31.12.10

Retrospectiva 2010


O ano começou no mar, molhando minhas calças jeans e meus tênis xadrezes. Tenho a impressão de que o vi se aproximando de levinho, mas pode ter sido só porque eu estava podre de bêbada. E foi assim que eu entrei 2010: As calças novas e limpas encharcadas e salgadas, a lentilha de Gabi que não passava de uma mera lembrança, apoiando nos ombros do Cris pra conseguir andar, de tão bêbada que estava. Um ano que se iniciou desse jeito não pode dar certo. Ou será que pode?

Pois deu certo. E, mesmo bêbada e com as calças em petição de miséria, liguei pros meus pais, com quem não falava direito há anos. E fiz as pazes com tantas outras pessoas queridas que mal consigo contar. E essa foi a tônica que definiu meu ano: muitos encontros e reencontros felizes.

Conheci muita gente boa, tanto pessoalmente quanto virtualmente. Me aproximei mais de pessoas que já eram próximas, me diverti, ri horrores, chorei pouco, compartilhei tudo e, no fim das contas, o saldo é mais do que positivo.

Foram 365 dias de boas histórias, de piadas, de lendas. Madrugadas em claro estudando. Madrugadas em claro preparando aula. Mas, mais importantes do que essas: madrugadas em claro com os amigos, seja dançando - e perdendo a dignidade -, seja bebendo - e perdendo a dignidade -, seja conversando e acalentando o coração. Nenhuma noite perdida, afinal.

Resolução pro ano novo? Ser feliz. Ou melhor, continuar sendo. E continuar correndo atrás dos meus sonhos. Porque eu sei bem onde quero chegar, mas o caminho eu vou decidindo na doida, e olha, o que eu puder fazer para que seja o mais divertido possível, PODE TER CERTEZA QUE EU VOU FAZER.

Quero terminar esse texto com agradecimentos e mensagens especiais. Porque, se meu 2010 foi um sucesso, a culpa é integralmente de vocês! Lá vai:

Pai e Analu - vocês são os melhores pais do mundo, mesmo. Pena que só fui perceber isso esse ano.
Cris - pra sempre, tá?
Ana - cuida bem dos meus três amores. E obrigada pela paciência.
Pri - vê se para de sumir, sua linda!
Nams e Anine - vamos dar aloca muitas vezes na faculdade esse ano, né, que mais um pouco e eu não vou estar mais com vocês.
Taz - brigamos, fizemos as pazes, nos afastamos de novo, e agora, o "pra sempre" também vale pra você, viu?
Dude - e as reséééééénhas!
Ty - ou melhor, Dean!
K - só uma palavra: CERVEJA!
Chico - que é um porre, mas a gente ama ele mesmo assim.
Fe - qualquer coisa com você é divertida, até escrever poesia concreta. Vamos brincar de nunca mais perder contato de novo?
Dea S - porque os ciggy-breaks nunca mais foram os mesmos.
Sue - porque as meninas super-poderosas precisavam de uma Lindinha!
Ham - mas só se parar com os comentários que me deixam TERRIVELMENTE CONSTRANGIDA.
Nique - e seus conselhos super cabíveis, sejam no âmbito estético, sejam no âmbito sentimental.
Kee - quando você aprender a parar de deixar pra me chamar pra fazer as coisas em cima da hora, você vai virar o amigo perfeito, haha. Vou sentir saudades de almoçar com você em Bio. Obrigada por ter mudado minha vida esse ano, mesmo que você nem se dê conta disso <3
Mine - que até de mau humor no twitter é linda.
Minmins - INDIE FOFA! INDIE FOFA! <3
Sly - o melhor irmão que uma pessoa da esbórnia podia ter.
Dea D - queria MUITO ter te encontrado em SP. Muito MESMO.
SN, Blao, Paulinha, Shay, Ed, Ted, Dan, Arthur, Pet, Limão - Pra vocês, minha mensagem de feliz ano novo vai ficar pra abril, tá? <3
Kazu - CADÊ ESSE LÍNGUA DE PRATA???
Milk - amor de mãe, né?
9, Bru, This, Thiz, Thin, Cercal, Lipe, Caioc, Caion, Vic, Pi, Piet, Fran, Gi, Guils, Di, Luc, Lety, Mandy, Ohki, Carolls, Rafa, Drei, Becca, Thad  - vocês foram as estréias mais aclamadas do meu ano. Obrigada por me aceitarem no grupo, obrigada por fazerem parte da minha vida (e sim, o momento emo de fim de ano continua. Deve durar até amanhã, mais ou menos, ou até eu ficar bêbada). Se eu for entrar em detalhes individualmente, vou ficar até ano que vem (rs) escrevendo, e pretendo que esse post vá ao ar antes da meia-noite. Mas cada um de vocês tem um lugarzinho especial aqui, ó <3 E, se eu esqueci de alguém, MIL PERDÕES. É muita gente pra pouco tempo, haha <3

E, a uma pessoa especial (você sabe que é você): cuida bem do que eu te dei, tá? Se for pra me devolver algum dia, faça o seu melhor pra me devolver inteiro. Eu também estarei cuidando do que você me deu com todo o carinho (L)

E aí, 2010? Já deu, né? Faz sua dancinha apoteótica aí enquanto dá tempo, e deixa logo 2011 e todas essas expectativas boas chegarem!

30.12.10

Wanderlust

Esta cidade ficou pequena demais para mim. Este estado ficou pequeno demais para mim. Este país. O próprio mundo, talvez. Abri tanto minha mente que a própria existência é pouco para abarcar tudo o que me define. Quero viajar, quero conhecer outros lugares, outros povos, outras verdades. Não quis pegar um avião simplesmente porque quero, enfim, experimentar na prática toda essa liberdade que eu sei que existe dentro de mim. Hoje, saio daqui Dianna; amanhã, nem sei. Amanhã, será outro lugar diferente, serei outra eu que nunca mais será a mesma.

Quero experimentar ao menos uma vez antes de morrer a sensação do vento selvagem ricocheteando meus cabelos. Voar, com minhas próprias asas, todo o trajeto que até hoje só pude testar pela experiência dos outros. Ir além.

Sinto falta de caminhar sozinha à noite e descobrir novos caminhos. Sinto falta de sentir a chuva fria na minha pele quente enquanto vago a esmo. Sinto falta de cheiros novos. Sinto falta de lugares que nunca conheci. Meu lugar, definitivamente, não é aqui. Estou decidida. Está na hora de partir.

Enfiei os farrapos que restavam da minha vida em uma mochila surrada e joguei nas costas. Não aguento mais ficar neste lugar. Não aguento mais ser eu o tempo inteiro. Não aguento mais manter minhas máscaras de segurança que restaram, depois de tanto tempo num canto só. Mochila nas costas, calcei minhas botas e subi na moto, quiçá para nunca mais voltar.

29.12.10

Plato

Estar só tem suas vantagens. Consigo pensar. Consigo, inclusive, não pensar e não me sentir na obrigação de fazê-lo. Paz. Enfim, paz, depois de tantos dias de correria e da adorável, porém por vezes sufocante, presença constante dos amigos. 

Me deito novamente no chão, um cigarro aceso em um dos cantos da boca e os cabelos soltos esparramados como chamas a lamber o piso azulejado. O chão frio sob minhas costas tem um quê de revigorante. A música alta ecoa pelas paredes nuas. É tudo muito branco, de onde estou deitada. Só comigo mesma, danço com o vazio, na esperança de que isso acalme a criança mimada e teimosa que cresce dentro de meu peito. Danço com minha sombra refletida na parede, e finjo que não preciso de mais ninguém. Estou feliz, estou sinceramente feliz. Mas falta algo.

Falta você.

27.12.10

Ruptura

Nos seus braços, me senti voando. Na cama, me senti poderosa, linda, senhora de mim e da situação. Em casa, depois, tomei a decisão: nunca mais.

E aí você não me liga, não me procura, e eu digo para mim mesma, sem problemas. Tenho outros, outros tantos como você, que de mim só querem aquilo que em geral não é tão difícil de conseguir. Não preciso de suas palavras ousadas, não preciso de seu toque apressado, não preciso de seu desejo unilateral que me culpa por suas falhas. Não preciso, e nem quero, de suas taras obcenas e hábitos nocivos. Passo, pela primeira vez desde o começo dessa história, dois dias inteiros sem pensar em você com carinho, sem fantasiar com você na minha cama.

Um café na minha frente e a companhia das pessoas que amo e que me amam era tudo o que eu precisava para fechar meu final de semana da forma mais perfeita possível. Eu não precisava de mais. Eu não queria mais, e ainda assim, o telefone tocou. Reconheci pelo toque, só podia ser você. Atendi sem muita pressa, sabendo que, o que quer que você quisesse, não era hoje que ia conseguir. Esperei sem muita confiança um feliz natal, um como vai, um que saudade, mas em troca só recebi o nada. A frieza transparecia no convite a uma noite quente. Tá aonde? Vamos pra um motel? Não, querido. Estou com meus amigos. Hoje foi um dia difícil e é com eles que quero estar. Tá bom, então. Depois a gente se fala. Tchau. Desligo o telefone com um meio sorriso no canto dos lábios. Era por esse cara que eu estava disposta a condenar minha alma ao inferno do julgamento alheio. Foi por esse cara que eu me prontifiquei a arriscar tantas e tantas coisas. Esse cara, que não vale um décimo do que eu valho.

Guardei o telefone bem fundo na bolsa e dei aquela sacudida na cabeça para me livrar de quaisquer idéias erradas que eu pudesse ter. Tomei o último gole do meu café, paguei a conta e fui para a casa do outro, disposta a passar a noite inteira fazendo o que eu não quis fazer com você: ser feliz.

26.12.10

A donzela e o menestrel

Abro os olhos e meu primeiro pensamento é seu. Parece que até acordar eu vivia num mundo de brumas onde meu destino era correr em círculos, atrás de algo que nunca ia me satisfazer. Abri os olhos, e corri para o celular, para o computador, para qualquer meio de comunicação que me pudesse trazer notícias suas. Em vão, claro, porque você não tem meu número e eu sei que você não vai chegar perto de um computador tão cedo.

Você tem outras prioridades, e eu, teoricamente, também. Mas me deixa curtir essa idéia só mais um pouquinho. Me deixa lembrar como é estar apaixonada e ser correspondida. Me deixa achar que essa história toda vai dar certo em algum momento, que a distância não é um empecilho e que eu não devia me preocupar com o fato de você ter outra pessoa com quem se preocupar. Me deixa gostar de você contra a opinião de todos os nossos amigos em comum. Me deixa, enfim, viver nesse mundo de fantasia e fantasias que criamos e onde vivemos juntos, naquilo que você chama de casamento e eu de pecado, confiando um ao outro nossas frustrações e erros do passado e nossas expectativas e esperanças pro futuro. Me deixa ser sua, porque é assim, nessa brincadeira de faz-de-conta, que eu cada vez mais me perco pra você e me torno cada vez mais incapaz de funcionar se não for sob suas vistas.

Eu abri os olhos e você não estava em lugar nenhum. Quase me desesperei, por meio segundo. Coloquei nossa música e me lembrei que você está onde sempre deveria ter estado: dentro de mim.

22.12.10

Bast

Abriu os olhos e percebeu que o sol já havia escondido sua face há mais tempo do que esperava. Hora de acordar, enfim. Espreguiçou-se lentamente, esticando cada uma de suas extremidades com muita cautela. Lavou-se com esmero, como todos os dias, e foi atrás de sua primeira refeição.

Adorava o prazer da caça. Divertia-se com a tocaia, sentia seu sangue queimando como lava enquanto a adrenalina corria por seu organismo. A vítima, incauta, mal percebeu o vulto cinzento à espreita até que já era tarde demais. Era tão fácil, tão natural, que não pôde resistir à tentação de ser cruel. Brincou com a pobre criatura, fazendo-a ser arremessada de um lado a outro até, enfim, dar-lhe o golpe de misericórdia, lacerando sua garganta.

Esticou-se mais uma vez, como que para espantar a preguiça que lhe abatia após uma lauta refeição, e pôs-se a explorar o ambiente em que estava. Não se lembrava muito bem como fora parar por ali, mas também não importava muito: seu lar era qualquer lugar sob as estrelas, seu abrigo qualquer um que o protegesse da chuva. Curioso, vagou pelos arredores até encontrar água que pudesse beber. Bebeu até fartar-se, e seguiu sua jornada pelos caminhos que lhe parecessem mais interessantes.

Finalmente, o céu começou a clarear novamente. Hora de descansar. Encontrou uma árvore, subiu até o galho mais alto que pôde alcançar, fez sua higiene mais uma vez para tirar os fiapos de mato seco da pelagem cinza espessa, enroscou-se em si mesmo e dormiu, ronronando de puro prazer por mais uma noite bem aproveitada.

20.12.10

Olhos

Sentou-se ao meu lado e fingiu não me ver. Difícil, numa sala daquele tamanho, mas ainda assim ignorou meu sorriso tímido, automático à sua entrada. Decidi que nem era comigo e me concentrei em observar fervorosamente as marcas de cupim no carpete velho, as mãos cruzadas sobre as pernas cruzadas. Linguagem corporal toda errada, gritando pro mundo que o desconforto era pelo novo membro do grupo.

Sua mão buscou a minha na hora menos apropriada. Um leve aperto. Para os incautos, um gesto de amizade. Para nós, tantos desejos velados que nem caberia nas palavras. Evitei seus olhos pelo resto do dia, sem coragem de admitir que algo neles mexia comigo. Acendi seu cigarro, sentei a seu lado, conversei desconversando, os olhos fugídios. Não era hora nem lugar para aquele flerte absurdo e despropositado.

Caminhou comigo até meu ponto de ônibus e conversou sobre coisas frias e mundanas. Vamos trabalhar juntos, preciso de alguém pra dividir um freela, como vai a faculdade? Os olhos cobertos por filmes negros, todos os quatro, os rostos firmemente voltados para o horizonte. As mãos que tornam a se encontrar na surdina, os sussurros em meio ao caos urbano: estou com saudades. Eu também. Na esquina, separam-se as mãos, as vozes, e restam só os desejos unidos. Os corpos, que pena, ficam para uma próxima ocasião. Ainda estou com saudades. Ele também.

15.12.10

Até que

Um leve desconforto em meio às tardes de ócio nerd. Isso era tudo que o que aconteceu entre nós, naquela noite lamentável há tantos anos, significava em nossas vidas hoje em dia. Até que um dia...

Sempre tem um "até que" nessas histórias, não é? Um deslize é perfeitamente inofensivo, até que. Um passeio com os amigos pelo shopping é algo perfeitamente normal para se fazer numa sexta à noite, até que. Comprar esmaltes só te deixa confusa na hora de escolher a cor, até que.

Até que uma proposta indecente é lançada no ar. Até que um beijo acontece espontaneamente no meio da fila. Até que pessoas bêbadas resolvem dar vazão a vontades que talvez nem soubessem que existiam.

Até que tudo isso se repete e gera uma expectativa.

E agora eu fico aqui, nesse medo de que as coisas fujam do controle. De que essa amizade se corrompa. De que nada seja mais como antes. E esse último medo é simbolizado pelo beijo de despedida, na porta de casa. Da minha. Pelo convite para jantar. Na sua casa. Sem o álcool como desculpa, como muleta, como catapulta. Seguimos como amigos, mas, na calada da noite, as coisas mudam.

Até que nossos mundos comecem a ruir.

13.12.10

Promessa quebrada

Era o fruto proibido
Era o nunca
Era o irresistível
Era.

O sangue intoxicado
As bocas que se buscam
As mãos
O fogo que consumiu-se
E as estribeiras perdidas
E as roupas espalhadas
A respiração entrecortada

Você entre minhas luxúrias
Eu escorro

Me sussurra
Eu desmancho

À luz da manhã
Me invade
Acordo, enfim.

10.12.10

Sex and the City

Depois do décimo toque do despertador, insistia em continuar dormindo. A cama estava confortável e o sonho era muito mais interessante que a realidade que me esperava. Eu estava num porão enfrentando um monstro que tinha devorado o cachorro que eu tinha acabado de adotar, enquanto tentava desesperadamente achar o carinha por quem eu ando de fogo no rabo. O décimo primeiro toque do despertador me convenceu de que nada podia ser pior do que correr o risco de encontrar o tal carinha coberta de restos mortais do monstro, então resolvi levantar da cama e ir adiantar a porra do artigo que eu precisava entregar naquele dia.

Do banheiro, ouvi o celular tocando e saí correndo, ainda limpando restos de pasta de dentes dos cantos da boca na barra do pijama. Pelo toque, sabia que era das pessoas que estavam na lista dos "a hora que ligar eu atendo". Olhei o visor - era ele. Resisti ao instinto de comentar que tinha sonhado com ele, e tentei acordar mais um pouco. "Hm.", atendi. "Tá pronta pra ir pra facul? Passo aí pra te buscar." "Nem. Acabei de acordar. Paper pra terminar. Só saio de casa depois das onze." Eu não estava nem aí se estava falando estilo telegrama, tava morrendo de sono. "Puxa, então a gente não vai se ver hoje?" "Não sei. Quando eu estiver na facul e livre a gente se vê." "OK, te ligo."

Desliguei o telefone e fui trabalhar. Pouco mais de duas horas depois, me vi na faculdade e já plenamente livre de minhas obrigações. Peguei o celular. Dividida entre ligar ou não ligar, resolvi mandar uma mensagem. "Tô na facul e tô livre." Ele me liga logo na sequência. Saio do prédio, vou pro estacionamento, no caminho me bato com a outra. Ou eu que sou a outra, já me perdi nessa história e, sinceramente, foda-se, tô nem aí. Cheguei no estacionamento, entrei no carro dele, lugar mais calmo. Conversa vai, conversa vem, beijo vai, beijo vem, as mãos também vão e vem. Zíperes se abrem. Me dedico a me fazer de besta, de inocente, de tímida, porque não quero ser julgada. E é aí que me cai a ficha de que nenhum de nós dois tem moral pra julgar o outro, e me jogo. De corpo, alma, mãos e boca.

Acho meio sexy um homem gemendo por minha causa. Especialmente se eu estiver fazendo algo no qual eu particularmente não me acho muito talentosa. Resolvi caprichar, e, na empolgação, nem prestei muita atenção nos detalhes externos. Ele gemia, gemia forte, e puxava meus cabelos. Eu já não sabia mais de onde tirar forças pra continuar, mal conseguia respirar, mas foi só ele anunciar, entre gemidos, que estava prestes a, e eu tirei energia sabe deus de onde pra ir até o final. Nunca tinha feito um homem gozar só com a boca.

Enquanto fechava o zíper da bermuda, ele olhou pra mim ainda trêmulo e fez graça, fingindo levantar uma plaquinha e dizendo que olha, nota 10. Dei risada. Ele pediu minha avaliação da performance dele, e eu achei o cúmulo. Me recusei a entrar no mérito da questão da aparência e tamanho do pau dele, minha mãe me ensinou a ser uma dama. Mesmo logo depois de chupar o pau de alguém num carro em pleno meio-dia na frente da faculdade. Depois de um pouco pressionada, falei o que achava. Ele ficou inseguro. Disse que confiava no talento dele, e que, caso ele não correspondesse, era bom que ele fosse bom de língua. Me chamou de safada, e eu só consegui rir. Fui de mocinha tímida a imprestável - à imprestavel que sou e nunca neguei ser - em pouco mais de meia hora. Voltamos para o local pré-escapada e eu não sabia se ria ou ficava vermelha.

Fugi e ele me ligou. Não precisava ter fugido, te ligo mais tarde, beijo. Não ligou. Foda-se. Tá na hora de começar a tirar isso do sistema. Sento no PC, abro o bloco de notas. Começo a digitar.

"Depois do décimo toque do despertador..."

8.12.10

Metáfora

Todo mundo tem um livro que é o livro da sua vida. Aquele livro que a gente lê em algum momento em que realmente precisa ler, e que vai carregar na nossa bagagem literária/pessoal pra sempre. Pra alguns, pode ser um livro de auto-ajuda. Para outros, muito mais interessantes, pode ser um livro de ficção ou poesia.

Ele entrou numa livraria procurando o livro de fantasia que representava a vida dele. Ele já o havia lido, muitos anos antes, quando ainda era um adolescente. Como com todo livro muito bom que a gente lê quando é adolescente, ele havia chegado àquele momento da vida adulta em que precisava reler pra realmente compreender a mensagem, e constatou que não tinha mais o livro. O perdera em tantas indas e vindas da vida.

Então, ele entrou na livraria e perguntou pelo livro. E descobriu que, para o seu azar, o livro estava esgotado. O vendedor afirmou que não era possível achar o livro em canto nenhum naquela cidade, nem na distribuidora, mas que existia um sebo muito bom em outro estado que talvez, só talvez, possuísse o livro em seu acervo. Caso não tivesse, o sebo poderia se prontificar a encontrar e enviar por um pequeno valor adicional. Mas isso poderia levar meses.

O rapaz deu aquele suspiro profundo e decidiu que talvez valesse a pena tentar. Mas, enquanto isso, pegou um outro livro qualquer na prateleira. A capa era bonitinha, a sinopse era interessante. Lembrou do amigo que o tinha lido e falou muito bem. Era um desses livros fantásticos novos, que às vezes tendem a não ter nem pé nem cabeça, mas, só de não se enquadrar na modinha absurda de histórias românticas com vampiros que parecia ter chegado pra ficar, já parecia ser bom o bastante. Levou o livro até o caixa, pagou e carregou consigo pra casa.

Enquanto terminava de ler o livro, uma história meio corrida e de final deprimente, se perguntou por que cargas d'água não tinha encomendado o livro que realmente precisava ler. Parecia ser tarde demais, e o papel com o contato do sebo tinha ficado em cima do balcão da livraria. Arremessou o livro fraco no cesto de roupa suja, apagou a luz e foi dormir. Amanhã daria um jeito. 

6.12.10

Interlude

Hey you, you can stay here if you want
You can even mess up my life
I know we don't got much to talk about
Just play with my hair and I'll be happy

[...]

Hey you
Did you know you make me wet just by looking at your smile?
I know I don't even have a bed to fuck in
But let me make a phone call, I'll have one in a while

I don't even care if you don't like me
And I don't even care if you don't need me
Can't we just spend tonight together
So I got something to think about tomorrow?

(The Murmurs - Squeeze Box Days)

5.12.10

Amizade x Amor

Amizade:

Toda vez que eu ouço uma música que sei que você gosta muito, dou risada e penso em você. Toda vez que como alguma coisa que você goste, penso em fazer alguma piada do tipo "comi tal coisa hoje, morra de inveja". Toda vez que você se apaixona, fico doida pra conhecer a menina e ser amiga dela também, porque se ela te faz feliz eu já gosto dela de graça. Às vezes brigo com você, mas é porque gosto demais de você. Porque somos parecidos demais. Mas mesmo assim, sempre fazemos as pazes. Porque eu sempre vou estar ao seu lado.

Amor:

Toda vez que eu ouço uma música que sei que você gosta muito, ou que sei que te faz pensar em mim, ou que tocou em algum momento em que eu estivesse com você... Sorrio, triste ou docemente, a depender de como esteja nossa relação, e penso em você. Toda vez que como algo que você goste, ou que tenhamos comido juntos, chego a sentir o cheiro da sua pele perto de mim. A comida muda de gosto, sei lá, fica mais especial porque é nossa. Toda vez que você me diz que está apaixonado, fico com um medo absurdo de que eu vá te perder de vez. NãO quero conhecê-la; sei que não vou conseguir gostar dela de todo, mesmo que ela seja a pessoa mais legal do mundo e que esteja te fazendo feliz. Vou torcer pela sua felicidade, mas não sei se vou conseguir ficar perto de você. E eu nunca quero brigar com você, porque tenho medo. Amar me dá medo. E aí eu guardo tudo pra mim até que um dia explodo, e você se assusta e se afasta. E eu tento consertar as coisas, às vezes em vão, e fica esse buraco enorme dentro do peito. Pode ser que um dia eu não esteja mais ao seu lado, mas você sempre vai ter um espaço reservado só pra você aqui dentro de mim.

3.12.10

Mãos

Suas mãos no meu rosto. Minhas mãos no seu pescoço. Você em mim: não é paz, é fúria. As garras dóceis cortam o silêncio, e me ouço pedindo debilmente que pare. Por dentro, grito para que não, continue, não me deixa assim. Isso não é apego - é desejo, é jogo. E nesse jogo eu só fico à espera do game over.

2.12.10

Linha ocupada

Aquele telefonema interminável. Aquela risada sem graça. As mãos que se tocam e acariciam e se separam e deixam a promessa no ar. O telefone toca e eu não atendo, porque sei que não devo. Me chama e eu não quero, porque sei que não devo, mas o diabinho da consciência me faz querer atiçar e eu atiço. Telefone. Sei que não devo, mas cedo, porque, diabos, só se vive uma vez.

Mãos que não se soltam. A música me agrada, a conversa flui. Me controlo para não ficar aproximadamente da cor dos cabelos que convenientemente cobrem meu rosto. Sua mão na minha - alerta vermelho. Minha mão na sua - realização de fantasias. Sua mão enfim alcança meu rosto, sua boca alcança a minha, e eu me vejo obrigada a estabelecer limites que não existiam antes pra tentar preservar um mínimo de controle nessa história que já não tem mais rédea que chegue.

Minha mão no seu rosto. Minhas unhas na sua pele, seus dentes no meu pescoço. Foda-se o controle, estou pronta.

Um telefonema. Bato a porta e saio na noite quente em busca de algo que me ajude a firmar as pernas, soprando ao longe um beijo.

29.11.10

Carochinha

Você pegou na minha mão e elogiou minhas cores. Olhou nos meus olhos e me tratou como mulher. Elogiou minhas formas e gestos e manias, e não desviou o olhar quando eu te disse o que queria. É proibido? Sim. Mas eu nunca me importei. E, pelo visto, nem você. E aquilo que começou como uma brincadeira adolescente foi tomando forma de coisa séria, e eu tenho medo de onde esse trem há de fazer sua estação final.

28.11.10

Este post se autodestruirá assim que eu ficar sóbria

Eu disse que te amava. Várias vezes, mesmo sem você perceber. E você me respondeu à altura, mais de uma vez. E isso é uma maldição, porque eu nunca mais vou conseguir tirar essa cicatriz do meu peito.


Pelo menos, já parou de sangrar.

E agora, o que eu faço com isso? Simples. Eu espero a dor parar, o hematoma desinchar, os pontos caírem. E aí, depois que os analgésicos e anestésicos não forem mais necessários, eu posso curtir esse sentimento da melhor maneira possível: me aproximando de novo, com cuidado para não me queimar.

Porque é assim que eu lido com meus amigos, com todas as pessoas que amo. Ninguém se livra de mim tão fácil. E eu tenho certeza de que eu deixei uma marca em você também.

E de agora em diante a fábrica fechou. O epitáfio ainda é válido. Ele morreu. Só sobraram os frutos.

Porque se eu abrir mais uma cicatriz pra deixar mais alguém entrar, é bem capaz de eu não sobreviver.

25.11.10

Palavras

Todas as palavras que você me deu eu guardei. Todas elas, sem dó, mesmo as que mais doeram. E elas doeram, por mais que eu mantivesse firmemente um sorriso nos lábios e os olhos nos seus. Eu sorri, te olhei nos olhos e guardei tudo. Não por me importar com o que você tinha a dizer - e, preciso admitir, ainda que a contragosto: me importo -, mas porque eu sabia que um dia eu poderia usá-las a meu favor. Mesmo que leve anos.

24.11.10

Criatura

Eu só queria ter algo pra cuidar, pra dar atenção, para ocupar o vazio dos meus dias. E inventei você, do jeitinho que eu queria, e te dediquei horas e mais horas do meu dia, vastidões de espaço no meu pensamento, páginas e páginas de poemas e canções. Vivi com você. Falei de você para as pessoas que eu amava, de tal forma e com tal intensidade que elas te conhecem tão bem quanto eu, que te criei. E você foi minha muleta para acreditar que o que eu estava fazendo com a minha vida valia a pena, que as decisões que tomei eram bem embasadas e razoáveis. E agora que me convenci de que não foi tudo inútil, não preciso mais de você.

Mas quem disse que eu consigo desapegar desse amor que inventei?

22.11.10

Máscara

É aquele vazio que bate e faz a gente só querer uma boa xícara de chá quente e uma cama confortável pra se enfiar debaixo das cobertas e esquecer do mundo. É aquele frio de doer os ossos, o frio que vem de dentro e faz a temperatura de todo o resto desregular. É se ver sem chão, sem amparo, sem ter para onde correr para fugir dessa dor que parece que vai te consumir por inteiro, pura e simplesmente porque o inimigo está dentro de você. É enfiar as garras nas feridas abertas e sentir sua alma sangrando, é se rasgar por inteira e deixar que o tempo elimine os vestígios de você. É não conseguir chorar de tanto cansaço. É aprender a fingir tão bem que começa a enganar a si mesma. É se apaixonar pela dor que sente e alimentá-la para transformá-la em musa. É sorrir com os lábios e com os olhos, mas dificilmente com o coração. É falar demais para evitar pensar. É não ser para conseguir estar.

Isso tudo, é isso que eu sou. Mas só quando ninguém está olhando.

20.11.10

Momento diarinho: NOT MYSELF TONIGHT (or LAST night, whatever)

Nada de tequila, nada de me sentir tão bem assim, nada de beijar todas as meninas ou meninos. Ainda assim, chamem um médico, e rápido: acho que eu enlouqueci de vez. Definitivamente, não fui eu mesma à noite passada, mesmo que o resto da noite não tenha absolutamente nada a ver com a música que entitula o post e geralmente serve de paralelo com minha vida.

Uma das coisas que me incomodava nessa relação é que ela cada vez mais parecia fundamentada naquilo que a gente sempre fez de melhor juntos, e eu não me refiro às piadas muito muito ruins. Não consigo me lembrar de uma única situação, desde o fatídico dia do terraço há trocentos anos, em que estivéssemos juntos no mesmo ambiente e não estivéssemos JUNTOS.

E essa noite eu consegui controlar meu instinto de me jogar. Não só porque resolvi ser uma pessoa decente pra variar um pouco, embora isso tenha ajudado, mas porque estava mais do que disposta a encarar isso não como sair com um ex-talvez-futuro-whatever-peguete, mas com um amigo de quem gosto bastante e os amigos dele. E, sabe? Isso serviu para me fazer chegar à conclusão de que passei dessa fase tão física, porque foi a noite mais divertida (vou evitar a palavra "prazerosa" nesse contexto porque, bom, isso não seria verdade) que passei em companhia dele since, I dunno, EVER.

Mas que dormir de conchinha só como amigos foi difícil pra caralho pra mim, talvez pela primeira vez na vida, AH ISSO FOI.

18.11.10

Preparativos

Faltam 13h. Saio da minha sala gelada rumo ao forno que é a noite de Salvador. Acendo um cigarro e desabafo meus problemas sentimentais com a nova colega de trabalho que já parece best-friend-forever-since-ever a caminho da padaria. Volto pro trabalho. Café, café, café. A aluna chega. Uma hora de aula que parece se estender ao infinito.

Faltam 12h. Sento na frente do computador e digito meia dúzia de coisas depressivas no twitter. O humor não está dos mais condizentes com a condição de "pessoa-que-vai-viajar-amanhã". Mais café. Está na hora de ir embora, e eu nem estou conseguindo mais rir das brincadeiras dos co-workers. Entro no primeiro ônibus que me deixe a 5 minutos de distância dali.

Faltam 11h. Ligo o notebook, digo oi para os amigos e tomo banho. Brinco com o gato. Faço e desfaço as malas para me certificar de que não esqueci nada. Ansiedade. Ansiedade.

Faltam 10h. Já não sei mais o que fazer pra distrair minha cabeça. Penso em tudo o que pode dar errado e faço planos B, C, D e E. Música, música é bom pra relaxar. Canto junto. Danço. Minha coluna vai me matar, mas foda-se.

Faltam 9h. Eu devia ir dormir. Estava podre de cansada quando saí do trabalho. Cadê o sono? A janelinha do MSN pisca e me faz criar planos A, muitos planos A. Telefone. Meia hora no telefone. Side-quests. Minhas costas estão a ponto de pedir arrego.

Faltam 8h. O cigarro acabou. Preciso dormir, preciso acordar em cerca de 5h. Troco o CD, coloco música ambiente pra tocar. Relaxo. O notebook desliga sozinho, é um sinal. Ligo de volta. Coloco o mesmo CD pra tocar. Arrumo a cama, faço cafuné no gato, fecho a necessaire, coloco o mp4 pra carregar. Peço a um amigo  pra ligar pro táxi pra mim pra agendar pra amanhã, 6h, eu sair daqui. Mais cafuné no gato. Ainda não consigo relaxar.

Faltam 7h. Fuck you, insônia.

17.11.10

Medo de quê?

Eu não conseguia olhar nos seus olhos porque tinha medo de que os meus me traíssem. Medo, muito medo, de que eles gritassem com toda sua força o nome daquele sentimento que eu insistia em esconder. Medo de que a intensidade do meu olhar te assustasse e te afastasse pra sempre de mim. E agora meu medo é de que seus olhos estivessem procurando os meus o tempo todo e eu, esquiva e assustada, não te tenha deixado se aproximar. Medo de ter te afastado pra sempre.

No fim das contas, sempre peco mais pelo meu medo de estar só.

16.11.10

Desdor

Des  tro  ços
Dis   tor  ção
Dis   tor  ci     da

           que estou
            sou
             ser ei

as palavras se contorcem
         retorcem
            torcem
                sem dor
                des   tro   ça   dor

11.11.10

Ansiedade

Olho no relógio. Falta pouco agora. Respiro fundo, procuro uma fruta pra comer. Abro a mala - está tudo lá. Está tudo lá e eu aqui, pronta pra sair à menor provocação. Ao menor suspiro. É preciso dizer aos meus nervos, "acalmem-se, seus idiotas", para conseguir sequer respirar direito. A porta entreaberta não é pela brisa, é pela praticidade. E ela me tenta. De uma forma irresistível.

Desisto da fruta. Jogo a mochila nos ombros desnudos, penduro a jaqueta de viagem na dobra do braço e saio correndo, pra só voltar na próxima estação. Isso se voltar.

3.11.10

Gatonirico

Abriu os olhos e percebeu que estava no trabalho. Na sua cadeira, seu substituto oficial. Deu de ombros e foi pra sala onde costumava ocupar suas horas ociosas. Deu de cara com gatos, muito gatos, miando e pedindo carinho e sendo adoráveis. Um conseguiu escalar seu ombro, e lá ficou, pendurado, ronronando baixo perto a seu ouvido, amassando a blusa com as garrinhas. Colocou o gato no chão. O gato se tremeu todo, e tremendo, sentou num canto. Ameaçou molhar o chão, mas conseguiu segurar. Piscou os olhos, muito redondos muito enormes muito azuis, e olhou com carinha de triste. Ela ficou com pena por meio segundo. Depois, acordou.

28.10.10

Epitáfio

Faz frio aqui dentro. Faz frio lá fora. É tudo gelo, está tudo congelando, e toda a proteção do mundo não vai me manter a salvo. Estou congelando, e em breve não haverá mais esperança de verão. Mesmo que o sol queime, mesmo que se incendeie tudo, mesmo que o mar incandesça e magoe meus olhos cansados e acostumados à escuridão - continuarei no lento processo de me tornar uma estátua gélida, incapaz de me mover, congelada como congelados parecem estar os anos.

É a falta que sinto dele. Ele, que tantas noites me aqueceu, em vão. Ele, que protegia o que em mim havia de mais precioso. Guardião dos meus sonhos e esperanças, perpetrador das ilusões e desejos, que por tantos anos julguei ser eterno em mim. Moldei-o e mistifiquei-o dentro de mim, recriei-o à minha imagem e semelhança e me iludi ao crer que era a única que realmente o conhecia a fundo. E agora, enfim, ele me abandona, e eu não sei mais o que fazer com todas as coisas que criei em sua honra. Não sei o que fazer com essa ausência de sentimentos. Não sei o que fazer com o vazio que cresce, aterrador, e me devora, e me consome, e me exaure ao limite.

Saudade. É tudo o que me resta para manter a sanidade, para me fazer confiar que ainda não enlouqueci de vez, para que eu acredite que ele realmente existiu em minha vida. Ele não existe mais, mas sei que, enquanto eu for capaz de me lembrar da calidez de seus toques em minha alma, vou conseguir me manter sã.  Sei que minha vida continuará, mas sempre faltará alguma coisa. É a fé na reencarnação que me faz seguir em frente.

A verdade é que não sei como reagir à morte do amor em mim.

26.10.10

Seca

Não sei medir ou conter o que sinto; nessa vida, só sei sentir. Foi só o que aprendi, e até nisso sou auto-didata. Não vou mentir: sequer sei quem ou o que sou, ou para que sirvo. Só sei o que sinto, e, de uns dias pra cá, só sinto amor. O pior tipo de amor, aquele que não se concretiza, fica estagnado e morre de solidão. Mas o meu se concretizou, e viveu, e correu livre e desbragado até o momento em que deixou de ser. E aí fico eu aqui, com todo esse volume de sentimentos ocupando um espaço imenso dentro do meu peito, sem ter por onde dar vazão, sem que eu tenha pra onde correr pra aliviar esse contrário de vazio, essa amplitude que eu descobri dentro de mim e preferia que nunca tivesse. Eu era seca, eu estava seca; agora, soçobro e afogo em mim mesma.

22.10.10

Recaídas

Você tinha deixado meus sonhos em paz. Passaram-se alguns dias, e eu achei que estava curada. Foram noites tranquilas, sem a dor nas costas característica de passar três dias seguidos tão agarrada com você que parecia que eu já fazia parte de você. Noites de saber onde eu iria dormir sem a menor sombra de dúvida, manhãs de acordar e saber onde está minha escova de dentes.

E aí, tudo começou de novo.

É o calendário cujas folhas não são arrancadas rápido o suficiente. São as músicas que insistem em me lembrar de você. São os textos que escrevi pra você. E agora, não bastasse todo esse excesso de informações suas na minha vida, você volta a assombrar meus sonhos. Novamente, você faz comigo todas aquelas coisas maravilhosas que só você soube fazer até hoje. E sussurra no meu ouvido que está feliz. E me dá a mão, e eu acordo. Acordo com uma de nossas tantas músicas na cabeça, que pra mim são nossas mesmo que pra você não signifiquem. Penso em você.

E eu quero muito acreditar que é só sexo, que nunca vai passar disso. Eu digo e repito mentalmente até quase enlouquecer. E aí eu lembro de você cuidando de mim, me protegendo sempre que estou por perto, e nossas conversas que me fazem quase acreditar que somos quase a mesma pessoa. E aí eu vejo que me apaixonei de novo. Tudo o que eu não queria que acontecesse.

Corro pro PC e coloco o CD de uma de suas bandas pra tocar. Hoje vai ser um longo, longo dia. E sem você.

18.10.10

Missing files

Eu, definitivamente, não sou uma pessoa organizada.

Na verdade, nunca fui; acho que CAOS é meu nome do meio. OK, talvez eu tenha nomes do meio demais, mas se eu precisasse escolher só um que defina minha situação, seria Caos. Até porque Esbórnia, Accident-prone e Desordem são todos manifestações desse meu caos interior. Mas isso é digressão. O fato é que uma professora minha certa vez disse que o ser humano não sabe lidar bem com o caos - é preciso encontrar lógica, ou criar lógica, em pelo menos um aspecto do que nos cerca para que possamos funcionar. Eu achava que quem formulou essa teoria o fez simplesmente porque não me conhecia. No entanto, esta manhã, enquanto enfiava as coisas de qualquer jeito na mochila, vi que eu não poderia estar mais equivocada.

Meu quarto existe num avançado estado de entropia permanentemente. Meu armário, a despeito dos meus esforços em organizá-lo, tem uma aparência constante de cidade saqueada por uma horda de piratas sanguinários e famintos. Meus cadernos de anotações misturam poesia, desenhos, rabiscos ininteligíveis, bilhetes apressados e números de telefone. E eu me recuso a entrar no mérito da questão da minha vida sentimental porque senão esse texto vai ficar quilométrico.

No entanto, Cheshire - sim, meu computador tem nome de gato - é impecavelmente organizado. Meus livros se dividem por tema e ano de publicação. Os CDs, ordem alfabética. DVDs, ordem alfabética e gênero. Sou doentiamente organizada com meus objetos de cultura e entretenimento, mesmo que o resto de minha vida seja a perfeita definição de balbúrdia.

Ou, pelo menos, era assim. Até hoje de manhã, quando descobri que não fazia a menor idéia de onde estava o case de seriados. Que eu precisava encontrar pra pegar uma temporada que fiquei de emprestar pra uma amiga. Sempre me orgulhei de manter pelo menos essa parte da minha vida organizada, e agora me pego revirando armário, escrivaninha e todo o resto.

E revira a bolsa, e revira a cama, e revira até a geladeira. Nada do case.

Se alguém visualizar um case de CDs andando por aí, por favor, peçam a ele pra voltar pra casa. Sinto falta das minhas mp3.

13.10.10

Retorno

O calor das noites frias
O conforto nas quinas
A máscara que pude, enfim, tirar

Perto, só sei ser eu mesma
Sem esforço nem maldade
Sem esperar compreensão
Sem palavras

Tudo parecia um sonho
Não sei nem se eu sou real
Mas não quero respostas
Só quero ser, real ou não
Só quero estar

Não me importo com a incerteza
Ou finjo que não
Sem ar
Sem chão

Até que o frio ficou quente
E o quente esfriou
E deixou o vazio entrar

25.9.10

Inflamável

Eu queimo. Queimo, derreto e evaporo. Não nasci pra ser um item imutável – sou cometa, sou raio, sou fenômeno natural, tão destrutivo quanto possível. Me exponho até o cerne, mas não me exponho – criei um personagem do qual não consigo me livrar, nunca. Às vezes acho que esse personagem assumiu de vez o controle sobre minhas ações. Faz tempo que deixei a adolescência, mas ainda assim, não consigo responder direito à pergunta: quem sou eu, de verdade? Dianna Montenegro não é quem eu sou. Não é quem eu quero ser. Mas ela já criou vida própria. É ela quem senta na faculdade e faz piadas sobre os professores. É ela quem passa o expediente inteiro no trabalho baixando filmes e seriados e falando pro mundo. É ela quem assume nas noites perdidas no Rio Vermelho. Mas ela é só um lado de mim.

23.9.10

Líquida

Você já tentou represar uma quantidade grande de água em um espaço muito pequeno? É impossível. A água é resoluta, recusa-se a ficar em claustro - transborda. Água boa é água em movimento; água que não se move, estagna. A água não destrói o que tenta lhe alcançar, como o fogo; a água não finca raízes, como a terra; a água tem delírios de ar, mas tem uma maleabilidade que ao ar não cabe.

Pois bem; está mais do que na hora deste rio aqui seguir seu curso, antes que vire pântano, apodreça e deixe de ser para existir.

21.9.10

Auto-biografia I

Gerada num dia fora do tempo, numa noite de lua negra, numa casa condenada, caindo aos pedaços, ocupada por dois perfeitos desconhecidos determinados a me trazer ao mundo. Criada num lar desfeito, por uma mãe desequilibrada e um pai que se esforçava tanto que acabava por nunca estar. Desde cedo, o álcool como tutor. Indesejada pela maioria, adotada pelos demais. Órfã aos 17, toda uma bagagem de erros nas costas, uma estrada de nuvens cor-de-chumbo à frente. Prometi: só volto vitoriosa, ou em um caixão. Ainda não chegou a hora de decidir qual dos dois.

20.9.10

Amor de Recreio*

A sua pele é neve; a minha incandesce.
As mãos espalmam-se, e do toque sai vapor.
Ronrono, suave;
Você sorri e expira.

Sob as árvores e o sol do fim da tarde
Me perco, e o momento passou.

Um abraço, um até logo
E várias promessas não feitas.
Sorrio de volta.
Amanhã, nada vai mudar.

Sabe? No final, talvez eu prefira assim.





* Título-piada-interna. Do tipo que só quem segue a mim ou a @ana_flaming no twitter vai entender.

16.9.10

Ninho antigo

Adoro a cidade em que moro, mas não aguento mais morar nela. Salvador é suja - em todos os sentidos que você for capaz de aplicar a palavra "suja" - e desorganizada. As pessoas - prestem atenção, estou fazendo uma generalização, não apontando dedo na cara de ninguém - são mal educadas. O clima é quente, abafado, úmido demais. Sinto como se estivesse sempre molhada - quando não é a chuva, é o meu suor. A cidade é muito bonita, mas olhando ao redor, percebe-se que está praticamente abandonada às moscas.

Adoro meu trabalho e as pessoas que trabalham comigo. Mas, de uns tempos pra cá, aquele sorriso nos lábios que brotava espontaneamente ao pensar em ir pra lá tem sido mais e mais raro. Me sinto exausta só de pensar na distância que preciso atravessar pra chegar ao trabalho. Me dá agonia pensar nas duas horas de ônibus de todo dia pra ir de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Olho a lista dos alunos do dia e suspiro fundo, lamentando-me porque sei que esse aluno não vem, esse vai chegar meia hora atrasado e querer que eu faça milagre e aquele terceiro até que é tranquilo, mas vou precisar do diário de classe do professor dele, que não atualiza os dados desde a última era glacial e não está na escola hoje. O café vai estar sem açúcar, aguado, frio ou todas as três opções simultaneamente; toda vez que eu tentar escapar pra fumar um cigarro, alguém vai surgir com alguma nova obrigação.

Sou apaixonada pelo meu curso na faculdade. Na verdade, acho que a única parte do dia em que realmente sorrio com vontade é a manhã. Sei que vou aprender/rever coisas que me interessam. Sei que estarei junto com pessoas que me são muito queridas. Sei que darei boas risadas. Mas também sei que isso quer dizer acordar mais cedo do que meu organismo, movido a café-cigarro-álcool, gostaria. Quer dizer subir e descer um monte de escadas e ladeiras, sujar a barra da calça de lama, almoçar correndo. Quer dizer encarar aquele professor chato que faz a matéria mais interessante parecer pura boçalidade.

Sair com os amigos, coisa que deveria ser um motivo de alívio no meio de tanto desânimo, parece mais um sacrifício. Me arrumo. Calço sapatos de salto, visto uma minissaia, uma blusa decotada e... bate aquele mau pressentimento, invariavelmente correto. Não me dá mais prazer. Não vejo mais graça em sair, encher a cara como se não houvesse amanhã, beijar uns 3 garotos, 2 garotas e um poste e chegar em casa de manhã. Especialmente porque nunca me lembro de ter feito nada disso.

Sinto vontade de procurar um terapeuta às vezes, mas duvido muito que possa me ajudar. Acho que meu problema se resume em uma palavra: tédio. Estou há tempo demais na mesma cidade. No mesmo emprego. Na mesma rotina. Preciso de mudança. Preciso ir embora. Mesmo que seja pro Acre.

Desconhecimento

Não tinha o direito de tocá-la, mas também era difícil manter-me distante. Deitadas lado-a-lado, repousei minha cabeça no seu ombro e a abracei. Ela estremeceu. Um casal de amigos dela, sendo um colega meu de faculdade e o outro primo de um amigo meu, deu risada de nossa intimidade recém-criada. Me aninhei mais, feliz como há muito tempo não me sentia. "Você sabe que eu sou hetero", ela me disse com ar de reprovação. "Você sabe que eu não me importo", respondi meio divertida pelos protestos. Ela me puxou pra perto. Olhei nos seus olhos e tenho certeza de que a confusão em meu semblante estava mais que nítida: eu não fazia absolutamente a menor idéia de quem era ela.

14.9.10

Rapidinha 2

Era bem tarde quando abriu a porta. Exatamente quase tarde demais, nem um minuto a menos, a porta escancarou-se e deixou toda aquela torrente de assuntos mal resolvidos e mal enterrados invadir. Um vendaval entrou junto com a poeira de lembranças e carinhos há muito guardados, bagunçou todo o tênue equilíbrio que reinava e me soterrou debaixo de uma pilha de sentimentos que, a essa altura, já rescendiam a mofo e coisa velha. Para onde quer que eu olhasse, só aquele mar de coisas que tentei esconder a todo custo, que neguei até não ter mais forças pra negar. Agora, estou cansada demais pra lutar contra essa maré que teima em me arrastar, e deixo que essas ondas me levem até onde quiserem.

9.9.10

Paraíso Perdido

Coloca pasta de dentes sabor tutti-frutti na escova roxa. Cuidadosamente, escova todos os dentes, pra em seguida bochechar com um enxaguatório bucal sem álcool. Escova umas 100 vezes o cabelo em-fase-de-crescimento e prende numa trança. Veste o pijama rosa que ganhou no último aniversário e vai preparar a cama, forrada de lençóis rosa, lilases e roxos, para receber seu corpo meio rechonchudo. Afofa o travesseiro e coloca a capivara e o elefante de pelúcia debaixo das cobertas também. Faz uma breve oração, desejando o bem-estar de todos aqueles que ama. Dá boa noite com voz de criança - aquela voz de criança usada só pras pessoas realmente legais - e senta na beira da cama pra descalçar as pantufas de tigrinho. Estica-se pro computador, convenientemente estacionado do lado da cama, e monta uma lista de músicas pra embalar seu sono. Depois de acrescentar Nine Inch Nails, Dir en Grey, Rammstein e Kidneythieves na lista, finalmente deita, vira pro lado e dorme, agarrada com seus bichinhos, alheia a todo o resto.

8.9.10

Despedidas

Meu quarto nunca foi lá muito organizado, mas dessa vez estava um pouco demais. Ele estava sentado em cima da minha escrivaninha, aquele elemento a mais de caos na minha vida já completamente caótica por definição. Aquele elemento de caos que me deixou rindo feito uma idiota quando brotou de surpresa na minha cidade pra uma visita. Por isso não deu pra arrumar tudo em preparação; ele chegou do nada, sem avisar.

Então, ele estava sentado na escrivaninha, e eu sabia que não faltava muito tempo para ele ter que ir embora. A proximidade do momento da separação me deixava meio apreensiva, mas não demais, já que eu sabia que em breve seria minha vez de cruzar o pais para vê-lo. Estávamos em silêncio, eu perdida na minha apreensão e ele, bom, sei lá no que ele pensava. Serj Tankian gritava alguma coisa nas caixas de som, mas eu estava distraída demais pra prestar atenção.

De repente, o telefone dele tocou. Por questão de educação, decidi que era um bom momento para dar o fora daquela zona. Virei minhas costas e fui até a cozinha pegar alguma coisa pra beliscar. Quando voltei pro quarto, ele já não estava mais lá. Nem a porção dele da bagunça, uma mala displicentemente arremessada num canto. Estranhei. Sensação meio esquisita na boca do estômago. Corri até a sala e dei de cara com minha colega de quarto.

- Viu o Fê?
- Saiu ainda agora, te deixou um beijo, disse que arrumou uma carona pro aeroporto e não ia dar pra esperar você voltar.
- Oi?

Fui até a janela. Nem sinal. Aparentemente, a carona já ligou da porta aqui de casa. Me emputeci bastante, sabe? Não é normal uma pessoa vir de tão longe pra visitar alguém e ir embora assim, do nada, sem nem dizer tchau. Calcei meus tênis meio correndo, peguei um guarda-chuva - chovia a cântaros, como costuma acontecer durante a metade do ano em que Salvador não é insuportavelmente quente - e pulei dentro do primeiro Lapa-Itinga via Aeroporto que passou.

Devo ter cochilado dentro do ônibus, sei lá, mas nunca o trajeto Federação-Aeroporto foi tão curto. Corri como se minha vida dependesse disso até o portão de embarque, e consegui chegar lá antes dele. Estava pronta pra xingar. Pra reclamar que era muita falta de consideração. Pra não falar nada, simplesmente olhar pra cara dele com aquele olhar-de-fúria-gélida que eu só consigo fazer quando estou extremamente puta da vida, virar as costas e ir embora. Eu só não estava pronta pra cara que ele fez quando me viu. A raiva pareceu evaporar e sair em nuvenzinhas de fumaça vermelha pelos meus poros, tipo um nitrous purge, enquanto eu me aproximava lentamente, um pouquinho constrangida por ter chegado ali tão rápido e tão nitidamente em pé-de-guerra.

Ele abaixou os olhos quando cheguei perto. Me pareceu distinguir um leve tom de vermelho em seu rosto. Desviei os olhos, subitamente consciente do peso da situação. Nunca fomos namorados, mas o ar, pra mim, tinha cheiro, cor e gosto de pé na bunda. Ele quis ser o primeiro a falar.

- Pois é... eu tenho um problema, não sei se você lembra, mas eu...
- ...detesta despedidas. - completei por ele porque só agora me lembrei desse detalhe - Eu também. Mas ia ser uma puta sacanagem você ir embora assim sem me dar a chance de um último beijo.
- Não ia ser o último. Você vai me visitar logo, né?
- É. Mas eu queria algo pra ficar na memória.
- Engraçado como eu sempre me sinto triste quando a gente se separa.
- Engraçado? Eu acho normal. E adorável.
- Você gosta de ficar triste. - Não era uma pergunta.
- Não. Eu gosto de ter um motivo pra ficarmos tristes quando um de nós dois vai embora, é diferente.
- Xaxim Guaxinim...
- Hm?
- Vamos mais pra longe do portão de embarque um pouquinho? Não quero me despedir de você aqui. Fica com cara de pra sempre.
- Tá. Mas se você chorar, eu choro.

Demos as mãos e viramos as costas. Eu já sabia que nunca iria ser pra sempre.

25.8.10

A próxima viagem

Chega de tanto sofrimento surdo
De gritar para as paredes e só receber o eco em resposta
Rasgar as cartas, as fotos, os quadros, os lençóis
Eu quero uma vida de verdade agora
Sem essas ilusões de que me alimentei

Chega do ranço das coisas velhas
Das costelas partidas e unhas gastas
Chega de brigas, de dor, de sangue
Eu quero passar uma borracha no que se passou
No passado imprestável do qual nada aprendi

Chega de linhas tortas e poemas descompassados
De contos e mais contos escritos na calada da noite
Chega de ser marginal, clandestina
Eu quero gritar pro mundo o que eu tô sentindo
Satisfazer esse instinto tão primitivo

Chega de ansiar por um futuro tão próximo e tão distante
De marcar os dias no calendário
Chegar a contar os segundos no relógio
Eu quero que esse dia se aproxime rápido
Chega logo, dia, chega.

24.8.10

Rapidinha

Se eu disser que te quero mesmo com todos os seus defeitos de fábrica e avarias circunstanciais, com validade perto de vencer e a embalagem já meio desgastada, independente do estado de conservação e sem garantia nenhuma... você vai me dar a chance de tentar te fazer feliz daquele jeito efêmero que só a gente sabe fazer?

Em Fuga da Terra do Nunca

Discordamos na maior parte do tempo sobre música. Onde eu digo "J-Rock", ela reclama que é muito agudo e diz "Electro-pop". Eu torço o nariz. Detesto putz-putz. Detesto pop. Ela segue em frente e diz que ouve muito Britney Spears, Rihanna, que adora Lady Gaga, mas que, apesar disso, o negócio dela mesmo é Yeah Yeah Yeahs e outras coisas do gênero. Nunca entendi direito como alguém consegue gostar dessas coisas, as letras são repetitivas, não me dizem nada. Faço o já conhecido símbolo do DEUS METAL e começo a discorrer sobre todas as bandas com vocal rasgado que adoro tanto. Ela vira as costas e vai espanar a poeira dos meus mangás, acumulados num canto. "Isso é coisa de criança/adolescente, quando você crescer nem vai lembrar mais o porquê de gastar tanto dinheiro com essas tralhas", ela me diz, e eu fervo de raiva. Não, você está errada, eu nunca vou enjoar disso. Digo isso em voz alta e ela ri, ajeitando os cabelos meio curtos, meio desfiados, atrás das orelhas. Até o corte de cabelo dessa mulher me incomoda. Faço uma trança nos meus, longos e retos, e pergunto sobre cinema. Ela afirma gostar de assistir filmes, mas detesta ir ao cinema. Eu sempre gostei. Acho que sempre vou gostar. É como se ela fosse quase diametralmente diferente de mim, e eu não vejo como seríamos capazes de nos entender. "Olha, eu sempre fui de resolver minhas diferenças na base do álcool." Ela sorri. Pensara na mesma coisa. A chamo pra tomar um vinho barato num boteco vagabundo qualquer, e de novo ela ri descaradamente dos meus gostos. Diz que só vai se for em algum barzinho que tenha boa comida e cerveja decente e bem gelada, de preferência perto de alguma dessas insuportáveis baladinhas que ela gosta de frequentar. Desisto de argumentar com essa mulher. Acho que nem quero ser amiga dela. Viro as costas e volto pro meu lugar no passado dela, quietinha. Éramos melhores amigas; agora ela não precisa mais de mim. Meu tempo já era.

Fecho a tampa da caixa de fotos, retoco a maquiagem no espelho e saio, Tiësto gritando bem alto nos meus fones de ouvido, rumo ao bar onde meus amigos me esperam com a tal da cerveja gelada. Lá no fundo de mim mesma, chego a ouvir a eu dos natais passados resmungando alguma coisa como "gente, como eu decaí". Ignoro e vou viver.

23.8.10

T

É a lembrança das muitas manhãs ociosas
Das raras tardes de palavras soltas ao vento
Das noites de estudos deixados de lado
Da malícia inocente.

É a percepção do tanto de você que ficou em mim
Que hoje é parte de mim e eu não consigo mais me livrar.
O carinho que azedou; virou arrependimento,
Depois mágoa, depois rancor, e hoje, só saudade.

É acima de tudo o desejo de que o tempo, sempre sábio,
Cauterize as feridas abertas
Alivie o peso em nossos ombros
E permita que tudo volte atrás.

Pois seja Renascença ou Barroco,
Pós-modernismo, Romantismo ou Surrealismo:
Nesse conto de mil lados
Ainda faltam muitas páginas pra acabar.

20.8.10

Em Busca da Terra do Nunca

Quando eu me joguei desse patamar da última vez, me esborrachei no chão sem medo nenhum da dor. Mas ela veio, ah, se veio, e durou tanto tempo que eu achei que ia morrer. Ao mesmo tempo, durou pouco, muito pouco, se comparada às dores diferentes que experimentei desde então.

Quando se é novo, tudo é muito intenso. Tudo parece que vai durar a vida toda, mesmo que seja questão de segundos até que sejamos capazes de nos por em pé de novo sozinhos. Quando se é novo, também somos mais resilientes. Acho que o mais próximo que chegamos de ser super-homens é na adolescência, quando pode cair o mundo na nossa cabeça mas ah, sempre vamos nos recuperar.

Quando crescemos, tudo muda. Uma pessoa uma vez me disse que fazer 18 anos não mudava porra nenhuma nas nossas vidas, exceto a quantidade de cobranças que recebíamos. Era muito mais uma questão de "você tem que fazer" do que "você pode fazer". A maturidade não estava na esquina nos esperando, mas as cobranças que deveriam vir com ela, sim. Acho que isso calou tão fundo no meu subconsciente de adolescente perdida que até hoje essa realidade se mesclou com a minha.

Quando eu cresci... ah, mas isso é balela. Eu não cresci. Só aprendi a conviver com as cobranças, dando um jeitinho gaiato aqui e ali. E assim vivo, nesse afã adolescente de querer crer que posso moldar a realidade a meu redor. Sei que sou capaz de ser tudo o que eu quiser ser - criar forças pra de fato sê-lo é que às vezes é difícil.

Mas acho que tem uma mentira aí no meio. Alguma coisa mudou sim. Eu ainda me jogo de alturas inimagináveis sem pensar duas vezes, só pelo prazer de me testar, sem medo da queda. Eu ainda faço coisas dignas de alguém com, sei lá, metade da minha idade. Eu ainda tenho essa esperança tola, adolescente, de que tudo vai dar certo no final.

Mas agora, eu demoro bem mais pra me recuperar. E é aí que está a merda toda de ser adulta.

13.8.10

Painkiller days

Os dias em que ela não vem são os melhores. Sinto meu espírito mais leve, minha mente mais limpa. Eu consigo ficar entediada comigo mesma em paz. Eu não consigo fazer essas coisas quando ela está por aqui. Ela toma todo o meu tempo, e eu só consigo sofrer as consequências. Eu só penso nela, o tempo todo, quando ela está por perto. Ela não me deixa fazer mais nada.

Já me acostumei com a presença dela, mas sei que isso não é saudável. Sei que ela não me faz bem. Pior: sei perfeitamente bem que o fato de ela estar tão perto de mim o tempo todo é um sinal nítido de que tem algo de muito errado comigo. Mas não dá. Não consigo afastá-la de mim por tempo o suficiente para que eu aprenda a viver sem ela.

Já disse diversas vezes: vá embora! Suma da minha vida! Me deixe em paz! Você dói demais em mim! Mas não adianta. Ela insiste, ela me ama, ela não me deixa só um instante sequer.

Maldita dor de cabeça que já dura umas duas semanas. Alguém tem um analgésico?

Trial and error - a poem

I was feeling too alone for my own sake.

You said you missed me
And I started to dream again

Just a nostalgic spell
That's all you mean to me
And I keep telling myself it's more than that.

I feel sometimes
Like I need to be in love to feel alive
And you've became my escape route
Because you got so close to me.

I desire your body
I miss your touch upon my skin
And I know in my bones
We're gonna be together for a while
And be gone.

Because as much as I love you
I'm sure as hell it'll never be
As much as you love me
I know it isn't enough to keep us together
'Cause distance is a bitch
And we both are nothing but whores

Do you believe you could be mine and mine alone?
I don't think so.
Do you think I could be faithful to you?
We know it just won't happen.
It doesn't matter how many times I whisper in your ear
I love you so much it hurts
As soon as I come back, I'd still fuck someone else

As soon as I turn my back
You'll be sleeping in someone else's bed
And that's precisely what I love so much about you
The fact that you are even worthless than I am
We'd be great together
But none of us is crazy enough to step forward to it
Because we know it'd be too advanced for the world
So happy together, so far away, so in love, so many people in between.

I show my skin to you
You show me how you feel
You're the only one I feel so comfortable about
You have always been the only one
And yet it's fated to be a platonic thing
We hook up and fuck around
And it's perfect and we feel safe
And then I go away and you get sad
And the next day you're with someone else, and so am I.

Someday, we'll get married
And have kids
And live happily ever after
It sounds delightfully like a fairy tale
Only we will never marry each other
I'm never having your babies
You'll never be the one I'm celebrating anniversaries with
We'll always be just like we are
A sweet memory of an adventure we had
And you'll say, "We were young and reckless and didn't know what we were doing"

Despite all that
There's one thing I can't deny
I've always loved you
We are too perfect to each other to make this work
And you will always be the best sex I've ever had
And I'm too damn sorry
That the circumstances weren't different
We could have been together forever
Only forever doesn't exist.
So, keep this memory safe
Because, as long as you keep it
We'll always be together.

6.8.10

Última viagem - parte 2

Querem beber o que hoje? Ah, eu escolho? Vamos de vodka, então. Vodka é bebida de russo comunista malvado. Vamos ser russos comunistas malvados. Vamos, deixem de preguiça, movam suas bundas secas e acomodadas e vamos no mercado. Ah, ninguém quer ir? Dá o dinheiro que eu vou sozinha então. Tá frio, porra.

- Eu vou com você. Não posso deixar uma dama andar sozinha por aí a essa hora.

Olhei nos olhos dele e ele deu um sorriso. Pra todo mundo, aquilo deve ter parecido a finalização amistosa de uma piada cavalheiresca. A mim, me pareceu sentir uma pontada de malícia em seus olhos. Ontem à noite, no terraço... Aquilo não foi um sonho. Ainda que parecesse bom demais pra ser verdade.

Coletamos o dinheiro da vaquinha etílica e saímos para a fria noite de inverno curitibana, acendendo nossos cigarros tão logo chegamos à calçada. Não era a primeira vez que nosso vício em comum nos colocava a sós, mas era a primeira vez que nós dois estávamos abertamente satisfeitos com isso. Nos demos as mãos e fomos caminhando em direção ao mercado mais próximo, sem medo de sermos vistos.



A ideia de que estávamos fazendo algo de muito errado passou de leve na minha cabeça enquanto eu procurava uma posição mais confortável para me apoiar no poço de pedra. Seus braços me enlaçavam a cintura, nossos corpos moviam-se juntos e o pensamento foi embora junto com a brisa da noite. Nem nos ocorreu o perigo de dois jovens recém-adultos serem presos por fazer esse tipo de coisa em um terreno baldio, até que ouvimos a sirene de um carro de polícia passando perto. Arrumamos nossas roupas amassadas e corremos para o mercado. Comecei a me perguntar se notariam a nossa demora.



Duas horas depois, entramos no apartamento com uma garrafa de vodka e toda a cara de quem tem culpa no cartório possível. Senti no meu sangue que de hoje esse namoro não passava. E ainda haveria a pausa pro cigarro de mais tarde... Comecei a tremer por antecipação.

19.7.10

A última viagem

Desculpas esfarrapadas. Nada mais. Eu sabia que o irritaria, mas fui mesmo assim, porque a necessidade era mais forte. Fumar. Depois de tanto álcool, eu precisava desesperadamente de uma dose de nicotina direto nos pulmões. Um foi comigo, teoricamente por compartilhar o vício, e dois que não fumavam, teoricamente pra conversar. Claro que não era nada disso.

Nosso suposto vício falou mais alto, e os dois fumantes passivos foram embora, enquanto fumávamos nossos últimos cigarros. Que não existiam. Abrimos minha carteira, abrimos a carteira dele e o vazio nos olhava. Bêbados, rimos e nos abraçamos. Tudo o que não devíamos fazer.

Fora da proteção das escadas, a chuva e o vento congelavam, mas o encontro de nossas peles já nuas parecia queimar. Era a prévia do inferno para onde seríamos enviados por isso. Já não importava. Mandei um belo foda-se, porque minha alma já estava perdida na primeira vez em que nossas mãos se tocaram. E eu queria muito mais do que segurar sua mão. Eu o queria em todo o meu corpo. E meu desejo foi atendido.

Horas mais tarde, me enfiei debaixo das cobertas junto a meu noivo, numa esperança vã de manter dentro de mim o calor do encontro proibido. O frio da culpa tentava me dominar, mas já era tarde. Eu sabia que a única coisa errada que eu estava fazendo era me enganar.

Ele tentou me beijar. Recusei, dizendo que estava com gosto de cigarro na boca. Mas também, você fumou uma carteira inteira lá em cima! Foram três horas! Grunhi qualquer coisa em resposta e virei pro lado, fingindo não vê-lo ali. Eu mal podia esperar pelo rendez-vous do dia seguinte.

15.5.10

Pós-Cognição

Deitei na cama ansiando pelo abraço do mais promíscuo de meus amantes noturnos, mas ele relutava em me envolver. Disse-me que havia muito que conversarmos, e que a conversa seria difícil. Insisti, implorei, me revirei na cama amarrotando os lençóis, e, depois de muita luta, ele me aceitou, e, mais que me dizer, me mostrou. Eis aí o que vi.

O amor é um negócio complicado. A gente quer estar junto, se desespera, sofre, e no final... tudo é vazio, tudo é solidão. Almoçamos juntas porque eu insisti, mas eu não esperava pelo terceiro elemento na equação. E aí veio o choque. A raiva. A frustração. Me senti enganada e, sim, traída. Mais que como amante, como amiga. E o chá. Gelado que era, foi no colo. Se estivesse quente, teria sido contra o rosto, sem pudores ou arrependimentos.

Acordei arrependida de ter aceitado o abraço de Morfeu. Mandei uma mensagem, buscando um conforto, uma negação, mas só obtive uma certeza. Morfeu nunca me traiu.

15.4.10

Corretivo

Ela abriu os braços e se jogou do alto da ponte gigantesca que eram seus medos. Chegando lá embaixo, viu que ainda estava viva e se arrependeu das tantas vezes que morrera de coração aberto por ter medo de sofrer ao enfrentar o que a angustiava.

Olhou os cacos do vidro do espelho no chão sujo e descobriu duas coisas importantíssimas: que o espelho estava embaçado demais por suas lágrimas para que pudesse realmente se enxergar, e que seu sangue era tão vermelho quanto o de qualquer um.

Recolheu as páginas rasgadas dos cadernos e viu que não adiantara nada. Rasgara as folhas, quebrara os espelhos, saltara e se espatifara, mas seu passado ainda estava ali, a espreitar, a lembrá-la de que uma simples lufada de coragem nunca seria suficiente para apagar seus erros. Nada nunca seria suficiente para apagar seus erros, porque eles já foram cometidos e, o que ela estava pensando, coragem não é liquid paper, porra.

Olhou para o céu em busca de um Deus que sempre tentaram convencer-lhe de que existia, mas ele não lhe deu respostas nem soluções. O que não tem remédio, remediado está.

Inspirou fundo, pegou um caco de vidro e se matou.

Enquanto sentia sua vida indo embora, se deu conta de que a lembrança dos seus erros ia se esvaindo pouco a pouco e sorriu, feliz.

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