diferente de mim, e eu não vejo como seríamos capazes de nos entender. "Olha, eu sempre fui de resolver minhas diferenças na base do álcool." Ela sorri. Pensara na mesma coisa. A chamo pra tomar um vinho barato num boteco vagabundo qualquer, e de novo ela ri descaradamente dos meus gostos. Diz que só vai se for em algum barzinho que tenha boa comida e cerveja decente e bem gelada, de preferência perto de alguma dessas insuportáveis baladinhas que ela gosta de frequentar. Desisto de argumentar com essa mulher. Acho que nem quero ser amiga dela. Viro as costas e volto pro meu lugar no passado dela, quietinha. Éramos melhores amigas; agora ela não precisa mais de mim. Meu tempo já era.

Fecho a tampa da caixa de fotos, retoco a maquiagem no espelho e saio, Tiësto gritando bem alto nos meus fones de ouvido, rumo ao bar onde meus amigos me esperam com a tal da cerveja gelada. Lá no fundo de mim mesma, chego a ouvir a eu dos natais passados resmungando alguma coisa como "gente, como eu decaí". Ignoro e vou viver.

23.8.10

T

É a lembrança das muitas manhãs ociosas
Das raras tardes de palavras soltas ao vento
Das noites de estudos deixados de lado
Da malícia inocente.

É a percepção do tanto de você que ficou em mim
Que hoje é parte de mim e eu não consigo mais me livrar.
O carinho que azedou; virou arrependimento,
Depois mágoa, depois rancor, e hoje, só saudade.

É acima de tudo o desejo de que o tempo, sempre sábio,
Cauterize as feridas abertas
Alivie o peso em nossos ombros
E permita que tudo volte atrás.

Pois seja Renascença ou Barroco,
Pós-modernismo, Romantismo ou Surrealismo:
Nesse conto de mil lados
Ainda faltam muitas páginas pra acabar.

20.8.10

Em Busca da Terra do Nunca

Quando eu me joguei desse patamar da última vez, me esborrachei no chão sem medo nenhum da dor. Mas ela veio, ah, se veio, e durou tanto tempo que eu achei que ia morrer. Ao mesmo tempo, durou pouco, muito pouco, se comparada às dores diferentes que experimentei desde então.

Quando se é novo, tudo é muito intenso. Tudo parece que vai durar a vida toda, mesmo que seja questão de segundos até que sejamos capazes de nos por em pé de novo sozinhos. Quando se é novo, também somos mais resilientes. Acho que o mais próximo que chegamos de ser super-homens é na adolescência, quando pode cair o mundo na nossa cabeça mas ah, sempre vamos nos recuperar.

Quando crescemos, tudo muda. Uma pessoa uma vez me disse que fazer 18 anos não mudava porra nenhuma nas nossas vidas, exceto a quantidade de cobranças que recebíamos. Era muito mais uma questão de "você tem que fazer" do que "você pode fazer". A maturidade não estava na esquina nos esperando, mas as cobranças que deveriam vir com ela, sim. Acho que isso calou tão fundo no meu subconsciente de adolescente perdida que até hoje essa realidade se mesclou com a minha.

Quando eu cresci... ah, mas isso é balela. Eu não cresci. Só aprendi a conviver com as cobranças, dando um jeitinho gaiato aqui e ali. E assim vivo, nesse afã adolescente de querer crer que posso moldar a realidade a meu redor. Sei que sou capaz de ser tudo o que eu quiser ser - criar forças pra de fato sê-lo é que às vezes é difícil.

Mas acho que tem uma mentira aí no meio. Alguma coisa mudou sim. Eu ainda me jogo de alturas inimagináveis sem pensar duas vezes, só pelo prazer de me testar, sem medo da queda. Eu ainda faço coisas dignas de alguém com, sei lá, metade da minha idade. Eu ainda tenho essa esperança tola, adolescente, de que tudo vai dar certo no final.

Mas agora, eu demoro bem mais pra me recuperar. E é aí que está a merda toda de ser adulta.

13.8.10

Painkiller days

Os dias em que ela não vem são os melhores. Sinto meu espírito mais leve, minha mente mais limpa. Eu consigo ficar entediada comigo mesma em paz. Eu não consigo fazer essas coisas quando ela está por aqui. Ela toma todo o meu tempo, e eu só consigo sofrer as consequências. Eu só penso nela, o tempo todo, quando ela está por perto. Ela não me deixa fazer mais nada.

Já me acostumei com a presença dela, mas sei que isso não é saudável. Sei que ela não me faz bem. Pior: sei perfeitamente bem que o fato de ela estar tão perto de mim o tempo todo é um sinal nítido de que tem algo de muito errado comigo. Mas não dá. Não consigo afastá-la de mim por tempo o suficiente para que eu aprenda a viver sem ela.

Já disse diversas vezes: vá embora! Suma da minha vida! Me deixe em paz! Você dói demais em mim! Mas não adianta. Ela insiste, ela me ama, ela não me deixa só um instante sequer.

Maldita dor de cabeça que já dura umas duas semanas. Alguém tem um analgésico?

Trial and error - a poem

I was feeling too alone for my own sake.

You said you missed me
And I started to dream again

Just a nostalgic spell
That's all you mean to me
And I keep telling myself it's more than that.

I feel sometimes
Like I need to be in love to feel alive
And you've became my escape route
Because you got so close to me.

I desire your body
I miss your touch upon my skin
And I know in my bones
We're gonna be together for a while
And be gone.

Because as much as I love you
I'm sure as hell it'll never be
As much as you love me
I know it isn't enough to keep us together
'Cause distance is a bitch
And we both are nothing but whores

Do you believe you could be mine and mine alone?
I don't think so.
Do you think I could be faithful to you?
We know it just won't happen.
It doesn't matter how many times I whisper in your ear
I love you so much it hurts
As soon as I come back, I'd still fuck someone else

As soon as I turn my back
You'll be sleeping in someone else's bed
And that's precisely what I love so much about you
The fact that you are even worthless than I am
We'd be great together
But none of us is crazy enough to step forward to it
Because we know it'd be too advanced for the world
So happy together, so far away, so in love, so many people in between.

I show my skin to you
You show me how you feel
You're the only one I feel so comfortable about
You have always been the only one
And yet it's fated to be a platonic thing
We hook up and fuck around
And it's perfect and we feel safe
And then I go away and you get sad
And the next day you're with someone else, and so am I.

Someday, we'll get married
And have kids
And live happily ever after
It sounds delightfully like a fairy tale
Only we will never marry each other
I'm never having your babies
You'll never be the one I'm celebrating anniversaries with
We'll always be just like we are
A sweet memory of an adventure we had
And you'll say, "We were young and reckless and didn't know what we were doing"

Despite all that
There's one thing I can't deny
I've always loved you
We are too perfect to each other to make this work
And you will always be the best sex I've ever had
And I'm too damn sorry
That the circumstances weren't different
We could have been together forever
Only forever doesn't exist.
So, keep this memory safe
Because, as long as you keep it
We'll always be together.

6.8.10

Última viagem - parte 2

Querem beber o que hoje? Ah, eu escolho? Vamos de vodka, então. Vodka é bebida de russo comunista malvado. Vamos ser russos comunistas malvados. Vamos, deixem de preguiça, movam suas bundas secas e acomodadas e vamos no mercado. Ah, ninguém quer ir? Dá o dinheiro que eu vou sozinha então. Tá frio, porra.

- Eu vou com você. Não posso deixar uma dama andar sozinha por aí a essa hora.

Olhei nos olhos dele e ele deu um sorriso. Pra todo mundo, aquilo deve ter parecido a finalização amistosa de uma piada cavalheiresca. A mim, me pareceu sentir uma pontada de malícia em seus olhos. Ontem à noite, no terraço... Aquilo não foi um sonho. Ainda que parecesse bom demais pra ser verdade.

Coletamos o dinheiro da vaquinha etílica e saímos para a fria noite de inverno curitibana, acendendo nossos cigarros tão logo chegamos à calçada. Não era a primeira vez que nosso vício em comum nos colocava a sós, mas era a primeira vez que nós dois estávamos abertamente satisfeitos com isso. Nos demos as mãos e fomos caminhando em direção ao mercado mais próximo, sem medo de sermos vistos.



A ideia de que estávamos fazendo algo de muito errado passou de leve na minha cabeça enquanto eu procurava uma posição mais confortável para me apoiar no poço de pedra. Seus braços me enlaçavam a cintura, nossos corpos moviam-se juntos e o pensamento foi embora junto com a brisa da noite. Nem nos ocorreu o perigo de dois jovens recém-adultos serem presos por fazer esse tipo de coisa em um terreno baldio, até que ouvimos a sirene de um carro de polícia passando perto. Arrumamos nossas roupas amassadas e corremos para o mercado. Comecei a me perguntar se notariam a nossa demora.



Duas horas depois, entramos no apartamento com uma garrafa de vodka e toda a cara de quem tem culpa no cartório possível. Senti no meu sangue que de hoje esse namoro não passava. E ainda haveria a pausa pro cigarro de mais tarde... Comecei a tremer por antecipação.

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