19.7.10

A última viagem

Desculpas esfarrapadas. Nada mais. Eu sabia que o irritaria, mas fui mesmo assim, porque a necessidade era mais forte. Fumar. Depois de tanto álcool, eu precisava desesperadamente de uma dose de nicotina direto nos pulmões. Um foi comigo, teoricamente por compartilhar o vício, e dois que não fumavam, teoricamente pra conversar. Claro que não era nada disso.

Nosso suposto vício falou mais alto, e os dois fumantes passivos foram embora, enquanto fumávamos nossos últimos cigarros. Que não existiam. Abrimos minha carteira, abrimos a carteira dele e o vazio nos olhava. Bêbados, rimos e nos abraçamos. Tudo o que não devíamos fazer.

Fora da proteção das escadas, a chuva e o vento congelavam, mas o encontro de nossas peles já nuas parecia queimar. Era a prévia do inferno para onde seríamos enviados por isso. Já não importava. Mandei um belo foda-se, porque minha alma já estava perdida na primeira vez em que nossas mãos se tocaram. E eu queria muito mais do que segurar sua mão. Eu o queria em todo o meu corpo. E meu desejo foi atendido.

Horas mais tarde, me enfiei debaixo das cobertas junto a meu noivo, numa esperança vã de manter dentro de mim o calor do encontro proibido. O frio da culpa tentava me dominar, mas já era tarde. Eu sabia que a única coisa errada que eu estava fazendo era me enganar.

Ele tentou me beijar. Recusei, dizendo que estava com gosto de cigarro na boca. Mas também, você fumou uma carteira inteira lá em cima! Foram três horas! Grunhi qualquer coisa em resposta e virei pro lado, fingindo não vê-lo ali. Eu mal podia esperar pelo rendez-vous do dia seguinte.

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